Só existe em brasileiro
Ouvi alguém me chamando. Uma voz familiar, uma voz amorosa. Ninguém mais ouviu. Olhei para um lado, olhei para o outro. Nada, nem ninguém. Um vulto disforme ao longe, fugindo. Subi e desci a rua. Não tem nada, não tem ninguém, mas ainda assim... Ouvi alguém me chamando.
Fiquei longos minutos encarando uma folha em branco, o tempo nessas horas se comporta como se estivesse na presença do horizonte de eventos. Talvez esteja.
Na escola, ainda na segunda série, uma professora muito querida me ensinou a como escrever cartas, ela falou que primeiro devo colocar o meu nome, a minha cidade, fazer um cumprimento breve e aí posso dar início ao texto. Eu só fiz uma carta dos 8 aos 14 anos e ela foi para a própria professora que me respondeu. Essa carta está guardada em alguma gaveta que não é aberta há mais de 5 anos em uma casa que eu não visito pelo mesmo período.
Você deve estar rindo de mim agora. Como vou começar a escrever uma carta para uma pessoa que não tem endereço, que eu não posso nem perguntar se está bem, que eu não sei se pode segurar esses objetos terrenos?
Acho que essa carta não é para você, Natt, é para mim. Eu estou no mesmo endereço, mas estou de mudança, não estou bem, mas estou mudando.
Andei para lá e para cá antes de colocar a caneta no papel. Coloquei a sua playlist para tocar e comecei a escrever.
Nada é bom o bastante, nenhuma gracinha é aceitável. Por que você não pode ler os meus pensamentos?
Fecho os olhos e respiro fundo e ao expirar começa a tocar “Very Noise” da banda Igorrr. Isso me tira uma risada contida. Até hoje eu acho incrível como você gostou dessa barulheira. Eu mostrei a banda só para mais uma pessoa desde então e ela também, como um raio que cai duas vezes no mesmo lugar, gostou. Eu escolho com cuidado quem pode acessar esse gosto específico e considero muita sorte acertar nas duas vezes em que isso aconteceu. Acho que vocês iam se dar bem.
Tem dias que eu consigo esquecer um pouco de você. E eu falo isso com um misto de alívio e culpa, mas sem receio. Você sabe como eu me sinto. O alívio é de conseguir sentir outras sensações, a culpa é de ter me afastado de você. Aliás, a culpa foi o que mais me acompanhou desde quando eu recebi a notícia da sua partida. Me culpei por não estar do seu lado e por não ter me esforçado mais. Muita terapia me fez mudar a perspectiva, a culpa aparece e eu a vejo no portão, só que agora eu não a deixo entrar.
Hoje o que me motiva mais a te escrever é achar uma forma de expurgar a saudade, não por completo, não para sempre, mas quem sabe, mandar para você um pouco de amor. Eu tenho pensado muito na saudade ultimamente como esse amor que perdura. E, especialmente hoje, vou me permitir sentir tudo.
Para equilibrar um pouco o que disse sobre esquecer, aqui vão alguns momentos que eu lembrei de você. De vez em quando Circa Survive toca no meu aleatório, não lembro de como comecei a ouvir essa banda, acho que foi indicação sua e ela sempre foi a nossa banda. Parabéns por conseguir o feito de ser a primeira pessoa que driblou a minha chatice musical. Eles lançaram um álbum em 2022 e eu não tive coragem de ouvir. Deve estar ótimo, mas desde dezembro de 2021 eu parei de ouvir a banda como antes, é difícil prestar atenção nos elementos auditivos quando passa tanta coisa na minha cabeça.
Também lembro de você quando estou diante de uma situação complicada. Ficou mais difícil navegar pela vida sem os seus conselhos, sem poder usar do nosso senso de humor para rir de tudo que tem de errado no mundo. E hoje em dia tem tanta coisa. Eu espero ter conseguido te ajudar pelo menos 10% do que você me ajudou. Nós tivemos uma boa parceria.
Tem hora que eu fico imaginando como seriam as coisas se a gente tivesse se conhecido em outro contexto em outro momento da vida, se estivéssemos entediados em um trem pela Europa, desceríamos em Viena? Você me chamaria de Jesse e eu te chamaria de Céline?
Acho que sim, gosto de pensar que a nossa conexão aconteceu por um motivo e que aconteceria em outros contextos também, em outras realidades.
Em um universo que contém dentro de si todas as realidades, eu acredito que em cada uma delas um Rafa sempre pode contar com uma Natt e uma Natt sempre pode contar com um Rafa.
Eu sinto que esse texto está se encaminhando para o final e eu começo a me distrair, mexo no celular, olho pela janela. Estou tentando me convencer de que isso não é uma despedida de você, mas sim do texto que eu demorei tanto para escrever.
Tem alguns momentos que eu quero que alguma religião esteja certa e que exista vida após a morte, só para eu poder te encontrar outra vez e te abraçar como fizemos na última vez que nos vimos.
Antes de despedir do papel eu só queria dizer, o que eu deveria ter dito antes, eu te amo. Fiquei com muito medo de dizer isso e agora não posso mais, não pessoalmente, não olhando para você. Obrigado por tudo e principalmente por me ensinar que eu tenho que falar essas 3 palavras para mais pessoas antes que seja tarde demais.
Essa saudade é um azar, mas só porque eu tive a sorte de te conhecer.














