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lupexlmendiola·:
O corpo bronzeado estava quente não apenas pela temperatura elevada daquele lado do país, mas pela maneira que o sangue começava a borbulhar em resposta aos sentimentos fortes que reviravam seu interior. Como ele tinha coragem de segui-la até lá? E mais! Como se atrevia a sequestrar o seu sobrinho daquela maneira? Podia ver o mesmo olhar sensual e confiante de sempre, ainda que tivesse ficado com o equatoriano tempo suficiente para reconhecer a sua linguagem corporal e perceber que, no mínimo, havia algum nervosismo tensionando seus músculos. A forma que ele erguia o canto dos lábios naquele sorrisinho safado e presunçoso era um dos motivos de seu rosto começar a queimar de raiva, enquanto flashbacks de toda a situação vivida com o outro ainda em Chicago lhe vinha à cabeça. Não que tivesse saído da memória de modo geral, claro, já que dificilmente passava muito tempo sem pensar em Laredo ou no fim do relacionamento com ele. O cenho estava franzido enquanto encarava a figura tantos centímetros maior que ela, a expressão certamente fazendo um bom trabalho em transparecer toda a mistura de coisas que sentia. Mas quando ele abriu a boca, a simples palavra dita com o tom tão tranquilo conseguiu lhe deixar incrédula. Aquilo era tão… ugh, tão Mateo. Mal pôde aproveitar o pico daquela sensação irritada quando a forma que o moreno passou a encarar sua figura instigou outra coisa nela, o que a desestabilizou. Desviou o olhar por um momento, percebendo que precisaria daquilo se quisesse tentar realinhar os pensamentos e lidar da melhor forma com a presença tão ridiculamente inesperada.
Precisaria conversar com Ángel depois, embora pudesse compreender os motivos do garotinho sair em companhia do já familiar rosto. No fim, ele seguia o conceito de não sair com estranhos - já que outrora Guadalupe fizera muito esforço para que Mateo se aproximasse de seu núcleo familiar. Quando voltou a encara-lo, ergueu o queixo na tentativa de que aquilo disfarçasse um pouco a instabilidade de sua mente. A proposta do mais velho foi aceita com ânimo pela criança que correu na direção das diversas opções de sabor do doce gelado, deixando os dois ali ainda em pé na frente um do outro. Lupe tinha dois grandes desejos: bater em seu rosto com toda a força do pequeno corpo, e beija-lo com toda a energia deste mesmo. Claro que, bem, ambas as coisas teriam a mesma resposta. “Na próxima vez, chamarei a polícia” Foi o que disse, de início, em um óbvio blefe. Guadalupe não prejudicaria Mateo, especialmente porque ainda sim não temia pela segurança de seu sobrinho com o rapaz. Uma confiança errônea? Provavelmente - mas se a Mendiola fosse boa em reconhecer perigos, não teria se envolvido com ele para início de conversa. “Você não pode…” Percebendo que o tom elevado e o fato de ainda estar em pé chamava atenção, a mulher cedeu e ajustou o vestido no corpo antes de se sentar à mesa logo em frente a ele. “Você não pode simplesmente buscar o Ángel na escola assim sem avisar, eu achei que ele tinha sido sequestrado!” Dessa vez, a voz era mais um sussurro forte. Não que ela pensasse que o homem precisasse ouvir aquelas palavras; Mateo sabia o que era certo e o que era errado. Mas era muito mais fácil focar naquele assunto pertinente que questionar o que raios ele fazia ali, ou ainda, concentrar-se no quanto de fato havia sentido falta do perfume característico que lhe atingia mesmo há alguns bons centímetros de distância. Apertou as mãos em punho não tanto pela raiva, mas porque ambas pareciam exageradamente tentadas à toca-lo naquele momento. “Não foi você que disse que vir para Los Angeles era uma péssima decisão? Por que exatamente resolveu cometer o mesmo erro?” Oh, sim, estava ainda mais ressentida do que havia percebido. “Deixa eu adivinhar: veio resolver algum assunto do qual você não pode falar sobre“ Já que faze-lo confiar nela o suficiente para detalhar coisas sobre ele era impossível.
pouco tempo havia se passado desde que havia a visto pela última vez, deitando seus olhos sob a imagem etérea da garota dos longos cabelos negros, podendo sentir seu coração ardente aprisionado ao peito há alguns centímetros de si em oposição às fotografias álgidas amaldiçoadas pelo destino de todas as coisas. não sabia ao certo quanto tempo havia se passado, talvez dois ou três meses, a última vez fora quando descobrira subitamente que guadalupe se mudaria para o outro lado do país em questão de semanas, não havendo nada a se fazer, ou ao menos nada que mateo tivera coragem de fazer. sequer havia ido se despedir no aeroporto, tamanha a tristeza que o acometia dia e noite, engolindo o sentimento melancólico tal como estava acostumado a fazer: às sombras, acompanhado somente daquilo que pudesse amortecer a dor que ele mesmo recusava-se a admitir – era covarde demais até sozinho. vê-la após certo tempo, então, gerava uma dupla sensação tanto de estranhamento como de familiaridade, isso porque ela parecia essencialmente a mesma: os cabelos mantinham-se em um comprimento relativamente similar, a pele ainda carregava o brilho bronzeados dos raios solares e a maneira como apoiava o peso do corpo sob os tornozelos também, jogando os quadris para os lados. ainda assim, muito embora fosse a mesma guadalupe, ao menos por fora, vê-la mesmo que após algumas semanas o enchia de uma sensação extasiante que pouquíssimas vezes havia sentido. era como se a imagem mental de que tinha da outra houvesse sido sabotada pela própria consciência – é claro que se lembrava de como lupita se parecia, oras, os registros fotográficos do passado não o deixavam esquecer, mas sempre que a imaginava em seus sonhos alguns detalhes pareciam se perder, sucumbindo às armadilhas do tempo e da memória. guadalupe era tão vibrante, observá-la durante alguns segundos fora como redescobrir o brilho das estrelas após uma tempestade, onde há tanto a se ver que os olhos não parecem dar conta de toda a imensidão. visivelmente irritada, mateo examinava cuidadosamente as linhas de expressão que se desenhavam por todo o rosto com certo deslumbre em total silêncio, o que certamente servia apenas para provocá-la ainda mais. “por deus, como senti falta disso” – a voz interna exclamava em um suspiro apaixonado, mas que apesar disso mantinha-se contido.
— dê ao garoto um pouco mais de crédito, ele é mais inteligente do que isso, você sabe. — a voz carregava o tom obscuro e enigmático de sempre, o que chegava a ser um pouco perturbador, como se carregasse a sabedoria de todas as coisas e a indiferença da autoridade. sequer se passava pela cabeça do mais velho de que o que fizera era tão ruim assim, mateo operava de maneira própria e pouco pensava nas consequências imediatas de que suas escolhas poderiam ter; o ônus de uma vida ritmada pela imprevisibilidade das coisas. além do mais jamais faria nada que colocasse o pequenino em perigo e isso era algo que guadalupe também sabia, embora suas suspeitas e o sentimento de perigo pudessem comprometer seu julgamento temporariamente. — é só sorvete, nena. — o apelido carinhoso acompanhou o restante da frase instintivamente, como se nunca houvesse deixado de chamá-la assim. a despreocupação com que justificava suas atitudes não pareciam corresponder às expectativas da mendíola, que o encarava com o queixo erguido e os olhos perfurantes, ainda que ele não desse muita atenção para sua reação, a qual julgava por demasiado desproporcional. — você quer também? tangerina, não é? — não importava o quão claro ficasse o descontentamento da outra para com a situação, mateo parecia empurrar o diálogo como se conversassem sobre latas de molho de tomate nos corredores do supermercado, assumindo uma displicência que beirava a psicopatia. — sequestrado? — o homem controlou a risada que vinha logo em seguida, procurando não piorar a situação em que havia se metido. — no, no... é mais fácil isso acontecer quando ele vai sozinho naquela mercearia no quarteirão seguinte ao de vocês, o que tem as tendas azuis e tudo mais. — disse, gesticulando com as mãos. — aliás toda aquela região é um pouco esquisita, não acha não? eu andei dando umas voltas e vi pelo menos duas ou três bocas de fumo. sem contar aquele vizinho da casa ao lado. — chacoalhou os ombros, como se não falasse sobre a tocaia que havia feito na rua de guadalupe há duas noites atrás. — quem achou aquilo pra vocês? vince? — o nome do desgraçado saiu como uma maldição de seus lábios, imediatamente revirando os olhos diante da lembrança do sujeito. com a velocidade que mateo mudava entre um assunto e outro poderia imaginar-se que estivesse falando com o espelho, mas não.
as próximas duas sentenças que partiram da garota vinham carregadas de munição, o que ele provavelmente merecia àquele ponto. o dedo polegar e indicador massagearam o dorso do nariz, com a cabeça do rapaz vacilando para baixo e para cima em uma risada compassada, porém abafada o suficiente para que ninguém além de guadalupe pudesse ouvir. “Deixa eu adivinhar: veio resolver algum assunto do qual você não pode falar sobre“ – guadalupe estava irritantemente certa, para variar. para alguém que pouco aceitava ser contrariado e pior, desafiado, mateo subestimava demais sua relação com a garota, que jamais hesitava em fazê-lo ciente daquilo que se passava em sua cabeça, sem importar o quão doloroso pudesse ser. — algo como esto. — as falanges distais passeavam por seus lábios, com o homem beliscando o dedo com os dentes diante da realização da outra, “traiçoeira”, pensou. — nós podemos falar sobre nós, que tal? — o caminho parecia ser o melhor a tomar, não apenas porque restituía seu controle sob os rumos da conversa, mas porque colocava lupita em uma posição que frequentemente o trazia um estranho prazer. — o que você vai fazer hoje à noite? se importa de mostrar a cidade pra um forasteiro? — a postura recaiu sob o encosto do assento, com mateo analisando-a por completo há alguns centímetros de distância com os mesmos olhos de sempre.
lupexlmendiola:
Ótimo. Estava tudo ótimo! O sol brilhava, as palmeiras se moviam de um jeito animador pelas ruas, as faces semelhantes às suas lhe cumprimentavam a cada esquina do bairro acolhedor e Vincent ainda não havia surtado naquele dia por algo completamente aleatório. Inclusive, parecia bastante distraído nos últimos dias, algo relacionado à matéria sobre lares adotivos, o sistema de adoção e o Serviço Social local. Era bonito de ver quando Rousseau se empenhava tanto em algo, os olhos brilhando em determinação enquanto o “não” parecia deixar de existir no dicionário. Ao mesmo tempo, ele também sabe ser bastante cansativo e trabalhar para o rapaz exigia bastante da garota. A folga naquele dia, portanto, era mais do que merecida. A mãe tinha insistido que iria buscar Ángel para que a Mendiola mais nova pudesse aproveitar o dia livre em casa, mas fazia tanto tempo desde a última vez que buscara o sobrinho na escola que seria muito mais um passeio que uma responsabilidade. Era bom também o vestido florido e razoavelmente solto, e a forma que lhe deixava mais confortável em comparação aos vestidos ou saias justas que usava no escritório. A pele estava quente mesmo que o sol do fim de tarde estivesse pouco brilhante, e os vinte minutos de caminhada terminaram quando chegou no portão de entrada da escola. Com um sorriso no rosto, pediu que anunciassem o nome do sobrinho para que o levasse para casa; quando a notícia lhe deixou totalmente confusa e sem reação. ‘Senhorita Mendiola, já buscaram seu sobrinho’ A professora explicou, aos poucos igualmente confusa, percebendo o erro da instituição. Quis ligar para seus pais, mas sabia que seria ilógico que eles fossem uma opção, e tampouco havia sido María — que estava trabalhando naquele dia. ‘Ele disse ser parente, e Ángel pareceu reconhecê-lo. Estava tão animado’ A mulher ainda tentou se explicar, mas o coração de Guadalupe batia rápido demais para absorver. O que podia ter acontecido? Vincent? Não! Ángel odiava o pobre homem. Maria não apresentava nenhum namorado novo há semanas, Benjamin jamais faria algo do tipo sem avisar. Céus! Os olhos lacrimejavam apenas por pensar no que podia ter se passado. Após constatar que faziam poucos minutos desde que o homem misterioso havia ido embora, Guadalupe decidiu percorrer as quadras próximas antes que o homem pudesse ir longe demais. Se não encontrasse, voltaria e pediria uma descrição mais detalhada de quem tivera a coragem de algo do tipo. Os pés pequenos corriam firmes no chão com a ajuda do tênis, enquanto olhava os arredores em uma busca desesperada. Foram duas quadras dali que ela viu uma criança que lhe remetia ao garotinho, entrando em um carro escuro. Arregalou os olhos, parando de correr ao tentar anotar a placa e digitar o número da polícia. “Oi!” A voz estava tremida ao responder a do outro lado da linha, enquanto movia o corpo como que para aliviar o nervosismo. Foi apenas ao girar a figura que percebeu-se em pé de frente a uma sorveteria. O vidro permitia que visse os clientes, e dentro da loja, ninguém menos do que Ángel com um enorme sundae em sua frente. Lupe desligou o celular; o garoto no carro não era o sobrinho - seu sobrinho estava ali, na sua frente. Ótimo! Estava tudo ótimo! Entrou no estabelecimento abrindo a porta com força suficiente para chamar atenção de alguns clientes, aproximando-se da mesa do garoto. E foi só ali, parada ao lado do garoto, que notou a figura esguia e alta que se aproximava com um sorvete de tons pastéis em mãos que contrastava com sua imagem de roupas escuras e tatuagens assustadoras (e maldosamente sensuais). ‘Tita! O Teo voltou’ A criança anunciou, então, erguendo as mãos em uma comemoração que seria adorável se não preocupante. O coração antes acelerado pareceu parar, enquanto a garganta travava. Só podia estar dormindo, claro — aquilo pareci mesmo um dos pesadelos que lhe assombravam algumas noites ocasionalmente. Porque não havia qualquer explicação para Laredo estar ali, em Los Angeles, sequestrando o seu sobrinho para tomar a maior taça de sundae do sul da Califórnia.
Merda. Estava tudo uma merda!
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conforme o sol cumpria seu destino em direção ao horizonte, lentamente desaparecendo na imensidão bem como as últimas horas do dia, o véu dos cosmos era tingido por uma cor quente como a estação, colorindo as sombras com o tom queimado e alaranjado. as pupilas do homem devoravam os últimos fragmentos de luz antes do anoitecer completo, admirando a paisagem antes que esta fosse consumida pela escuridão passageira da noite, agarrando-se a sensação gerada pelo calor da grande estrela com enorme melancolia, saboreando enquanto podia as cores que o lembravam de todas as coisas vivas do dia. desde os últimos acontecimentos as noites pareciam se tornar mais e mais solitárias, algo que mateo nunca achou ser possível para alguém que, como ele, havia caminhado à sombra do diabo desde sempre – talvez aquele fosse, enfim, o preço a se pagar pelas escolhas que havia feito por toda a vida, sendo perpetuamente amaldiçoado pela escuridão que ajudou a criar. assim, ao mudar-se para los angeles, em uma tentativa desesperadora de brigar pelo próprio espírito ao mesmo tempo que buscava por alguma redenção do que havia deixado em chicago, parecia buscar nas horas do dia um refúgio da própria solidão e dos fantasmas que carregava junto a si.
do lado de dentro do carro, estacionado há alguns metros de distância do portão principal da escola frequentada pelo membro mais novo da família dos mendíola, o homem aguardava em silêncio pela saída do garoto enquanto observava a movimentação da rua pelos retrovisores. os ponteiros do relógio marcavam os últimos minutos antes das seis da tarde quando o alarme estridente anunciou a saída das crianças, que rapidamente espalharam-se pela calçada da frente até que restasse a calmaria, permitindo que o rapaz se aproximasse. os olhos compenetrados identificaram o menino, que quando o notou saltitou em sua direção com a mochila nas costas, abrindo um sorriso que permitiu mateo identificar a ausência de um dos dentes de leite, arrancando-lhe uma risada. — a fada do dente passou por aqui? — perguntou ao pequenino enquanto segurava seu queixo com uma das mãos. — o que acha de tomarmos um sorvete pra comemorar, hein? — a energia efervescente de ángel prontamente aceitou o convite, com o pirralho agarrando as alças da mochila com uma das mãos e o arrastando em direção a sorveteria mais próxima com todas as forças de seu pequeno corpo.
no caminho conversaram sobre os eventos mais recentes, com mateo se beneficiando da língua tagarelante e ingênua da criança para completar os buracos de informação que tinha. não havia sido difícil descobrir onde guadalupe e a família haviam se instalado na metrópole, muito menos familiarizar-se com a rotina de cada um dos membros e o que os mantinham ocupados ao longo do dia. a distância mateo acompanhava a movimentação dos mendíola não apenas por curiosidade, mas porque de alguma forma sentia-se responsável pela segurança de todos, especialmente de lupita – não confiava na aproximação dela com vince e quando soube que estaria se realocando para o outro lado do país ao mesmo tempo que o homem, sabia que tinha de manter-se mais atento do que nunca. enquanto as coisas não se estabeleciam no novo endereço, laredo ocupava grande parte de sua atenção em certificar-se onde a outra estava, bem como as companhias e atividades, frequentemente seguindo-a de uma distância segura para que não notasse sua presença. ainda assim não era como se tivesse escutas instaladas pela casa dos mendíola, o que certamente o impedia de ter acesso aos detalhes, papel que ángel espontaneamente pareceu mais do que grato em suprir.
já no estabelecimento, teo perguntou a ángel o que gostaria de pedir e instruiu ao menino que permanecesse sentado em uma das mesas até que ele retornasse. enquanto ainda fazia o pedido junto ao balcão, mateo pensava em como devolveria a criança após o encontro, sabido de que dentro de alguns minutos algum dos membros da família apareceria na recepção da escola para buscá-lo e sua ausência poderia gerar mais problemas do que estava realmente disposto a lidar. para além disso precisava ter certeza de que o moleque não abriria o bico para ninguém, especialmente para guadalupe, já que tinha planos de continuar sua aproximação silenciosa em busca de mais informações – “uma nota de cinquenta dólares deve servir”, pensava, conforme elaborava a melhor forma de comprar o silêncio do outro. com as taças de sorvete em mãos, mateo retornou à mesa onde estavam apenas para encontra-lo de pé, sendo confrontado pela jovem dos cabelos negros que o encarava com a expressão estarrecida. ainda distante o homem encheu os pulmões de ar, contraindo o abdômen em uma sensação que se assemelhava à um nervosismo, vendo-a pela primeira vez de perto após alguns meses, desde que havia partido de chicago. — voltei. — as íris castanhas do latino passearam por cada linha do rosto da garota, admirando-a sem qualquer pudor, como estava acostumado a fazer desde sempre. — quer se juntar a nós? — a cadência de mateo acompanhava a tranquilidade de que estava habituado, como se não estivesse do outro lado do país tomando sorvete de pistache com uma criança de seis anos de que havia acabado de abduzir na saída da escola. um silêncio instaurou-se no ar ao que os dois mantinham-se calados, encarando um ao outro com curiosidade e desejo. — o que você acha de ir lá escolher o seu, amigão? eu e sua tia te esperamos aqui, pode ser? — uma felicidade contagiante acendeu nos olhos de ángel, que pulou em folia até a grande vitrine colorida, deixando guadalupe sozinha em sua companhia.
guadalupe-lmendiola:
As emoções reviravam o estômago da jovem Guadalupe, os toques a arrepiavam e o desejo parecia algo tangível, vívido, serpenteando ao redor de ambos os corpos que se entrelaçavam incansavelmente. Ah, aquele sabor. Questionou-se sobre ele desde a primeira vez que o olhar curioso e interessado recaíra sobre Mateo ainda na lanchonete. Pensou, por um breve instante, em como sua vida parecia ter mudado significativamente desde então. Desde exatamente a primeira vez que falara com Laredo, quando ainda não sabia o que esperar e interpretara todas as suas intenções de maneira errônea. Teria dado risada com a lembrança da inicial discussão vazia de ambos no primeiro dia se não estivesse com os lábios ocupados demais naquele momento, dançando no mesmo ritmo dos dele uma coreografia que esperavam para fazer há já algum tempo. Iria mesmo fazer aquilo, chegou a pensar, sem muita clareza. A mente nebulosa pela quantidade exasperante de emoções experimentadas em pouco tempo, como se recuperasse da embriaguez do momento aos poucos. Ela o queria, daquilo não tinha dúvida. Ele a queria, e agora, com as palavras falsas da sua irmã mais nova, pensava que o fazia na mesma intensidade que si. Se ao menos soubesse melhor, não estaria tão ansiosa para que ele retirasse enfim o maldito vestido que recebera um olhar de desprezo da matriarca Gil Blanco, para que pudesse senti-lo sem qualquer incômodo barreira entre as peles.
Os passos foram inevitáveis enquanto Mateo a guiava, mas manteve os olhos ainda fechados, concentrada naquele intenso e quente beijo que partilhavam, confiando nele suficiente para não precisar verificar onde estavam indo. Não muitos segundos se fizeram necessários para que ela sentisse contra as costas o piso gélido do mármore, interrompendo seus movimentos, um ruído de surpresa escapando conforme ela era erguida pelas fortes mãos grosseiras agora em sua cintura. O vestido era justo e curto, somente o movimento de abrir suas pernas para melhor acomodar o homem perto de si já era o suficiente para que o tecido erguesse até a altura do quadril. As mãos pequenas femininas lhe alcançaram o tronco, o puxando para mais perto, enquanto voltavam a partilhar da carícia intensa, mas afastou-as para que ele retirasse a camiseta. Quando findaram o toque necessitado outra vez, ela estava ofegante, os olhos escuros pelo desejo recaíram sobre o torso forte diante de si. Lupe havia se “relacionado” com outros caras, se é que aquilo podia ser utilizado como termo correto, e não se lembrava de em qualquer outro momento a imagem de alguém lhe despertar tanto tesão. Céus, tudo em Mateo mexia consigo. Sua aparência, seus beijos, o jeito misterioso e intenso, a voz rouca. Sentia que devia ganhar um prêmio por resistir a ele desde o primeiro dia, embora muito provavelmente o homem tinha uma visão muito contrária daquele fato. O pensamento a fez sorrir levemente, tão logo mordendo o próprio lábio para controlar aquele sorriso divertido pintado com muita malícia.
Mas mais do que qualquer outra coisa que fizera, e provavelmente interpretando de maneira errada, aquela hesitação dele a deixou tranquila. Sim, ele não faria nada que ela não quisesse. As emoções permaneciam fortes e ainda misturavam um pouco do que havia lhe acontecido mais cedo no restaurante. Sentia-se cansada de pensar mil vezes antes de agir, já que mesmo o fazendo continuava se encontrando em situações como aquela. Desse modo, por que não simplesmente fazer o que quisesse? Na realidade, parte da sua vontade naquela noite era provar à odiosa Olivia que ela não tinha nenhum dizer sobre o que Guadalupe queria ou fazia - não a conhecia, e provavelmente não o faria tão cedo. Talvez não fosse inteiramente a melhor motivação para sua primeira vez, mas não importou mais quando, encarando Mateo no fundo dos olhos, levou as mãos ao tecido que ainda cobria parte do próprio corpo e o ergueu, deixando o tecido escuro cair no chão, como se deixasse bem claro que à partir dali ele poderia fazer o que bem entendesse. Para alguém que sempre repensava suas decisões, insegura de si mesma e das consequências, era a primeira vez que se sentia tão certa de alguma decisão. Ergueu ambas as pernas para deixá-las ao lado da cintura de Mateo, e o puxou para si com elas, entrelaçando-as atrás de seu corpo, como se o prendesse ali bem perto. — ¿Que hacemos ahora, Teo? — Sussurrou, em provocação, a primeira língua brincando com seus ouvidos, a mão direita pousando no pescoço do homem, parcialmente apoiada na clavícula, acariciando o local com a ponta do polegar.
Embora os lábios suaves e gentis da garota se impusessem aos seus, massageando-os de maneira tão prazerosa, imprimindo o sabor frutado do brilho labial cor-de-rosa que embelezava o contorno cheio e volumoso da boca da jovem, porém, mais nada que faziam poderia ser classificado de tal forma – a força e a intensidade à qual os dois corpos se enroscavam um ao outro em uma troca de energia quase que desesperadora, como se o mundo fosse acabar e não o poderia antes que os dois jovens sentissem o gosto de cada centímetro do parceiro. As peles queimadas de sol agora imprimiam marcas avermelhadas resultado dos toques ardentes das mãos por todo o corpo, na verdade, tudo agora assemelhava-se ao fogo: não só os vestígios deixados na pele como prova do desejo malicioso que os dominava, mas os lábios, levemente inchados pela fricção enérgica que regia o ritmo ao qual os dois se beijavam, e todo o restante parecia arder em razão da luxúria que os dominava por dentro e por isso transbordava para fora, incapaz de ser contida nem mesmo pelas forças mais poderosas. Por onde as digitais de Guadalupe encostavam era como se uma faísca se acendesse contra a pele do equatoriano, um choque que percorria toda a corrente sanguínea até finalmente encontrar o coração que pulsava sob o controle da adrenalina entorpecente e inebriante, espalhando-se por todo o restante do corpo esguio do Gil Blanco, que exultava em prazer e pedia cada vez por mais.
Diante do par de coxas grossas da outra, encaixado perfeitamente ao meio como se o quadril dos dois fossem feitos sob medida um para o outro, o rapaz não pode deixar de notar a renda alva que se contrastava ao tom de pele queimado daquela que o vestia – as mãos se enfiaram por debaixo do vestido de tecido acetinado empurrando-o ainda mais para cima até que a ponta de seus dedos pudesse enfim tocar a peça íntima que ajudava a esculpir a figura escultural de Lupita. Não pode, se não, conter o som exasperado que se prendia ao peito, um gemido que lhe escapou os lábios vibrantes colados ao rosto da garota. As articulações das mãos se prenderam aos quadríceps da morena conforme ele à beijava e lhe beliscava os lábios, e com os olhos fechados deixou que apenas aqueles dois sentidos sensoriais o guiassem enquanto ele sentia o corpo de Lupe agarrado ao seu e o dele completamente entregue aos charmes da mesma.
Foi quando, ainda abraçado ao quadril da moça e recuperando-se do fôlego exaurido de instantes atrás, Laredo – sem descolar os olhos dos de Guadalupe – assistiu a jovem livrar-se do vestido que ainda cobria a parte superior do corpo e arremessa-lo em direção ao chão. Em questão de poucos segundos a jovem garçonete se encontrava à sua frente coberta apenas por duas peças de roupa de cor branca e pelos cabelos negros e volumosos derramados sobre a pele quente, os olhos castanhos eram tão quentes quanto o restante do corpo e dessa vez continham um brilho até então desconhecido pelo latino; mesmo já tendo observado aqueles olhos tantas outras vezes era como se especialmente naquele momento eram completos desconhecidos, a cor de âmbar que tremulava por entre as íris dos olhos de Lupita eram algo que Teo nunca vira antes em ninguém, nem mesmo nela. A respiração ofegante dos dois agora se harmonizava sobre o mesmo ritmo, pela primeira vez há tanto tempo os dois jovens estavam prestes a se tornar um. A pele macia e nua de Guadalupe deslizou contra à do equatoriano, prendendo-o definitivamente sob seu comando, ainda que a frase dita por ela na língua mãe de ambos desse espaço para que achasse estar à frente da situação.
Não restava mais nada em sua mente à não ser o desejo insaciável e inextinguível de possuir em toda a sua totalidade a existência da garota, finalmente. Com o corpo da outra encostada ao seu, Mateo sentia o tecido rendado do sutiã lhe arranhar a pele, o que o fez imediatamente a segurar com força a raiz do cabelo da morena para trás afim de aproximar os lábios ao decote farto, acariciando com os lábios os seios opulentes da mesma. Entre um toque e outro, o homem mal podia conter o entusiasmo que se traduzia por meio dos suspiros esbaforidos, sussurrando os mesmos no ouvido da acompanhante – nem mesmo as duas línguas que falava eram úteis para descrever em palavras a euforia que sentia naquele momento, a única linguagem que parecia dar conta da sensação que experimentava era a corporal, e essa realmente não parecia falhar.
Se aproveitando da posição em que estavam – com as pernas e braços de Lupe envoltos no tronco de Teo – o homem a ergueu da bancada de pedra, ajeitando-a em relação ao próprio corpo para que suas mãos não escapassem. Enquanto a mão esquerda segurava-se à cintura da garota, a outra servia como apoio para o pescoço também desta, permitindo assim que o peso dos dois corpos se mantivessem razoavelmente equilibrados há tempo de chegar até a suíte principal que se localizava há alguns metros quadrados de distância de onde estavam, mas não demorou muito para que Mateo tivesse de apoiar Lupita pelas paredes da enorme sala-de-estar para que pudesse enxergar para onde estavam indo sem deixar que o beijo ardente que dividiam se rompesse. Quando por fim alcançaram a grandiosa porta que lhes dava acesso a suíte, Laredo chutou-a com a ajuda de um dos pés, para então apoiar Lupe ao chão próxima à cama enquanto ele se sentava a beira desta, segurando-a pelas pernas e observando o rosto delicado da latina. Já descalço e com as calças brevemente abertas, Laredo trouxe para mais perto de si o corpo da garota, conduzindo o quadril acentuado desta para cima de si mesmo, deitando às costas a cama de modo que ela se sentasse por cima dele. Apenas as luzes externas ao apartamento iluminavam o cômodo escuro através das grandiosas janelas, fazendo com o que rosto da garçonete ficasse parcialmente iluminado por um feixe azulado que lhe revelava os traços da face. Ao passo que os beijos e as demais carícias se tornavam cada vez mais acentuadas, Teo ergueu-se um pouco da cama e puxou Guadalupe para mais perto de si, apertando com força seu pescoço e descendo o carinho para seu colo. — Lupita... — a rouquidão natural da voz parecia ainda mais expressiva em meio aos suspiros ofegantes. A mão direita segurou o queixo da mesma e o volume da voz abaixou ainda mais um tom. — Dá em mim, vai. — disse, permitindo que a voz escapasse por entre os dentes cerrados. — Anda. — disse, como em uma ordem, a soltando-a para que ela pudesse lhe desferir um tapa contra o rosto. Os olhos do Gil Blanco pareciam afogar-se em malícia, esperando ansioso pelo momento em que a jovem usaria de toda sua força para lhe marcar o rosto. — Hein. — instigou.
guadalupe-lmendiola:
Os olhos castanhos e brilhantes de Guadalupe observavam o local como quem adentrava um museu e deparava-se com peças de valores imensuráveis, surpreendendo-se com cada aspecto do local nostálgico que aparentava ser grandioso demais para parecer real. Claro que, naquele caso, todos os objetos do enorme apartamento eram mensuráveis (inclusive absolutamente fora de seu orçamento) e modernos demais, tampouco pareciam fora da realidade, apenas, claro, fora da sua. Ela entendia, ao menos enquanto observava tudo aquilo (embora não achasse servir de justificativa para a maneira que fora tratada) o medo de Olivia de que a moça estivesse com Mateo por puro interesse. Sim, ela ocasionalmente se esquecia de como ele tinha dinheiro, mesmo assim aquilo não o fazia menos rico. Ele continuava sendo, ainda que não agisse como, mais um garoto de família rica das famílias influentes de Chicago. E ainda sim, sentia como se a matriarca Gil Blanco de alguma maneira não acreditasse que o filho pudesse atrair uma atenção genuína que não fosse somente interligada à sua situação financeira. E aquilo, para a mais nova Mendiola, não fazia sentido. Mateo podia ser complicado, claro, um pouco impessoal e bastante confuso. Constantemente oferecia sinais que a confundiam, mas ele era bom. Ao menos era o que achava, o que acreditava. Era divertido, quando se permitia ser, e era interessante. De alguma maneira, sentia que jamais poderia explicar em sua totalidade o que tanto a atraia. Além dr tudo aquilo, era também bonito e absurdamente atraente, mas…parecia existir algo maior que a puxava em sua direção. Eles encaixavam, ela não sabia tão bem o porquê. Podia ser algo de sua cabeça, haviam grandes chances de ser apenas mais uma situação em que a romântica Guadalupe Mendiola encarava o mundo como um conto de fadas, mas era o que sentia.
Escutou quando a porta foi trancada logo atrás de si, os passos curtos ecoavam pelo salto alto contra o piso conforme ela entrava na casa, ainda dedicando sua atenção aos detalhes. A verdade era que ela não tinha lugar ali. Jamais Guadalupe se encontraria em um bairro residencial tão caro se não por errar o caminho de casa ou do trabalho. Por mais que Mateo gostasse de fingir, e Lupe gostasse de acreditar, eles não faziam parte da mesma realidade. Em qualquer outra situação, deparar-se com alguém tão fora de seus padrões assustaria e afastaria a moça, fazendo com que ela escolhesse evitá-lo. Instigaria em si um instinto de fuga, para livrar-se de uma vez antes de ter seu coração partido de al tuna forma. Mas não havia sido invado. A porta ainda estava perto, ela ainda podia acabar com tudo aquilo, mas não o fez. Ao invés da sensação incomoda e do gosto amargo que Olivia Gil Blanco deixara ao fim do jantar ter consequências esperadas como o findar de qualquer coisa que crescia entre eles, foi como combustível em uma pequena e tímida fogueira. Como um desafio, algo que despertara em Guadalupe a vontade de provar à Colombiana que estava errada sobre si. Mateo podia perder todo o dinheiro no dia seguinte e ela não ligaria. Gostaria de que houvesse uma maneira de provar aquilo para a mulher, mas já que não havia, tudo o que podia fazer era aproveitar a presença de Laredo ao máximo, sem pensar na palavras grosseiras da mais velha. Ainda sentia raiva de si, de Olivia, da vida que insistia em deixá-la em situações embaraçosas. Mas a raiva aquecia e acelerava o coração, servindo como força para algumas decisões que há muito ela evitava fazer.
Não escutou quando ele justificou a (sequer existente) bagunça, apenas dedicou a ele atenção às palavras que deixavam a boca bem desenhada naquele tom gutural que tanto lhe agradava quando ele se aproximou, deixando impossível que passasse despercebido. O toque era bem vindo; gentil, tranquilo, carinhoso, até. Ela o encarou de volta, no fundo dos olhos escuros que dessa vez não denunciavam o uso de qualquer entorpecente. Suas mãos alcançaram os bíceps alheios, subindo devagar na direção dos ombros, pressionando levemente ali, sentindo os músculos do outro. A pergunta parecia assertiva, como se ele lesse seus pensamentos. O coração ainda estava acelerado, a raiva de instantes atrás transformando-se em algo novo, porém que igualmente aumentava o fluxo de sangue em seu corpo, fazendo com que o rosto permanecesse no mesmo tom rosado adquirido alguns minutos atrás após a humilhação experimentada.
Luxúria. Era aquele o nome do que experimentava naquele instante, da sensação que aos poucos substituía a raiva e incomodo sentidos instantes antes. Ela não queria ligar para o que as pessoas poderiam dizer daquele relacionamento, ou qualquer opinião que não exclusivamente dos dois. Não queria se sentir na necessidade de provar qualquer coisa a alguém que não fosse o próprio equatoriano, tudo o que queria era aproveitar o momento em que se encontrava a sos com ele. Por isso, em um momento inesperado e quase que inconsciente, respondeu ao questionamento sem pensar muito sobre. — Você pode me beijar. — Foi a resposta, em um sussurro, os olhos só então deixando os do outro para descer pelos traços marcantes do rosto latino, até os lábios que ela tanto apreciava. A raiva que sentia de Olivia já havia se transformado inteiramente em uma espécie de combustível para fazê-la finalmente deixar de lado os receios. Não esperou que ele respondesse a seu pedido. Podia estar nervosa, mas ela mesma colocou-se nas pontas dos pés para findar a distância entre os lábios, sem muita delicadeza. Assim que as bocas se encontraram, levou ambos os braços ao redor do pescoço de Mateo, o músculo quente adentrando sem o menor pudor o espaço do outro, entrelaçando-se com a língua do mais velho.
Em pé, no meio da espaçosa sala de estar, Mateo observava em silêncio a imagem de Guadalupe ainda próxima à porta, que não parecia ter arriscado mais de cinco passos para além da divisória que a separava do solitário corredor. O apartamento localizado no topo do arranha-céu não permitia que qualquer som invadisse as grandes janelas de vidro que emolduravam todo o perímetro, ao contrário, a única informação que perpassava os mais de trezentos metros quadrados eram as luzes esbranquiçadas de outras janelas vizinhas que adornavam a paisagem como pequenas estrelas reluzentes fixadas ao breu da noite – estavam completamente sozinhos. Aquilo era o que Laredo desejou por tanto tempo: finalmente conseguira ficar à sós com Lupita e nada parecia estar em seu caminho dessa vez, o desejo que até então só alimentava sua imaginação e o torturava em seus sonhos encontrava agora sua oportunidade perfeita, não havia mais nada e ninguém à não ser eles, nenhuma criança para abrir as portas ou mesmo uma série de hematomas.
Ainda imóvel, Lupita passeava os olhos por toda a extensão do cômodo como quem procurava por algo, passeando o belo par de íris castanhas por cada centímetro ali disponível. A verdade é que o espaço não se parecia exatamente como um lar ao contrário da casa da família Mendiola, o lugar era excepcionalmente impessoal até demais, e talvez isso fosse capaz de causar algum estranhamento naqueles que por ali passassem pela primeira vez, Deus sabe que Mateo levou algum tempo para acostumar-se com a sensação de viver em uma fotografia retirada de alguma revista de arquitetura moderna. O apartamento fora um “presente” dado ao primogênito pela mãe, mas longe de conter qualquer intenção sentimental e amorosa, a cobertura luxuosa foi a opção encontrada pelos contadores de Olivia para justificar o alto fluxo de caixa em decorrência do tráfico de órgãos sem chamar a atenção da Receita Federal, bem como tudo o que existe dentro dele – os quadros milionários e as esculturas japonesas avaliadas em milhões definitivamente não refletem o conhecimento de Laredo à cerca das artes, que se perguntado mal sabe pronunciar os nomes estrangeiros de seus autores.
Ao aproximar-se um tanto perigosamente da jovem, Mateo pode sentir o perfume adocicado que se disfarçava em meio às longas madeixas de cor escura de seu cabelo, o olfato fora invadido pela delicada fragrância agora já tão familiar a ele. Os dedos deslizaram pelo cabelo sedoso e brilhantes até desenhar seu caminho de volta para o contorno do rosto da jovem, repousando ali por um instante – o topo das maçãs do rosto de Lupita voltaram à cor rosada que as coloriam minutos atrás conforme o toque de Teo dedilhava a tez. A voz de Lupita não necessitava ser mais robusta e nem mais alta, estavam os dois tão próximos um do outro que era possível sentir as reações do corpo em resposta a produção de endorfina, a melodia sussurrada pela mais jovem agia de duas maneiras distintas, mas que se complementavam perfeitamente: ao mesmo tempo que leve e serena, convidando Mateo à beijá-la ternamente, e simultaneamente afiada como uma navalha capaz de cortar ao movimento mais sutil. Instintivamente, Mateo fez o que lhe fora dito, os lábios quentes se tocaram como se há muito tempo não o fizessem, buscando abrigo um ao outro desesperadamente, selando o encontro que queimava dentro de cada um. Os braços de Guadalupe encontraram o caminho para o pescoço do homem e o agarraram como nunca o fizera, debruçando-se sob o corpo do equatoriano afim de balancear seu peso na ponta dos pés e mantê-lo exatamente como queria: preso aos seus braços. A mão direita que antes apenas repousava delicadamente sobre o rosto da garota agora apertava-a nuca por detrás do cabelo, enroscando-o aos dedos com os punhos fechados enquanto a trazia para perto de si, a outra mão desceu até a altura de sua cintura e logo em seguida para o quadril, espalmando a mão nos glúteos da outra, como quem desejava arrancar-lhe as roupas.
Após algum tempo equilibrando-se junto ao peso de Guadalupe, Teo retornou as mãos para a nuca da garota e sem interromper o que estavam fazendo e mantendo-a presa a si, conduziu-a para a ilha de mármore da cozinha que ficam há alguns passos de onde estavam tomando cuidado para que não tropeçassem um sobre o outro. O Gil Blanco pode perceber que haviam chego até a cozinha quando o corpo de Lupe acabou pressionando-se ao seu ao atingir a pedra da ilha, tornando as duas mãos para a cintura justa e modelada pelo vestido para finalmente erguê-la para cima da pedra esbranquiçada – seu quadril encaixou-se por entre as pernas da jovem, o que fez com que o vestido estreito subisse lentamente por entre as coxas grossas da mesma. Os olhos de Mateo encontraram os da garçonete antes que voltassem a se beijar por alguns segundos, imediatamente resumindo a troca de carícias intensa e enérgica que aquecia ambos os corpos cada vez mais rápido, provocando Laredo a abrir os botões da camisa para finalmente se livrar do tecido que o aprisionava. O mais velho repousou as duas mãos sobre as pernas bronzeadas da acompanhante, deslizando-as por debaixo do tecido elástico do vestuário que a cobria, empurrando-o para cima em uma tentativa de despi-la como ele fizera com a camisa mas antes que pudesse completar o que estava fazendo, Mateo interrompeu o beijo que trocavam por alguns instantes e a respiração ofegante impediu que palavras se formassem. Longe de desejar parar o que estavam fazendo, Laredo notou que ela não o fizera e que não parecia interessada em fazê-lo, diferente de todas as outras vezes onde ele incessantemente tentou seduzir a jovem e nenhum de seus esforços pareciam funcionar – por isso travou seu olhar ao dela, como quem aguardava por alguma reação, mais ainda por alguma que o permitisse ir até o fim do que realmente queria fazer.

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Os olhos ainda avermelhados ardiam um pouco pela ânsia de chorar, mas ela se esforçava para que não mais do que as teimosas primeiras lágrimas escapassem. Afinal, já havia sido embaraçoso o suficiente escutar aquelas palavras tão duras e rudes de Olivia, não precisava se envergonhar mais chorando como uma idiota na frente do seu filho. E no fim, aquilo tudo era sua culpa. Ela havia sido educada para aquilo a vida toda, escutando sempre de seus pais como ela não devia tentar se misturar com aquele tipo de gente porque infelizmente eles nunca seriam vistos como iguais. E talvez fosse a maneira como ela havia se acostumado a ser tratada por Mateo, que parecia repudiar os ricos e mimados daquele lado da cidade, ou até mesmo como Vincent, uma das exceções naquele ninho de cobras vestidas com roupas de grife, tratava-na tão bem. Ela não devia se dar ao luxo de esquecer o quão diferente era daqueles presentes no restaurante, e Olivia a recordara daquilo. Da maneira mais desnecessária, sim, mas precisava ser feito. A tristeza então se transformou em irritação, consigo mesma. Ele nem mesmo queria ter ido até o local, e ela entendia melhor o motivo.
Mateo pareceu sem jeito diante de sua explicação, como se não tivesse muita experiência em consolar pessoas - o que, sinceramente, não era muito inesperado. Apenas quando sentiu o toque quente das palmas ásperas em seu braço que se sentiu um pouco mais leve, como se no fim ela pudesse pensar “bem, ao menos ele está aqui.” E pobre Mendiola, por pensar que todas as palavras que saíram da boca de Catalina era verdade. Não que, no fim, o outro não nutrisse algum sentimento, mesmo que eu estágios iniciais, por ela. Mas definitivamente não como descrito por sua irmã e aumentado pela mente quase infantil da mais nova. Chegava a ser cômico como Guadalupe podia ter uma visão tão assertiva da realidade como ela era, e ainda se permitir enganar em outras situações - recentemente as relacionadas ao coração, mais especificamente. Laredo se aproximou um pouco mais, reafirmando que sabia que ela não tinha interesse em nada além de, bem, ele. Ela assentiu devagar, aliviada que ao menos o alvo de sua atenção não a enxergava da mesma maneira que a colombiana havia deixado claro enxergar.
Um riso sem força deixou os lábios grossos com a menção de seu pai, e no fim, ele estava certo. Se Lupe fosse para casa, teria de explicar os olhos vermelhos para os integrantes preocupados da residência Mendiola, e ela não queria contar sobre aquele episódio. Ao menos não durante um bom tempo. Ao fim, ela cedeu, concordando devagar com a cabeça. — Tudo bem. — Foi só o que disse diante de todas as palavras proferidas pelo homem, tomando seu caminho na direção do banco do passageiro e adentrando o veículo escuro, esperando que o acompanhante fizesse o mesmo do seu lado. Ela se ajeitou ali, uma outra vez precisando puxar o vestido teimoso para baixo, e passou a observar pela janela o caminho que seguiam. A viagem foi curta e silenciosa, apenas o som de uma musica baixa preenchendo o interior do automóvel, enquanto as luzes da rua passavam sob os olhos distraídos de Lupita. Ela só conseguia pensar no olhar incomodado da mulher que a expulsava do restaurante minutos antes, e em como aquilo a fizera se sentir pequena, muito pequena. Isto é, num sentido mais amplo da palavra. Aquele assunto apenas deixou a mente agora barulhenta da mexicana quando escutou que haviam chegado, e foi aí que percebeu que embora olhasse para o lado de fora, na realidade não vira nada até então. Só quando retomou a atenção que se deparou com uma residência enorme, uma mansão, praticamente. Guadalupe franziu a testa, encarando o homem a seu lado. — Aqui? Você mora aqui? — Ela reforçou, talvez tivesse entendido errado. Talvez houvesse uma casa atrás daquela. Saiu do carro ainda embasbacada com o imóvel, e aquilo foi o suficiente para que a moça se distraísse dos pensamentos que a incomodavam até então. — Isso é…nossa. — Não conseguia exatamente colocar em palavras, sequer sabia se havia palavras que pudessem fielmente descrever o lugar. Era como se a todo instante esquecesse do fato de que ele era bem endinheirado. Mesmo visitando seu restaurante famoso, escutando de sua mãe que ela era interesseira e entrando no veículo caro. Ela ainda se surpreendia. Mateo abriu a porta, e quando ela pisou do lado de dentro, o encanto não foi nem um pouco menor.
Do lado de fora do restaurante um sopro frio contrastava-se à temperatura corporal do equatoriano: por debaixo da camisa escura e fina que o cobria podia sentir o corpo quente e a agitação dos músculos e nervos por debaixo da pele, resultado, é claro, da interação desagradável à qual tivera o desprazer de enfrentar minutos à trás. Aquela não era a primeira vez que Olivia fazia questão de humilhá-lo, ou ao menos de tentar arruinar qualquer coisa remotamente positiva na vida do filho primogênito, mas talvez tenha sido uma das primeiras capazes de realmente deixar uma marca no coração cinza de Mateo – por mais cruel que soe, o latino já estava habituado ao tratamento duro e frio que a vida toda recebera da mãe, sabia que a matriarca não era capaz de importar-se com qualquer um que não a si mesma e de certa forma fizera as pazes com esse sentimento, já havia se adaptado à amargura e a falta de afeto inexistentes dentro do lar dos Blanco. Mas isso fora antes de Guadalupe, é claro. Se não fosse pela presença da jovem dos cabelos negros e longos era capaz que o rapaz tão pouco se incomodasse com a atitude da mais velha, já fazia algum tempo que as declarações perversas de Olivia não o atingiam como antes costumava acontecer, estava mais velho e, francamente, anestesiado por conta de todo o resto, então a última coisa capaz de magoá-lo seria uma senhora de meia-idade que tornou-se uma caricatura de si mesma. Bastou a colombiana pousar os olhos sob a figura ingênua de Lupita para que tudo isso mudasse; os sentimentos de Laredo deixaram o estado comum de apatia e indiferença imediatamente para um de ira, onde podia sentir cada fibra de seu ser contorcer-se por debaixo da pele.
Foi somente quando um “tudo bem” em volume baixo e quase inaudível senão por ele que estava há cerca de dois passos de distância é que pode sentir-se um pouco mais tranquilizado diante da situação. Ou quase isso, já que a garota permanecia tão cabisbaixa quanto há minutos atrás e com as maças do rosto ainda coradas pela vergonha e pelo nervosismo e parecia evitar qualquer tentativa de contato visual realizada pelo rapaz. As mãos que antes se apoiavam nos cotovelos da garçonete agora caíam ao lado do corpo, nervosas e perdidas, sem saber muito bem o que fazer com elas ou com toda aquela situação. Tinha vontade de retornar ao restaurante para falar tudo o que pensava, ignorando a orientação de seu próprio consciente, na esperança de que de alguma forma aquela situação se revertesse para um final não tão trágico, mas ainda que estivesse tomado pela angústia e frustração que bloqueavam sua garganta, lhe deixando um gosto terrível na boca, sabia que o melhor a se fazer era lidar com aquela situação em um outro momento. Ele gesticulou com a cabeça em sinal positivo ao que lhe fora dito, permanecendo em silêncio diante da concordância tímida da outra – que falaria? Tudo que lhe passava pela cabeça parecia tão pequeno diante daquela catástrofe que nem o melhor e mais encarecido pedido de desculpas pareceria funcionar.
E assim seguiu-se o trajeto de quinze minutos entre o restaurante de sua família e a residência do latino – o único som que perfurava o ar era o de uma música em volume baixo que os fez companhia durante todo o caminho. Vez ou outra Teo explorava sua visão periférica para encontrar Lupe quase que debruçada sobre a porta do passageiro, com as pernas encolhidas e juntas para o lado oposto dele. Debateu consigo mesmo, mais de uma vez, se deveria perguntar a ela se realmente preferiria ir para casa ao invés de seu apartamento, ou se simplesmente deveria dirigir até a casa dos pais da garota e deixa-la por lá, mas acreditava que o mínimo que tinha de fazer era arrumar alguma maneira de desculpar-se por tudo, ainda que não fizesse a menor ideia de como o faria. Mateo nunca fora bom em pedir desculpas, isto quando o fazia, é claro, sendo que na grande parte das vezes não se arrependia do que quer que fosse que tivesse feito, então geralmente costumava comprar algum presente bonito e vistoso que fizesse a pessoa sentir-se melhor sobre a situação, mas esse não parecia ser o caso agora – primeiro porque, bem, tecnicamente ele não fez nada de errado apesar de sentir-se genuinamente responsável por aquele fiasco, e segundo porque de fato importava-se com Lupita, e esse parecia ser o maior problema; o que se faz quando você realmente se importa com alguém?
As divagações de Mateo foram interrompidas antes que ele pudesse chegar à uma resposta: não só pela chegada ao endereço final, mas também porque a voz doce da morena rompeu o silêncio que pairava entre os dois, e a sensação foi como se uma lareira tivesse sido acesa em uma sala fria e solitária. Sem pensar muito, Laredo respondeu à pergunta da jovem sem muito entusiasmo, como se aquela informação não fosse tão relevante assim. — Moro. — disse, sucinto. Por detrás do volante, Teo até mesmo ergueu os olhos para cima para certificar-se de que estava entrando na garagem correta já que o arranha-céu ao lado acabava por ser muito similar ao que ele morava. Os portões subterrâneos da garagem do enorme prédio finalmente abriram e o carro conduziu os dois até a vaga destinada à cobertura. A viagem até o topo do edifício também não demorou muito, em menos de dois minutos os dois estavam no vigésimo oitavo andar diante da única porta que os levava até o interior da residência. Com a mão num dos bolsos da calça, Mateo procurou pela chave e a enfiou na fechadura, para logo em seguida empurrar a porta com uma das mãos, deixando que Lupe entrasse primeiro. Com a ajuda do pequeno controle que aguardava ao lado da porta, acendeu todas as luzes do andar debaixo e as enormes janelas de vidro que cobriam as paredes revelaram a vista interminável de Chicago à frente deles. — Lúcia ainda não veio essa semana então as coisas estão um pouco fora do lugar, mas... — disse, referindo-se à funcionária responsável pela limpeza da casa. — É isso. — completou, dando de ombros. Guadalupe não era a primeira a visitar sua casa, tantas outras garotas já estiveram ali, mas Mateo nunca deu a mínima para os detalhes ou para o que elas iriam achar, já que frequentemente a última coisa que costumavam fazer era apreciar a decoração, mas a latina parecia observar cada detalhe com minucioso cuidado, o que o deixou inquieto. Teo caminhou para perto da jovem, fechando a porta cuidadosamente e logo em seguida colando seu corpo ao dela com delicadeza, a mão direita repousou sobre o rosto, ajeitando um fio distraído de cabelo para detrás da orelha. — O que eu posso fazer por você? — perguntou, fitando-a nos belos olhos castanhos.
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Guadalupe sentiu como se pudesse enxergar a si mesma de fora, como se visse a cena através de uma câmera que se afastava cada vez mais. Abraçava o próprio corpo, e de repente tudo parecia errado: os saltos, o pano negro que revestia suas curvas, os cabelos soltos em cachos grossos e a maquiagem bonita, tudo aquilo parecia barato, vergonhoso. Quis correr dali, se trancar no banheiro ou simplesmente se encontrar na rua, caminhando a pé até o Pilsen tentando absorver o que havia acontecido naqueles poucos segundos que conseguiram apagar todas as últimas horas de animação e felicidade experimentadas pela mexicana, substituindo tudo por uma sensação desgostosa e amarga. Não conseguiu fazê-lo, no entanto. Na verdade, sequer conseguia respirar direito, parecia que o corpo havia esquecido de como receber a quantidade necessária de oxigênio, fazendo com que ela sentisse uma leve dor no peito - mas no fim, sabia bem que não era nada físico, muito pelo contrário. Sem coragem de encarar a figura muito mais alta que si nos olhos, Lupe manteve a cabeça baixa, seu olhar buscando qualquer coisa que oferecesse um mínimo de apoio naquele momento em que se sentia perdida. O que conseguiu encontrar foi o olhar de Catalina, que encarava o que acontecia na mesa com o cenho franzido. Lupita não sabia, mas naquele momento, a irmã de seu acompanhante realmente estava preocupada com o que desenrolava diante de seus olhos. Ela podia gostar de ver Mateo envergonhado, mas sabia muito bem como era a própria mãe e sabia que ninguém merecia lidar com ela, especialmente alguém que parecia tão inocente e boba quanto aquela jovem que visitava o restaurante com olhos brilhantes não para o local ou comida, e sim para Laredo - fato este que, mesmo se Lina tentasse, não tinha nem como escapar da sua atenção. A colombiana tentou transparecer algum tipo de consolo à distância, um olhar empático que raramente se via em sua face, mas infelizmente não obteve o resultado buscado.
A Mendiola não conseguiu, pela primeira vez, imaginar o lado bom da situação. Não entendeu o olhar de Catalina como um ato complacente, pelo contrário, apenas enxergou aquilo como uma prova de que não somente ela havia sido ridiculamente humilhada, mas havia sido ridiculamente humilhada em público. Olívia não chegou a fazer uma cena, claro, pois o intuito era justamente se livrar de qualquer coisa que a pudesse envergonhar, mas também não havia exatamente se preocupado em tomar a postura mais discreta possível. Alguns clientes curiosos ao lado encaravam o que acontecia, e embora provavelmente não tivessem escutado mais do que uma ou duas palavras, o rosto perdido e magoado da mais nova em contraste com o rosto impassível e imperdoável da matriarca não escondia o conflito que desenrolava ali, muito pelo contrário: denunciava com clareza. Então, era aquilo: Guadalupe se encontrava sem saber onde enfiar a cara, sem saber o que dizer. Sua mandíbula não pareceu obedecer ao comando de abrir a boca para dizer algo, quem sabe em sua defesa, e suas pernas também não o fizeram quando ela decidiu que seria melhor se retirar. Era como se estivesse colada ao chão, e apenas conseguiu se libertar daquele transe quando escutou a voz de Mateo exigindo a atenção da Gil Blanco mais velha, devolvendo as palavras com grosseria, atacando-na de volta. Lupe piscou varias vezes, observando a troca de farpas em silêncio, até que ele anunciou a saída do casal. Foi como se finalmente retomasse o controle de si mesma, e ainda sem erguer o olhar, virou-se para a mesa em busca de seus pertences.
A pequena bolsa não segurou Guadalupe ali por mais do que cinco segundos, o tempo certo entre alcançar o pequeno acessório e em seguida acompanhar Laredo para fora, encarando o chão enquanto o fazia, nem mesmo percebendo que havia segurado a respiração até que finalmente estivesse do lado de fora. A brisa gelada pareceu ser suficiente para que uma das insistentes lágrimas caísse, e como se tudo já não estivesse ruim o suficiente, os flashes que se seguiram quase a cegaram. Não havia mais a multidão ali presente no início do evento, apenas mais alguns poucos fotógrafos insistentes que não perderam a oportunidade ao registrar o momento exato em que Mateo Gil Blanco saíra com uma acompanhante desconhecida cujo rosto demonstrava tudo, menos felicidade. Por sorte, eles apenas precisaram caminhar alguns passos para longe da entrada para serem deixados em paz. Enxugando a bochecha avermelhada, Lupita seguiu a passos pesados e barulhentos o caminho para o carro que havia sido entregue pelo Vallet, na lateral da avenida principal que dava para a fachada do restaurante. Pelo horário - já se passavam das nove - aquela rua mais estreita e escura estava vazia, e quando o funcionário entregou a chave a Laredo, retornando a sua posição, deixou os dois latinos a sós da maneira que precisavam. Encarou a porta do passageiro, e a lembrança curiosa da primeira vez que se falaram lhe atingiu. Na ocasião, imaginou que ele havia pensado de si exatamente o que Olívia Gil Blanco tinha insinuado, jogando o dinheiro nele e dizendo algumas besteiras. Ali, era como se a garota se deparasse com uma versão aumentada daquela situação. De frente para o acompanhante, ela se sentiu na necessidade de esclarecer qualquer mal entendido. Àquele ponto, estava se perguntando se mais alguém no local havia pensado a mesma coisa. Teriam Pablo, Dante e Catalina a enxergado daquela forma? Teria, naquilo tudo, Mateo considerado tal coisa? Engoliu em seco, a possibilidade parecia um chute no estômago.
Passou a antemão na bochecha, logo abaixo dos olhos, secando o local antes de finalmente conseguir proferir qualquer palavra. — Mateo, eu sei que eu insisti muito para vir aqui. — Reconheceu, apertando a mão na bolsa apoiada nos ombros — Mas não foi porque eu queria experimentar uma noite luxuosa. Nem pela comida ou pelo evento. Eu só…Eu só queria ficar próxima de algo que faz parte da sua vida. — Admitiu, prensando os lábios grossos antes de prosseguir — Queria conhecer a sua vida melhor, independente de como ela fosse. Eu nunca…por Deus, eu nunca aceitaria dinheiro ou coisa material alguma de você. Não é o que eu quero. Eu nem sabia que você tinha grana assim até um tempo atrás, só… — Balançou a cabeça, exasperado. Que grande final de noite! Explicar ao homem por quem verdadeiramente se interessava que não estava com ele somente por suas posses. —Eu não faria isso. — Resumiu, pois era só o que podia dizer de fato. Ponderou em como mais poderia ter agido diante dele de forma a deixar uma visão errada, e sem conseguir pensar em nada específico, os olhos se encheram de água outra vez. — Olha, talvez seja melhor você me deixar em casa.
Imediatamente após a aparição de Olívia, o qual ele de fato havia subestimado, em dois pontos, isto é: primeiro, literalmente com a aparição física da mulher, com o interesse dessa de realmente ocupar-se com outra coisa que não os importantíssimos convidados os quais ela tinha de bajular durante toda a noite, ainda mais com o filho ao qual ela não fazia questão alguma de agradar, e em segundo lugar, com a reação completamente desproporcional que a matriarca teve diante de Guadalupe, que, coitada, estava petrificada como se tivesse olhado nos olhos do próprio coisa-ruim. Veja bem, nunca fora surpresa alguma para Mateo que a mãe fosse, bem, daquele jeito — bem a verdade é que já estava acostumado com as atitudes infelizes e a total falta de manejo com aqueles que não atendiam seus interesses imediatos, ora, mesmo ele tinha de endurar o mau humor destemperado da colombiana, mas vê-la dirigir-se à jovem garçonete daquela maneira fora algo que pouquíssimas vezes havia presenciado, e aquilo estava longe de tratar-se de uma eventual falta de temperamento para com os outros, mas sim um acesso desvairado e sem qualquer razão. Em um primeiro momento, a reação de Mateo fora de tentar conter os absurdos grosseiros que deixavam a boca da figura materna, como fizera com Catalina horas antes, mas logo em seguida pode se dar conta de que as intenções de Olívia eram muito mais cruéis do que à primeira vista se imaginava. Dessa forma, nem se ele quisesse defender o que Guadalupe havia dito ou feito poderia o fazer, já que não houve sequer espaço para que esta se manifestasse de qualquer forma, muito pelo contrário, restou apenas espaço para que a garota reagisse aos insultos soberbos e prepotentes da mais velha.
Foi então como se o tempo se desacelerasse e caminhasse em câmera lenta, e Laredo pudesse assistir o rosto bonito e tão ingênuo da morena partir de um sorriso largo e animado para uma expressão que até então não havia visto: os cantos dos lábios rosados se encolheram, os músculos da face já não mais se esticavam em sinal se simpatia, até que nada mais sobrou, a não ser uma expressão melancólica e, bem, triste. As córneas transparentes e envidraçadas da jovem denunciavam a agitação das lágrimas que viriam a se formar em seus olhos em questão de alguns segundos, o que fez com que o homem desse um basta no discurso da mãe, querendo ela ou não, numa tentativa de evitar dar à essa a satisfação de ter humilhado à mais nova com sucesso. O olhar retribuído pela mulher ao seu lado fora de desgosto e insatisfação à posição do filho diante de, ao que ela havia entendido, era mais uma menina pobre por quem ele se interessava, sem fazer ideia de que este nutria algum tipo de sentimento mais tenro pela garota, mas Mateo estava acostumado, a vida toda recebera da mulher uma dezena de olhares decepcionantes e de reprovação, e sabia que só teria de lidar com aquilo em outro momento que não aquele. Agora só queria não mais ter de engolir as palavras destrutivas e vis da mãe.
Por mais irritado que estivesse, Mateo cruzou todo o salão do restaurante em silêncio, a expressão desenhada no cenho profundamente irritado não falhava em comunicar aos outros o que sentia no momento, mas se tinha algo que detestava era de chamar atenção para si daquela maneira, em meio à tantas pessoas que nada sabiam da sua vida, mas que estavam prontamente atentas a comentar qualquer coisa que fosse a respeito de si. Foi apenas do lado de fora que o rapaz demonstrou sua frustração com o que havia acabado de acontecer, deixando escapar um murmúrio nitidamente irritado, e depois levando as duas mãos a parte traseira da cabeça, escorregando-as para a nuca, enquanto buscava preencher os pulmões com o ar fresco. A presença dos funcionários do valet e de um ou dois fotógrafos que insistiam em aguardar do lado externo por algum convidado o irritaram. — Tá esperando o quê? — perguntou à um dos manobristas, que rapidamente se retirou para buscar o veículo, enquanto os fotógrafos caminharam dois metros para mais longe, os deixando a sós.
Quando ele finalmente retornou sua atenção à acompanhante, pode ver que uma pequena gota lacrimal escorreu pelas bochechas rosadas da latina, à qual ela rapidamente enxugou. Inicialmente não dissera nada, não queria envergonhá-la ainda mais e além disso, também não sabia muito bem como reagir diante daquela demonstração — que deveria fazer? Consolá-la? De que maneira?, pensou. Foi apenas quando essa buscou justificar suas intenções que ele pôde entender melhor o que realmente se passava ali. — Ei, não, não... — disse, levando as mãos até os bíceps da garota, não chegando a tocá-los, hesitando, era a primeira vez que seu impulso fora o de não o fazer. — Não precisa se explicar, eu não ligo. — respondeu, na esperança de que aquilo à acalmasse de alguma forma. — ¡Es una estúpida! — disse, a língua nativa parecia melhor expressar seus sentimentos em relação à mãe. — Eu a odeio, dane-se o que ela acha. — talvez essa fosse a informação mais verdadeira sobre sua vida que havia compartilhado até agora. “Eu não faria isso”, ela disse, ao o que automaticamente Teo respondera: — Eu sei. — olhando-a nos olhos, finalmente descansando suas mãos em seus braços. O volume de sua voz diminuiu consideravelmente, dando um passo à diante, aproximando-se de Guadalupe. — Isso não quer dizer nada pra mim. — ele inclinou a cabeça em direção às portas do restaurante ao mencionar a fala de Olívia. — É minha família, mas só. — concluiu. As mãos de Mateo desceram até a altura de seus cotovelos, ainda buscando tranquiliza-la. — Eu não posso te deixar em casa assim, seu pai já me odeia o suficiente. — ele disse, seguido de uma risada curta e divertida, beliscando o lábio inferior. — Você pode dar um tempo lá em casa e depois eu te levo, pode ser? — o barulho das portas do automóvel de Mateo se fizeram, chamando sua atenção. — Eu preciso me redimir disso de algum jeito. — riu, aguardando por uma resposta.
guadalupe-lmendiola:
Guadalupe sorriu, o mesmo sorriso inocente e divertido que sempre dava ao encarar as frases de Mateo, sempre tão alheia aos verdadeiros significados que cada uma delas carregava. —Eu acho que se você olhar no dicionário, um dos sinônimos de família é disfuncional. — Brincou, e embora sim, a família Mendiola fosse um enorme poço de amor fraternal, carinho e apoio, também tinha seus problemas. Além dos óbvios como a irregularidade da estadia dos mais velhos no país, haviam os problemas que cada um deles enfrentava e inevitavelmente refletiam em suas personalidades, como o pai, teimoso, que continuava aceitando trabalhos braçais mesmo sabendo que estava perigosamente próximo de necessitar de uma cirurgia no joelho danificado, motivo de inúmeras discussões e um dos poucos momentos em que a Mendiola mais nova se sentia verdadeiramente irritada. Isto sem contar, é claro, com a mais problemática do pequeno núcleo familiar, María, que continuava na busca incessante de preencher o vazio dentro de si com algum homem por aí, esquecendo de criar o próprio filho e se indisponibilizando para ajudar nas necessidades latentes que se constituia principalmente na falta de dinheiro. Claro que agora, com o novo emprego, Lupe poderia tomar um pouco melhor o controle de sua vida. Bem, não exatamente de sua vida, esta ainda seguia em segundo plano, mas poderia receber o suficiente para custear as prioridades: despesas da casa, despesas com advogado e despesas médicas. Qualquer que fosse o futuro investimento em si mesma precisaria esperar mais um pouco. — Bem, se quer saber, eles parecem legais. — Deu de ombros, e não mentia, embora aquilo fosse só Guadalupe sendo Guadalupe, encarando o mundo com um filtro mal regulado, escolhendo ver o lado bom de cada um, mesmo se esse sequer existisse. — Seu pai é simpático. Sua irmã parece um pouco…intensa, mas também amigável. Por enquanto, não vi nada demais. — E aquele era o problema: estava tudo sendo jogado em sua face, mas ela seguia alheia aos fatos. Não era seu papel analisá-lo, e por isso escolheu não tocar em nenhum assunto delicado, mas pensou que talvez a aversão à família fosse somente a falta daquele sentimento de pertencimento, acarretado pelo fato de ser adotado. Quem sabe futuramente não pudessem ter uma conversa franca sobre aquele detalhe de sua vida? Ela esperava que sim, e depois de ser (erroneamente) instigada por Catalina, via a possibilidade cada vez mais próxima.
— Tem razão. — Reconheceu, mesmo que aquela iguaria fosse absolutamente deliciosa, ainda não se comparava com alguns pratos de sua mãe. Por um instante, ponderou se Dante conseguiria reproduzir tais refeições, mas preferia não descobrir. Sua mãe ficaria verdadeiramente chateada se em algum momento a filha decidisse que havia uma comida melhor que a dela. — Você precisa provar as empanadas de mi mamá. — Comentou, em um semi-convite. Dependendo da maneira que respondesse à frase, poderia realmente chamá-lo para ir a sua casa algum dia daqueles, quem sabe construir alguma relação melhor com os familiares que não exatamente viram Mateo em uma boa coletânea de momentos. E se fossem namorados - ah, pobre e inocente Lupe - então o papel da família naquele relacionamento seria importante - crucial, na verdade. María já gostava de Laredo, principalmente por ele fazer com que a ex garçonete agisse exatamente como esta sempre julgou a mais velha de fazer, mas também porque podia enxergar na irmã caçula o verdadeiro interesse e brilho nos olhos, e qualquer um que despertasse aquele tipo de sentimento bonito na mais nova receberia a aprovação de María Isabel. O que dizia algo sobre sua capacidade de pensar em consequências.
Algum tempo depois a garçonete e o chef reapareceram, agora com os pratos principais. Moussaka, de acordo com o turco, uma espécie de lasanha feita de berinjela, carne moída e batatas, que levava um molho agridoce surpreendentemente agradável. A noite se desenrolou, até então, sem mais interrupções, Guadalupe até mesmo se esqueceu que a família inteira do homem a sua frente se encontrava próxima, aproveitando a deliciosa refeição, a segunda taça do vinho, e a conversa que parecia desenrolar tão facilmente entre os dois latinos, de modo que ela mesma poderia ficar ali até o dia seguinte, apenas aproveitando o momento. A sobremesa fora igualmente ou até mais deliciosa, o manjar turco, doce que foi servido junto de um fun fact sobre a cultura pop americana: “Esse doce é o de ‘As crônicas de Nárnia’, e é tão gostoso que fez Edmund trair os próprios irmãos.” Dante contou, fazendo uma risada verdadeira e quase infantil escapar dos lábios grossos da mexicana, que provou imediatamente o pequeno quadrado colorido, fazendo uma falsa expressão séria enquanto se deliciava. — É, eu também trairia minha irmã por isso. — Reconheceu, em tom de brincadeira, observando em seguida o cozinheiro se retirar satisfeito, e após engolir aquele pedaço abriu a boca para comentar mais alguma coisa sobre o doce com Mateo quando uma sombra se fez na mesa, chamando atenção da jovem. Era uma mulher linda, se aquela palava sequer fizesse jus à ela, trajando um vestido escuro e bastante justo, que deixava claro todas as curvas obviamente latino americanas, com um corte que muito perfeitamente se ajustava no corpo sinuoso e chamava a atenção de qualquer um há quilômetros de distância. O rosto também estava maquiado, sem nenhuma intenção de parecer discreta, os lábios grossos pintados com um tom escuro arroxeado, e os grandes cílios destacando-se com a máscara preta bem aplicada. Ela não se lembrava de ver alguém tão bela e intimidadora. “Olá, Mateo.” A mulher cumprimentou-o, sem se preocupar em colocar no rosto um sorriso. Na verdade, parecia incomodada. Quando Laredo a cumprimentou de volta, Lupita teve a confirmação de que ela era Olívia. Seu coração acelerou com a ansiedade, e ela se ergueu pela educação. A diferença de altura era risível: Lupe havia ganhado sete centímetros com o salto que utilizava, totalizando humildes 1.62 naquele momento, enquanto que a outra mulher, já alta, garantia seus perfeitos 1.80 com os enormes saltos de dez centímetros que utilizava. Se sua aura assustadora já não era suficiente, a altura também fazia um bom trabalho. — Olá! — Lupe estendeu a mão, a fim de cumprimentá-la — Guadalupe Mendiola. — Apresentou-se, um largo sorriso iluminando o rosto jovial, esperando o acompanhante decidir como preferiria apresentá-la a própria mãe. Ele não teve tempo de fazê-lo, no entanto, pois a mais velha então decidiu proferir as seguintes palavras, ignorando a mão ainda estendida da mexicana. “Esse evento é muito importante para o restaurante, Mateo. A lista de convidados foi seletiva, se quiséssemos que qualquer um entrasse, estaríamos oferecendo hambúrgueres e tacos.” As palavras atingiram a mais nova como um soco, deixando-a totalmente sem graça e envergonhada. Recolheu a mão, abraçando o braço em frente ao corpo agora encolhido instintivamente. “Por favor” Finalmente Olivia se atreveu a olhar Mendiola nos olhos, e ao fazê-lo, Guadalupe se sentiu ainda menor. “Eu entendo que seja uma experiência única na vida de alguém como você, querida, e deve ter…trabalhado muito para convencê-lo a lhe trazer em um lugar como esse. Mas não posso permitir que um evento desse nível seja manchado por uma jovem interesseira.” Lupe encarou a mulher atônita, paralisada. Já havia passado muitas vezes pelas mais diversas humilhações, mas a insinuação de estava com Mateo apenas pelo dinheiro era demais. E ainda por cima, que ela havia ido para a cama com o homem para aquilo. Ela não tinha interesse algum no que os Gil Blanco tinham ou não, se o equatoriano era rico ou pobre. Arrependeu-se amargamente de insistir em ir ao local. Era óbvio que alguém de seu nível seria mal interpretada em um estabelecimento como aquele, rodeado apenas de gente importante e rica. Era muito estúpida, pensou enquanto se esforçava para manter os olhos que lubrificavam muito mais do que o necessário sob controle.
Ainda que ele concordasse com ela, sobre o caráter quase universal de que todos os núcleos familiares eram, em maior ou menor grau, disfuncionais, Mateo não pôde controlar a risada grosseira e um tanto irônica que deixou seus lábios. E por um segundo sua mente visitou a lembrança do dia em que fora apresentado, contra sua vontade ou interesse, aos familiares de Guadalupe — o ambiente pitoresco, este que poderia vir à crer para aqueles do lado de fora que tudo se passava dentro da ordem, e do desenho familiar quase perfeito, se não fosse pelo fato da irmã mais velha ser mãe solteira, era difícil de se imaginar que algo ali fugisse do controle do patriarca carrancudo que administrava o lar, ou que aquele pequeno grupo de pessoas que pareciam ter suas relações tão sobrepostas poderiam vir à ter algum tipo de problema que os configurasse como disfuncionais. A risada satírica de Mateo foi mais uma resposta à sua própria concepção de disfuncionalidade do que ao o que ela havia dito; talvez, para a latina, isso fosse sinônimo para brigas corriqueiras, ou algum desentendimento aquecido cuja consequência fosse uma chateação passageira ou uma meia dúzia de olhares mal-humorados. Mal ela sabia, ou poderia imaginar, que para a família do equatoriano “disfuncionalidade” ia além de um mero verbete no dicionário, mas sim uma interpretação literal do que realmente significa a palavra.
Quando ela elogiou os parentes, Laredo não fez mais do que uma jogada de ombros, emitindo um som indiferente. Ela não estava errada, sendo muito sincero, é verdade que às vezes tinha a vontade de arrancar a cabeça de Catalina e chutá-la para fora do globo, ou que a positividade de Pablo às vezes lhe causava uma irritação tão insuportável que chegava a lhe dar coceira, mas no final do dia ele era obrigado a concordar, eles são realmente legais. Não Olivia, é claro. A relação profundamente complicada com a mãe, palavra que não pronuncia desde os doze anos de idade, jamais se aproximara do sentimento remotamente carinhoso que ele dividia com os demais — o que não o impedia de, inconscientemente, buscar pela aprovação e reconhecimento desta vez ou outra. — Se Pablo não fosse casado com Olivia eu diria que ele é perfeitamente normal. — ele riu. Talvez fosse muito cedo para fazer aquele tipo de piada depreciante, mas ela já deveria ter captado à essa altura a maneira como o rapaz costumava agir sempre que o assunto se voltava para sua família. — Intensa é o termo mais educado que eu posso pensar. — concordou, rapidamente passeando os olhos pela mesa vizinha, onde todos os Gil Blanco se concentravam, todos exceto ele, é claro, mas essa constatação um tanto infeliz e depressiva teria que esperar para ser discutida. — Eles costumam ser mais civilizados quando os fotógrafos estão presentes, mesmo. — disse, antes de bebericar mais um pouco da bebida cristalina.
Não demorou muito para que os dois começassem a falar sobre a herança cultural que dividiam — e imaginou que se Dante os ouvisse falando sobre comida latino-americana caseira enquanto um prato altamente rebuscado, com especiarias tão raras que elevavam seu preço às seis figuras, servidos à sua frente, este ficaria tão irritado que começaria um monólogo repleto de ofensas na língua materna. As empanadas mencionadas por Guadalupe fizeram Mateo se derramar pela cadeira confortável em que estava sentado, levando a mão ao peito logo em seguida, enchendo-o de ar para logo depois liberá-lo, suspirando com a imagem que havia elaborado em sua cabeça. Era como se pudesse sentir o cheiro perfumado do recheio das tão típicas empanadas mexicanas, e ainda que não houvesse experimentado particularmente a receita da mãe de Lupita, sabia que aquela era uma iguaria que dificilmente poderia dar errado. A conversa fluía em um ritmo tão amigável e prazeroso que Teo não se deu conta das intenções de Guadalupe logo de início, o que o fez responder prontamente ao convite, debruçando-se de volta na mesa em que estavam. — Tá aí uma coisa que me faltava e eu não fazia ideia. — disse, com um sorriso mais simpático que o de costume. — Você me conhece perigosamente bem, Lupita. — disse, erguendo uma das sobrancelhas, descansando o par de mãos sobre as pernas por debaixo da mesa.
Conforme a conversa avançava, os pratos do menu preciosamente selecionado pelo chefe da casa se foram um a um, todos servidos pelo próprio Dante, o qual merecia todos os aplausos pela noite gastronômica que havia preparado. Foi apenas quando o último prato, uma taça de cobre adornada por uma série de desenhos esculpidos ao fogo acompanhado de pequenos cubos esbranquiçados, que Mateo se deu conta de que o jantar se aproximava do fim. O tempo passou tão rapidamente que não havia se tocado das horas — desde a última intromissão, isto é, a visita feita por Catalina até a mesa do casal, nenhum outro membro da família do rapaz os incomodou, o que provavelmente fez o latino esquecer-se brevemente de onde estava. O pensamento o fez olhar discretamente a mesa ao lado, e felizmente nenhum dos presentes o notou, o que o deu a falsa sensação de que já não estavam mais sob as lentes microscópicas e que, com alguma sorte, ambos saíram dali ilesos, à medida do possível, e que talvez nem tudo estivesse perdido. Mas é claro que Laredo não pode nem ao menos terminar seu raciocínio, já que enquanto conversava com a garota e torcia para que mais nada e nem ninguém atrapalhasse o jantar dos dois, uma sombra se fez diante da mesa, e ele nem ao menos precisou suspender o olhar para adivinhar de quem se tratava. Pelo contrário, o perfume floral e amadeirado invadiu suas narinas, e com a visão periférica pode notar os braceletes brilhantes e pesados presos aos pulsos finos da mulher, tratava-se de Olivia, é claro.
A mão da mulher repousou sobre o ombro esquerdo do homem, e ele finalmente levantou o queixo e confirmando a presença da mãe, à qual o cumprimentou, e ele fez o mesmo em sinal de respeito. — Olivia. — confirmou, ao o que a mulher apenas ignorou com o canto dos olhos, dirigindo sua atenção à acompanhante do primogênito. Não houve tempo sequer para apresentar uma à outra, já que o sotaque carregado da latina mais velha encarregou-se de cessar qualquer comunicação em questão de segundos; ou melhor dizendo, sequer houve tempo para qualquer reação, quanto mais para meias palavras, e em questão de segundos, a mãe do rapaz conseguiu deixar Guadalupe com os olhos petrificados e as palavras perdidas, completamente constrangida. A linguagem corporal de Lupita bastava para que qualquer um pudesse entender o que estava acontecendo, e antes que pudesse ser feita qualquer intervenção, a matriarca fez questão de enterrar a última pá de terra na noite do jovem casal. — Então sugiro que vá humilhar todas as prostitutas de luxo que estão de braços dados com os banqueiros que você tanto quer agradar. — disse, levantando-se para ao lado da mãe, tentando ao máximo para que o tom de sua voz permanecesse baixo, evitando maiores escândalos. Ele olhou a mulher nos olhos, mas a íris gélida e hipnótica não expressava remorso algum diante do que fora dito. — Mas você não vai fazer isso, vai? — questionou, a voz grosseira e áspera saía por entre os dentes. — Olha bem em volta... — argumentou. — Entre todas essas pessoas, eu te garanto que a última que iria manchar alguma coisa é ela. — completou, a expressão no rosto de Mateo não só era de indignação mas como ódio, estava profundamente irritado com as colocações feita pela própria mãe. — Você, mais do que ninguém, sabe disso. — os olhos castanhos de Teo acompanharam toda a figura de Olivia, dos pés à cabeça, para em seguida olhar para Guadalupe, atônita e acuada do outro lado da mesa. — Mas você pode ficar à vontade pra cortejar todos os porcos com o milho, nós vamos embora. — respondeu, enquanto aguardava pela garota, que recolhia seus pertences que estavam à mesa. Se antes já queria sair o mais rápido possível dali, agora então, mal podia esperar para nunca mais pisar dentro do restaurante da família outra vez.
guadalupe-lmendiola:
Embora Catalina direcionasse suas palavras principalmente a Guadalupe, ela sentia que na verdade nenhuma era verdadeiramente para si, e por isso seus olhos alternavam entre Mateo e sua irmã como se assistisse a um jogo de pingue-pongue. Ela parecia simpática, e alheia às tentativas reais da moça, Lupe não entendeu o motivo de Laredo parecer tão desconfortável com a presença da irmã. Claro, ela tinha um jeito que transparecia uma confiança quase próxima demais de um narcisismo, mas até então, também tinha o latino a sua frente. A menção sobre a quantidade de álcool consumida deixou a mexicana desconfortável, e ela se encolheu um pouco no lugar, não desejando estar no meio de um assunto como aquele. Teria a moça problemas com o consumo daquela substância? Inevitavelmente se recordou de uma família vizinha que precisou lidar com o alcoolismo da matriarca, ainda se lembrava das noites de gritaria que atrapalhavam seu sono enquanto uma muito transtornada e fora da realidade mulher gritava e brigava com todos os habitantes da residência. A Gil Blanco encarou o irmão desgostosa diante da insinuação, principalmente por não estar tão longe da realidade. Ela havia tomado uma quantidade considerável de álcool, embora não o suficiente para deixá-la tonta, já que se encontrava resistente até demais. Seria mentira se dissesse que não encontrava um certo conforto consumindo tais tipos de bebida. Semicerrou os olhos, mantendo o mesmo sorriso forçado que antes. “Que bom. Você também está ótimo.“ Ela se virou para Guadalupe uma última vez. “Acho que tenho você a agradecer por alguns hábitos que ele deixou de lado. Já estávamos preocupados.“ Tudo era um enorme blefe, mas pelo jeito tímido e gentil de Lupita, e a maneira como este divergia em sua totalidade de outras mulheres com quem já vira o irmão, sabia que qualquer coisa que incentivasse num sentido de colocar um peso grande naquele relacionamento deixaria o irmão irritado. Agir como se ela o tivesse mudado positivamente? Perfeito. E teve exatamente o efeito buscado, pois Mendiola, embora tivesse controlado suficientemente o sorriso, sentiu-se satisfeita com a constatação.
“Bem, nos falamos depois, cariño. Temos muito pra conversar.” Ela disse então, para a mais nova, piscando para Mateo em seguida antes de finalmente se retirar, voltando a mesa que partilhava com o mais novo dos irmãos Gil Blanco. Dante, que havia observado o início do apocalipse de longe, aproximou-se apressado em conjunto com uma das garçonetes, já imaginando que nada de bom se encontrava nas intenções de Catalina, e o rosto contorcido e vermelho do equatoriano apenas comprovava aquilo. A moça uniformizada ao lado do turco trazia dois pratos, colocando-nos em frente a cada um dos convidados. “Bem, essa é a entrada. Isso é Dolma, arroz e carne envolvido em folha de videira.” Explicou, e nos pratos haviam quatro daquelas iguarias para cada, em tamanho pequeno. A garçonete se retirou, mas o homem permaneceu ali a fim de colocar um pequeno copo contendo um líquido transparente, que lembrava muito uma vodka. “E para você, Raki. Eu acho que vai precisar.” Comentou, prensando os lábios com uma expressão empática, afinal, ele conhecia a família colombiana muito bem. Voltando-se para a Mendiola, Dante sorriu. “Bom apetite. Logo serviremos o prato principal” avisou, retirando-se de perto do casal para dar atenção a outros detalhes do evento e a outros convidados, bem como os causadores da necessidade de Mateo em beber um pouco mais.
Com a disposição da comida estrangeira na mesa, Guadalupe praticamente esqueceu de toda a estranheza da conversa com a irmã do latino, mas claro, não das informações às quais se agarraria tal como um bote salva vidas por muito tempo: Ele havia falado dela. E bastante, aparentemente. Não somente isso, mas também agia diferente - melhor - por conta dela. Poderia finalizar a noite ali mesmo e já seria um encontro maravilhoso, descobrindo tais coisas e conhecendo os familiares (não que ela tivesse muitos outros para comparar). Olhou para Mateo e, embora discordasse do exagero da substância que continha no vinho e no tal Raki, não pôde evitar achar graça na maneira que ele pareceu apenas se recuperar da conversa com Catalina bebendo aquilo. Irmãs eram complicadas, não importava o quão diferentes eram as famílias. E daquilo, Guadalupe muito entendia. — Parece meio estranho. — Inclinou-se para sussurrar, encarando os charutos de folha de videira dispostos a sua frente, mas então pegou um deles na mão, como via as mesas em volta fazerem, e provou o alimento. Era um sabor totalmente diferente dos costumeiros temperos latinos que normalmente comia em sua casa ou do gosto dos hambúrgueres consumidos eventualmente na lanchonete, gordurosos como as comidas americanas eram. Franziu levemente o cenho antes de encarar Mateo, esperando finalmente engolir aquele pedaço para comentar. — Isso é maravilhoso. Nossa. — Encarou o pequeno alimento nas mãos, comendo mais um pedaço - dessa vez um pouco maior. Não havia imaginado que a comida do local tivesse um sabor tão genuíno, quase que caseiro. E normalmente não tinha, de fato. Mas aquela culinária específica era de tanto valor para Dante que ele quis garantir que nada fosse feito como a linha de produção que, inevitavelmente, um restaurante enorme como aquele se tornava. Assim, cada um dos pratos era feito com atenção redobrada e verificado pelo chef. — Que mi mamá não me escute, mas acho que essa é uma das melhores coisas que eu já comi.
Conforme as palavras deixavam os lábios perversos da irmã mais nova, Mateo sentia o ar do amplo salão comprimir-se cada vez mais, os pulmões pareciam se contorcer em desespero, buscando por uma saída que lhe trouxesse alívio e a calmaria de novo — a sensação nervosa e quase agoniante lhe apertava o peitoral, o corpo parecia ter desaprendido como se realizava a troca respiratória e a rapidez com a qual ele entornava doses e mais doses de vinho não pareciam ajudar em nada. A origem de sua preocupação advinha da imprevisibilidade de tópicos escolhidos pela irmã, é claro que ela não iria entregar os segredos sórdidos e criminosos da família, nem muito menos entregaria o irmão como mandante de um poderoso esquema de tráfico internacional, mas era interessante observar como dentre todos os erros e pecados cometidos pelo primogênito, ou melhor dizendo, crimes, não eram exatamente estes que preocupavam Laredo naquele momento, mas sim o desejo quase que sórdido da irmã de vingar todas às vezes às quais ele ousou chamar-lhe a atenção pelos erros que já cometera. A verdade é que se fosse qualquer um ali: um estranho ou somente alguém que ele realmente não desse a mínima, muito provavelmente aquela não seria em nada sua reação e não teria vontade agarrar Lina pelos ombros e a sacudir até deixa-la completamente tonta, mas tratava-se de Lupita, e por mais que odiasse admitir, Catalina o conhecia o suficiente para ler por entre as linhas e entender que, pela primeira vez na vida, Teo realmente se importava com alguma coisa além de si mesmo.
Entre uma ofensa sutil e outra o olhar de Mateo acabava por desviar-se do arranjo decorativo que adornava a mesa e direcionava-se até Guadalupe, que parecia prestar atenção naquilo que era dito pela irmã e continha uma expressão de preocupação conforme as palavras ácidas da intrusa perfuravam o diálogo dos três. O equatoriano inclinou-se em direção à mesa, apoiando o cotovelo direito sobre a mesma e em seguida usando os dedos para apoiar a testa, denunciando o estado de sua paciência diante do que era dito pela mais nova. Com os olhos semicerrados ele observava a taça de cristal manchada pela cor púrpura deixada pela bebida que minutos ele terminara de beber, ansiando que algum garçom desavisado passasse por ali e o servisse de qualquer coisa alcoólica que o pudesse fazer se desligar do que quer que fosse que estivesse acontecendo. — ¡Por dios! — ele suspendeu a cabeça, questionando a si mesmo até onde aquilo iria. A expressão de satisfação no rosto cínico de Catalina expunha com orgulho que ela havia atingido seus objetivos com maestria: havia não só enfiado um monte de expectativas na cabeça de Lupita às custas de uma falsa realidade completamente utópica, como também enfiou o irmão mais velho em uma situação à qual ele dificilmente conseguiria sair, isto é, sem estragar absolutamente tudo. — Mais!? — exclamou, assistindo Lina afastar-se da mesa aonde estavam sentados sem mais nem menos, deixando seu rastro de destruição para trás.
Não demorou muito para que os pratos começassem a chegar, e para a felicidade de Mateo, as bebidas também, era exatamente aquilo que ele precisava — a bebida, porque era a única coisa capaz de ajuda-lo a ter de lidar com a família que tinha e os pratos, porque enquanto o jantar estivesse sendo servido aquilo ocuparia Catalina e os outros ocupados demais para quaisquer interrupções, e assim que Guadalupe desse a última garfada na sobremesa eles estavam prontos para fugir daquele caos, pensou. Quando Dante se aproximou e serviu a bebida incolor em um novo copo de cristal, Mateo soltou um suspiro aliviado, mas torceu para que a jovem do outro lado da mesa não o ouvisse, já que graças às declarações de Catalina essa poderia vir a achar que ele tem algum tipo de problema com bebida. O chef explicou o prato posicionado à frente de ambos e, embora não fosse um grande fã de comida turca, ou sequer conhecesse nada sobre, tinha de admitir que o perfume era magnífico. Ele ergueu o copo de Raki e observou a latina por alguns instantes. — Um brinde, à sua coragem de encarar minha família completamente disfuncional. — ele riu, e em seguida saboreou a bebida, sentindo o leve sabor de uva. Não pode evitar, senão, sentir-se relaxado após um gole da bebida, cujo licor escorria por sua garganta, esquentando-a, para depois o provocar uma sensação gostosa e inebriante. — Eles podem ser um pouco... demais, às vezes. — disse, sabendo muito bem que “pouco” não chegava nem perto de descrever a psicopatia que acometia os Gil Blanco.
O comentário feito pela outra o divertiu, e uma risada mais alta do que o necessário se fez — a concentração alcoólica da bebida turca deveria ser mais alta do que este estava acostumado. Ele ainda não havia provado os pequenos charutos de Dolma, como havia dito Dante, ao invés disso acabou distraindo-se com a reação quase que ingênua da garota, que mesmo saboreando folhas de videira conseguia atrair toda a atenção para si. Ele também experimentou a pequena iguaria, sendo obrigada a concordar com a opinião de Lupe, ainda que a aparência do prato fosse singela, a pequena trouxinha era umas das coisas mais saborosas que já havia experimentado, e ainda que o restaurante fosse apenas uma fachada para os negócios escusos da família, a estratégia de ter um chefe de cozinha tão talentoso como Dante ajudava, e muito, a mascarar as ilegalidades que ocorriam por detrás das portas. Ela comentou sobre a comida de sua mãe, o que fez Mateo se lembrar de que quando eram menores, eles e os irmãos, a governanta da cobertura dos Gil Blanco — dona Miguelita — era a responsável por todas as refeições na residência da família, já que Olivia não sabia nem ao menos acender o fogão, ou sequer sabia o caminho para a cozinha do gigantesco apartamento. — O Dante é até manda bem mas una señora y sus carnitas? — disse, lembrando-se da maneira como Miguelita preparava seu prato preferido na infância. — ¡Ay! — exclamou. — Nada supera. — completou, com uma risada discreta.

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guadalupe-lmendiola:
— Ok, você tem um bom ponto. — Reconheceu, a respeito de sair de um restaurante para o outro. O que a lembrou que ainda não havia falado com ele sobre sua mudança de emprego, e percebeu que não sabia se ele se importaria com tal coisa. Não que ela fosse dar detalhes sobre sua opção - afinal, muitas coisas desagradáveis precisariam ser partilhados se o fizesse: a ilegalidade dos pais, a falta de dinheiro, o médico de sua mãe realmente acreditando ter alguma chance de ser pago de outra maneira. Mas, bem, se eles caminhavam para algum tipo de relacionamento, o que tudo indicava para a jovem Guadalupe que sim, seria o tipo de coisa a se conversar, não? — Mas isso nem parece um restaurante. Esse sofá é mais confortável que a minha cama. — Embora o tom fosse jocoso, ela não brincava. A poltrona em que se encontrava era ridiculamente confortável. — E eu não estou mais trabalhando como garçonete. Nem na lanchonete, nem no bar. Eu consegui uma vaga de assistente pessoal de um executivo. — Explicou, levemente animada. Podia ser uma situação um pouco estranha tudo o que havia acarretado no trabalho em si. Perguntou-se o que o homem pensaria se descobrisse que trabalhava para o mesmo cara que a havia vestido como princesa para a festa da herdeira Bennet. Para evitar qualquer atrito desnecessário, deixou aqueles detalhes de lado. Sobre sua pesquisa na internet, ela deu risada com a fala do mais velho, bebericando o vinho em seguida. — Em minha defesa, eu só fiz isso porque não era possível eu ser a única que não reconhecia o sobrenome! Sério, toda vez que eu falava de você para uma amiga, era como se eu estivesse saindo com um ator famoso ou sei lá. — Tentou se defender, só então percebendo em como havia, em poucos segundos, se envergonhado pelo menos duas vezes: o que pensaria ao saber que Guadalupe saíra por aí falando sobre ele para seus amigos? E mais, eles estavam saindo? O que estavam fazendo, afinal? Para onde tudo aquilo caminhava? Sem a menor intenção de se encontrar pensando demais sobre aquilo, bebeu mais um gole, desta vez considerável, da bebida adocicada.
— Mas sabe, a sua família é como você. Digo, reservada. Não encontrei nada sobre você e nem sobre eles. — Comentou, achando prudente deixar de lado o fato de que realmente havia procurado por familiares dele. Não poderia haver algo de errado em uma menina tentando se manter informada, poderia? — Apenas encontrei algumas menções a seus pais quando falando do restaurante. Agora, o chef. — Pausou para uma risada, olhando em volta para verificar se ele estaria por perto. — Ele parece muito confortável com a internet. — Fez piada, lembrando-se da maneira como ele parecia ligado em todas as redes sociais do momento, especialmente as que lhe permitiam postar fotos de si mesmo. Não que Lupe reclamasse, claro, e certamente nenhuma outra mulher. A família Mendiola sequer precisava tentar ser discreta, afinal, não era como se estivessem na mira de qualquer tipo de paparazzis.— Mesmo assim, parecem uma família bem normal. — Cerrou levemente os olhos, olhando em direção à mesa por cima dos ombros do latino, antes de explicar seu comentário. — Sabe, eles estão olhando pra mim desde que a gente sentou. Curiosos, como uma família normalmente é. Eu entendo bem. — Disse então, outra vez rindo da situação. Isto porque ela bem sabia como os próprios pais se comportariam em qualquer situação semelhante, e realmente não se importava. Claro, se preocupava com as opiniões. Eles podiam muito bem comentar entre si a falta de classe ou postura da Mendiola, e ela esperava mesmo agradá-los. Sem mover muito a boca a fim de evitar qualquer leitura labial, inclinou-se um pouco na direção do acompanhante. — Principalmente aquela ali, de preto, acho que logo menos ela levanta e vem aq…Ah. — Ajeitou-se sem graça, recostando na poltrona. — Ela está vindo.
Catalina se aproximou com um sorriso que, quem a conhecesse, consideraria perigoso. As inúmeras vezes que Mateo brigara consigo por conta de eventuais casos envolvendo pessoas que não daquele meio ou imediatamente descartáveis - como suas amizades, por exemplo - se repetiam na mente da jovem colombiana enquanto o via jantar calmamente com uma moça claramente deslocada. Lina podia não ter como maior foco as coisas supérfluas da vida luxuosa como muitos herdeiros de grandes dinastias em Chicago faziam, mas a vida recheada de regalias garantiam um conhecimento suficiente para saber apenas pelas vestes que a moça não se encontrava nem mesmo em uma classe média. Parou ao lado da mesa, decidida a se vingar do irmão por todas as merdas que precisara ouvir a respeito de suas escolhas. E faria isso da maneira mais embaraçosa para ele possível: dando esperança a quem provavelmente não passava de um caso de uma noite só. “Olá!” Cumprimentou, esticando a mão na direção da mais jovem. “Catalina Gil Blanco. É um prazer.” Completou, e logo Guadalupe respondeu, apresentando-se igualmente e com um sorriso um tanto nervoso no rosto. “A famosa Guadalupe!” Catalina repetiu, como se de repente o nome a lembrasse de algo. “Ouvi tanto de você. Mateo não me deixou em paz um minuto! Era o tempo todo: ‘Nossa, a Guadalupe é tão bonita’, ‘Adoro passar tempo com ela’” Mentiu, imitando a voz rouca e arrastada do irmão. “Por isso fiquei surpresa quando ele não me disse que viria!” Prosseguiu, agora olhando para o mais velho. “Devia ter me falado que sua namorada vinha, Mateo, assim eu me arrumava melhor.” Blefou, colocando no rosto o melhor sorriso cínico possível, saboreando a palavra “namorada”. Diante de tudo aquilo, Lupe primeiro estranhou o que lhe fora dito, por não esperar nada do tipo vindo do Gil Blanco, mas logo foi preenchida com uma alegria que foi inevitável conter o largo sorriso. Não era a única que falava sobre ele, então. É, talvez soubesse sim para onde tudo aquilo entre eles caminhava. — Como assim? Você está linda. — Elogiou, para o que Lina se virou para a garçonete - agora assistente -, assentindo como se não fosse surpresa alguma aquela constatação. “Gracias. Sabe, minha mãe está morrendo de vontade de te conhecer.” Agora um pouco mais nervosa ainda, a mexicana sorriu sem graça, olhando em volta como se buscasse a mulher, mesmo que nem mesmo se lembrasse como ela parecia - devia ter visto mais fotos na internet! — Eu adoraria conhecê-la!
O sorriso largo e eufórico que adornavam o rosto de Mateo naquele mesmíssimo segundo divergiam completamente do estado de espírito arrogante e sisudo que o equatoriano costumava apresentar quase que a todo momento, além da companhia prazerosa de Guadalupe, é lógico, a bebida que bebericava cumpria seu papel em relaxar-lhe todos os músculos, dentre estes os da face, que permitiam que a simpatia e gentileza transbordassem o sorriso como há tempos não acontecia. À medida que o rapaz degustava as notas secas e adocicadas da bebida tingida, uma sensação aprazível tomava conta de seu eu, e apesar da tarefa muito bem sucedida da bebida de o embriagar o suficiente para que ele pudesse transcender todas as paranoias que preocupavam sua cabeça, o mérito de Lupita tinha de ser reconhecido: o tom de voz da jovem, tão doce quanto o do néctar das uvas que umedeciam seus lábios, colaboravam para inseri-lo ainda que em um átomo de momento, numa ocasião afetuosa marcada pela afinidade entre os dois jovens latinos. O olhar sincero e sedutor, além da musicalidade agradável de sua voz, guiava a atenção de Teo para todos os pequenos detalhes emitidos pela garota, compartilhando com ela as mesmas risadas e olhares interessados — estava absolutamente entregue aos seus domínios.
— Eu adoro a sua cama. — ele disse, logo em seguida envolvendo os dedos no corpo de cristal da taça, levando-a à boca e dando um gole gentil da bebida saborosa, espiando a imagem de Lupita à sua frente. O olhar derretido estampado na íris castanha dos olhos de Mateo não falhavam em denunciar o efeito que a garçonete tinha sobre ele, mas quando ela mencionou a mudança repentina em sua ocupação, ele piscou confuso, erguendo uma das sobrancelhas. Algo como um “Ah” escapuliu os lábios rosados do homem antes que ele pudesse notar, e as costas voltaram a deitar-se sobre o encosto confortável da cadeira. — Um executivo? — a frase nem tanto tinha a intenção de buscar por uma resposta, ainda que ele estivesse ansioso por uma explicação, mas de ajuda-lo à compreender se aquilo era mesmo o que ele havia ouvido segundos atrás, e nem mesmo a quantidade mínima de palavras que deixaram sua boca foram capazes de esconder o tom de surpresa e curiosidade que acompanharam a frase. “Oras, um executivo? Que faz ela com um executivo?” — ele pensou consigo mesmo, sendo que a última palavra tratou de zombar do significado da palavra. O Gil Blanco tentou manter o semblante neutro a todo momento, preferiria a morte a demonstrar qualquer sinal de fragilidade, mas a surpresa à qual fora acometido com a revelação da morena fizera o sabor doce do vinho tornar-se amargo, e o paladar de Laredo fora tomado por ciúmes.
A fala da jovem saiu com tamanha naturalidade que ele decidiu acompanhar o fluxo da conversa sem se ater de modo tão óbvio ao o que ela dissera instantes atrás, mas é claro que seu consciente exigia — com que direito? — maiores explicações sobre a identidade do executivo. O questionamento continuou a perturbar seus pensamentos, mas acabou partindo para segundo plano quando a jovem respondeu sua provocação a respeito dos resultados obtidos por ela em sua meticulosa busca por respostas. Ele deu risada com o comentário feito pela outra, desviando o olhar rapidamente para logo em seguida retorná-lo ao seu objeto de interesse. — Você foi a fundo mesmo, perguntou até pros outros. — o som discreto e rouco da voz de Mateo foram seguidos de um suspiro, para no fim beliscar o lábio inferior discretamente. A menção de sua família fez o rapaz desviar os olhos para a mesa próxima a eles, na qual sentava-se apenas Catalina e um dos irmãos mais jovens. Ele riu mais uma vez. — É, bem reservada. — o tom irônico predominou a resposta que ele oferecera à outra, e então levantou os dois braços fazendo referência à decoração exuberante e ao número exorbitante de convidados que prestigiavam o restaurante da família. Não só isso, mas a colocação da garota também o fez rir, “como você” ela disse, mas sobre isto ele não teceu demais comentários, apenas terminou de dar o último gole do vinho.
Aquela deveria ser apenas sua segunda taça, não estava contando, mas fora isto ou a expressão utilizada pela latina que o levaram à uma gargalhada um pouco desproporcional, já estava levemente embriagado — havia tanto que ela não sabia, e nem nunca viria a descobrir que o estado ao qual ele se encontrava estampava a comicidade infame da vida absolutamente absurda à qual Mateo vivia. Ela disse não ter encontrado mais informações sobre a família online o que o trouxe um certo alívio, este que percorreu sua garganta com um suspiro esbaforido que acabou por embaçar a taça de vinho que estava à sua boca; estava meio apreensivo porque por mais que os esforços, esses talvez não tão bonitos, de Olivia para manterem os negócios da família privados eram suficientes mas vez ou outra alguma notícia um pouco mais escandalosa acabava por vazar em algum canal de notícias locais, o que fazia com que por alguns dias os Gil Blanco se retraíssem em suas tocas como lobos no inverno, até que fosse seguro sair de novo. Mas para sua tranquilidade, mais uma vez, o assunto fora direcionado para algo menos perigoso — na verdade, essa a imagem que se desenrolava em sua cabeça: Laredo tinha certeza que todas as observações levantadas por Guadalupe tinham uma natureza ingênua que, apesar de curiosa, não iam muito além de uma tentativa de recolher algumas informações inofensivas, mas para ele, é como se uma bela maçã, suculenta e vermelha, estivesse apoiada sob o topo de sua cabeça enquanto Lupe, do outro lado da sala, mirasse com a ajuda de um arco, diversas flechas em chamas em direção à sua cabeça, como em um jogo doentio de perguntas e respostas levadas ao extremo, onde qualquer elemento fora do lugar poderia levar o rapaz a terminar a noite com uma flecha em chama no meio da testa.
O delírio absurdo que tomava conta de sua atenção acabou por ruir quando a garota alertou-o de que alguém não parava de encará-la, e quando pôde se dar conta do que Lupe estava falando já era tarde demais, e então a imagem de Catalina se fez aos eu lado, exatamente como a latina havia descrito segundos atrás. Mas antes que pudesse virar-se em direção à irmã mais nova e impedir qualquer que fosse a abordagem sinistra que ela estivesse planejando, a voz da mesma invadiu seus ouvidos e ele entendeu que era tarde demais. Rapidamente Catalina se apresentou à Lupita, tão apressadamente que Teo se viu imóvel por algum tempo até que restaurasse consciência do acidente que a irmã poderia provocar. — Mi hermana. — o tom utilizado pelo equatoriano não poderia ser o mais desconfortável, áspero e propositalmente incômodo, adotando a expressão na língua materna como sempre fazia quando estava de cabeça quente e irritado. No minuto em que a mais nova disse o nome da garota, Mateo não pode evitar o olhar impaciente e tedioso que a irmã lhe causava, expressando seu descontentamento com a outra sem nem se importar se aquilo deixaria as coisas mais esquisitas ainda — Catalina já tinha o martelo nas mãos e só iria parar assim que martelasse o último prego no caixão do irmão. E ainda que conhecesse a índole travessa e irritante da outra, sabendo que ela faria de tudo para deixá-lo o mais envergonhado possível na frente da jovem garçonete, afinal ele fazia o mesmo sempre que tinha oportunidade, Mateo não imaginou que o golpe seria tão sujo e quando essa começou a falar, sugando todo o oxigênio do ambiente, ele passou a sentir o rosto esquentar, mas que não haja engano: nada era de timidez ou vergonha, por mais que ela fizesse questão de o embaraçar, mas sim de raiva. Ele olhou nervoso para a taça de vinho praticamente vazia que repousava ao lado direito da mesa, e enquanto tentava controlar a situação — obviamente em vão — seu impulso era de virar uma garrafa inteira de vinho tinto para conseguir digerir todas as palavras que saiam da boca da irmã, revirou a cabeça em busca de um garçom desavisado capaz de ajudá-lo mas a sensação era de que estava isolado prestes a ter um desastre acontecendo bem diante de seus olhos. — Como eu disse, muy aburrida... — a frase soou mais como um murmúrio, e então ele olhou para a jovem do outro lado da mesa enquanto maneava a cabeça. Ele apoiou um dos cotovelos na toalha de mesa branca e então descansou a ponta dos dedos na testa, mas tinha de reconhecer: Catalina sabia muito bem como cutucar até o último nervo de seu corpo. Quando ela fez uso da palavra namorada sua vontade foi de segurá-la pelos ombros magros e finos e empurrá-la de volta para o buraco de onde tinha saído, mas do outro lado da mesa estava Lupita, e por mais que esta não fosse sua namorada, Deus não, ainda assim ele se importava o suficiente para não passar a impressão errada. — Não, nada disso. Você tá ótima. — disse, olhando para a mais nova. — Levando em conta que você bebeu o quê? Cerca de cinco taças até agora? Isso aqui, né? — ele decidiu usar o mesmo tom que a irmã, dançando ao som da mesma melodia. — Eu só não recomendo falar tão perto assim porque aí dá pra sentir o Martini e o rum, mas fora isso mal nota-se que você tá bêbada.— disse, calando-se logo em seguida. Ao olhar para a Guadalupe, Mateo fez uma expressão cabisbaixa, balançando a cabeça de um lado para o outro buscando se referir a irmã. — Ah, olha lá. Acho que eles vão começar a servir o jantar, porque nós não deixamos isso pra depois? — disse, percebendo que o chef se aproximava da mesa. — Tenho certeza de que Olivia não vai fugir. — a impaciência do homem era notável. — Infelizmente... — disso em um volume baixo e abafado, desejando apenas que aquela tortura se encerrasse.
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O sorriso que acompanhou o agradecimento do equatoriano não lhe era desconhecido, muito pelo contrário. Era o mesmo puxar de lábios característico que antecipava seus comentários recheados de segundas intenções, os quais ela tanto achava graça, assim imaginou que ele provavelmente havia decidido de última hora proferir somente a palavra educada e seguir o caminho em silêncio. Desviou seus olhos tal como o mais velho, encarando a rua iluminada pelos diversos postes e faróis de veículos no trânsito relativamente cheio no centro de Chicago, logo reconhecendo a fachada que vira nas inúmeras fotos que encontrara no site do restaurante Gil Blanco. Inclinou-se um pouco como que para enxergar melhor, embora fosse tão grande e iluminado que sequer precisava mexer um músculo para verificar cada detalhe do extravagante estabelecimento. Novamente se sentiu nervosa, por uma mistura de motivos que a deixavam insegura naquela noite. Pareceria tão nitidamente deslocada entre os mais ricos da cidade? Podia estar bem vestida, sim, mas o pano negro de setenta dólares não poderia competir com vestidos e saltos de grife. Além do mais, não sabia o mínimo sobre etiquetas de mesa. O que raios estava fazendo ali, afinal, insistindo tanto para mergulhar em um mundo que não era dela, e jamais seria? Franziu levemente o cenho, recostando-se de volta no banco enquanto considerava seriamente aceitar a proposta de Mateo em deixar todo aquele plano de lado e simplesmente ir em algum lugar que pudessem ficar a sós. Sim, seria muito melhor não ser notada por ninguém. Poderia sugerir até que conhecesse o local apenas após o horário de funcionamento, quando todas as luzes apagadas e a falta de clientes a impedissem de passar qualquer vergonha em público.
Seus pensamentos foram interrompidos somente quando um funcionário abriu a porta do carro, e ela se retirou do veículo arrumando uma outra vez o vestido que teimava em subir um pouco pelas pernas grossas. Parada na frente do automóvel, os olhos de Guadalupe somente conseguiam focar em uma coisa: os inúmeros flashes captando os mínimos movimentos dos importantes convidados para aquela noite. Ah, ótimo. Ela não jantaria somente próxima de pessoas ricas. Ela jantaria próxima de pessoas ricas, importantes e famosas. Genial, Guadalupe, simplesmente genial. Quando sua mão fora agarrada pela de Mateo, precisou piscar algumas vezes para sair do breve transe em que se encontrou encarando os paparazzis, e apertou a mão do homem enquanto evitava olhar na direção de qualquer câmera. Não que, mesmo em seus sonhos, seria alvo de interesse de algum daqueles fotógrafos, mas estando com o herdeiro do lugar achou melhor abaixar os olhos e evitar qualquer atenção indesejada. A caminhada até a parte de dentro do estabelecimento fora curta, não mais do que dez passos, mas parecera longa demais para uma cada vez mais ansiosa Mendiola. Quando a porta atrás de si fechou, abafando a gritaria do lado de fora, todo o resquício de nervosismo se esvaiu imediatamente. Não por se acalmar, exatamente, mas porque simplesmente não havia lugar no pequeno corpo para aquilo quando este se encontrou absolutamente maravilhado diante do espaço que observava. Os olhos brilhantes que pareciam ter dobrado de tamanho encaravam o local como se estivesse diante de uma obra de arte, e de certa forma, era o que parecia. Enquanto se ajeitava ao lado de Laredo, observava as mesas bem decoradas, os sofás que aparentavam ser muito confortáveis e os belos pratos dispostos diante de pessoas muito bonitas e bem arrumadas. Logo uma voz pronunciou o nome de seu acompanhante, e instintivamente Lupita se virou em busca de quem o havia chamado, dando de cara com um homem apenas alguns centímetros mais baixo que Mateo, no entanto muito mais velho e, sinceramente, sem muita semelhança além da óbvia herança latina. Quando mencionou Olívia, Guadalupe presumiu que seria Pablo, seu pai. A simpatia que emanava do homem lembrou um pouco o da própria mãe, também sempre muito animada ao conhecer as pessoas. — Guadalupe. Muito prazer — Cumprimentou o homem com um sorriso grande demais, mas nem um pouco falso. O homem então os levou até onde uma enorme mesa estava inteiramente ocupada, cheia de pessoas conversando. Recebeu olhares curiosos de cada uma delas, que devolveu com um leve acenar sem graça.
Àquele ponto, a animação de estar em um lugar tão bonito e aparentemente rodeada dos familiares de Gil Blanco haviam sufocado todas as inseguranças e incertezas e deixado apenas uma muito animada Lupe. A mais nova se ajeitou, sentando-se à mesa que ficava apenas um pouco afastada da enorme aglomeração, o suficiente para que as vozes altas não atrapalhassem qualquer conversa que o casal pudesse ter, enquanto que ainda permitia uma visão de toda aquela gente. Antes de falar qualquer outra coisa, o homem saiu rapidamente a fim de resolver algo do outro lado do salão, e só então a latina desviou o olhar para seu acompanhante, também rindo ao final de sua frase provocativa. — Tá brincando? Aqui é demais. — Comentou, olhando em volta outra vez como se os últimos minutos absorvendo cada detalhe não tivessem sido o suficiente. — Sério, o restaurante é lindo. Como que você não começa toda conversa falando disso? — Brincou, então encarando a mesa que tinha uma quantidade extravagante de talheres. Estava prestes a fazer alguma piada sobre não saber qual utilizar, como uma válvula de escape pela vergonha de realmente não entender sobre o assunto, mas foi interrompida pela figura masculina alta e desnecessariamente forte que apareceu por perto. “Mateo!” O homem exclamou animado, cumprimentando o equatoriano com um meio abraço combinado com alguns tapinhas nas costas. “Não sabia que viria.”O chef do local constatou, antes de colocar os olhos em Guadalupe, arqueando as sobrancelhas em clara surpresa. “E com uma garota!” …que não parece uma stripper, foi o que o turco completou mentalmente, antes de cumprimentar a mais jovem com um beijo galante nas costas da mão. Ela não precisou de muito para reconhecer Dante, quem havia visto em varias fotos relacionadas ao local - “Bastante saudável o moço, não?” lembrava-se da irmã dizendo, e tinha certeza de que María adoraria conhecê-lo pessoalmente. Ele se apresentou, para o que a mais nova também o fez. “Vou pedir uma bebida pra vocês” Avisou, fazendo um sinal com a mão para uma garçonete se aproximar. Pediu então algo que Lupita não saberia pronunciar, mas que aparentemente era de 73, o que a fez imaginar que seria um vinho. O turco então entregou dois cardápios, fazendo questão de atender ele mesmo o casal tanto pela animação de ver Mateo que nunca comparecia àqueles eventos quanto pela curiosidade ao ver que ele tinha realmente levado uma moça para um lugar com a mínima sombra dos pais e dos irmãos. Dante já podia até escutar em sua mente os comentários de Catalina mais tarde. “Os pratos que estão aí serão servidos somente essa noite.” Explicou, e então a jovem passou o olho brevemente sobre os nomes, franzindo o cenho em confusão. Os nomes estavam em turco, e continham uma imagem que não deixava muito claro o que tinha em cada prato. — Hm…eu não conheço nada dessa culinária. — Admitiu, sem jeito — O que você recomendar tenho certeza que será ótimo. — Finalizou, a fim de não deixar sua situação tão embaraçosa. O cozinheiro pareceu apreciar as palavras, e de fato o havia feito. Quase nada animava mais Baryak do que alguém confiando cegamente em seus dons culinários. “Já sei exatamente o que servir para vocês.” Disse então, piscando para a jovem. Guadalupe até reconhecia que o cozinheiro era muito charmoso, além de obviamente bonito, mas apenas um homem ocupava sua mente naquela noite e ele estava a sua frente, não parecendo retribuir o mesmo nível de amabilidade provindo de Dante - embora este parecesse alheio àquele detalhe. O cozinheiro então os deixou “à vontade”, de acordo com suas exatas palavras, e retirou-se dali. Minutos depois a mexicana constatou estar certa sobre o palpite da bebida, enquanto duas taças eram preenchidas com o líquido avermelhado por uma moça uniformizada e muito bonita. Finalmente à sós, ela conseguiu respirar com mais calma e dedicar sua atenção ao latino. — Não acredito que queria esconder isso de mim.
Diante da recepção espalhafatosa e opulente à qual foram submetidos assim que pisaram na fachada do estabelecimento, Mateo não dissera nada além de uma risada seca e desgostosa, acompanhada de um sinal de reprovação transmitido pelo movimento negativo que sua cabeça fazia, agora, já seguro do lado de dentro — será mesmo? — e na companhia da garçonete que ainda segurava com força a sua mão. Ele olhou mais uma vez para trás, através das janelas enormes de vidro blindado, é claro, e pelas cortinas tão brancas quanto às luzes que penetravam a vitrine do restaurante dos Gil Blanco, observando os homens com suas câmeras fotográficas que deviam pesar alguns quilos, empurrando uns aos outros como animais e a agitação patética que faziam sempre que uma mulher em seus vinte e poucos anos descia de um carro na companhia de um velho moribundo, provavelmente algum magnata do petróleo ou um senador corrupto. O circo que se armava do lado de fora, entretanto, não lhe surpreendia em nada, era do gosto da mãe e da irmã caçula aquele tipo de demonstração suntuosa, e para ele tão desnecessária, e ainda que houvesse aprendido a lidar com tal espetáculo, Laredo não esperava que tivesse de passar por aquele constrangimento junto com Guadalupe, já que ele se esforçava ao máximo para distanciar sua imagem a aquele tipo de ostentação vazia e tão cafona.
Após sentarem-se à mesa perigosamente localizada próxima ao do restante da família, o rapaz se sentiu aliviado quando Pablo pediu licença e apressou-se a cortejar outros convidados, os deixando à sós, ainda que momentaneamente. Era comum que em situações como aquela onde Mateo deixava escapar qualquer impressão de abertura e intimidade, que o homem se entusiasmasse além do necessário com a oportunidade de uma aproximação com o filho primogênito, podendo tornar qualquer conversa medíocre em uma situação constrangedora e desproporcional. Mas ele era apenas o primeiro a manifestar-se aquela noite, o casal ainda estava à mercê do restante da família e dos demais convidados do evento. Sentado, ele revirou o pescoço pelos arredores do salão do restaurante na procura de alguém que pudesse os reconhecer, enquanto o fazia, pôde ouvir a voz de Guadalupe atravessar o som ambiente que os envolvia, mas não dera muita atenção ao o que ela havia dito, limitando-se a sacudir a cabeça em concordância, soltando uma espécie de “É mesmo?” na esperança de que aquela frase fizesse algum sentido.
Quando ele finalmente voltou sua atenção para a acompanhante que se sentava a sua frente, pode sentir uma mão tocar-lhe um dos ombros, e a voz máscula e empolgada mencionou seu nome, o que o relaxou; era apenas Dante, felizmente. O equatoriano levantou-se para cumprimentar o colega, dividindo com o outro um meio abraço com um sorriso tranquilo0 nos lábios. Não houve sequer tempo para que ele apresentasse ao outro quem o acompanhava naquela noite, já que o turco apressadamente notou a presença da mais nova, exclamando a surpresa de vê-lo acompanhado. Ainda de pé, Mateo deu um tapa mais forte do que o necessário nos bíceps volumosos do colega, apertando-o como quem pedia que o outro se controlasse, lançando um olhar de nervoso ao chefe de cozinha. O homem ofereceu-se para buscar aos dois uma bebida, ao que Laredo concordou prontamente. — Perfeito. — ele disse rapidamente, tentando mascarar o nervosismo que controlava seu corpo naquele momento. Aquele era um sentimento ao qual Teo detestava, ainda mais pelo efeito ameaçador e controlador que este exercia sobre si, o acuando para um canto, vendo-se intimidado por aqueles os quais nem ao menos se importava. O cozinheiro então retornou com duas taças e Mateo tratou de tomar um gole como se sua vida dependesse disso, era exatamente o que precisava, álcool. — Que tal algo um pouco mais forte, hein? — disse, selando os lábios e saboreando o sabor do vinho. Ele prosseguiu por ajudar Lupita com o cardápio, o qual parecia mais rebuscado que o normal, garantindo aos dois a sequência de pratos que os serviria.
Ele os deixou mais uma vez, e dessa vez o latino torcia para que fosse por um bom tempo. Ainda que não fosse um grande apreciador de vinhos, ou que sequer os conhecesse direito, tinha de admitir que o sabor seco e levemente pronunciado que o licor deixou em seu paladar era excelente, e que este havia cumprido seu papel de distrai-lo dos pensamentos paranoicos que o perturbava. Ao olhar para frente, estes pareciam distanciar-se ainda mais à medida que o homem vira o sorriso bonito e charmoso estampado no rosto da garota, o qual ele não pode resistir, retribuindo ele com um sorriso genuinamente carinhoso nos lábios. Ao o que fora dito por ela, ele deixou que uma risada simpática e comedida se fizesse em resposta ao o que fora dito pela outra, pensando consigo mesmo “Você não faz ideia.”. Mais uma vez ele umedeceu os lábios com a bebida bordô, manchando os lábios com o néctar saboroso da uva. — Você passa todos os seus dias em um restaurante... — disse, reclinando as costas na cadeira em que se sentava. — Não imaginei que você fosse gostar de sair de um e ir para outro. — completou, sabendo muito bem que aquela não era a razão para sua intenção de mantê-la alheia sobre o estabelecimento de sua família. — Além do mais eu não conseguiria nem se quisesse, já que você montou minha ficha completa depois de me stalkear na internet. — disse de forma bem humorada, rindo logo em seguida.
guadalupe-lmendiola:
Guadalupe havia escutado, não se recordava onde, que muitos homens tratavam as mulheres com apelidos carinhosos genéricos para evitar confusão caso acabassem se esquecendo de seu nome, ou apenas para se afastar da intimidade que trazia numa conversa tratar alguém pelo nome. Não que fosse o caso, claro, já que Mateo parecia apreciar a repetição do apelido “Lupita”, o qual havia descoberto na noite em que dormira em sua casa. A garota estava, até conhecê-lo, convencida de que aquele tipo de termo pareceria impessoal caso alguém utilizasse consigo. O que descobriu, na verdade, foi o total oposto, já que adorava quando o latino a chamava de nena. Ingenuidade sua, provavelmente, mas cada vez que a palavra deixava a esperta boca do equatoriano, o tom, a pronúncia verdadeiramente latina e o olhar que acompanhavam pareciam feitos sob medida para si, e toda vez que escutava sentia seu interior aquiescer. Ela não sabia se ele se referia daquele modo a todas as mulheres com quem se relacionava, mas a impressão que tinha era de que não, aquilo era dela. Novamente, a ingenuidade da jovem era demasiada.
As mãos firmes do rapaz encontraram o já conhecido pedaço de sua cintura que parecia tão bem aproveitar o toque, e a mais jovem inevitavelmente aproximou o corpo da figura masculina e esguia que, ao desencostar do capô escuro, fez notar a diferença de estatura que nem mesmo o salto ajudava a disfarçar. Apoiou uma de suas mãos logo acima de sua clavícula, perto da curva de seu pescoço. Um sorriso pequeno e tímido pintou seu rosto com o beijo em sua face provavelmente quente, mas este aumentou ao escuta-lo. Uma risada tranquila se fez ouvir em resposta a proposta, e ela balançou a cabeça negando o pedido dele. Oras, havia tido trabalho demais para conseguir um encontro de verdade com o Gil Blanco, não desistiria tão fácil - ainda que uma parte não muito pequena dentro de si parecia concordar com a ideia de simplesmente cancelar tudo e quem sabe se permitir conhecer a residência do mais velho. Fitou os bonitos e brilhosos olhos acastanhados que pareciam lhe despir a alma, para só então reforçar a negação com palavras. — Não. Demorou demais pra te convencer. — Falou, com um tom bem humorado. — E eu estou muito animada pra provar a comida turca. — Admitiu, mordiscando o próprio lábio enquanto em alguns míseros segundos ponderava sobre sua próxima fala. — Gratificação postergada que chama, lembra?
Então, a contragosto do próprio corpo, afastou-se do mais alto para tomar seu lugar no automóvel destrancado. Desta vez não havia uma enorme quantidade de tecidos que lhe dificultava os movimentos, muito pelo contrário: a fina e escura vestimenta não fazia um trabalho tão bom em cobrir seu corpo. Sua mãe, inclusive, realmente desgostava daquele vestido - “curto demais, Guadalupe, não deveria utilizar uma peça dessa, pode passar uma imagem errada.” Podia escutar a voz de Alma reverberar em sua consciência. Ajeitou-se puxando o tecido negro um pouco para baixo, a fim de não revelar nada a mais, e então colocou o cinto de segurança para que pudessem deixar o local, finalmente alcançando o restaurante que ela estava tão ansiosa pra descobrir como seria. E não somente aquilo, mas realmente esperava a oportunidade de conhecer mais sobre a vida familiar de Mateo. Embora este não parecesse exatamente interessado na sua, já havia conhecido todos os membros - com sorte, naquela noite seria sua vez.
Ainda era um mistério para si o rumo que tudo aquilo entre eles tomava. Guadalupe não era burra, realmente tentava enxergar tudo o que ocorria da maneira mais pé no chão possivel, mas infelizmente para si aquilo não funcionava muito bem. Ela tendia a fantasiar demais, ver coisas onde não havia. Não que Mateo não fosse de fato gentil, até carinhoso, com ela, ou que a última conversa dos dois não demonstrara o quão mais aberto o homem parecia diante dela. Mas ela pecava muito ao não notar os inúmeros detalhes que apontavam o problema em que estava se metendo. Alguns não tão detalhes quanto enormes sinais, os quais havia simplesmente decidido ignorar como o fato de tê-lo encontrado sob efeito de alguma droga estirado num beco escuro após uma briga idiota. Justificava para si mesma que provavelmente havia sido algo ocasional, um momento ruim, já que não tivera outro vislumbre do homem em tal situação, mas no fundo sabia que não era um assunto assim tão simples. Talvez pudesse culpar seus pais, quem a havia ensinado a ver o lado bom de tudo e todos, ou apenas a natureza ingênua e romântica da mexicana que podia muito bem ser caracterizada como seu próprio mecanismo de defesa diante de uma vida que lhe apresentava tantas dificuldades. Desse modo, falhava em notar a maneira como o equatoriano na verdade fugia de algumas perguntas, dando a ela o suficiente para se satisfizesse apenas com a impressão de realmente estar se aprofundando num relacionamento. Quase como um irmão mais velho oferecendo um controle de video game desligado para que o caçula fique contente. Teria notado, se não estivesse tão perdida nos olhos bonitos e hipnóticos do moreno deitada no campo de baseball, que ele na verdade não havia sequer falado com todas as palavras com o que raios trabalhava, apenas aproveitado que Lupe escolheu interpretar que seus esforços se direcionavam ao restaurante da família junto ao pai.
Esperou que o carro começasse a andar para abrir a janela e receber um pouco do vento que parecia aliviar o quão quente estava dentro do carro. Antes disso, no entanto, respirou fundo aproveitando o perfume característico do homem que tanto lhe agradava. Recostou a cabeça no banco, olhando para Mateo que dirigia com o rosto para frente. — Gosto do seu perfume. — Comentou, ainda analisando o rosto, achando graça que por tanto tempo o havia observado de longe na lanchonete, sem imaginar que em algum momento a atração platônica se transformaria numa relação tão mais íntima.
O formigamento na ponta de seus dedos cessou no instante em que Mateo tocou o corpo da mais jovem, sentindo como se toda a energia acumulada na palma de suas mãos e que lhe beliscavam as digitais houvesse se dispersado para o restante de seu corpo, viajando por sua corrente sanguínea tão rapidamente que mal pode dar-se conta da sensação calorosa e tão prazerosa que aquele choque havia provocado. Suspirou discretamente quando a palma de sua mão direita repousou calmamente sobre a curva marcada pelo tecido fino e escuro do vestido de Guadalupe, e aquela parecia se assimilar com a posição em que fora colocada, como se ali ela pertencesse. Percebeu como a hipersensibilidade provocada pelo contato entre os dois corpos latinos desencadeou uma sequência de pequenas explosões de adrenalina sempre que estes se aproximavam — aquela sensação não lhe era completamente estranha, anteriormente à Lupita, o mesmo fenômeno o acometia sempre que um fármaco sintético se misturava com os fluídos de seu corpo, o transportando para uma realidade sensorial tão delicada que o toque mais sensível e simplório era capaz de o mergulhar em um estado de transe que por ora parecia não ter fim.
Temia, de certa forma, que aquela era uma resposta de seu sistema nervoso quanto a seus sentimentos pela garota. Era verdade que haviam similaridades entre as sensações descritos, isto é, a de estar inebriado com alguma substância tóxica e de estar na presença da morena, já que em ambos os casos a liberação de hormônios químicos pelo sistema nervoso indicavam o prazer retirado por Mateo das duas atividades. Oras, não era nenhum médico ou profundo conhecedor de qualquer um desses assuntos, mas sabia que uma situação se distinguia da outra em um ponto delicado, mas não de pouca importância: um ele poderia controlar, já que era de sua decisão usar ou não qualquer substância capaz de estimular aquele efeito, já a outra, a mais concreta e preocupante, ele não tinha qualquer domínio sobre. É claro que poderia cessar qualquer aproximação física com Guadalupe, em teoria é óbvio, mas esse pensamento só o recorria quando já estavam juntos e ele completamente a mercê do charme da mesma, não havendo qualquer força em seu corpo que fosse capaz de travar uma batalha contra.
Os dois se olharam por algum tempo após o que ele disse, mas a voz de Guadalupe novamente se fez e o silêncio rompeu-se. — Você sabe o que eu estou muito animado para provar? — ele perguntou, mas o tom de sua voz já denunciava que aquele questionamento não esperava por nenhuma resposta séria. Um riso curto e quente deixou seus lábios ao que a outra dissera, fazendo com que ele balançasse a cabeça, desviando o olhar dos dela. — Infelizmente. — disse, de forma bem humorada, enquanto a fitava mais uma vez até que seu corpo abrisse espaço para que ela pudesse partir para o interior do veículo. Ele contornou o mesmo e sentou-se ao lado da outra, no momento que o fez não pode evitar senão encarar as belas pernas bronzeadas de Lupita, refreando a urgência de apalpá-las com a palma de sua mão e deixar a marca de seu toque cravada na pele da menina, mas sabia que não seria prudente fazê-lo ali; algo o dizia que estava mais próximo do que nunca de seu objetivo final, e conhecendo de forma satisfatória a personalidade da outra, talvez um jantar e meia dúzia de atitudes simbólicas, todas estas, é claro, regadas por um punhado de segundas intenções, fosse o suficiente para fazer a menina dobrar-se às vontades dele, literalmente. Assim, Mateo sabia que deveria manter o foco se quisesse que a noite terminasse exatamente como ele planejava, mas a tarefa se mostrava cada vez mais difícil toda vez que as mãos da menina puxavam o tecido preto do vestido para baixo e ele insistia em recolher-se de volta ao quadril, revelando cada vez mais das pernas da garçonete.
Finalmente o rapaz girou a chave na ignição e deixaram para trás apenas o som e as marcas do pneu escuro no asfalto. O restaurante não se encontrava longe dali, levariam no máximo trinta minutos para alcançar o estabelecimento, mas o motor poderoso do automóvel e a maneira como o equatoriano dirigia eram capazes de diminuir esse tempo quase que pela metade. Ao olhar para o painel à sua frente pode dar-se conta das horas, o horário indicado pelo relógio eletrônico garantia que a celebração já havia se iniciado, o que o levava a crer que boa parte dos convidados já deveria ter chego, o que, precisamente, incluía toda sua família também. Uma sensação gelada lhe atravessou o estômago, mas ele sabia que não era fome, na verdade, apesar do talento inegável de Dante, Mateo não costumava gostar dos pratos extravagantes e exóticos que eram costumeiramente servidos pelo chef, ao contrário, ele sabia que aquilo era uma resposta de seu corpo frente ao que já era certo mas que até então não havia lhe caído a ficha: Guadalupe finalmente iria estar frente a frente com todos os seus irmãos e seus pais, não havia volta para aquilo. A cabeça do homem continuou a ser invadida por outras preocupações mas a voz da mesma o acalmou, e o elogio feito por essa fez o nervosismo desaparecer momentaneamente. Ele sorriu e desviou os olhos do horizonte para observá-la rapidamente, e a constatação não poderia ser outra: a jovem estava tão irresistível quanto das outras vezes que ele a vira. — Obrigado. — ele disse sucintamente. O ímpeto de fazer algum comentário espertinho e malicioso refreou-se no momento em que avistara a fachada do estabelecimento de sua família, e no lugar de qualquer astúcia que antes poderia escapar de sua boca um silêncio nervoso se fez, e nem ao menos um sorriso tenso foi capaz de alinhar-se aos lábios rosados do latino.
Como costumava fazer, estacionou o carro junto ao meio fio frente à entrada do lugar, esse que já se encontrava abarrotado de pessoas e repórteres que inundavam todo o perímetro de entrada, além deles mais uma porção de políticos e celebridades tinham a presença confirmada no evento, ao qual, francamente, Mateo não entendia a relevância — provavelmente fruto de uma alucinação de Olivia após uma viagem ao leste europeu e a validação patética de Pablo. O rapaz à frente do valet apressou-se a abrir a porta para o primogênito, o que o fez puxar um último fôlego de ar antes de adentrar a toca da onça, olhando para Guadalupe e erguendo ambas as sobrancelhas. — Pronta? — ele perguntou, não esperava que a garota respondesse à pergunta, na verdade ela fora feita mais para que ele mesmo buscasse se tranquilizar diante do que estava prestes à fazer. Nos segundos seguintes ele já estava fora do veículo e sua companhia também, os estouros claros advindos dos flashes das câmeras atrapalhavam sua visão, o que o fez caminhar até o encontro dela com a cabeça abaixada, agarrando sua mão e guiando o caminho para a porta que fora prontamente aberta por outro funcionário.
Ao atravessarem a loucura que perturbava aqueles do lado de fora Teo ergueu sua atenção para o que o esperava do lado de dentro, dando-se conta de que a gritaria e o rebuliço não eram tão ruins assim. Ele se deu conta de que ainda apertava a mão de Lupita com mais força do que deveria e rapidamente a soltou, inspecionando o interior do restaurante por rostos conhecidos, mas antes que pudesse completar sua busca uma voz irrompeu a música turca que tocava em um volume moderado — “Mateo”, a voz masculina e entusiasmada ecoou em seus ouvidos, o que o fez pressionar os olhos uns com os outros, era seu pai. Ele balançou a cabeça em sinal positivo e um sorriso singelo brotou em seus lábios, mas não disse nada, esperando que o homem tomasse outra direção mas esse insistiu em caminhar até o casal que ainda permanecia frente a porta de entrada. “Não sabia que você iria vir, perguntei à Olivia mas ela… Quem é essa?” ele dissera, a pergunta não soou de forma inquisitória, mas como o homem costumava falar quando estava muito entusiasmado, e antes que Laredo fosse capaz de interromper as palavras apressadas do homem ele prosseguiu com sua fala. “E nem que viria com companhia!”, continuou, cumprimentando a latina. Ele caminhou junto aos dois até a proximidade da grande mesa que ocupava o restante da família, e por algum milagre, esta estava cheia demais para acomodar os dois e então sentaram-se mais ao canto em uma destinada apenas à duas cadeiras. Antes que pudesse esclarecer para a outra de quem se tratava ou o que estava acontecendo, o pai de Mateo caminhou com pressa para a outra extremidade do salão adornado, deixando eles a sós novamente, isto é, por ora. — Você escolheu isso. E vou logo avisando que isso é só o começo. — disse enquanto gesticulava, dando ênfase ao o quê havia acabado de acontecer, para logo em seguida cair em uma risada.
Fechou com um pouco mais de força o fio que mantinha o roupão preso a seu corpo antes de voltar a aplicar a sombra na pálpebra dos olhos. Ouviu a porta abrir devagar, e nem precisou interromper o que fazia para saber que María estava escorada no batente da porta, observando. “Você tem certeza que não quer ajuda?” Insistiu, e Lupe nem se deu ao trabalho de responder pela quarta vez que ela podia se arrumar sozinha. Mas claro, ignorar a irmã era tão inútil quanto falar com ela. “Olha, eu ainda acho que esse vestido fica melhor sem calcinha.” Finalizando a maquiagem dos olhos ela revirou os olhos antes de retrucar o comentário no mínimo invasivo. — María, ele nem marca. Você não tem outra coisa pra fazer não? — Deixou os acessórios que utilizava na escrivaninha ao lado, verificando o próprio rosto no espelho até que a irmã entrou no local, sentando ao lado do vestido preto que estava esticado na cama. “Você não tá usando aquela lingerie rosa não, né? Quer dizer, você fica fofa nela, mas não é esse adjetivo que ele tem que pensar.“ Desistindo momentaneamente de sua paz, Guadalupe se virou para a mais velha que sorria com uma falsa inocência. — Não, não estou. — Respondeu somente, buscando então pelo batom que combinaria com a ocasião, garantindo alguns instantes de silêncio enquanto a mais velha pensava. “Mas essa é a única bonitinha que você tem. O que v…” Com o canto de olho, pôde ver o exato momento que a irmã conectou alguns pontos. “Você comprou uma nova! Você vai mesmo fazer isso” Disse, dando uma risada animada, para o que a caçula imediatamente pediu que ela falasse mais baixo. Ela nem sabia o que realmente ia acontecer aquela noite, afinal. E os pais não poderiam saber daquela possibilidade. A mulher se levantou em um pulo, saindo dali e dando a falsa esperança para a jovem Mendiola que finalmente havia conquistado sua tranquilidade. Exatos vinte segundos depois viu que não, pelo contrário, pois a irmã trazia consigo camisinhas na mão. — Por Díos, María! — Reclamou sem graça e sentindo o rosto esquentar. “Você não quer fazer como eu, não é?” Argumentou, referindo-se a ter o filho quando muito nova. Balançou a cabeça concordando com suas palavras e observou a mais velha guardá-las em sua bolsa. — Ok, mas por que raios você está colocando três? — Franziu o cenho confusa. Céus, já estava ficando nervosa e considerando seriamente cancelar os planos. “Porque vai que vocês decidem fazer outras vezes. Já garante o sucesso. Ok, deixa eu ver o que você comprou” Pediu, e uma risada sarcástica saiu da mais baixa. — Sai daqui. — Falou, cruzando os braços. Finalmente derrotada, a Mendiola mais velha se ergueu e retirou dali. Não antes, claro, de encher mais um pouco sua paciência. “É branco? Você fica bem de branco!” Falou, apoiada na porta, e Lupe jogou um sapato na direção da mulher, garantindo de uma vez que a outra tinha se retirado de fato. Trancou a porta, voltando para frente do espelho e terminando de passar o batom avermelhado nos lábios. Soltou o roupão do corpo, observando o conjunto rendado e branco que havia comprado dois dias antes, rindo fraco agora pelas palavras da irmã. É, o branco fazia um bonito contraste na pele bronzeada. Respirou fundo, vestindo então a peça negra e por fim encarando o reflexo de uma então pronta Guadalupe.
Olhou para o relógio, percebendo que estava dentro do horário, e não mais que cinco minutos depois recebeu uma mensagem de @mateolaredo dizendo que estava do lado de fora aguardando. Bem, aquele seria seu primeiro encontro oficial com o homem. Dizer que ela estava nervosa era um eufemismo, e naquele instante perguntou mentalmente se conseguiria se manter em pé no salto com as pernas que insistiam em tremer um pouco. De qualquer forma, teria de ser assim pois sequer havia tempo de buscar uma outra opção de vestimenta. Alisou o tecido escuro como se tentasse se livrar de qualquer imperfeição, colocando a bolsa nos ombros e deixando o colorido quarto. Na sala, seu pai encarou a figura bem arrumada da mais nova de braços cruzados, como se estivesse perigosamente próximo de proibi-la de sair. Então, beijou a testa da morena, pedindo que tomasse cuidado e que ligasse caso necessário. Sussurrando, provavelmente para que a mãe não escutasse, também pediu que avisasse caso fosse chegar tarde em casa. Lupe sorriu, concordando. Ainda do lado de dentro, ajeitou o vestido uma última vez para logo deixar a pequena casa amarela e encontrar do outro lado da rua o carro que lhe era familiar, e apoiado nele o homem que também já conhecia bem. Atravessou a rua em direção a ele, apertando um pouco a mão no acessório que levava ao lado do corpo. Apesar de ansiosa, estava animada. Conheceria, após algumas indiretas, o restaurante de sua família. Não somente teria a experiência de jantar em um local daquele mas contava com a possibilidade de conhecer também algum membro da família do mais velho. — Oi, Teo.
Trinta minutos. Este era o intervalo de tempo que era necessário cumprir em vias de ir de seu apartamento até a casa de Lupita, ao qual, à esta altura do campeonato, ele já não precisava de qualquer dispositivo geográfico para guia-lo até seu destino, para bem ou para mal ele já conhecia como a palma de sua mão aquele trajeto. Trinta minutos também foi tempo o suficiente para que Mateo racionalizasse além do saudável o que estava prestes a fazer; com a música latina em volume capaz de incomodar um cachorro há quatro quilómetros de distância, o equatoriano se perguntava se sua consciência estava ciente da situação à qual ela havia se disposto, e esta, por outro lado, tão sóbria quanto poderia estar, confirmou de que aquela situação estava longe de ser uma alucinação, ou o que para ele parecia fazer mais sentido, um pesadelo. Isto não pela companhia é claro, mas pelo contexto geral ao qual ela e ele estariam expostos àquela noite — “Que vão pensar quando nos virem?” era a pergunta passeava por todos os cantos de sua cabeça, como um homem em quase seus trinta anos e levando a vida que levava, é óbvio, Laredo não poderia ligar menos para o que os outros acham de si, era verdade, mas quando tratando-se de sua família, completamente disfuncional como era, o rapaz sabia que o resultado não poderia ser dos melhores e que, certamente, a decisão de levar Lupe para um lugar onde todos eles estariam foram feitas em um momento de insanidade mental.
Já poderia imaginar a reação de Catalina ao vê-la e lhe encher a paciência retrucando o mesmo discurso feito por ele tantas outras vezes sobre as consequências de envolver-se com pessoas de fora daquele mundo, ao que agora ele teria de submeter-se por uma noite inteira. Só a ideia era capaz de fazê-lo revirar os olhos com tanto desdém que chegava a lhe dar uma dor de cabeça. Ou então a reação de Olivia, ou a falta dessa, já que a mulher não continha uma gota de vida humana dentro de si, mas a qual Pablo compensava até demais, já podendo ver a reação do outro de receber a jovem morena com um abraço acalorado e desproporcional. Mateo definitivamente não era o produto genético dos dois, o que de certa forma o tranquilizava. Além disso tantos outros estariam no restaurante naquela noite, já que a família recepcionava uma noite temática de culinária Turca e grandes e poderosos nomes da cidade eram esperados no evento, mas com estes o latino não se preocupava; só esperava que a situação não se tornasse ainda mais constrangedora quando a hostess do estabelecimento o visse com outra em seus braços já que há algumas semanas atrás eles haviam transado no vestiário de funcionários e ela ainda perguntava dele para seus irmãos.
Ao chegar à casa da garota, entretanto, os nervos e preocupações que antes pareciam perturbar sua cabeça agora haviam se dissipado em partículas quase imperceptíveis. Como de costume, ele estacionou o veículo do outro lado da rua à casa de amarela da família de Guadalupe, já com o automóvel desligado, ele se retirou do mesmo e descansou todo o peso do corpo à lateral do mesmo, de frente para a residência da garçonete. Em seguida avisou à esta que já estava a sua espera, e por alguns minutos aguardou pacientemente para que a outra fosse ao seu encontro. Lembra-se das partículas de inquietação? Agora elas se encontravam nas palmas de suas mãos, provocando uma sensação de formigamento que não deixava sombra de dúvidas sua origem: Mateo estava nervoso. Nervoso porque aquilo representava o cumprimento de uma etapa muito séria ao que parecia assimilar-se com, bem... um relacionamento. Para qualquer outra pessoa essa constatação não viria como uma surpresa, mas para ele que tanto se orgulhava de seu espírito, e status, de homem livre, a ideia de estar se aproximando cada vez mais de uma ideia que muito se assemelhava a um relacionamento fechado o chocava, de certo modo. E para piorar ainda mais: ele vinha notando que algo além de um desejo malicioso o despertava em Guadalupe, mas também um sentimento de consideração e carinho, apesar de prematuros.
Os questionamentos momentâneos se desfizeram quando a autora de suas fantasias surgiu em seu campo de visão, tão deslumbrante quanto todas as outras vezes, mas dessa vez algo a mais cativava sua atenção, como um brilho que praticamente o cegava diante da beleza da outra. Ainda apoiado sobre o carro, e a medida que essa caminhava em sua direção, Teo sentiu os músculos das costas se relaxarem e a respiração tomar um ritmo mais sossegado, e instintivamente um sorriso desenhou-se em seus lábios, inebriado com a sensação que ela o dava. A voz delicada e tímida de Lupita dançou por seus ouvidos, e o uso do apelido carinhoso e ao mesmo tempo tão sensual o fez morder o lábio inferior. — Oi, nena. — disse, retribuindo o cumprimento. O corpo se descolou da lataria negra e brilhante do automóvel e aproximou-se ao dela, o que permitiu que ele deslizasse a mão direita sobre a cintura marcada pelo vestido e beija-se a bochecha esquerda da garota lentamente. Aproveitando a proximidade com seu rosto, ele levou a boca até o pé do ouvido da jovem enquanto mantinha a outra mão apoiada sobre sua cintura. — Como eu resisto a tentação de te beijar em frente à todas essas pessoas agora? — a altura do som de sua voz rouca foi o suficiente para que só ela ouvisse a escolha de palavras feitas por ele. — Tem certeza de que quer ir jantar? Não quero dividir tudo isso com mais ninguém. — uma risada manhosa se fez e então ele retornou sua atenção para os olhos castanhos da morena.
@guadalupe-lmendiola

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O barulho da música alta era um tanto irritante para David Harrison. Em geral ele não gostava daquela loucura que música eletrônica lhe parecia. Mas, aquilo era uma boate e afinal, pessoas escutam o que querem em boates como aquela. Dezenas de vestidos caros - que comprariam casas para pessoas menos afortunadas - em corpos perfeitamente conseguidos com cirurgias plasticas, ou graças a um personal traineer e a um esteticista em conjunto com um maquiador e um cabeleireiro, mas, o que aquilo importava? Dinheiro bom é dinheiro gasto, afinal. Ele era de longe a pessoa mais sóbria daquele lugar, apesar de segurar um copo de whisky com certa experiência.
Com a camisa armani preta bem colocada, David observava todos ao redor. Loira do Michael Kors preto, problemas com anorexia, chato. Ruiva do Moschino verde que tentava se livrar do careca, chatos. Chatos. Chatos. Chatos. Tudo alí era um clichê enorme, fazendo a cabeça de Harrison ficar ligeiramente irritada. Os luxos que lhe eram proporcionados o mantinham entretido quase sempre, contudo, aquela noite estava sendo realmente dificil. Tudo era entediante, repetitivo.
David percebeu alguém se aproximar. Era uma moça com pouco mais de um e sessenta, diferente de todas as mulheres alí, ela não usava um vestido caro, só um jeans que lhe parecia surrado e uma camiseta branca. Aquela era Julliet, com seus cabelos negros amarrados em um rabo de cavalo e seus grandes olhos verdes o fitando como quem espera para receber algo. Julliet fazia as entregas de droga para David há cerca de cinco meses, quando o outro traficante acabou sendo morto. Esse era um dos motivos pelos quais preferia lidar com os donos dos negócios ao invés de intermediários. Intermediários sempre acabavam mortos e logo, ele teria de se acostumar com um novo.
Harrison puxou o talão de cheques e preencheu com o valor previamente combinado, enquanto Jullie discretamente estendia para ele uma pequena maleta com tudo o que precisava e por fim, seguia o seu caminho. O empresário começou a andar por aquele mar de pessoas iguais, subindo para o topo do edificio onde uma das boates mais exclusivas de Chicago se encontrava, deixando seus dois seguranças na porta após o elevador. Ele se apoiou em um sofá que lá haviam, tinham construido um lounge especialmente ao seu comando, afinal, era um dos investidores do local.
Dave abriu a pequena maleta depois de colocá-la no centro de vidro em frente ao sofá e ligar uma música de tom ligeiramente embriagante. Seus olhos foram até a seringa com um líquido azul. Ah, a prometida novidade de seu fornecedor. Ele encaixou a agulha esteril na seringa após abrí-la e calçou as luvas de procedimento que estavam nas malas. Uma das vantagens de se drogar sendo podre de rico é que havia como garantir que nada daquilo estivesse infectado ou coisa parecida. O homem posicionou a agulha proximo ao braço, ia usar a radial. Contudo, foi interrompido pelo barrulho de seus seguranças tentando conter alguém. Colocou a seringa de volta na mala, levantando-se ainda sem tirar as luvas e indo ver que confusão era aquela. - Mas, que diabos! Eu já não avisei dezenas de vezes que esse maldito lugar é exclusivo? - Permitiu se interromper quando a figura conhecida de @mateolaredo foi reconhecida e então ele gesticulou para que abrissem passagem. - Ás vezes, semi-Gil Blanco, um aviso não custa muita coisa e costuma ser bem visto. -Disse, caminhando de volta rumo ao sofá esperando que o outro ou o seguisse ou lhe explicasse a que tinha vindo.
Aquela semana havia sido estranhamente calma para os Gil Blanco, ao menos desse lado do Atlântico — e digo estranha porque pela primeira vez em longo período de tempo, o primogênito não recebera cerca de oito ligações no meio da madrugada, ou teve a porta de seu apartamento praticamente arrombada por um dos irmãos que insistiam em torrar lhe a paciência com assuntos aos quais ele não poderia ligar menos. Em compensação, no velho continente, Olivia encontrava-se com seus contatos, entre empresários e líderes mundiais, do Leste Europeu para discutir as novas rotas de tráfico de órgãos, sob as ameaças de que diversas organizações internacionais estariam atentas as movimentações estranhas feitas pelos hospitais de refugiados, esses, é claro, de fachada. Ele, Mateo, não poderia ligar menos, era verdade, ainda que o mundo estivesse em ruínas em águas internacionais o rapaz costumava dizer que a bagunça criada pela família só era problema seu quando esta tocasse os solos estadunidenses, e até lá, estaria aproveitando seu merecido descanso de todo o caos.
Já com o avançar da noite e sem a interrupção de qualquer membro de sua família, Mateo checou o aparelho de telefone celular que o aguardava do lado de fora do box do banheiro, apoiado sobre a pedra de mármore escura que adornava o ambiente. Com a toalha amarrada no quadril, o equatoriano passou os olhos rapidamente pelas notificações aleatórias até visualizar uma que realmente o interessava: o clube noturno de David estava sediando a festa de recepção de um DJ europeu famoso, o qual Mateo não fazia ideia nem ao menos de como pronunciar o nome quem dirá conhecer o trabalho, e a exclusividade do evento garantia que somente com um convite marcado por um código individual de validação seria capaz de garantir a entrada dos convidados na festa.
Diante das opções que lhe estavam à disposição aquela parecia a que menos requeria qualquer raciocínio elaborado ou dispêndio de uma paciência a qual certamente não tinha — não estava disposto a aguentar a garota com quem havia saído dois dias atrás, só Deus sabe o preço alto que teve de pagar por cair na tentação que era a bela morena de curvas esculturais, mas nem isso fora capaz de fazer valer as outras duas horas em que teve de ouvir sobre as lamúrias da mesma e forçar uma simpatia ilusória que lhe tirava do sério. Frente a esse cenário a escolha lhe pareceu óbvia o suficiente para que aceitasse o convite de David; sem qualquer hesito o rapaz ignorou as mensagens da jovem que inundavam suas mensagens, nem ao menos dando-se ao trabalho de inventar qualquer mentira esfarrapada, afinal não dava a mínima. Tinha certeza de que até o final da noite iria estar acompanhado de um outro par de pernas em sua cama, e como fizera com a anterior e aquela antes desta, iria começar a ignorar suas mensagens após algum tempo até que finalmente desistissem, dando início à um ciclo sem fim de malandrice, como dizia seu pai.
Já no prédio esguio localizado próximo ao centro da cidade uma fila barulhenta e extensa parecia contornar a esquina perdendo-se de vista, enquanto que na frente das portas de vidro estavam dois seguranças já conhecidos de Teo, os quais cumprimentou com um tapinha na altura dos ombros, adentrando para o interior do ambiente que já contava com um número volumoso de pessoas. A arquitetura do local compreendia alguns andares e ao topo do edifício encontrava-se a cobertura que apenas alguns convidados tinham acesso, e uma breve investigação nos demais andares revelaram que era provavelmente onde Harrison deveria estar. A figura de Mateo já era suficientemente conhecida entre os funcionários e frequentadores do local para saber que ele era uma das pessoas que poderia ter acesso ao terraço, logo, o homem que guardava a entrada do elevador deixou que o primogênito acessasse o mesmo, fazendo seu caminho até a cobertura da construção.
Quando as portas metálicas se abriram um sopro fresco invadiu o compartimento em que estava, e os olhos do homem passearam brevemente pelo terraço que contava apenas com uma iluminação sutil e pouquíssimas pessoas. Ao pisar os pés para fora, o segurança, um dos muitos que protegiam cada centímetro do espaço, o analisou dos pés à cabeça, o que fez Mateo erguer as mãos e franzir o cenho, murmurando meia dúzia de palavras irônicas. Ao retornar à atenção para o horizonte à sua frente ele notou a presença ilustre do anfitrião, e acompanhado a ele, um par de luvas cirúrgicas e um torniquete que lhe apertava o bíceps, juntamente a uma maleta revestida em couro que repousava sobre a mesa de centro. — Ah não, irmão. De novo essa merda? — disse, repetindo a expressão que usara instantes atrás, suspendendo o braço em direção a ele fazendo referência ao aparato que ele usava. — Você não pode cheirar ou fumar como uma pessoa normal? Por Deus, David. — a frustração no tom de voz de Mateo assimilava-se mais à um cansaço que a uma preocupação legítima com o que o outro fazia. Ele mimicou a frase dita pelo outro em um tom sarcástico, revirando os olhos. — Tá de bom humor, pelo visto. — disse, erguendo as duas sobrancelhas e balançando a cabeça de acordo. — Vai passar a exigir o RSVP agora? — a entonação ácida bastou por revelar o humor de Mateo. — Mas enfim... — ele cutucou a maleta à sua frente, agora já sentado no sofá do lado oposto ao do outro. — Que porra é essa, afinal? — perguntou.
𝐈𝐓 𝐈𝐒 𝐄𝐀𝐒𝐈𝐄𝐑 𝐓𝐎 𝐅𝐎𝐑𝐆𝐈𝐕𝐄 𝐀𝐍 𝐄𝐍𝐄𝐌𝐘 𝐓𝐇𝐀𝐍 𝐈𝐓 𝐈𝐒 𝐓𝐎 𝐅𝐎𝐑𝐆𝐈𝐕𝐄 𝐀 𝐅𝐑𝐈𝐄𝐍𝐃.
galahax:
› 𝐓𝐨𝐫𝐜𝐞𝐮 𝐨 𝐧𝐚𝐫𝐢𝐳 𝐩𝐚𝐫𝐚 a fumaça que escapou dos lábios do hispânico, não gostando do cheiro que invadiu suas narinas brevemente. ainda bem que seu perfume era caro e duradouro o suficiente para manter o seu cheiro livre de ar de nicotina por mais algum tempo – apenas batava que saísse de perto dele o mais rápido possível, o que não seria exatamente um problema. ao que ele exclamara a frase sobre qualquer um ser convidado para aquele tipo de festa, os músculos do pescoço de anaïs se retesaram em ódio. qualquer um? qualquer um?! oras, sinceramente–!! não o responderia nada porque não desceria ao nível dele (e porque não gostaria de perder seu tempo de diversão em discussões fúteis), mas poderia muito bem respondê-lo que os “qualqueres” eram os convidados pelos sobrenomes, enquanto ela era chamada pelo primeiro nome, tornando sua presença muito mais única que a de qualquer membro de uma família riquinha. porém, era como ele próprio dissera: não era da sua conta o que ele queria naquele lugar, bem como não era da conta dele o que ela estava querendo ali. rolou os olhos, mantendo as expressões duras e impassíveis como mármore.
❛ Tudo bem, então. Se divirta morrendo.❜ ›› sequer acenou em despedida quando voltou a andar, o salto batendo contra o concreto conforme passava por ele, esperando que aquela conversa se desse por encerrada.
A atmosfera que revestia toda a superfície do corpo enxuto da advogada fazia seus nervos se contraírem. Laredo sempre fora demasiadamente reativo era verdade, e foi apenas com a idade e a sabedoria encarregada por essa, assimilada sobre pesados golpes, que o rapaz aprendeu a navegar pelas animosidades de seu temperamento com cautela e responsabilidade, isto é, na maioria das vezes, e ainda que o resultado do exercício diário de controlar a fúria vez ou outra evocada pelos compromissos estressantes da vida criminosa — ao qual, graças à isto, desenvolvera um problema considerável de controle de raiva — o equatoriano fazia um bom trabalho, exceto quando exposto aos poucos eventos, e pessoas, que trituravam seu músculo pacífico até o último sopro; e é claro que Anaïs se encaixava perfeitamente nessa descrição.
Bastavam as poucas, ainda que tortuosas, lembranças que dividira com a mulher para que sua estrutura emocional estremecesse, mas a presença dela ali, poucos metros próximas de si realmente fazia seu sangue ferver, e todo o restante das engrenagens orgânicas de seu corpo pareciam borbulhar em agitação e dessossego, emitindo uma espécie de “sinal vermelho” que alertava todo o sistema nervoso de que o melhor a se fazer era afastar-se. Mas ocasiões como aquela colocavam a prova a capacidade de Mateo de domar as paixões que insistiam em afogar os pensamentos lógicos de seu consciente. Com a cigarrilha presa entre os dois lábios ele tragou com força um punhado do tabaco aromático e agarrou a ponta do fumo com os dedos da mão direita, deixando que essa caísse ao lado de seu corpo, assistindo a chuva de meteoros tocarem o cimento frio da calçada. O comentário ácido solto ao ar da noite pareceu penetrar seus poros, o fazendo soltar a nuvem de nicotina em um sopro fumegante.
— Sancho, hein? — a cabeça ainda inclinada para frente distraía-se com a queima do fumo. Para qualquer um que transitasse por ali aquela frase não diria nada, mas ela sabia exatamente do que, e de quem, ele estava falando. Sem suspender a atenção ele ouviu os sapatos de salto alto caminharem em direção à distância, até o som se suspendeu. — Los perros siempre vuelven a sus huesos. — a expressão popular se fez na língua materna do homem, mas ele não esperava que ela o compreendesse totalmente. O cigarro retornou aos lábios para o último trago, restando apenas a carcaça do fino papel carbonizado. — É comum que os cachorros enterrem seus ossos e esqueçam onde... — ele desenhou a analogia às memórias do caso em que trabalharam juntos anteriormente, dessa vez em uma língua que a outra dominava com maestria. — E pode demorar um pouco, mas eles sempre acham novamente. — completou, pisoteando a ponta do cigarro com a sola do sapato. — Ouvi dizer que você e seus amigos voltaram a cavar. — o tom áspero da voz de Mateo se calou logo em seguida. Ele sabia que Galahad saberia de alguma coisa, e esperava que alguma informação escapasse de seus lábios vis, ou ele teria de começar a blefar.