mateolaredo:
Aquela semana havia sido estranhamente calma para os Gil Blanco, ao menos desse lado do Atlântico — e digo estranha porque pela primeira vez em longo período de tempo, o primogênito não recebera cerca de oito ligações no meio da madrugada, ou teve a porta de seu apartamento praticamente arrombada por um dos irmãos que insistiam em torrar lhe a paciência com assuntos aos quais ele não poderia ligar menos. Em compensação, no velho continente, Olivia encontrava-se com seus contatos, entre empresários e líderes mundiais, do Leste Europeu para discutir as novas rotas de tráfico de órgãos, sob as ameaças de que diversas organizações internacionais estariam atentas as movimentações estranhas feitas pelos hospitais de refugiados, esses, é claro, de fachada. Ele, Mateo, não poderia ligar menos, era verdade, ainda que o mundo estivesse em ruínas em águas internacionais o rapaz costumava dizer que a bagunça criada pela família só era problema seu quando esta tocasse os solos estadunidenses, e até lá, estaria aproveitando seu merecido descanso de todo o caos.
Já com o avançar da noite e sem a interrupção de qualquer membro de sua família, Mateo checou o aparelho de telefone celular que o aguardava do lado de fora do box do banheiro, apoiado sobre a pedra de mármore escura que adornava o ambiente. Com a toalha amarrada no quadril, o equatoriano passou os olhos rapidamente pelas notificações aleatórias até visualizar uma que realmente o interessava: o clube noturno de David estava sediando a festa de recepção de um DJ europeu famoso, o qual Mateo não fazia ideia nem ao menos de como pronunciar o nome quem dirá conhecer o trabalho, e a exclusividade do evento garantia que somente com um convite marcado por um código individual de validação seria capaz de garantir a entrada dos convidados na festa.
Diante das opções que lhe estavam à disposição aquela parecia a que menos requeria qualquer raciocínio elaborado ou dispêndio de uma paciência a qual certamente não tinha — não estava disposto a aguentar a garota com quem havia saído dois dias atrás, só Deus sabe o preço alto que teve de pagar por cair na tentação que era a bela morena de curvas esculturais, mas nem isso fora capaz de fazer valer as outras duas horas em que teve de ouvir sobre as lamúrias da mesma e forçar uma simpatia ilusória que lhe tirava do sério. Frente a esse cenário a escolha lhe pareceu óbvia o suficiente para que aceitasse o convite de David; sem qualquer hesito o rapaz ignorou as mensagens da jovem que inundavam suas mensagens, nem ao menos dando-se ao trabalho de inventar qualquer mentira esfarrapada, afinal não dava a mínima. Tinha certeza de que até o final da noite iria estar acompanhado de um outro par de pernas em sua cama, e como fizera com a anterior e aquela antes desta, iria começar a ignorar suas mensagens após algum tempo até que finalmente desistissem, dando início à um ciclo sem fim de malandrice, como dizia seu pai.
Já no prédio esguio localizado próximo ao centro da cidade uma fila barulhenta e extensa parecia contornar a esquina perdendo-se de vista, enquanto que na frente das portas de vidro estavam dois seguranças já conhecidos de Teo, os quais cumprimentou com um tapinha na altura dos ombros, adentrando para o interior do ambiente que já contava com um número volumoso de pessoas. A arquitetura do local compreendia alguns andares e ao topo do edifício encontrava-se a cobertura que apenas alguns convidados tinham acesso, e uma breve investigação nos demais andares revelaram que era provavelmente onde Harrison deveria estar. A figura de Mateo já era suficientemente conhecida entre os funcionários e frequentadores do local para saber que ele era uma das pessoas que poderia ter acesso ao terraço, logo, o homem que guardava a entrada do elevador deixou que o primogênito acessasse o mesmo, fazendo seu caminho até a cobertura da construção.
Quando as portas metálicas se abriram um sopro fresco invadiu o compartimento em que estava, e os olhos do homem passearam brevemente pelo terraço que contava apenas com uma iluminação sutil e pouquíssimas pessoas. Ao pisar os pés para fora, o segurança, um dos muitos que protegiam cada centímetro do espaço, o analisou dos pés à cabeça, o que fez Mateo erguer as mãos e franzir o cenho, murmurando meia dúzia de palavras irônicas. Ao retornar à atenção para o horizonte à sua frente ele notou a presença ilustre do anfitrião, e acompanhado a ele, um par de luvas cirúrgicas e um torniquete que lhe apertava o bíceps, juntamente a uma maleta revestida em couro que repousava sobre a mesa de centro. — Ah não, irmão. De novo essa merda? — disse, repetindo a expressão que usara instantes atrás, suspendendo o braço em direção a ele fazendo referência ao aparato que ele usava. — Você não pode cheirar ou fumar como uma pessoa normal? Por Deus, David. — a frustração no tom de voz de Mateo assimilava-se mais à um cansaço que a uma preocupação legítima com o que o outro fazia. Ele mimicou a frase dita pelo outro em um tom sarcástico, revirando os olhos. — Tá de bom humor, pelo visto. — disse, erguendo as duas sobrancelhas e balançando a cabeça de acordo. — Vai passar a exigir o RSVP agora? — a entonação ácida bastou por revelar o humor de Mateo. — Mas enfim… — ele cutucou a maleta à sua frente, agora já sentado no sofá do lado oposto ao do outro. — Que porra é essa, afinal? — perguntou.
Em poucos segundos de conversa, Harrison foi capaz de lembrar o porque preferia estar sozinho ou, rodeado de pessoas que facialmente calariam a boca assim que ele desse a ordem. O fato é que Mateo não o faria. Faria perguntas, perguntas que ele frequentemente não tinha para responder. Deu de ombros, permitindo a entrada e então retornou ao seu sofá, ficando confortável em sua posição inicial. - Algo que não é muito da sua conta Fake GB. Mas, então…O que diabos você está fazendo aqui? - Questionou, sem se quer mudar a expressão, retornando a posição inicial do braço, dobrando novamente a manga, afim de deixar não só o antebraço mas a articulação que a unia ao umero exposta. - Não vai me dizer que se meteram em problemas novamente? Porque sinceramente eu prefiro ouvir que me trouxe aqui para trazer strippers ou alguma novidade do meu ultimo pedido.














