Fazia um belo dia, nĂŁo aqueles belos dias para se passear em um parque com o cachorro, ou para sair com aquela pessoa que vocĂȘ jura amor eterno, mas aquele belo dia para simplesmente para nĂŁo fazer nada, que por sinal era o que eu estava fazendo. Em meio aos meus pensamentos ainda conseguia ouvir o som da chuva lĂĄ fora e ver as gotas escorrendo na janela, eu disse que fazia um belo dia, mas nĂŁo que esse belo dia era um belo dia ensolarado. Olhei para a parede e vi nossa Ășnica foto, aquela que vocĂȘ se recusou tanto a tirar, e que mesmo contrariado e meio bravo ainda conseguiu sorrir. Eu ainda nĂŁo sabia de nada. O seu sorriso ainda era o mesmo, o seu olhar ainda me passava aquele ar de mistĂ©rio. Mal sabia eu que por trĂĄs daquele olhar existia realmente algo para ser desvendado. Aquele tinha sido nosso Ășltimo passeio antes da reforma do pequeno bosque, que mais pra frente viria a se tornar um parque empresarial, com uns 15 prĂ©dios. Aquele sim era um belo dia ensolarado, nĂŁo tinham nuvens no cĂ©u, ele estava azul, mas nĂŁo um azul qualquer, era um azul celeste, um azul cĂ©u, mais cĂ©u do que o normal. VocĂȘ estava com aquela camiseta cinza que eu odiava, e com uma bermuda salmĂŁo que nem de longe estava passada, mas isso nĂŁo importava porque eu estava com vocĂȘ. Em meio as nossa conversas idiotas vocĂȘ me contou que nĂŁo poderĂamos mais ter nada, e que o problema nĂŁo era eu, que nĂŁo era falta de amor, ou algo que eu tinha feito, que o problema era vocĂȘ, e coisas externas que estavam te influenciando. Eu ainda nĂŁo sabia de nada. Naquele momento eu quis chorar, mas como sou teimosa, atĂ© para as lagrimas eu disse nĂŁo aquela hora. SĂł aquela hora, porque agora, aqui, olhando para nossa foto, lembrando daquele dia e das coisas que aconteceram depois, nĂŁo consigo imaginar como pude ser tĂŁo egoĂsta. Mais tarde naquele dia sua mĂŁe me ligou e pediu para que eu nĂŁo voltasse a te ver, porque seria melhor para mim, confesso que nĂŁo entendi, sua mĂŁe sempre gostou de mim, eu era como uma filha pra ela e agora ela tambĂ©m nĂŁo queria ter mais contato comigo. Se eu jĂĄ soubesse, teria sido muito menos doloroso. Discuti com ela por telefone e aos berros ela me disse a verdade. Juro que nĂŁo entendi o porque de quererem me afastar de vocĂȘ, mas acatei, afinal o amor tudo suporta. Passaram-se dias e surpreendentemente meu telefone tocou. Era sua mĂŁe, me convidando para te ver. Agora eu sabia de tudo. Coloquei aquele vestido preto que vocĂȘ me deu no nosso primeiro mĂȘs de namoro, e aquele seu blaiser que vocĂȘ tinha esquecido em casa da ultima vez. Se nĂŁo fosse pelas circunstĂąncias fazia um belo dia, estava nublado, caĂa uma garoa fina, iguais aquelas que vocĂȘ costumava reclamar sobre armar o seu cabelo. Desci do carro, em frente a sua casa encontrei sua mĂŁe na entrada, ela estava recebendo as pessoas e condicionando todas para a sala da lareira. Ao chegar lĂĄ vi vocĂȘ, com aquele terno que eu tinha te dado no nosso segundo mĂȘs de namoro, seus olhos agora estavam indecifrĂĄveis, eu nĂŁo conseguia mais te enxergar atravĂ©s deles. Olhei pra vocĂȘ e percebi que se fosse pra continuar ao seu lado atĂ© aquele momento eu continuaria. AtĂ© depois do fim, era o nosso lema. O fim chegou, e eu nĂŁo estava com vocĂȘ atĂ© depois dele. VocĂȘ agora estava lĂĄ, sem aquele sorriso que eu adorava, com o cabelo penteado para trĂĄs de uma forma que vocĂȘ nunca usaria, os seus olhos nunca mais veriam aquela garoa chata, e aquele sol por entre nuvens carregadas. Ainda fazia um belo dia lĂĄ fora, mas a Ășnica coisa que eu queria naquele momento era sair dali e voltar para casa, olhar para nossa foto e lembrar do ultimo momento feliz que tivemos antes de vocĂȘ me deixar sozinha nesse mundo que nĂŁo faz mais sentido sem vocĂȘ.