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Fonte: @l-a-s-c-i-v-i-a
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I've come here with no expectations, only to profess, now that I am at liberty to do so, that my heart is, and always will be , yours.
–Sense of Sensebility
Poetic words from Sophia Joan
Scenes from a Marriage 1974 Ingmar Bergman
Pensei em criar um diário.
Bem... Acho que "PRECISO criar um diário" talvez seja a melhor forma de colocar esse sentimento. É, de fato, uma necessidade falar agora. Se com palavras ou não, é preciso ser ouvido. Enxergado.
Até lido.
Mas como criar algo assim num mundo onde ninguém mais lê na internet? Tudo ficou muito rápido. Ninguém vai se interessar pelo que eu tenho a dizer. Ninguém tem tempo pra te perguntar “como você está?” e de fato querer ouvir uma resposta maior que uma imagem. Do que um meme, um emoji. Do que 140 caracteres.
Como não ter pressa na geração mais rápida do mundo, a geração que sofre declaradamente de depressão, usa a ansiedade como se fosse uma medalha enquanto se obriga a ter a vida inteira muito bem resolvida pra ontem. E ai daquele que não tiver! Ai de quem tem nas oito horas de sono o momento mais reconfortante do dia, onde tem a chance de fugir e fingir que as dores não existem. Ora para que não violem seu santuário e os persiga durante o sono.
Como é ser alguém que ama falar, adora, em um mundo onde ninguém mais tem tempo? Tudo é tão mais efêmero e é uma pena porque finalmente temos tempo para aproveitar nossa liberdade que não tínhamos antes, nossas maiores escolhas que não tínhamos antes. Porque quando finalmente temos mais tempo pra tentar amar, a gente não ama? Como é que se sentem bem ser ter ninguém para realmente amar (começando por si próprio)?
A gente é sozinho. Ninguém mais fala “oi, tira uma foto minha?” se não houver algo de muito importante pra mostrar além de si, porque não somos mais. Se não for a sua melhor versão, na sua melhor roupa em uma grande festa ou em um grande evento, não há razão para se admirar. Morreu o apreço pelo próprio retrato, pelo ordinário, pelo cada passo que não esteja regado e afogado pelo sucesso, pela produtividade, pelo puro desprazer de viver disfarçado por um vicio em sempre ser melhor aos olhos do mundo.
Como não me sinto um completo desproposito fugindo às pressas desse monstro, essa besta de me chamarem de fracasso e questionarem meu futuro? Foi pra isso que eu nasci, afinal? Para desprezar um momento feliz por si só? Como se a glória de Deus que falam que nasci pra mostrar fosse apagada pelas ausências que nos exigem, mas o Amor jamais exigiu. Nossa aparente felicidade é só uma vitrine para outros que estão jogando o mesmo jogo que ninguém fala em voz alta, nossa imagem não passa de um status, nossa alegria é refém de extremos, a boa vontade condicionou-se ao direito, nossa cordialidade é arbitrada pelo "não sou obrigado".
A vida virou estranha do simples. Viramos escravos das nossas palavras. Escravos do literal. Viciados em distrações. Nos recusamos a ser quem somos. Não sabemos mais reconhecer o outro. Abandonamos o próximo. Nossa tecnologia tornou mais fácil a comunicação, mas tornou raras as conexões. "Mas não sois máquinas. Homens é que sois". Estamos cada vez mais próximos, mas mais desconexos, ou é uma sensação só minha?
Esse é um bom momento para encerrar esse ciclo antes mesmo que ele acabe. Porque talvez a necessidade de me autoafirmar, que todo mundo tem nessa vida, tenha passado um pouco. Sei que não passou, mas precisa passar. Não parou de doer, mas nunca vai parar. Só a paz que não vem de mim, mas está aqui dentro, me fará descansar.
Por isso o otimismo. Mais que otimismo: a decisão. Abandonar qualquer motivação que nasça do ódio, da raiva. Da expectativa (a minha e a dos outros). Até onde a vida deixar. Até onde eu me permitir sentir e fazer as pazes comigo mesmo e com o roteiro que não está todo sob o controle das minhas escolhas. Melhor um simples jardim do que uma ruína espantosa.
A mais pura injeção de emoção antes que tudo me envolva com paz, com leveza. A adrenalina antes de tirar a roupa pra mergulhar num mar gelado e deixar a preocupação na areia. Simplesmente estar aqui e agora. Vivo, sentindo isso, sem me preocupar com a penitência dos outros e os erros que eu conto quem me faz sofrer. Como se respirassem vida na minha garganta e meus pulmões se enchessem, sem que ninguém precisasse mais me ver.
Não precisa ser épico. Ninguém aplaude. Ninguém sabe. Não preciso me reafirmar, porque ninguém questiona. Não preciso provar nada, porque o Amor já provou e me aprovou. Se palavras são bolsos onde colocamos significados nela, essa é a minha quinquagésima versão de que é o amor. Essa é a minha milésima forma de falar sobre ele. De falar sobre mim.

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