Na justiça dos hipócritas, a culpa nunca é de quem começa, só de quem revida.
— G.D
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Na justiça dos hipócritas, a culpa nunca é de quem começa, só de quem revida.
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Bem, mediante a todos os textos que escrevi aqui, esse será o último. O último texto que encerra definitivamente essa versão de mim que ainda insistia em olhar para o passado, que ainda encarava alguns fantasmas nos olhos e carregava culpas que nunca me pertenceram. E o motivo é muito simples, pelo menos para mim: eu estou pronta.
Não digo isso para me convencer, nem porque quero acreditar que estou. Digo porque, pela primeira vez em muito tempo, eu realmente sinto isso. Existe uma tranquilidade dentro de mim que antes não existia quando eu tentava falar sobre essas coisas. Sinto que finalmente chegou a hora de soltar alguns fardos que venho carregando há anos, não porque eles deixaram de ser importantes, mas porque já não preciso mais carregá-los para me lembrar do que vivi.
O que sei é que, nos últimos meses, reencontrei em mim uma leveza, um amor e uma força que por muito tempo achei que tinham desaparecido. E quando digo reencontrar, não estou falando de me tornar quem eu era antes, porque acho que isso é impossível. Estou falando de reconhecer em mim partes que eu acreditava ter perdido para sempre. Por isso quero falar sobre algumas coisas com uma clareza que nunca tive antes. Sobre situações, pessoas e sobre mim mesma. Um último desabafo.
Eu sei que desde que aprendi a amar e a desaprender na mesma proporção, mudei drasticamente. E não estou falando apenas das amizades ou do quanto eu costumava ser comunicativa, presente, engraçada e espontânea. Estou falando da forma como enxergava a mim mesma e o mundo ao meu redor.
Eu amava tirar fotos do céu, da lua, das flores e do pôr do sol quando saía para caminhar no fim da tarde. Gostava de me ver nas fotos que eu mesma tirava, daquele sorriso que sempre encontrava alguma beleza. Do olhar intenso que carregava um brilho diferente. Gostava de cantar sem me preocupar se minha voz era bonita o suficiente, de escrever histórias sem pensar em quem iria ler, de olhar para as pessoas com carinho antes mesmo de conhecê-las direito. Eu acolhia sem fazer cálculos, sem pensar se receberia algo em troca.
Gostava de passar horas jogando com meus amigos até a madrugada e de andar de bicicleta até a praia mesmo sabendo que era longe. A brisa sempre me acalmava quando eu não estava bem. Não costumava desabafar muito com ninguém, porque cresci aprendendo a cuidar de mim mesma da forma que conseguia.
E não era fácil. Nunca foi.
Não tive uma infância tranquila e também não cresci cercada pelo tipo de amor que ensina uma criança a se sentir segura o tempo inteiro. Desde muito nova precisei desenvolver uma independência que nem sempre combinava com a minha idade. Ainda assim, fazia o possível para construir uma vida tranquila para mim.
E de certa forma, eu conseguia.
Meus amigos da época costumavam dizer que eu era conhecida por muita gente, que parecia estar sempre rodeada de pessoas. E eu discordo, apenas era aquela amiga que estava presente, que ajudava, que fazia os outros rirem. A palhaça da turma. Me enxergavam como alguém leve, espontânea e forte. O que eles não sabiam era que eu também travava minhas próprias batalhas em silêncio.
Mas tudo começou a virar de cabeça para baixo em um intervalo muito pequeno de tempo. Não tive tempo de assimilar...
E sei que não tinha como controlar nada disso. Mas muitas perdas, em sequência, mudam alguém. Principalmente alguém que sempre foi tão seletiva com quem deixava entrar na própria vida.
Perdi uma amiga que era muito importante para mim. Ela simplesmente desapareceu e, anos depois, descobri que havia falecido. Eu nunca falei sobre o que senti quando recebi essa notícia. Na verdade, acho que nunca vou conseguir colocar em palavras o que aconteceu dentro de mim naquele momento. Só sei que alguma coisa se quebrou.
Ao mesmo tempo, sei que carrego um pedacinho dela comigo até hoje. Das conversas, dos conselhos, das risadas, das pequenas coisas que ela me ensinou sem nem perceber. Existem pessoas boas que vão embora, mas continuam vivendo em nós de alguma forma, e ela é uma delas.
Meses depois, outras pessoas que considerava muito também se revelaram completamente diferentes de como imaginei. Foi aí que conheci de perto o quanto a inveja pode ser perigosa. O quanto ela é silenciosa, disfarçada e capaz de mostrar a verdadeira identidade de quem está ao seu lado.
Às vezes eu pensava: "Que droga, baixei a guarda uma única vez e se aproveitaram da minha dor." Em outros momentos pensava que, se eu não tivesse baixado a guarda, talvez nunca tivesse descoberto quem realmente eram.
No fim, relevei e segui a vida, porque sempre soube que existem pessoas que vêm e vão, pessoas passageiras, e que pessoas ruins também cruzam o caminho de pessoas boas.
Eu já sabia me proteger desse tipo de gente. Sabia observar comportamentos, identificar intenções e perceber quando alguém se aproximava querendo tomar para si aquilo que era meu, diminuir quem eu era ou simplesmente tocar na paz que eu tinha construído. Tudo isso só reforçou em mim a ideia de que precisava ser ainda mais seletiva, cautelosa e desconfiada.
O que eu não sabia era que as maiores dores nem sempre vêm das pessoas que esperamos.
Fui muito ingênua ao esquecer que até as pessoas que nos amam também podem machucar. E sendo sincera, olhando para tudo o que vivi, fui muito mais machucada por elas do que pelas pessoas ruins que um dia acreditei serem boas.
Minha melhor amiga, alguém que amava profundamente, que eu sempre cuidei e por quem estive presente em tudo que precisava. A pessoa que me ligava de madrugada quando precisava de amparo, com quem eu passava horas explicando física, transformando fórmulas, vetores e movimentos em algo mais simples de entender, e química, tentando mostrar que até as reações mais imprevisíveis obedecem a princípios e equilíbrios. A mesma pessoa com quem eu passava madrugadas fofocando enquanto jogávamos qualquer coisa.
Foi ela quem me ensinou uma das lições mais difíceis da minha vida: a de que você pode ser substituída e transformada em vilã.
Não importa o quanto você tenha feito. Não importa o quanto você tenha oferecido. Não importa o quanto tenha permanecido.
As pessoas podem ir embora. É natural em qualquer laços. Mas não quando depositam histórias equivocadas sobre você.
E isso destruiu uma visão que eu tinha sobre os vínculos que construía. Desde então, aprendi a ser emocionalmente fechada. Essa é a verdade. Na minha cabeça fazia todo sentido pensar: "Se posso ser substituída, então prefiro não mostrar minhas melhores versões para qualquer um." Era um mecanismo de defesa. E durante muito tempo, foi uma defesa que me protegeu.
Então pensei que, se ao menos tivesse minha namorada ao meu lado, conseguiria olhar para tudo o que vivi sob outra perspectiva. Como aprendizado. Porque ela não era apenas minha namorada. Era também minha amiga. Alguém que eu conhecia desde os meus 11 anos. Alguém que fazia parte da minha história muito antes de fazer parte da minha vida amorosa.
Mas ela também me ensinou uma lição. A pior de todas.
Ela mostrou como um céu cheio de arco-íris pode se transformar em tempestade em questão de segundos. Como a sensação de estabilidade pode tremer até rachar sob os seus pés. Como um coração pode ser quebrado de formas diferentes ao mesmo tempo. Como você pode se perder de si mesma sem perceber. Como existem feridas que não levam embora apenas uma pessoa, mas partes inteiras daquilo que você acreditava ser.
Eu demorei dois anos para sentir tudo o que havia guardado dentro de mim. Dois anos tentando sobreviver da pior forma possível. Me afastando de mim mesma, me afastando dos meus amigos, me afastando das pessoas que gostavam de mim porque eu não queria mostrar o que estava acontecendo aqui dentro. Mas no fim, acabei afastando todo mundo.
E continuo fazendo isso às vezes.
Porque, embora saiba que ninguém é responsável pelo meu passado, ele ainda me assombra mais do que gostaria de admitir.
Quando sinto que posso ser substituída, me afasto. Quando percebo que tentam me fazer sentir invisível, recuo. Quando distorcem quem eu sou, me calo. Quando percebo a menor indiferença, desapareço.
E eu me culpo um pouco por isso, porque ninguém é obrigado a me dar atenção, a me procurar ou a ocupar um lugar na minha vida. Ninguém tem responsabilidade pelas coisas que aconteceram comigo.
Mas também não quero repetir os mesmos erros. Não quero permanecer onde não existe reciprocidade, onde não existe procura, onde não existe espaço para ser quem sou sem medo ou vergonha. Tudo isso aconteceu ao longo de anos. Me acompanhou até os meus 20 anos.
E dói admitir que, por causa disso, me tornei alguém ausente. Alguém que nunca imaginei ser, porque não combina comigo. Não combina comigo viver em estado de alerta o tempo inteiro. Não combina comigo analisar cada relação tentando descobrir se sou importante ou apenas tolerada. Não combina comigo pensar que não faço diferença e que, por isso, tudo bem desaparecer.
Mas sabe quando você finalmente está pronta para dizer adeus? Não um adeus para as pessoas. Nem um adeus para as memórias. Mas um adeus para a versão de si mesma que viveu tempo demais tentando sobreviver a tudo isso. É sobre isso. Esse desabafo.
Foram dois anos, dois anos observando e encarando meus erros, e entendendo sobre tempo, disponibilidade, diferenças. Tudo isso em silêncio. Claro que poderia ter pedido ajuda, sim, ainda existem pessoas que se importam comigo. Porém não quis sobrecarregar ninguém, assim como eu, alguns também têm seus próprios passados para assimilar.
Ontem, quando estava muito cansada, querendo apenas ir embora, chegar em casa e dormir para aliviar a sensação de esgotamento que o dia tinha deixado em mim, alguém muito importante simplesmente me parou e me arrastou para uma sala vazia. Ela olhou para mim e me abraçou.
E naquele abraço, aconteceu algo que eu não esperava.
Não senti que alguém estava tentando me consertar. Não senti que precisava explicar nada. Pela primeira vez em muito tempo, apenas me senti vista e segura.
Naquele abraço, me lembrei que ainda posso ser eu mesma. Que ainda posso voltar a ser aquela menina calma, que falava sobre tudo o que gostava sem medo, que mostrava sua inteligência sem receio de despertar inveja, que ajudava os outros porque era da sua natureza ajudar. Me lembrei que não preciso me conter ao cantar, esconder partes de mim ou diminuir quem eu sou para caber nos espaços dos outros.
Também me lembrei que existem lugares onde sou procurada com interesse genuíno, com leveza e com paz.
E acima de tudo, aquele abraço me lembrou o quanto sou amada.
Não foi apenas ela. Outras amigas também perceberam o quanto eu estava cansada e diferente. Perceberam pelos meus olhos, pela minha expressão, pela minha postura, e meu jeitinho de andar. Algumas me enviaram mensagens, outras me procuraram sem que eu precisasse pedir ajuda. E isso me deixou extremamente reflexiva.
Porque, durante muito tempo, estive tão ocupada olhando para as pessoas que foram embora que quase não percebi aquelas que permaneceram.
Existem pessoas que entram nas nossas vidas para nos encorajar, para nos lembrar de quem somos quando nós mesmas esquecemos. Pessoas que nos mostram onde somos queridas, onde somos acolhidas e onde não precisamos lutar para merecer um lugar.
E, sinceramente, todas essas pessoas que encontrei ao longo do caminho, tanto pessoalmente quanto virtualmente, me ensinaram algo muito importante: reciprocidade nem sempre vem em palavras. Às vezes ela está nos detalhes. Está na mensagem boba, na preocupação sincera, no abraço inesperado, na presença constante, na lembrança sobre algum gosto...
Eu sou profundamente grata por cada pessoa que permaneceu. Grata por cada pessoa que me acolhe diariamente. Grata por cada pessoa que escolhe fazer parte da minha vida. Grata por cada nova pessoa também.
Porque foram elas que me ajudaram a perceber que o amor realmente cura feridas. Não de forma mágica, nem da noite para o dia, mas aos poucos. Com paciência. Com presença. Com verdade.
Meu passado continuará existindo. As cicatrizes também. Elas fazem parte da minha história e sempre farão. Mas já não quero olhar para elas como algo que me prende. Quero olhar para elas como lembranças do que sobrevivi e como uma motivação para nunca mais confundir amor com idealização, nem permanência com obrigação.
Isso definitivamente é um adeus.
E eu sei que é porque existe uma paz muito tranquila dentro de mim quando escrevo isso. Não uma paz de quem esqueceu tudo, mas de quem finalmente aceitou.
Em breve farei 22 anos e, olhando para trás, percebo que muita coisa mudou. Mas algumas partes de mim continuam exatamente onde sempre estiveram.
Eu sempre vou ser a garota que ama tirar fotos da lua, do céu ao amanhecer, do pôr do sol, das flores e dos momentos aleatórios que fazem a vida valer a pena. Sempre vou gostar de passar a madrugada nos finais de semana jogando, de encontrar um jeito de espairecer sentada na areia observando as ondas beijarem a margem. Sempre vou carregar essa sensibilidade comigo.
E também sempre vou ser leal às pessoas que me amam.
Porque hoje consigo enxergar algo que durante muito tempo esqueci: Eu também tenho um lugar especial na vida delas.
E talvez essa tenha sido a descoberta mais bonita de todas.
— G.D
Acho que já está na hora de falar sobre você de novo.
Por muito tempo eu realmente achei que não saberia continuar vivendo sem você ao meu lado. Não de forma dramática, desesperada ou dependente… mas porque, em algum momento, você deixou de ser apenas alguém que eu amava e passou a existir dentro de tudo que eu planejava para o futuro. Já não existia mais um “depois” sem que você estivesse nele. E talvez tenha sido isso que mais me desestabilizou quando tudo saiu dos trilhos: eu não precisei aprender apenas a superar você, precisei aprender a reconstruir uma vida inteira sem a presença que eu já considerava permanente.
E eu só volto a tocar nesse assunto agora porque foi exatamente nesse ponto da minha vida que eu imaginei nós duas vivendo juntas. Livremente. Abertamente. Sem medo. Sem precisar esconder carinho nos detalhes ou reduzir sentimentos ao silêncio. Eu imaginei paz. Imaginei uma rotina simples, mas feliz. Imaginei nós duas cansadas depois de um dia longo, dividindo o mesmo sofá, o mesmo espaço, a mesma vida. E é estranho revisitar essas memórias porque, durante muito tempo, elas pareciam tão reais quanto qualquer coisa concreta que eu podia tocar.
Existe uma parte muito escondida dentro de mim que ainda dói um pouco. Não pela solidão de agora, porque honestamente eu aprendi a ficar comigo mesma. E também não porque eu esteja presa ao passado. A dor vem de saber que você nunca imaginou a dimensão do amor que existia aqui dentro. Na verdade, ninguém imagina. Ninguém sabe sobre as alianças que eu comprei.
Às vezes eu lembro daquela noite em São Paulo e parece cena de filme melancólico demais pra ter acontecido comigo. Eu voltando tarde, cansada, andando por ruas caras onde eu mal sabia me localizar direito, entrando em lugares que claramente não pareciam feitos pra alguém como eu. E mesmo perdida, insegura e completamente fora da minha zona de conforto… eu fui. Porque amar muito faz isso com a gente. Faz a coragem nascer em lugares improváveis. Meu senso de direção, que normalmente falha pra tanta coisa, naquele dia parecia me empurrar exatamente pro lugar certo.
E eu encontrei as alianças perfeitas. Perfeitas de verdade. Com as nossas numerações certinhas.
Hoje, quando penso nisso, uma parte minha acha absurdamente fofo. A outra acha brega num nível quase vergonhoso. E talvez seja exatamente por isso que a lembrança ainda seja tão bonita, porque era genuína. Não tinha jogo, exagero ou encenação. Era só amor puro, maduro e decidido. Eu realmente estava pronta pra casar com você.
E acho que é justamente por isso que meu coração ainda encontra tanta dificuldade em se abrir novamente. Porque não era uma paixão passageira ou uma fantasia bonita que acabou cedo demais. Meu coração já tinha escolhido permanência. Já tinha escolhido futuro. Já tinha escolhido você como lar antes mesmo de existir um pedido oficial. Então quando algo assim quebra, não é só o relacionamento que termina… é toda uma realidade imaginada que desmorona junto. E reorganizar os sentimentos depois disso leva tempo. Muito tempo.
Ainda não sei o que fazer com aquelas alianças de noivado. Às vezes penso em guardar. Às vezes penso em vender. Às vezes penso que talvez elas devam continuar existindo apenas como símbolo silencioso de uma versão minha que amou alguém profundamente, sem medo de construir planos enormes ao redor desse amor. Porque aquela era a surpresa que eu queria fazer pra você naquele dia que deveria ter sido só nosso. E talvez você nunca vá saber o quanto eu sonhei com aquele momento.
Mas apesar de tudo, o mais importante é que eu estou feliz agora. De verdade. Não feliz o tempo inteiro, porque a vida não funciona assim, mas feliz de um jeito maduro, tranquilo, possível. Minha vida finalmente está começando a caminhar. Eu compartilho pequenas partes de mim com quem demonstra se importar, mesmo que ainda exista um certo receio em me deixar vulnerável de novo. E talvez seja engraçado admitir isso, mas às vezes eu falo demais com aquela garota da livraria. Só que depois de você, ela foi a primeira pessoa que teve paciência pra me ouvir sem pressa, sem me interromper, sem me fazer sentir exagerada por sentir tanto. Mesmo sendo apenas amizade, isso já significou mais do que ela provavelmente imagina.
E no fim, acho que é isso que sobra depois que a poeira baixa: gratidão pelas partes bonitas, carinho pelo que foi verdadeiro e maturidade pra entender que algumas histórias não precisam durar pra sempre pra terem sido importantes.
Então, onde quer que você esteja agora, eu espero sinceramente que a vida esteja sendo gentil com você. Espero que seus caminhos estejam florescendo, que você esteja encontrando paz nas escolhas que fez, e que exista felicidade ao seu redor.
Porque, apesar de tudo, a minha vida também está finalmente dando certo.

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Eu sempre tenho muito a dizer e talvez isso me defina como pessoa.
@sraangustia
O céu estava azul demais naquele dia. Cruelmente azul. Como se o mundo não tivesse o direito de continuar tão bonito enquanto algo em mim afundava sem retorno.
O vento atravessava minha pele com aquela frieza elegante das despedidas inevitáveis. E eu fiquei ali, parada diante do mar, tentando entender em que momento me tornei alguém que suporta tudo em silêncio até começar a desaparecer.
As ondas vinham violentas, quebrando sem culpa contra a areia, e talvez tenha sido a primeira vez que invejei algo pela capacidade de desabar sem pedir desculpas.
Porque eu não.
Eu aprendi a ser calma. Aprendi a ser compreensiva. Aprendi a respirar fundo enquanto me destruíam aos poucos.
E o pior tipo de dor é aquela que acontece sob um céu bonito. Porque ninguém percebe. Ninguém imagina que existe alguém implodindo enquanto o vento balança os cabelos e o mar continua lindo ao fundo.
Talvez pessoas boas enlouqueçam assim: lentamente. Como erosão.
Primeiro o vento leva os detalhes. Depois o mar invade o que restou. E quando percebem, já não existe mais nada inteiro ali.
Só areia espalhada, memórias salgadas e uma pessoa exausta tentando fingir que ainda sabe voltar para si mesma.
— G.D

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O silêncio é desinteresse.
A decepção facilita o desapego de uma maneira impressionante.
Sexta-feira
Era pra ser descanso. Acordar sem o bendito despertador, respirar diferente, deixar o dia passar sem peso algum. Mas não foi isso que aconteceu. Virou o dia em que eu me deparei comigo mesma de um jeito que eu não esperava — e que, honestamente, eu não tinha pedido.
Tudo por causa de duas conversas no dia anterior. Duas. Em um único dia. E uma verdade que chegou sem avisar, sem filtro, sem a delicadeza que a gente às vezes precisa pra não desabar no meio do caminho.
A primeira conversa eu já sabia de alguma forma.
Ouvi que sou "difícil de entender." E sabe o que foi estranho? Não me surpreendeu. Não chegou como um choque. Chegou como aquela confirmação silenciosa de algo que você já sente há um tempo, mas que ninguém ainda tinha dito em voz alta. E quando falam, você só balança a cabeça por dentro e pensa: "eu sabia."
Faz tempo que não me sinto pertencente a esse lugar. Faz tempo que eu chego, observo, às vezes participo — e ainda assim saio com aquela sensação estranha de que eu estava ali, mas não estava de verdade. Como se ocupasse um espaço sem realmente preencher nenhum. E por muito tempo eu achei que era coisa da minha cabeça, que eu estava sendo dramática, que eu precisava me esforçar mais, me abrir mais, me moldar mais.
Mas tem um ponto em que você cansa de se moldar pra caber em um espaço que nunca foi feito pra você.
As palavras são diferentes. Os interesses são diferentes. O jeito de observar, de sentir, de querer — tudo diferente. E eu não estou dizendo que diferente é errado. Estou dizendo que é esgotante. É esgotante tentar se fazer entender por quem não tem interesse real em entender. É esgotante perceber que a conexão que você acredita existir é muito mais sua imaginação do que realidade.
E o pior? Quando tentei falar sobre isso uma vez, a culpa voltou inteiramente pra mim.
Que eu sumia demais. Que eu não falava. Que eu não compartilhava, não dava detalhes, não me abria o suficiente. E talvez parte disso seja verdade — eu não sou perfeita, nunca fui, e tenho consciência dos meus erros. Mas existe uma diferença enorme entre alguém que realmente quer te entender e alguém que usa a sua ausência como desculpa pra não precisar te enxergar. Existe uma diferença entre reconhecer um erro e carregar uma culpa que não é inteiramente sua.
E eu carrego. Eu sempre carrego.
Isso sempre me resumiu em qualquer ciclo da minha vida — a forma como você me tratar, volta pra você em dobro. Não como vingança, não como frieza calculada. É só quem eu sou. É como eu funciono. E as pessoas que realmente prestam atenção em mim sabem disso.
Já a segunda conversa foi diferente. Foi a que eu não esperava.
Essa veio de um lugar que eu nunca teria imaginado. De uma pessoa que eu nunca teria apostado que me enxergaria dessa forma. E começou com coisas boas — palavras que eu ouço às vezes de outras pessoas, mas que, por algum motivo, naquele momento, pesaram diferente. Que sou gentil. Que sou doce. Inteligente. Corajosa. Discreta. Sincera. Sábia de um jeito que não é comum.
E eu ouvia. E sorria. E ao mesmo tempo alguma coisa dentro de mim torcia o nariz, porque faz tanto tempo que eu parei de reconhecer essas coisas em mim mesma que ouvir alguém listando parecia quase uma descrição de outra pessoa. Como se estivessem falando de alguém que eu um dia fui, ou de alguém que sou só nos olhos dos outros, mas que eu mesma perdí de vista completamente.
E então veio a frase. Simples. Direta. Sem rodeio nenhum.
"Você se martiriza demais."
Eu congelei.
Não foi uma frase longa. Não foi um discurso. Foram quatro palavras que chegaram e ficaram. Que pousaram em algum lugar dentro do meu peito e não saíram mais. E eu fiquei ali, tentando respirar normalmente, tentando manter a compostura, tentando não deixar o choro subir, porque ele queria subir, e muito. Aquela vontade de chorar que não é de tristeza, é de reconhecimento. É quando alguém diz exatamente o que você nunca teve coragem de dizer pra si mesma.
Me senti exposta de um jeito que raramente me sinto. Mas ao mesmo tempo me senti — e essa é a palavra certa — "compreendida." Vista. Não pela versão que eu mostro quando estou bem, não pela versão que eu monto pra não incomodar ninguém. Mas por alguma camada mais honesta de mim que eu nem sabia que estava aparecendo.
E foi aí que me peguei pensando: se eu mesma ouço com frequência que sou gentil, doce, cuidadosa com as pessoas — por que eu não sou assim comigo? Por que a primeira pessoa que fica de fora da minha gentileza sou eu? Por que me condeno por coisas que não controlei, por mudanças que simplesmente aconteceram, por culpas que nem são minhas mas que abracei porque ninguém mais estava disposto a examiná-las direito?
Por que eu me martirizo tanto?
E não tenho uma resposta boa pra isso ainda. Tenho só a consciência de que é real. De que é um padrão. De que eu faço isso há tempo demais.
O que me quebrou de verdade nessa segunda conversa não foi só ser vista. Foi perceber o quanto eu sinto falta disso no dia a dia.
Transparência. Reciprocidade. Honestidade sem medo. Alguém que chegue e fale de verdade, sem rodeio, sem construir uma versão de mim baseada em suposição, sem me encaixar em um molde que nunca foi meu. Alguém que não precise de semanas pra dizer o que poderia ser dito numa tarde.
Eu não sou uma pessoa difícil de se ter por perto. Eu sou uma pessoa que precisa de profundidade. Que cansa na superfície. Que não consegue fingir que uma conversa rasa tem o mesmo valor que uma conversa real. E talvez isso me faça parecer intensa, ou exigente, ou difícil de entender — mas eu prefiro isso a passar o resto do tempo me convencendo de que migalha é banquete.
E aí fica a pergunta que não saiu da minha cabeça durante o resto do dia.
"Se eu já sei que não é o meu lugar... por que ainda permaneço aqui?"
Eu fico me fazendo essa pergunta. E acho que a resposta tem a ver com carinho. Com vínculo. Com aquela parte teimosa da gente que insiste em acreditar que as coisas podem mudar, que as pessoas podem surpreender, que vale mais uma chance, mais uma tentativa, mais um pouco de paciência.
Mas paciência sem reciprocidade não é virtude. É desgaste lento.
E eu estou cansada de me desgastar.
Não estou dizendo que saio sem olhar pra trás, sem sentir nada, sem peso. Tenho carinho genuíno. Tenho memórias que importaram. Mas ter carinho por um lugar — ou por pessoas — não significa que esse lugar faz bem pra mim. Não significa que eu preciso permanecer onde não existe equilíbrio, onde eu me sinto invisível mesmo estando presente, onde a minha ausência só é notada como falha e nunca como sinal de que algo não estava funcionando.
Então essa sexta-feira que era pra ser descanso virou, na verdade, um ponto de virada silencioso. Não tomei nenhuma decisão dramática. Não mandei nenhuma mensagem. Não fiz nada de extraordinário.
Só fiquei comigo mesma e deixei as coisas pousarem.
E o que pousou foi isso: eu preciso parar de me martirizar. Preciso parar de carregar culpas que não são minhas. Preciso aprender — de verdade, não só no reconhecimento — a ser tão gentil comigo mesma quanto eu sou com todo mundo ao redor.
E preciso, aos poucos, ir dizendo adeus a tudo que me esgota sem me preencher. Mesmo que doa. Mesmo que demore. Mesmo que eu sinta falta.

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