LUTO DE ALGUĂM VIVO
Hoje te vi e achei que sentiria algo.
Talvez um frio na barriga, talvez Ăłdio ao encarar o seu rosto.
Mas tudo o que senti foi dĂł.
Piedade de alguém que jå não carrega dignidade alguma, alguém consumido pela própria maldade, pelo lado mais sombrio e nojento de si.
Ă estranho olhar para vocĂȘ e nĂŁo encontrar mais nada da pessoa que um dia amei com tanta intensidade.
Hoje, sĂł enxergo dor.
Só vejo alguém que não conheço mais.
Carrego o luto de uma pessoa que ainda estĂĄ viva e talvez essa seja a pior parte.
Porque como pode alguém morrer antes do fim?
Como pode a pessoa por quem me apaixonei simplesmente deixar de existir?
VocĂȘ morreu muito antes do nosso Ășltimo adeus, e depois dele restou apenas o cheiro podre do que um dia tentou parecer amor.
Ouvi dizerem: âque saudade de vocĂȘs juntasâ.
E talvez, lå no fundo, eu também tenha sentido isso.
Saudade do que fomos.
Do amor mais genuĂno que meu coração jĂĄ teve coragem de sentir.
Meu coração nunca soube amar,
e aprendeu junto ao seu
um coração que também não sabia direito.
Eu queria nĂŁo carregar esse rancor.
Queria que tudo tivesse terminado em paz, como dizem que deveria terminar.
Queria conseguir ouvir sobre o seu crescimento sem sentir esse vazio esmagando meu peito.
Queria ouvir de vocĂȘ aquelas coisas que sĂł me contava, mas queria ouvir quando ainda Ă©ramos ânĂłsâ.
Agora, porém, tudo o que consigo enxergar é preto.
Um nada profundo que nem consigo explicar.
Porque, afinal, como eu pude amar?
Como pude entregar minha alma a alguém com uma maldade tão exorbitante, um olhar tão maligno?
Eu te dei a imensidĂŁo do amor que existia em mim.
Te entreguei tudo o que eu tinha de mais puro, mais inteiro.













