âNĂŁo importa o que fizeram de mim, o que importa Ă© o que eu faço com o que fizeram de mim.â
Ouvi essa frase menos de trĂȘs meses atrĂĄs, sentada pela primeira vez na poltrona do consultĂłrio do meu psicĂłlogo. NĂŁo foi um dia fĂĄcil e eu nĂŁo levei nem 5 minutos pra começar a chorar na frente daquele homem que eu havia acabado de conhecer.
Foi quando comecei a contar minha histĂłria.
Eu cresci em um lar extremamente religioso, onde todas as vontades e atitudes vinham com a questĂŁo: âDeus se agradaria disso?â.
Meus pais sempre foram pessoas boas, embora as coisas nem sempre tenham sido fåceis pra nós. Meu pai, que não permitia que minha mãe trabalhasse, sustentava a casa com o esforço de seu trabalho e minha mãe, sempre muito dedicada, cuidava de mim e de minha irmã, fora o serviço da casa e, claro, meu pai.
Foram vårios os fatores que levaram meus pais a se separar. Alem das brigas constantes, o estresse de uma mudança repentina de estado e a falta de vontade de continuar vinda de um dos lados, desgastou o casamento deles até que viesse ao fim, quando eu tinha 10 anos. Me lembro até hoje de chegar em casa e ver que meu pai tinha ido embora sem nem se despedir. Eu chorei por dias achando que ele não gostava mais de mim, um pensamento que me acompanhou ao longo de anos até que eu pudesse entender o que levou meu pai a fazer tal coisa. A partir desse dia, meu maior medo era ser abandonada.
Um ano depois descobrimos que ele tinha outra famĂlia: uma mulher 11 anos mais nova que minha mĂŁe e uma filha de meses, o que nĂŁo incomodou minha mente de criança, que sempre quis ser irmĂŁ mais velha.
Foi sĂł no ano seguinte que minha vida passou pela maior reviravolta de todas.
Eu tinha 12 anos quando me madrasta me contou detalhadamente como conheceu meu pai e como ele traiu minha mãe com ela. Na hora eu não me toquei da monstruosidade daquele ato, tudo o que eu sabia era que não podia contar a minha mãe, que jå sofria de depressão desde a separação, então guardei aquilo comigo. Só aos 15 anos tive coragem de contar.
Minha mãe não se surpreendeu, é claro, mas eu havia entrado em um caminho sem volta. Foi naquela época em que eu descobri autoagressão. Eu me machucava em uma tentativa desesperada de aliviar aquilo que sentia tão intensamente dentro de mim. E foi também com 15 anos que minha mãe descobriu que eu fazia isso e levou a um médico, com quem comecei meu tratamento de depressão.
O que mais me entristecia era o fato de que eu tinha um pai, mas ele estava ocupado demais sendo pai de outra pessoa pra me dar atenção e carinho que uma filha espera de um pai. Passei por momentos de muita frustração, muitos dias dos pais tentando em vão ligar pra ele, muitas noites chorando até dormir.
Foi essa carĂȘncia que fez com que eu me apegasse ao homem com quem minha mĂŁe se casou anos depois. Ele sempre disse que queria suprir a falta que meu pai me fazia, por isso confiei que tudo o que ele queria era ser meu pai. Eu realmente acreditava que ele me via com olhos inocentes e continuei acreditando, mesmo quando ele passava a mĂŁo no meu corpo me dizendo que aquilo era tudo carinho de pai. Eu me sentia incomodada, mas tinha medo de dizer alguma coisa e ele entender que eu era uma pessoa maldosa e que o via como homem, entĂŁo o que fiz foi me afastar com o tempo. E o fiz de forma que mal podia olhar pra ele sem sentir desprezo ao me tocar do que ele realmente fazia comigo. E foi assim atĂ© que eles se separaram um ano depois, quando eu finalmente pude respirar.
Mais uma vez se passaram anos até que eu tivesse coragem de contar pra minha mãe. Tinha medo de que ela achasse que eu havia causado aquilo, que eu havia provocado. Na minha própria mente eu me questionava se realmente não tinha sido culpa minha, coisa que só depois de muito anos, jå na poltrona do meu psicólogo e dias atrås, deitada na cama da minha mãe eu percebi que não.
Mas por que eu decidi vir atĂ© aqui contar minha histĂłria? Muito simples. Minha histĂłria pode ser sĂł mais uma historia triste pra uns e pra outros pode nem ser triste. Talvez seja tambĂ©m a histĂłria mais desinteressante que vocĂȘ jĂĄ leu na vida, mas Ă© minha. NĂŁo importa o que aconteceu, o que as pessoas fizeram de mim ou o que tentaram fazer comigo. A minha histĂłria ninguĂ©m pode tirar de mim.
Se vocĂȘ leu atĂ© o final, eu agradeço, mas tambĂ©m quero te dizer uma coisa.
Quando vocĂȘ se vĂȘ incapaz de contar sua histĂłria por causa de algo que fizeram a vocĂȘ ou algum evento triste, significa que vocĂȘ permitiu que sua mente se tornasse escrava dessa pessoa ou desse evento. A partir do momento em que vocĂȘ decide se libertar, nĂŁo importa o que aconteceu ou o que fizeram de vocĂȘ e sim o que vocĂȘ fez com o que restou. E, apesar de tudo o que aconteceu, vocĂȘ sobreviveu.
 Se sentir vontade de compartilhar sua história ou precisar conversar com alguém, fique a vontade pra desabafar comigo!