rager teenagers {ben & mal, 1967}
Revirou os olhos com o comentário do outro, entendendo que aquele tipo de atitude prepotente era bem típica de um egocêntrico jogador de quadribol. Benjamin não costumava julgar os outros a partir da casa para qual foram sorteados, porém geralmente quem fazia comentários maldosos sobre os sonserinos eram grifanos, dada a rivalidade histórica entre as duas casas. Enquanto tentava afastar-se, percebeu que haviam chamado a atenção de vários outros estudantes, que observavam a altercação com entusiasmo, provavelmente esperando algum tipo de briga física, um espetáculo por assim dizer. Gore não era muito fã de violência, e gostava de manter-se longe de encrenca na medida do possível - o quanto seus colegas de casa lhe permitiam com falas atrozes -, porém sabia muito bem se defender. Não estava pensando muito nitidamente quando deu o empurrão no outro, afinal, não queria realmente uma briga, porém sentia que precisava descarregar sua raiva no rapaz naquele momento, como o ímpeto de uma cobra dando seu bote, porém batendo em recolhida logo em seguida.
Deveria ter previsto, no entanto, que o outro não deixaria por menos aquela provocação, e que logo ele estaria tentando derrubá-lo. Ben não iria permitir entregar-se ao chão sem levar o grifano com ele, portanto puxou suas vestes para que ele caísse junto, acabando por baixo dele. Empurrou o rosto do rapaz, a partir do queixo, para afastá-lo e tentar limitar sua visão, sem saber muito bem o que estava fazendo. Deu um soco estabanado em seu estômago, com a intenção de tirá-lo de cima de si. Ele já dera um soco ou outro em alguns colegas de casa, porém as coisas com eles sempre terminavam em duelos com varinhas, afinal, eram todos covardes demais para se garantir na mão. Gore não era lá muito adepto de embates físicos, mas apreciava a surpresa dos bruxos quando essa era a saída escolhida em vez de duelos para discussões ferventes. Poderia-se dizer inclusive que estava surpreso pelo grifano não ter puxado a varinha àquela altura, e o pensamento sobre o contato dele com a cultura trouxa passou por sua cabeça por um breve momento.
Dizer que Malachai nunca tinha brigado não seria verdade, mas também não seria exatamente uma mentira. Estava acostumado com pessoas que gostavam dele, mas brigar com os parentes sobre jogos ou resultados de partidas que deveriam ser amistosas não era exatamente incomum. Brigar com um completo estranho, entretanto, era realmente uma novidade para ele. De certa forma parecia errado fazer aquilo, o garoto não havia feito nada além de insultá-lo, e não era como se isso não tivesse acontecido antes. A diferença é que normalmente ele resolvia essas discussões exatamente assim, discutindo. Era estranhamente empolgante ver-se acima do outro, e o sorriso orgulhoso que tinha no rosto deixava clara sua animação. Algo sobre o soco estabanado do rapaz embaixo de si fazia com que quisesse rir, mas tinha doído. E caramba, o garoto era magro, mas era mais forte do que tinha imaginado. O impacto fez com que chegasse para trás, mas tentou se manter ali, embora fosse difícil se concentrar com os gritos daqueles que estavam em volta. Se inicialmente tinham uma plateia silenciosa, agora esse já não era o caso.
Seu próximo passo foi tentar dar uma joelhada, mas o joelho mal conseguiu se conectar com o estômago do outro, de uma forma bem desajeitada, diga-se de passagem, antes que ouvisse uma voz forte. “O que os senhores pensam que estão fazendo? Os horários de almoços não foram feitos para que alunos irresponsáveis fizessem esse tipo de barbaridade em território escolar.” O jovem Binyua conhecia bem aquela voz, embora não estivesse tão familiarizado com o tom. Levantou-se, absolutamente incerto sobre como agir ali. Acabou estendendo a mão para o outro, sem ter ideia se ele iria aceitá-la. Não ousou proferir palavra alguma, e imaginava que a situação devia estar clara, além de que provavelmente algum dedo-duro já tinha comentado com a professora McGonagall sobre como a situação tinha se iniciado. “Estou extremamente decepcionada, senhor Binuya. É uma vergonha ver esse comportamento irresponsável em alguém com tanto potencial. Tenho certeza que o professor Slughorn diria o mesmo sobre você, senhor Gore.” A bruxa mais velha prosseguiu, e seu olhar tinha mais impacto do que qualquer punição, ao menos para Malachai. “Menos 20 pontos para as duas casas, e os dois devem procurar Hagrid para a detenção após o jantar. Ouvi dizer que ele precisa de ajuda para colher alguns ingredientes para a enfermaria, e irei avisá-lo que temos dois alunos dispostos a fazer o trabalho.” Foi obrigado a conter o suspiro, a punição não era nem de longe tão ruim quanto poderia ter sido, e a dianteira que a sua Casa tinha não seria tão afetada. Ainda tinham uma chance de ganhar a Taça das casas daquele ano, e em sua mente aquilo era o mais importante. — Sinto muito, professora McGonagall. — Desculpou-se, em um tom muito mais baixo do que o que tinha usado durante toda a discussão. Não perdeu a postura altiva, ainda sentia os olhos dos outros alunos em si, mas acreditava que devia ao menos tentar tornar a situação melhor. Não passou por sua mente que poderia colocar a culpa do começo da briga no outro, e mais tarde quando questionado ele diria que simplesmente não valia a pena, além de ser um pouco errado. Sim, o outro o tinha empurrado, mas ele podia não ter feito nada. “Se os senhores não tiverem mais nada a dizer, podem seguir para as respectivas aulas. Certamente os professores não iriam se importar com o adiantamento, e é melhor do que ficarem livres para causar mais problemas.” A professora finalizou, com um olhar rígido para ambos, antes de se virar. Com um suspiro, Malachai também deixou o local, não se dando ao trabalho de lançar mais um olhar sequer para o outro garoto. Tinha um pouco de empatia por ele, mas também estava bastante frustrado com a situação. Queria que chegasse logo a hora de detenção, para acabarem logo com aquilo.