lupexlmendiola:
Ótimo. Estava tudo ótimo! O sol brilhava, as palmeiras se moviam de um jeito animador pelas ruas, as faces semelhantes às suas lhe cumprimentavam a cada esquina do bairro acolhedor e Vincent ainda não havia surtado naquele dia por algo completamente aleatório. Inclusive, parecia bastante distraído nos últimos dias, algo relacionado à matéria sobre lares adotivos, o sistema de adoção e o Serviço Social local. Era bonito de ver quando Rousseau se empenhava tanto em algo, os olhos brilhando em determinação enquanto o “não” parecia deixar de existir no dicionário. Ao mesmo tempo, ele também sabe ser bastante cansativo e trabalhar para o rapaz exigia bastante da garota. A folga naquele dia, portanto, era mais do que merecida. A mãe tinha insistido que iria buscar Ángel para que a Mendiola mais nova pudesse aproveitar o dia livre em casa, mas fazia tanto tempo desde a última vez que buscara o sobrinho na escola que seria muito mais um passeio que uma responsabilidade. Era bom também o vestido florido e razoavelmente solto, e a forma que lhe deixava mais confortável em comparação aos vestidos ou saias justas que usava no escritório. A pele estava quente mesmo que o sol do fim de tarde estivesse pouco brilhante, e os vinte minutos de caminhada terminaram quando chegou no portão de entrada da escola. Com um sorriso no rosto, pediu que anunciassem o nome do sobrinho para que o levasse para casa; quando a notícia lhe deixou totalmente confusa e sem reação. ‘Senhorita Mendiola, já buscaram seu sobrinho’ A professora explicou, aos poucos igualmente confusa, percebendo o erro da instituição. Quis ligar para seus pais, mas sabia que seria ilógico que eles fossem uma opção, e tampouco havia sido María — que estava trabalhando naquele dia. ‘Ele disse ser parente, e Ángel pareceu reconhecê-lo. Estava tão animado’ A mulher ainda tentou se explicar, mas o coração de Guadalupe batia rápido demais para absorver. O que podia ter acontecido? Vincent? Não! Ángel odiava o pobre homem. Maria não apresentava nenhum namorado novo há semanas, Benjamin jamais faria algo do tipo sem avisar. Céus! Os olhos lacrimejavam apenas por pensar no que podia ter se passado. Após constatar que faziam poucos minutos desde que o homem misterioso havia ido embora, Guadalupe decidiu percorrer as quadras próximas antes que o homem pudesse ir longe demais. Se não encontrasse, voltaria e pediria uma descrição mais detalhada de quem tivera a coragem de algo do tipo. Os pés pequenos corriam firmes no chão com a ajuda do tênis, enquanto olhava os arredores em uma busca desesperada. Foram duas quadras dali que ela viu uma criança que lhe remetia ao garotinho, entrando em um carro escuro. Arregalou os olhos, parando de correr ao tentar anotar a placa e digitar o número da polícia. “Oi!” A voz estava tremida ao responder a do outro lado da linha, enquanto movia o corpo como que para aliviar o nervosismo. Foi apenas ao girar a figura que percebeu-se em pé de frente a uma sorveteria. O vidro permitia que visse os clientes, e dentro da loja, ninguém menos do que Ángel com um enorme sundae em sua frente. Lupe desligou o celular; o garoto no carro não era o sobrinho - seu sobrinho estava ali, na sua frente. Ótimo! Estava tudo ótimo! Entrou no estabelecimento abrindo a porta com força suficiente para chamar atenção de alguns clientes, aproximando-se da mesa do garoto. E foi só ali, parada ao lado do garoto, que notou a figura esguia e alta que se aproximava com um sorvete de tons pastéis em mãos que contrastava com sua imagem de roupas escuras e tatuagens assustadoras (e maldosamente sensuais). ‘Tita! O Teo voltou’ A criança anunciou, então, erguendo as mãos em uma comemoração que seria adorável se não preocupante. O coração antes acelerado pareceu parar, enquanto a garganta travava. Só podia estar dormindo, claro — aquilo pareci mesmo um dos pesadelos que lhe assombravam algumas noites ocasionalmente. Porque não havia qualquer explicação para Laredo estar ali, em Los Angeles, sequestrando o seu sobrinho para tomar a maior taça de sundae do sul da Califórnia.
Merda. Estava tudo uma merda!
@mateolaredo
conforme o sol cumpria seu destino em direção ao horizonte, lentamente desaparecendo na imensidão bem como as últimas horas do dia, o véu dos cosmos era tingido por uma cor quente como a estação, colorindo as sombras com o tom queimado e alaranjado. as pupilas do homem devoravam os últimos fragmentos de luz antes do anoitecer completo, admirando a paisagem antes que esta fosse consumida pela escuridão passageira da noite, agarrando-se a sensação gerada pelo calor da grande estrela com enorme melancolia, saboreando enquanto podia as cores que o lembravam de todas as coisas vivas do dia. desde os últimos acontecimentos as noites pareciam se tornar mais e mais solitárias, algo que mateo nunca achou ser possível para alguém que, como ele, havia caminhado à sombra do diabo desde sempre – talvez aquele fosse, enfim, o preço a se pagar pelas escolhas que havia feito por toda a vida, sendo perpetuamente amaldiçoado pela escuridão que ajudou a criar. assim, ao mudar-se para los angeles, em uma tentativa desesperadora de brigar pelo próprio espírito ao mesmo tempo que buscava por alguma redenção do que havia deixado em chicago, parecia buscar nas horas do dia um refúgio da própria solidão e dos fantasmas que carregava junto a si.
do lado de dentro do carro, estacionado há alguns metros de distância do portão principal da escola frequentada pelo membro mais novo da família dos mendíola, o homem aguardava em silêncio pela saída do garoto enquanto observava a movimentação da rua pelos retrovisores. os ponteiros do relógio marcavam os últimos minutos antes das seis da tarde quando o alarme estridente anunciou a saída das crianças, que rapidamente espalharam-se pela calçada da frente até que restasse a calmaria, permitindo que o rapaz se aproximasse. os olhos compenetrados identificaram o menino, que quando o notou saltitou em sua direção com a mochila nas costas, abrindo um sorriso que permitiu mateo identificar a ausência de um dos dentes de leite, arrancando-lhe uma risada. — a fada do dente passou por aqui? — perguntou ao pequenino enquanto segurava seu queixo com uma das mãos. — o que acha de tomarmos um sorvete pra comemorar, hein? — a energia efervescente de ángel prontamente aceitou o convite, com o pirralho agarrando as alças da mochila com uma das mãos e o arrastando em direção a sorveteria mais próxima com todas as forças de seu pequeno corpo.
no caminho conversaram sobre os eventos mais recentes, com mateo se beneficiando da língua tagarelante e ingênua da criança para completar os buracos de informação que tinha. não havia sido difícil descobrir onde guadalupe e a família haviam se instalado na metrópole, muito menos familiarizar-se com a rotina de cada um dos membros e o que os mantinham ocupados ao longo do dia. a distância mateo acompanhava a movimentação dos mendíola não apenas por curiosidade, mas porque de alguma forma sentia-se responsável pela segurança de todos, especialmente de lupita – não confiava na aproximação dela com vince e quando soube que estaria se realocando para o outro lado do país ao mesmo tempo que o homem, sabia que tinha de manter-se mais atento do que nunca. enquanto as coisas não se estabeleciam no novo endereço, laredo ocupava grande parte de sua atenção em certificar-se onde a outra estava, bem como as companhias e atividades, frequentemente seguindo-a de uma distância segura para que não notasse sua presença. ainda assim não era como se tivesse escutas instaladas pela casa dos mendíola, o que certamente o impedia de ter acesso aos detalhes, papel que ángel espontaneamente pareceu mais do que grato em suprir.
já no estabelecimento, teo perguntou a ángel o que gostaria de pedir e instruiu ao menino que permanecesse sentado em uma das mesas até que ele retornasse. enquanto ainda fazia o pedido junto ao balcão, mateo pensava em como devolveria a criança após o encontro, sabido de que dentro de alguns minutos algum dos membros da família apareceria na recepção da escola para buscá-lo e sua ausência poderia gerar mais problemas do que estava realmente disposto a lidar. para além disso precisava ter certeza de que o moleque não abriria o bico para ninguém, especialmente para guadalupe, já que tinha planos de continuar sua aproximação silenciosa em busca de mais informações – “uma nota de cinquenta dólares deve servir”, pensava, conforme elaborava a melhor forma de comprar o silêncio do outro. com as taças de sorvete em mãos, mateo retornou à mesa onde estavam apenas para encontra-lo de pé, sendo confrontado pela jovem dos cabelos negros que o encarava com a expressão estarrecida. ainda distante o homem encheu os pulmões de ar, contraindo o abdômen em uma sensação que se assemelhava à um nervosismo, vendo-a pela primeira vez de perto após alguns meses, desde que havia partido de chicago. — voltei. — as íris castanhas do latino passearam por cada linha do rosto da garota, admirando-a sem qualquer pudor, como estava acostumado a fazer desde sempre. — quer se juntar a nós? — a cadência de mateo acompanhava a tranquilidade de que estava habituado, como se não estivesse do outro lado do país tomando sorvete de pistache com uma criança de seis anos de que havia acabado de abduzir na saída da escola. um silêncio instaurou-se no ar ao que os dois mantinham-se calados, encarando um ao outro com curiosidade e desejo. — o que você acha de ir lá escolher o seu, amigão? eu e sua tia te esperamos aqui, pode ser? — uma felicidade contagiante acendeu nos olhos de ángel, que pulou em folia até a grande vitrine colorida, deixando guadalupe sozinha em sua companhia.
O corpo bronzeado estava quente não apenas pela temperatura elevada daquele lado do país, mas pela maneira que o sangue começava a borbulhar em resposta aos sentimentos fortes que reviravam seu interior. Como ele tinha coragem de segui-la até lá? E mais! Como se atrevia a sequestrar o seu sobrinho daquela maneira? Podia ver o mesmo olhar sensual e confiante de sempre, ainda que tivesse ficado com o equatoriano tempo suficiente para reconhecer a sua linguagem corporal e perceber que, no mínimo, havia algum nervosismo tensionando seus músculos. A forma que ele erguia o canto dos lábios naquele sorrisinho safado e presunçoso era um dos motivos de seu rosto começar a queimar de raiva, enquanto flashbacks de toda a situação vivida com o outro ainda em Chicago lhe vinha à cabeça. Não que tivesse saído da memória de modo geral, claro, já que dificilmente passava muito tempo sem pensar em Laredo ou no fim do relacionamento com ele. O cenho estava franzido enquanto encarava a figura tantos centímetros maior que ela, a expressão certamente fazendo um bom trabalho em transparecer toda a mistura de coisas que sentia. Mas quando ele abriu a boca, a simples palavra dita com o tom tão tranquilo conseguiu lhe deixar incrédula. Aquilo era tão… ugh, tão Mateo. Mal pôde aproveitar o pico daquela sensação irritada quando a forma que o moreno passou a encarar sua figura instigou outra coisa nela, o que a desestabilizou. Desviou o olhar por um momento, percebendo que precisaria daquilo se quisesse tentar realinhar os pensamentos e lidar da melhor forma com a presença tão ridiculamente inesperada.
Precisaria conversar com Ángel depois, embora pudesse compreender os motivos do garotinho sair em companhia do já familiar rosto. No fim, ele seguia o conceito de não sair com estranhos - já que outrora Guadalupe fizera muito esforço para que Mateo se aproximasse de seu núcleo familiar. Quando voltou a encara-lo, ergueu o queixo na tentativa de que aquilo disfarçasse um pouco a instabilidade de sua mente. A proposta do mais velho foi aceita com ânimo pela criança que correu na direção das diversas opções de sabor do doce gelado, deixando os dois ali ainda em pé na frente um do outro. Lupe tinha dois grandes desejos: bater em seu rosto com toda a força do pequeno corpo, e beija-lo com toda a energia deste mesmo. Claro que, bem, ambas as coisas teriam a mesma resposta. “Na próxima vez, chamarei a polícia” Foi o que disse, de início, em um óbvio blefe. Guadalupe não prejudicaria Mateo, especialmente porque ainda sim não temia pela segurança de seu sobrinho com o rapaz. Uma confiança errônea? Provavelmente - mas se a Mendiola fosse boa em reconhecer perigos, não teria se envolvido com ele para início de conversa. “Você não pode…” Percebendo que o tom elevado e o fato de ainda estar em pé chamava atenção, a mulher cedeu e ajustou o vestido no corpo antes de se sentar à mesa logo em frente a ele. “Você não pode simplesmente buscar o Ángel na escola assim sem avisar, eu achei que ele tinha sido sequestrado!” Dessa vez, a voz era mais um sussurro forte. Não que ela pensasse que o homem precisasse ouvir aquelas palavras; Mateo sabia o que era certo e o que era errado. Mas era muito mais fácil focar naquele assunto pertinente que questionar o que raios ele fazia ali, ou ainda, concentrar-se no quanto de fato havia sentido falta do perfume característico que lhe atingia mesmo há alguns bons centímetros de distância. Apertou as mãos em punho não tanto pela raiva, mas porque ambas pareciam exageradamente tentadas à toca-lo naquele momento. “Não foi você que disse que vir para Los Angeles era uma péssima decisão? Por que exatamente resolveu cometer o mesmo erro?” Oh, sim, estava ainda mais ressentida do que havia percebido. “Deixa eu adivinhar: veio resolver algum assunto do qual você não pode falar sobre“ Já que faze-lo confiar nela o suficiente para detalhar coisas sobre ele era impossível.


















