Bem, mediante a todos os textos que escrevi aqui, esse será o último. O último texto que encerra definitivamente essa versão de mim que ainda insistia em olhar para o passado, que ainda encarava alguns fantasmas nos olhos e carregava culpas que nunca me pertenceram. E o motivo é muito simples, pelo menos para mim: eu estou pronta.
Não digo isso para me convencer, nem porque quero acreditar que estou. Digo porque, pela primeira vez em muito tempo, eu realmente sinto isso. Existe uma tranquilidade dentro de mim que antes não existia quando eu tentava falar sobre essas coisas. Sinto que finalmente chegou a hora de soltar alguns fardos que venho carregando há anos, não porque eles deixaram de ser importantes, mas porque já não preciso mais carregá-los para me lembrar do que vivi.
O que sei é que, nos últimos meses, reencontrei em mim uma leveza, um amor e uma força que por muito tempo achei que tinham desaparecido. E quando digo reencontrar, não estou falando de me tornar quem eu era antes, porque acho que isso é impossível. Estou falando de reconhecer em mim partes que eu acreditava ter perdido para sempre.
Por isso quero falar sobre algumas coisas com uma clareza que nunca tive antes. Sobre situações, pessoas e sobre mim mesma. Um último desabafo.
Eu sei que desde que aprendi a amar e a desaprender na mesma proporção, mudei drasticamente. E não estou falando apenas das amizades ou do quanto eu costumava ser comunicativa, presente, engraçada e espontânea. Estou falando da forma como enxergava a mim mesma e o mundo ao meu redor.
Eu amava tirar fotos do céu, da lua, das flores e do pôr do sol quando saía para caminhar no fim da tarde. Gostava de me ver nas fotos que eu mesma tirava, daquele sorriso que sempre encontrava alguma beleza. Do olhar intenso que carregava um brilho diferente. Gostava de cantar sem me preocupar se minha voz era bonita o suficiente, de escrever histórias sem pensar em quem iria ler, de olhar para as pessoas com carinho antes mesmo de conhecê-las direito. Eu acolhia sem fazer cálculos, sem pensar se receberia algo em troca.
Gostava de passar horas jogando com meus amigos até a madrugada e de andar de bicicleta até a praia mesmo sabendo que era longe. A brisa sempre me acalmava quando eu não estava bem. Não costumava desabafar muito com ninguém, porque cresci aprendendo a cuidar de mim mesma da forma que conseguia.
E não era fácil. Nunca foi.
Não tive uma infância tranquila e também não cresci cercada pelo tipo de amor que ensina uma criança a se sentir segura o tempo inteiro. Desde muito nova precisei desenvolver uma independência que nem sempre combinava com a minha idade. Ainda assim, fazia o possível para construir uma vida tranquila para mim.
E de certa forma, eu conseguia.
Meus amigos da época costumavam dizer que eu era conhecida por muita gente, que parecia estar sempre rodeada de pessoas. E eu discordo, apenas era aquela amiga que estava presente, que ajudava, que fazia os outros rirem. A palhaça da turma. Me enxergavam como alguém leve, espontânea e forte. O que eles não sabiam era que eu também travava minhas próprias batalhas em silêncio.
Mas tudo começou a virar de cabeça para baixo em um intervalo muito pequeno de tempo. Não tive tempo de assimilar...
E sei que não tinha como controlar nada disso. Mas muitas perdas, em sequência, mudam alguém. Principalmente alguém que sempre foi tão seletiva com quem deixava entrar na própria vida.
Perdi uma amiga que era muito importante para mim. Ela simplesmente desapareceu e, anos depois, descobri que havia falecido. Eu nunca falei sobre o que senti quando recebi essa notícia. Na verdade, acho que nunca vou conseguir colocar em palavras o que aconteceu dentro de mim naquele momento. Só sei que alguma coisa se quebrou.
Ao mesmo tempo, sei que carrego um pedacinho dela comigo até hoje. Das conversas, dos conselhos, das risadas, das pequenas coisas que ela me ensinou sem nem perceber. Existem pessoas boas que vão embora, mas continuam vivendo em nós de alguma forma, e ela é uma delas.
Meses depois, outras pessoas que considerava muito também se revelaram completamente diferentes de como imaginei. Foi aí que conheci de perto o quanto a inveja pode ser perigosa. O quanto ela é silenciosa, disfarçada e capaz de mostrar a verdadeira identidade de quem está ao seu lado.
Às vezes eu pensava: "Que droga, baixei a guarda uma única vez e se aproveitaram da minha dor." Em outros momentos pensava que, se eu não tivesse baixado a guarda, talvez nunca tivesse descoberto quem realmente eram.
No fim, relevei e segui a vida, porque sempre soube que existem pessoas que vêm e vão, pessoas passageiras, e que pessoas ruins também cruzam o caminho de pessoas boas.
Eu já sabia me proteger desse tipo de gente. Sabia observar comportamentos, identificar intenções e perceber quando alguém se aproximava querendo tomar para si aquilo que era meu, diminuir quem eu era ou simplesmente tocar na paz que eu tinha construído. Tudo isso só reforçou em mim a ideia de que precisava ser ainda mais seletiva, cautelosa e desconfiada.
O que eu não sabia era que as maiores dores nem sempre vêm das pessoas que esperamos.
Fui muito ingênua ao esquecer que até as pessoas que nos amam também podem machucar. E sendo sincera, olhando para tudo o que vivi, fui muito mais machucada por elas do que pelas pessoas ruins que um dia acreditei serem boas.
Minha melhor amiga, alguém que amava profundamente, que eu sempre cuidei e por quem estive presente em tudo que precisava. A pessoa que me ligava de madrugada quando precisava de amparo, com quem eu passava horas explicando física, transformando fórmulas, vetores e movimentos em algo mais simples de entender, e química, tentando mostrar que até as reações mais imprevisíveis obedecem a princípios e equilíbrios. A mesma pessoa com quem eu passava madrugadas fofocando enquanto jogávamos qualquer coisa.
Foi ela quem me ensinou uma das lições mais difíceis da minha vida: a de que você pode ser substituída e transformada em vilã.
Não importa o quanto você tenha feito. Não importa o quanto você tenha oferecido. Não importa o quanto tenha permanecido.
As pessoas podem ir embora. É natural em qualquer laços. Mas não quando depositam histórias equivocadas sobre você.
E isso destruiu uma visão que eu tinha sobre os vínculos que construía. Desde então, aprendi a ser emocionalmente fechada. Essa é a verdade. Na minha cabeça fazia todo sentido pensar: "Se posso ser substituída, então prefiro não mostrar minhas melhores versões para qualquer um." Era um mecanismo de defesa. E durante muito tempo, foi uma defesa que me protegeu.
Então pensei que, se ao menos tivesse minha namorada ao meu lado, conseguiria olhar para tudo o que vivi sob outra perspectiva. Como aprendizado. Porque ela não era apenas minha namorada. Era também minha amiga. Alguém que eu conhecia desde os meus 11 anos. Alguém que fazia parte da minha história muito antes de fazer parte da minha vida amorosa.
Mas ela também me ensinou uma lição. A pior de todas.
Ela mostrou como um céu cheio de arco-íris pode se transformar em tempestade em questão de segundos. Como a sensação de estabilidade pode tremer até rachar sob os seus pés. Como um coração pode ser quebrado de formas diferentes ao mesmo tempo. Como você pode se perder de si mesma sem perceber. Como existem feridas que não levam embora apenas uma pessoa, mas partes inteiras daquilo que você acreditava ser.
Eu demorei dois anos para sentir tudo o que havia guardado dentro de mim. Dois anos tentando sobreviver da pior forma possível. Me afastando de mim mesma, me afastando dos meus amigos, me afastando das pessoas que gostavam de mim porque eu não queria mostrar o que estava acontecendo aqui dentro. Mas no fim, acabei afastando todo mundo.
E continuo fazendo isso às vezes.
Porque, embora saiba que ninguém é responsável pelo meu passado, ele ainda me assombra mais do que gostaria de admitir.
Quando sinto que posso ser substituída, me afasto.
Quando percebo que tentam me fazer sentir invisível, recuo.
Quando distorcem quem eu sou, me calo.
Quando percebo a menor indiferença, desapareço.
E eu me culpo um pouco por isso, porque ninguém é obrigado a me dar atenção, a me procurar ou a ocupar um lugar na minha vida. Ninguém tem responsabilidade pelas coisas que aconteceram comigo.
Mas também não quero repetir os mesmos erros. Não quero permanecer onde não existe reciprocidade, onde não existe procura, onde não existe espaço para ser quem sou sem medo ou vergonha. Tudo isso aconteceu ao longo de anos. Me acompanhou até os meus 20 anos.
E dói admitir que, por causa disso, me tornei alguém ausente. Alguém que nunca imaginei ser, porque não combina comigo. Não combina comigo viver em estado de alerta o tempo inteiro. Não combina comigo analisar cada relação tentando descobrir se sou importante ou apenas tolerada. Não combina comigo pensar que não faço diferença e que, por isso, tudo bem desaparecer.
Mas sabe quando você finalmente está pronta para dizer adeus? Não um adeus para as pessoas. Nem um adeus para as memórias. Mas um adeus para a versão de si mesma que viveu tempo demais tentando sobreviver a tudo isso. É sobre isso. Esse desabafo.
Foram dois anos, dois anos observando e encarando meus erros, e entendendo sobre tempo, disponibilidade, diferenças. Tudo isso em silêncio. Claro que poderia ter pedido ajuda, sim, ainda existem pessoas que se importam comigo. Porém não quis sobrecarregar ninguém, assim como eu, alguns também têm seus próprios passados para assimilar.
Ontem, quando estava muito cansada, querendo apenas ir embora, chegar em casa e dormir para aliviar a sensação de esgotamento que o dia tinha deixado em mim, alguém muito importante simplesmente me parou e me arrastou para uma sala vazia. Ela olhou para mim e me abraçou.
E naquele abraço, aconteceu algo que eu não esperava.
Não senti que alguém estava tentando me consertar. Não senti que precisava explicar nada. Pela primeira vez em muito tempo, apenas me senti vista e segura.
Naquele abraço, me lembrei que ainda posso ser eu mesma. Que ainda posso voltar a ser aquela menina calma, que falava sobre tudo o que gostava sem medo, que mostrava sua inteligência sem receio de despertar inveja, que ajudava os outros porque era da sua natureza ajudar. Me lembrei que não preciso me conter ao cantar, esconder partes de mim ou diminuir quem eu sou para caber nos espaços dos outros.
Também me lembrei que existem lugares onde sou procurada com interesse genuíno, com leveza e com paz.
E acima de tudo, aquele abraço me lembrou o quanto sou amada.
Não foi apenas ela. Outras amigas também perceberam o quanto eu estava cansada e diferente. Perceberam pelos meus olhos, pela minha expressão, pela minha postura, e meu jeitinho de andar. Algumas me enviaram mensagens, outras me procuraram sem que eu precisasse pedir ajuda. E isso me deixou extremamente reflexiva.
Porque, durante muito tempo, estive tão ocupada olhando para as pessoas que foram embora que quase não percebi aquelas que permaneceram.
Existem pessoas que entram nas nossas vidas para nos encorajar, para nos lembrar de quem somos quando nós mesmas esquecemos. Pessoas que nos mostram onde somos queridas, onde somos acolhidas e onde não precisamos lutar para merecer um lugar.
E, sinceramente, todas essas pessoas que encontrei ao longo do caminho, tanto pessoalmente quanto virtualmente, me ensinaram algo muito importante: reciprocidade nem sempre vem em palavras. Às vezes ela está nos detalhes. Está na mensagem boba, na preocupação sincera, no abraço inesperado, na presença constante, na lembrança sobre algum gosto...
Eu sou profundamente grata por cada pessoa que permaneceu. Grata por cada pessoa que me acolhe diariamente. Grata por cada pessoa que escolhe fazer parte da minha vida. Grata por cada nova pessoa também.
Porque foram elas que me ajudaram a perceber que o amor realmente cura feridas. Não de forma mágica, nem da noite para o dia, mas aos poucos. Com paciência. Com presença. Com verdade.
Meu passado continuará existindo. As cicatrizes também. Elas fazem parte da minha história e sempre farão. Mas já não quero olhar para elas como algo que me prende. Quero olhar para elas como lembranças do que sobrevivi e como uma motivação para nunca mais confundir amor com idealização, nem permanência com obrigação.
Isso definitivamente é um adeus.
E eu sei que é porque existe uma paz muito tranquila dentro de mim quando escrevo isso. Não uma paz de quem esqueceu tudo, mas de quem finalmente aceitou.
Em breve farei 22 anos e, olhando para trás, percebo que muita coisa mudou. Mas algumas partes de mim continuam exatamente onde sempre estiveram.
Eu sempre vou ser a garota que ama tirar fotos da lua, do céu ao amanhecer, do pôr do sol, das flores e dos momentos aleatórios que fazem a vida valer a pena. Sempre vou gostar de passar a madrugada nos finais de semana jogando, de encontrar um jeito de espairecer sentada na areia observando as ondas beijarem a margem. Sempre vou carregar essa sensibilidade comigo.
E também sempre vou ser leal às pessoas que me amam.
Porque hoje consigo enxergar algo que durante muito tempo esqueci: Eu também tenho um lugar especial na vida delas.
E talvez essa tenha sido a descoberta mais bonita de todas.