A Carta
Ei… Eu não sei se você vai ler isso da forma que eu escrevo. Eu sei que você prefere que eu não mande mais nada e que siga minha vida… mas eu precisava colocar aqui o que o silêncio não deixa minha mente descansar. Às vezes eu me pego pensando…
Será que existe um universo em que você ficou? Eu me pergunto isso toda vez que o silêncio pesa demais. Porque, se esse lugar existe, eu sei que lá você não esconde o que sente, não se esconde de mim e não finge que esqueceu algo que a própria alma ainda chama pelo nome.
Às vezes, quando fecho os olhos, eu ainda vejo você me olhando de canto e sorrindo, como naquele dia em que caminhávamos na rua para doar sangue. Aquele sorriso que você tentava disfarçar, mas que entregava tudo o que seu coração tentava negar.
E isso… isso me desmonta.
Eu também me pego lembrando do seu abraço. Antes da despedida. O jeito como seu corpo encaixava no meu como se o universo tivesse moldado você para caber ali, exatamente ali. Aquele segundo a mais… aquele silêncio que queimava mais que qualquer palavra. Eu senti. E você também. Você sabe que sentiu. E como a gente sentiu, não é?
Talvez, nesse outro universo, eu não precise escrever tanto para suportar o que ficou. Talvez eu não precise transformar dor em poesia, nem ausência em metáfora. Talvez lá você me entenda só de olhar como aconteceu naquele último abraço, aquele em que o silêncio dizia “fica”, mesmo enquanto a boca dizia que era melhor ir. Talvez lá seja simples. Aqui nunca foi. Nunca mesmo.
Aqui o tempo nos separa, as escolhas machucam, e a vida exige que a gente finja que não sente, mesmo quando o peito implora por uma trégua.
Somos duas almas tentando sobreviver ao que a vida decidiu arrancar. Somos um laço que não rompe, uma marca que não apaga, um destino que insiste em lembrar que existe mesmo quando tentamos ignorar.
E dói. Dói tanto que às vezes eu me perco. Me perco do rumo, me perco de mim. Dói saber que precisamos seguir por caminhos diferentes quando tudo dentro de mim grita que era você quem eu queria caminhando ao lado.
Por enquanto, resta aceitar. Aceitar o que não faz sentido. Aceitar o que destrói. Aceitar que o amor que mais queimou é justamente o que não pode viver.
Ainda assim… aqui a gente carrega mundos que não podem ser misturados, famílias que não merecem ser feridas, vidas que se construíram em rotas paralelas. E dói. Dói porque eu sei o que sinto. E sei o que você sente. E mesmo assim, precisamos seguir separados.
Eu queria te dizer que eu esqueci. Ou que quero esquecer. Mas você me conhece. E eu não sou você. Eu não sei mentir,😐 nem esconder o que o peito grita e chama.
Então deixo só isso:
Se um dia o destino cansar de brincar… e o tempo resolver alinhar o que ele mesmo separou… talvez só talvez a gente exista inteiro.
Até lá, eu respeito o que a vida pede. Mas dentro de mim, você sabe:
Somos nós. Sempre fomos. Mesmo quando não podemos ser.














