Quando leu a notificação de Joanna pelo descanso de tela do seu celular, Tyrone mais do que rápido subiu as escadas de sua casa para poder tomar um banho e tirar as fuligens de madeira cortada que estavam grudadas por todas as partes do seu corpo, e tentar no mínimo ficar apresentável; não que havia esquecido da visita da Asher ao The Jungle Jump!, longe disso, até ansiava por tal, mas estava tão absorto na confecção de uma mesa de madeira com resina epóxi, que acabou se perdendo no horário marcado e se viu quase atrasado para chegar ao ponto de encontro. Antes de ir, trocou de blusa cinco vezes: a primeira era muito azul, a segunda muito verde; depois era uma fria, já a outra muito quente. Nunca experimentara aquela inquietude e tamanha indecisão, e a ansiedade ameaçava a surgir quando sentia as pontas dos seus dedos começarem a esfriar e, conforme observava o relógio, o seu coração começava a dar um tranco¹. Encontrara com Joanna apenas duas vezes (ou uma? Ainda definia se a interação no Expresso Polar fora um doido ou não), e tão logo a professora desencadeou sentimentos no instrutor que ele jamais sentira; não por estar apaixonado por ela, claro, afinal já se apaixonara antes e lembrava-se bem da sensação, mas diferia… Com Aysel, ao menos antes do coma, suas emoções eram controladas e certeiras, não havia espaços para dúvidas, pois o Gallegher sempre foi um homem extremamente decido e fiel aos seus sentimentos — e isso não era ruim, do contrário até!, gostava daquela estabilidade que tinham, mesmo que agora as coisas fossem bem diferentes. Mas aquela animosidade para encontrar e desvendar Joanna era, no mínimo, estranha; de onde surgirá toda essa fissura? Como pode estar tão extasiado, beirando quase à aflição, simplesmente por marcar de mostrar a uma mulher o lugar que trabalhava e zelava? Eram perguntas que insistiam em surgir em sua mente, por vezes deixando-o até incomodado com o tanto de vezes que seus pensamentos viajavam para seus sonhos com a mulher que adorava amarelo. Enfim, a quinta e última blusa não foi nem por escolha: agora sim, estava atrasado, por isso acabou saindo como estava para encontrar Asher, que não muito longe se fez presente; um grito agudo cortou o barulho comum das folhas, motivo por qual o instrutor apertou o passo e correu em direção ao barulho que certeiramente era da convidada.
“Joanna?” chegou até ela, ofegando um tanto por correr rápido demais em um dia considerado frio, e o ar felado que entrava em seus pulmões fazia um pouco difícil a respiração - ainda estava levemente debilitado, ao menos para correr naquela velocidade ao ar livre. “Oh, céus!” afirmou e infelizmente não em preocupação, do contrário: apoiou uma das mãos na própria cintura, enquanto a outra foi de encontro a boca para poder tapar o sorriso que gradualmente transformava-se em uma risada divertida, olhava para a cena com um ar de descrença. “O que acontece entre você e a gravidade? Estão brigados?” perguntou ainda com um sorriso estampando os seus lábios, bem próximo a ela acabou decidindo sentar sobre seus calcanhares para verificar se realmente tudo estava bem, preferiu inicialmente ficar de igual altura no chão do que acabar levantando-a e descobrir haver torcido o tornozelo ou coisa pior. “Está doendo?” tocou delicadamente a parte desnuda do calcanhar de Asher, a princípio tudo parecia nos conformes. “Me perdoe por rir, mas em minha defesa eu esperava que macacos estivessem te atacando e não… galhos de árvore?” enquanto falava decidiu olhar ao redor dela, procurando o motivo do acidente, mas nada parecia ser perigoso para te-lo causado — só que nada parecia perigoso pra o homem que escalava montanhas sem equipamento adequado. Aliás!, vale ressaltar também que ele só riu quando percebeu que ela disse estar bem e sua voz parecia humorada. “E essa é a nossa trilha de entrada. Cuidado com as árvores, elas te derrubam!” disse com voz teatral como um guia turístico, levantando-se e em uma leve inclinação na direção alheia, ele estendeu a mão para ajuda-la a levantar. “Desculpe se fui grosseiro, acha que consegue andar tranquila?” decidiu certificar, pensando que talvez estivesse sendo indelicado e o medo de ela não gostar de suas brincadeiras acabou aparecendo, afinal a sensação era de que conhecia ela mais do que a si mesmo quase, mas a verdade era que não fazia ideia de quem ela era, como pensava ou agia.
Enquanto ele se aproximava, a professora sentia suas bochechas queimarem em vergonha. Estava na hora de desistir da possibilidade de encontrar com Tyrone de uma forma comum. Já era mais do que claro que não importava o quanto se esforçasse, alguma coisa sempre iria acontecer para impedir que ela pudesse provar que era uma pessoa normal. Se ele, em algum momento, retribuísse seus sentimentos teria que ser por realmente gostar dela sendo uma garota completamente descoordenada, pois Joanna não conseguiria conquistá-lo por meio de flertes bem feitos. “Para de rir, Tyrone! Você não viu o tamanho do graveto. Ele era maior e mais maldoso do que parece!” Fingiu estar brava com a atitude alheia, mas não demorou muito para que também começasse a rir de sua própria situação: jogada em meio a trilha com um galho de árvore minúsculo ao seu lado. “Eu juro que não sei! Sempre gostei muito das teorias do Isaac Newton e estudei todas as pesquisas do Einstein sobre o assunto. Acho que é um absurdo que eles me tratem dessa forma. Escutou Newton?! Eu era sua maior fã!” Olhou ao redor como se o espíritos dos cientistas estivessem ali junto deles. Ainda estava rindo de sua própria desgraça, quando notou que Tyrone começava a se abaixar na sua direção. No mesmo instante seu coração começou a disparar outra vez, como da primeira vez que o tinha visto: por que aquilo continuava acontecendo?! Já deveria estar acostumada com a aproximação dele, não? Mas todas as vezes parecia algo novo e mais incrível. Ficou até difícil para que a historiadora conseguisse compreender o que ele dizia, quando estava tão perdida nos olhos claros do mesmo. “Quê?” Murmurou baixo, enquanto ainda o encarava de forma encantada, ficando distraída não apenas na beleza, como também com os sentimentos que inundavam seu peito e que pareciam querer dizer-lhe alguma coisa importante. Apenas pareceu compreender a pergunta quando sentiu o toque alheio em seu calcanhar. “Ah não, não! Foi só o susto mesmo. Não está doendo nada.” Sorriu para ele, enquanto balançava a cabeça em negação para que ele tivesse a certeza de que estava tudo bem e os dois poderiam continuar tranquilamente com sua trilha. Ela não perderia a oportunidade de ficar com ele pelo dia inteiro. “Prometo que vou tomar cuidado com as árvores e de qualquer forma, acho que estamos quites. Eu também quase te ataquei com meus livros da última vez que nos encontramos.” Soltou uma risada divertida, para em seguida assentir com a cabeça e levantar-se do chão. “Eu consigo sim! Estou pronta para a nossa trilha.”
Colocou-se em pé ao lado de Tyrone e sorriu para ele de forma animada. Deveria falar que esteve pensando naquele momento desde o convite feito? Não queria aparentar estar sendo emocionada demais, mas também não conseguia se conter todas as vezes que pensava nele. Era diferente de tudo que já havia sentido antes (ainda que não tivesse muitos relacionamentos para comparar). “O que nós vamos ver por aqui?” Perguntou, forçando a si mesma desviar os olhos dele para poder encarar as árvores ao redor. “Esse lugar é incrível. Não sei se falei antes, mas mesmo que não pareça, já que claramente eu tenho problemas com galhos de árvores e macacos...” Comentou em meio a risadas. “Eu gosto muito de natureza. Já devo ter comentado que gosto de desenhar na floresta, não é? Aqui também tem paisagem suficiente para encher o meu sketchbook. Eu até trouxe ele...” Indicou a bolsa que estava na lateral de seu corpo. Dependendo de onde parariam, Joanna pretendia fazer um registro do momento. “Estou muito animada para o nosso passeio, principalmente quando vai ser você quem vai me mostrar tudo. Tenho a sensação de que ninguém pode conhecer lugares desse tipo melhor do que você.” Voltou a encará-lo, daquela vez de forma mais intensa e segurou a mão alheia junto com a sua, sentindo novamente o arrepio correr pelo seu corpo, mas daquela vez, não se assustara. Queria que durasse mais! Por que ninguém nunca havia dito que se encantar por alguém era tão bom? Claro que existia o medo de desagradar, mas cada segundo ao lado dele parecia algo que Joanna esperou por uma vida inteira. “Vamos? Já te atrasei muito. Só me deixa tirar esse galho daqui...” Abaixou para pegar o galho que anteriormente havia tropeçado e o colocou do lado oposto. “Só por desencargo de consciência. Eu não confio na minha coordenação.”