espero que dia eu consiga me perdoar por tudo que eu me submeti.
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Há cortes que o relógio não costura, e sangram como a chuva no telhado. Parecem um inverno que perdura, o peso de um adeus mal terminado.
Mas o amanhã é um mágico discreto, que chega sem alarde, de mansinho. O que era um abismo e dor no peito, de súbito, faz flor no teu caminho.
Então descansa a alma, meu amor, que o tempo tem a sua própria lei: ou vira uma eterna e doce dor, ou sara numa aurora que não sei.
Me escondo daquilo que sinto, como quem foge de si, disfarço o desejo em silêncio pra ninguém, nem eu, ouvir.
Evito os olhares em pausa e os toques que pedem lugar, porque sei que certos começos nascem só para sangrar.
Há um querer em segredo, que insiste em me atravessar, mas a vertigem da queda é o que me faz recuar.
O peito até bate mais forte quando algo parece florir, mas quem já quebrou por dentro, aprendeu a não se permitir.
E assim eu sigo em cautela, entre o impulso e o conter, querendo o salto no abismo, mas temendo não sobreviver.
Eu me perdia no gosto da tua presença, como quem sorve, devagar, um amor que não acaba. Cada instante teu era um vício suave, um mundo inteiro cabendo no tom da tua fala.
Fingia não notar o tempo nos espreitando, recusava o depois, a vertigem, o vazio. Porque em você tudo assumia ares de eterno, como se o fim fosse apenas um mito tardio.
Deslizava por teus mistérios, em silêncio, lia teus medos como quem tateia estrelas, e nos sonhos que inventávamos, juntos, eu forjava razões para nunca perdê-las.
Mas toda utopia abriga um adeus escondido, e, mesmo lúcido, escolhi não ver. Porque amar você foi de uma beleza tão triste, que sempre valerá o risco de me perder.
Depois de provar o óbvio utópico do teu beijo, nunca mais aceitei o mundo como ele se apresenta. Porque tudo se tornou opaco, desbotado, desprovido de urgência. Como se o universo tivesse me confiado o ápice da existência, para depois fingir amnésia. E eu sigo aqui... refém da lembrança da tua boca, diante da crueldade de não poder repetir o milagre.

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Prefiro sofrer por amor a viver sem amar, porque a dor, ainda que funda, carrega um nome, um rosto, um sentido. É uma ferida que prova que eu senti, que vivi e que me permiti ser atravessado por alguém. Pior seria o silêncio de um coração intacto e vazio: sem memórias, sem saudade, sem o doce risco de existir no outro. Prefiro a lágrima que nasce do amor à calmaria de nunca ter sentido nada.
Eu sou o idiota. E não há metáfora é concreto no estômago, é fratura no osso.
É a minha própria voz me devorando, me cuspindo de volta: o burro, o inútil, a falha que respira.
Ridículo. Meu passo não é tropeço, é queda livre. Cada palavra que sai da minha boca já nasce torta, amarga na língua.
Eu me apedrejo em silêncio na ilusão de que a dor conserta a carne. Ergui um altar com a minha própria culpa e deitei meu pescoço sobre ele.
Tolo. É a lâmina que entra mais fácil. Porque nela apodrece tudo: o que eu quis, o que eu esperei, o que me escorreu pelos dedos e o fantasma de quem eu nunca fui.
Minúsculo. Um bicho desajeitado, tentando decifrar o manual de uma vida escrito numa língua morta.
E o mais cruel do esgotamento é que nem o sangue no altar me redime. Sobra apenas a náusea do dia seguinte: ter que abrir os olhos, vestir essa mesma pele pesada, e fingir que sei como existir.
A noite pertence aos que sentem em demasia. É o Reino dos poetas, que riscam o breu com o fósforo das palavras, incendiando o próprio peito para que o silêncio não seja absoluto.
É o cais das prostitutas, que mapeiam o corpo como um território sagrado e o desejo como uma moeda gasta; mas que guardam, sob a maquiagem e a luz neon, um cansaço ancestral que nenhum ouro redime.
É o altar dos que morrem de amor, almas vastas que não cabem na moldura do dia. Eles transbordam no vazio das horas, mestres na arte de sangrar em segredo, sem desarrumar a paz dos que dormem.
A noite é o abrigo dos excessos: onde os segredos que o sol denunciaria encontram o repouso da sombra. É o asilo dos corações expostos, daqueles que nunca aprenderam a vestir armaduras.
E enquanto o mundo repousa em sua amnésia, há sempre alguém vertendo tinta, alguém negociando a pele, alguém lavando o rosto em pranto.
Todos, à sua maneira, tentando atravessar o deserto de si mesmos, sobrevivendo a esse mesmo sentimento que insiste em não passar.
No vão entre o silêncio da casa e o ruído insistente da saudade, eu te invento em minúcias que nunca cheguei a tocar.
O amor tem essa teimosia de fantasma, não sabe a hora de partir. Ele se arrasta pelos cantos, pelas bordas dos copos, pelos cômodos ocos do peito.
Passo o café como quem conjura um retorno. O aroma da canela ascende, lento, quente, um abraço denso que a vida sonegou.
Bebo sozinho, mas povoado de ti: você respira nesse vapor que assombra o ar da cozinha, onde cada gole quente de café acorda a saudade do teu abraço apertado.
E é de uma ironia brutal que algo tão ordinário, pó, água, canela consiga incendiar a pele exatamente onde a alma dói.
Talvez o amor seja apenas isto: um calor provisório nas mãos, enquanto o corpo é forçado a engolir o frio absoluto da tua ausência.
É da minha própria natureza este impulso bonito de me derramar no outro. De fazer do amor não um mero acaso, mas o território exato onde existo por inteiro.
Minha melhor versão jamais brota da solidão, ela desabrocha no abraço do encontro no riso partilhado com amigos, no colo seguro que chamo de família, nos amores possíveis que, mesmo frágeis, ainda escolhem ficar.
Eu nunca soube ser pouco quando o verbo é sentir. Há em mim um excesso que transborda, um coração que recusa a arte de conter-se, mesmo depois das quedas, mesmo depois de ser deixado no "depois".
Não tenho como silenciar o que me habita, seria como negar a própria respiração. Sou tecido de mistérios, de uma magia que a razão não explica um feitiço antigo que pulsanum corpo que irremediavelmente se afeta por afeto.
E talvez a sina seja esta: não fui feito para resistir ao amor, fui feito para vivê-lo. Mesmo quando ele me atravessa como dor, mesmo quando me parte ao meio, ainda assim... ele me refaz.

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Meu grande erro é não saber ser fortaleza. Eu queria a dureza das coisas que não sentem, queria um peito blindado, imerso em defesas intransponíveis. Mas a minha natureza é a da entrega cega. Meu coração se desfaz fácil demais, absolve depressa demais. E recomeça, crente, mesmo carregando o peso das antigas fraturas.
Digo a mim mesmo que serei diferente, que não serei mais o banquete de quem só me oferece sobras. Contudo, a esperança é uma armadilha sutil. De repente, já estou ali de novo, fantasiando o infinito no que era apenas efêmero, transformando miudezas em juras absolutas.
E a roda gira, parando no mesmo ponto de sempre. Eu fico. Eu espero. Eu sinto até a exaustão. E sou, mais uma vez, o plano de fundo. O 'talvez amanhã', o 'depois eu vejo'.
Ser a segunda opção de alguém é um adoecer invisível. E quando o eco do fim se instala, sobra a constatação crua do desequilíbrio: entreguei minha essência inteira e me devolveram o vazio.
E eu choro. Quase sempre no final eu choro.
Ás vezes a gente constrói uma expectativa de que o outro gosta da gente, só não consegue demonstrar. Então a gente fica ali, esperando por uma demonstração mínima de afeto, desejando que o outro retribua, que seja recíproco. Quando na verdade, a gente sabe que não é.
O seu toque incendeia as artérias, como se o sangue ganhasse urgência só para alcançar você.
Há qualquer coisa em suas mãos que desperta o meu corpo inteiro um segredo que pulsa debaixo da pele.
E então eu percebo: não é dor, tampouco vertigem. É apenas o amor correndo livre nas veias.
Há um silêncio denso e febril que não nasce de ruas caladas, mas do buraco absoluto que a ausência de alguém rasgou no peito.
E é isso o que beira a loucura: o mundo lá fora continua a pulsar, mecânico e frio. As pessoas marcham na lama em sua pressa cega, atravessando a névoa como se a minha ruína não passasse de um delírio meu.
Mas no fundo do meu próprio subterrâneo há uma cadeira gasta, à meia-luz. E nenhum desses rostos apressados desconfia que foi ali, naquele patético assento, que a minha humanidade respirou pela última vez.
O abandono não anuncia sua chegada. Ele se infiltra como a umidade nas paredes, tira os sapatos como um hóspede covarde, e passa a envenenar os cantos mesquinhos da mente.
Na xícara de chá intocada sobre a mesa gasta. No delírio de ouvir passos na escada que nunca sobem. No som do meu próprio nome, que agora soa como um insulto.
Às vezes, no auge do cansaço, concluo que a verdadeira condenação é apenas esta: ser um fantasma preso numa casa de paredes sólidas, cujo endereço o resto do mundo decidiu esquecer
O retorno é sempre sem aviso. Um sopro quente que escancara a janela da memória.
Não vem como imagem, vem como cheiro. Como o ar denso da noite que ainda cola na pele. O mesmo calor abafado que me impedia de respirar.
Num piscar, o adulto desaparece. Sou diminuto outra vez. Os pés congelados no piso, o peito descompassado dentro de um corpo vulnerável.
O trauma nunca grita. Ele murmura. Infiltra-se em silêncio. E quando percebo, estou capturado, refém de uma madrugada sem fim.
A dor mais funda não é o que me fizeram. É não ter tido escolha. É a voz que não saiu. O grito que não quebrou a parede. O resgate que não chegou.
Os anos correm, mas a carne registra. A lembrança tem textura. Tem graus Celsius. Tem asfixia.
E vez ou outra, quando a noite pesa, o tempo retrocede. E eu volto a ser aquele menino tentando sobreviver ao absurdo, tentando segurar o insuportável com mãos que não sabiam como se fechar.

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Há uma vontade imensa de virar neblina, de escorrer calado por qualquer esquina. Um desejo agudo de não ser notado, de apagar meus rastros, ser desapegado.
Sumir aos olhos do mundo, não deixar sinal, vestir a capa opaca de um ser irreal. Os dias se atropelam num compasso lento, a monotonia é um peso que afoga o pensamento.
Acordo e o quarto é cinza, a vida perde a cor, e a tristeza me abraça como um velho cobertor. É uma dor constante que ecoa no prédio, um pêndulo cansado que balança no tédio.
Me sinto naufragado numa ilha escura, onde o silêncio grita e a solidão perdura. Perdido no meu canto, solto na multidão, ninguém parece ouvir a minha exaustão.
Sou um barco abandonado longe do seu cais, que não encontra a rota e não navega mais. O peito é um oceano de águas tão geladas, as madrugadas longas, as falas engasgadas.
E mesmo que eu não saiba a cura pra essa dor, eu deixo aqui o eco do seu próprio clamor. Que o verso agora aceite o que não dá pra falar, enquanto houver um fio de ar para respirar.
A sexta-feira deságua com esse aroma ambíguo de finitude e aurora, mas em mim ela ancora. Enquanto o mundo se borda de brilhos e urgências, eu me revisto de ausências. Lá fora, a cidade acende seus incêndios festivos; aqui dentro, sou apenas o silêncio que observa.
Os risos atravessam a rua como flechas que não me alcançam. Mensagens pulsam em telas frias, mas minha mente é um claustro sem frestas, onde pensamentos insones caminham em círculos, gastando o assoalho da memória.
O coração, esse operário exausto, bate contra o peito como quem esmurra uma porta esquecida. Dizem que a sexta é leve, mas há um nó de ferro em minha garganta, uma anatomia que desconhece a lógica dos calendários.
O sábado aproxima-se como um espelho vasto e impiedoso. Ele reflete a geometria árida do quarto: a colcha sem vincos, a ordem excessiva de quem não tem com quem bagunçar a vida. O tempo não flui; ele estagna, pois não há destino para onde minha pressa possa fugir.
O domingo chega com seu céu de cinza e pálpebras caídas. Traz um silêncio que grita mais alto que qualquer multidão. A solidão, já íntima, puxa a cadeira e serve-se à mesa; tomamos um café amargo enquanto ela me narra, em detalhes, todos os meus "quase".
Minha cabeça é um museu de hipóteses, repleto de diálogos que ensaiei e nunca proferi. Sinto a melancolia de quem perdeu um tesouro que sequer teve a chance de tocar.
Quando a noite de domingo tomba, a rotina estende seu tapete de espinhos. O despertador é o carrasco da aurora; as horas são marcos de uma semana que se alonga como um corredor sem janelas. Monotonia não é apenas repetir; é a erosão da esperança pelo hábito. É deitar-se com o mesmo fardo e acordar sem o susto da novidade.
• A sexta dói pelo que se espera.
• O sábado pesa pelo que falta.
• O domingo silencia pelo que se sabe.
E eu, suspenso entre os dias, cultivo uma esperança franzina: a de que algum fim de semana finalmente mude o tom, troque o eco pelo abraço e transforme este deserto em cais.