O velho sem nome
O velho não tem nome. É a primeira impressão que me chega aos olhos: ele é velho. Não são os seus cabelos brancos que me fazem pensar em sua velhice, mas o jeito que caminha e que sobe as escadas carregando caixas. Depois de colocá-las sobre o chão, apoia suas mãos sobre os quadris, num gesto típico e já estereotipado de dor ou desconforto. Eu o chamaria de jovem se assim fosse? Eu poderia começar dessa maneira: o jovem não tem nome. É a primeira impressão que me chega aos olhos: ele é jovem. Não são os seus cabelos ainda castanhos que me fazem pensar em sua juventude, mas o jeito que caminha e que sobe as escadas carregando caixas. Depois de colocá-las sobre o chão, apoia suas mãos sobre os quadris, certamente pensando na próxima remessa de caixas a carregar. Como seria se fosse um cachorro? O cachorro não tem nome. É a primeira impressão que me chega aos olhos: ele é um cachorro. Não são os seus pelos marrons que me fazem pensar em sua cachorrice, mas o jeito que caminha e que sobe as escadas carregando caixas. Depois de colocá-las sobre o chão, apoia suas patas sobre os quadris, pensando no agrado que poderá receber.
Não são apenas os cabelos que diferenciam o velho, o jovem e o cão, obviamente. Há velhos de cabelos pretos e jovens de cabelos brancos. Há cães sem pelos, velhos sem cabelos, jovens de perucas. A primeira constatação que salta aos olhos, velho, é seguida da ausência do nome: o velho não tem nome. O velho é genérico, a ausência do nome é impessoal. O velho sem nome é figura distante, ele apenas carrega caixas enquanto sobe escadas. Há tanta coisa nessa constatação que eu chego a querer arrancar todas as palavras. Estou apenas fantasiando sobre a figura de uma pessoa idosa subindo as escadas, estou apenas me perguntando o motivo da aparente tentativa de colorir aquela ação e não consegui proceder com o exercício de inventar uma dezena de possibilidades para o seu cotidiano. Eu nem sequer cheguei a traçar um motivo de tantas caixas. O que ele estaria fazendo? Qual o conteúdo daquelas caixas? Seriam flores? Mudas de palmeiras? Pedras? Polvos? Latas de querosene? Um cento de salgadinhos de camarão e de frango com requeijão cremoso? Para onde poderia ir depois? Eu o vi agora mesmo carregando alguma coisa que se assemelhava a um cacho de bananas. Bem colado ao peito, o cacho parecia verde, mas eu não tenho certeza da existência da fruta.
O velho não tem nome. O jovem não tem nome. O cachorro não tem nome. Os três sobem as escadas. Eles caminham lado a lado enquanto o cachorro lambe os tornozelos dos dois seres humanos. Os pelos do cachorro chacoalham pelo ar, são brilhantes, sedosos, ondulados, enquanto os cabelos do jovem são compridos, lustrosos, cheios de tranças. Os cabelos do velho parecem escapar do couro cabeludo e, a depender da luz do sol, assemelham-se aos fios de náilon, estes sempre lustrosos, brilhantes, firmes e flexíveis. Os três descarregam caixas e apoiam seus braços, mãos e patas sobre os quadris. O cachorro adota uma postura estranha ao fazê-lo. Os três acenam pra mim, eu aceno de volta, e continuam caminhando, descendo e subindo as escadas. Eu leio em voz alta o que acabei de escrever, eles apenas escutam atentos, enquanto descarregam, descem e sobem as escadas. Eu termino a leitura, o cachorro late uma ou duas vezes e me diz seu nome. Bob, ele diz. Nome previsível para um cão, eu digo. É apelido para Abelardo Robinson Crusoé, ele diz. Quem é fã do livro?, pergunto. Esse de cabelos poucos, responde. Ele vai embora, depois de aparentar sede e cansaço. Os outros dois continuam no meu campo de visão, agora empilhando as caixas num canto da casa. O velho sem nome aperta as mãos do jovem sem nome, entrega uma cédula de vinte reais e abre o portão. O jovem sem nome vai embora enquanto o velho sem nome senta numa cadeira próxima à porta da casa. O cão agora com nome retorna com a boca toda molhada de água. Bob!, o velho chama, e o cão chega bem perto, lambendo novamente os tornozelos. Ei, Bob!, eu chamo, por que você costuma lamber os tornozelos dos outros? Não enche, Abelardo Robinson Crusoé responde. O que foi, Bob?, diz o velho sem nome. E Bob apenas balança o rabo. Qual é, Bob, o que eu fiz de errado?, eu pergunto. Bob apenas ri, uma gargalhada canina que chega a ser atrapalhada. Bob é cheio de graça. Abelardo Robinson volta pra dentro depois do velho sem nome balbuciar alguma coisa.
De longe, o velho sem nome acena pra mim, dá meia volta e entra. Minutos depois, o jovem sem nome toca a campainha aqui de casa. Abro a porta e ele me oferece a cédula de vinte reais. Toma, era o que eu estava lhe devendo, ele diz. Faço força pra lembrar da dívida, eu não consigo. Qual é a dívida? Tampouco ele sabe. Apenas diz, toma, eu preciso ir. Ele vai. Guardo a cédula numa gaveta do quarto. As cédulas de vinte já estão se acumulando.
















