O NOME QUE ELA NÃO DISSE
Já fazem cinco anos que a busco. Já informei a polícia, procurei em hospitais, fiz apelos na internet, mas ninguém nunca a encontrou. Sua última mensagem foi combinando os detalhes do nosso jantar. Em seu apartamento, estava tudo revirado, mas a mesinha de centro estava impecável, e em cima dela havia um livro e uma carta. O livro era marrom; no centro, bordada, havia uma árvore. Não podia abri-lo, pois estava trancado com um cadeado. Já a carta era uma folha amassada e mofada, escrita em letras disformes e nervosas, num vermelho quase preto, que dizia:
“Querida Mariana, você é a última de nossa linhagem, pois já estou partindo. Lhe dou esse livro e essa chave, faça o que bem entender, mas saiba que, para o seu bem, não leia esse livro por completo, pois ele foi a ruína de nosso legado. Do seu querido velho, Vladimir Archebal.”
Aquela carta me deixou preocupado, não só pelo que estava escrito, mas porque, abaixo da assinatura do avô dela, havia um carimbo: YESOD.
Quando nos conhecemos, na calourada da faculdade, Mariana nunca havia falado de nenhum familiar. Não havia notícia dos pais dela, e eu também nunca perguntei. Ela sempre foi reservada, além de ter gostos exóticos, dos quais eu nunca discordei nem me importei — a única coisa que me fascinava nela eram seus olhos azuis misteriosos e aquele cabelo longo e escuro. Mas, recordando agora o corpo dela, lembro que em suas costas havia uma tatuagem com a mesma árvore da capa do livro. Ou seria na barriga?
Ela me disse o que aquilo significava, mas eu nunca dei muita importância — eram umas coisas do passado, ela dizia. Certa vez vi cera vermelha na pia da cozinha; ela me explicou que tinha esquecido umas velas acesas. Eu sabia que ela tinha uns fetiches estranhos, mas aquela obstinação pela queima da cera começou a parecer mais que isso. E, mesmo assim, eu gostava. Do olhar dela. Do jeito que ela rangia os dentes. Dos cabelos dela presos entre meus dedos. De certa forma, eu sentia saudade; de certa forma, eu havia me viciado no corpo dela, e sua falta era o meu martírio.
Parei de recordar. Por alguns minutos, aquela lembrança de Mariana havia parecido real, mas era apenas uma ilusão. Em sã consciência, voltei à realidade, segurando a carta do avô dela. Peguei o celular e pesquisei pelo nome de Vladimir Archebal. Descobri que ele havia sido um historiador de renome nacional, mas que um incidente o levara à reclusão numa fazenda afastada de tudo. Soube também que seu nome era referenciado em obras sobre saberes ocultos e rituais de magia; seus antigos alunos o chamavam de “mestre dos desejos”, pois, segundo eles, Vladimir era capaz de dobrar o mundo até que ele se curvasse à sua verdade.
Em meio a tudo isso, a fazenda de Vladimir Archebal era a única pista que eu poderia seguir. Peguei o livro, a carta, uma foto de Mariana, e me preparei para visitar a fazenda do avô dela. Mas uma força indescritível travou minhas pernas. Olhando para a porta aberta do apartamento, havia uma silhueta escura me encarando. Não conseguia vê-la, mas sabia que era ela.
— Amor, me perdoa. Mari, eu senti sua falta, mas era necessário. Seu avô me enganou. Disse que eu poderia ter minha mãe de volta, disse que eu podia conseguir a fortuna que ela deixou pra gente...
Um silêncio frio ecoou pelo apartamento enquanto meu corpo não respondia. A silhueta se aproximava.
— Você sabe quem seu avô foi. Ele foi o melhor, o maior. Mas ele não queria me iniciar, dizia que minhas razões me consumiriam. Por favor, me perdoa. Eu nunca quis fazer isso, mas aquele velho me obrigou. Se ele não queria me dar minha mãe, eu tinha que acabar com ele...
Então aquele imenso abismo se abriu diante de mim, e de novo apaguei. Quando acordei, meu corpo estava livre. Estava voando. Senti o vento bater nos meus olhos, e isso foi tudo o que senti antes de tocar o solo.
Notícia urgente: o foragido João Vitor Ruberval, filho da falecida socialite Ana Rebouças Ruberval, se jogou de um apartamento na área nobre de Fortaleza. Vizinhos relataram choros e gritos seguidos de um forte quebrar de vidros. Nomes como Vladimir, Mariana e palavras desconexas foram ditos por João antes do trágico desfecho. O apartamento onde João estava pertencia à sua ex-namorada, Mariana Archebal, que ele havia assassinado há cinco anos, junto de seu avô, o dono da Fazenda Árvore da Vida, o mestre Vladimir Archebal, num incêndio criminoso provocado na propriedade. A polícia ainda busca as motivações que levaram João Vitor a provocar aquele incêndio, mas testemunhas relataram que, no dia do ocorrido, ele carregava um livro misterioso. A única coisa em comum entre os dois casos eram as letras YESOD, escritas com o próprio sangue de João.











