com uma atividade duvidosa e muitas ideias esparsas, esse lugar nasce para dar ENFIM a chance de desenvolver do jeito que eu quero. afinal, nós criamos esses serzinhos para dar vazão à criatividade da leitora obcecada que temos em cada um de nós (e que quer recriar as mesmas situação, por mais clichê que sejam). dito isso, é um blog multimuse, independente, de chars originais.
muito prazer, me chamo rine (ou kah, caly, bunny, beylas), estou completamente no patamar de maior de idade e pretendo escrever sobre tudo. TUDO. e falar sem parar o quão excelente é DtMF do Bad Bunny.
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Idade: 28 anos (31 de maio).
Espécie: Mutante filho de Piotr Rasputin (Colossus) e Kitty Pryde (Lince Negra).
Sexualidade: Bissexual porém no armário trancado e lacrado.
Ocupação: Salvador do Mundo Honorário.
FC: Stephen Kalyn.
Status: Meu personagem preferido.
Tecnicalidades:
Manipulação de Densidade Metálica: Bartholomeow herdou a transformação metálica do pai, mas sofreu uma pequena melhoria com os genes da mãe. O corpo transita entre a carne e metal em segundos, porém, enquanto mental, tem a habilidade de controlar a própria densidade, ficando mais 'leve' ou mais 'duro'. Atualmente, ele apenas consegue focar numa parte do corpo específica e é infinitamente mais fácil ficar mais denso do que menos. Uma vez conseguiu o corpo inteiro, gerando até seu próprio campo gravitacional, mas exigiu tanto de si que foi nocauteado por quase uma semana. Diferente do pai, golpes e ferimentos no estado metálico não o transmutam imediatamente para o humano. Bartholomeow permanece até a cura completa do aço.
Resumo:
Se há uma versão megalomaníaca do bem, esse espécime é o Bartholomeow. Inteligente, bonito, prestativo, empático, pró-ativo... Tudo num pacote enorme e dourado, enfeitado pelo mais adorável sorriso de 01 covinha.
😏História completa:
Nascimento:
Com muito esforço, perseverança e uma ajudinha da ciência; Piotr Rasputin e Kitty Pryde conseguiram manter a gravidez delicada. Algo sobre diferença de mutações, densidade e manipulação atômica, termos difíceis de compreender e fáceis de colocar em segundo plano. Estava vindo! Aquele pacotinho no ventre feminino, guardado por mãos tão habilidosas quanto gentis. Foi um consenso aquela única ultrassom, corpinho minúsculo flutuando num mar cinzento e granulado, para descobrir o sexo do único embrião que tinha vingado. Uma menina, uma perfeita e saudável menina, futura homenagem simbólica de Illyana. O acompanhamento foi tranquilo e pouco exploratório, confiando na tecnologia mais 'natural' para não afetar o crescimento da criança. Tudo era perigoso demais, complicado demais, e... Desde que estivesse crescendo bem... Piotr e Kitty não precisavam saber de mais nada.
O parto veio cedo para os cálculos, mas não foi completamente fora da programação. A criança parecia grande, piadinha interna de ser filha do pai enorme, e as circunstâncias pediam um pouco de animação. Só que... Eles bem podiam ter sido um pouco menos 'relaxados' nas informações, porque o susto veio na forma de Illyana virando Illya... E trazendo Kit pelo calcanhar.
Gêmeos bivitelinos. 'tá aí outro nome comprido e complicado. Um puxando as raízes do pai e o outro, os galhos da mãe. A mistura perfeitamente separada, tão clara quanto as diferenças físicas e estupidamente consideradas pela similaridade de personalidade. No fim, voltamos para o começo. Um guarda-roupa sendo duplicado e totalmente modificado para cores condizentes. Illya e Kit, Bartholomeow e Belomir, Rasputin e Pryde.
À sua disposição.
Crescimento:
A única vez que não foi visto pelo mundo foi na gestação, sufocado pelo irmão rouba-holofote. E aqueles segundos entre um e outro determinaria a dinâmica de vida dali para frente.
Bartholomeow não cabia no próprio berço, nem na cama, nem no ambiente, nem no restaurante. A perfeita criancinha de olhos azuis de pedras preciosas, sorriso de covinhas e mãos gordinhas acenando para quem olhasse. Não podemos dizer que crianças de colo podem ser manipuladoras, mas existia uma possibilidade de ser o caso daquele que veio primeiro.
Ah, ele tinha uma corda enrolada na cintura que o ligava ao irmão gêmeo, um elo que não foi rompido nem quando cortaram os cordões umbilicais. Elástica, complementar, dependente. Um compartilhar típico de quem tinha sido forçado a conviver por 9 meses grudado no outro e sem lugar algum para brigas. Dividiam o quarto, tinham uma conversa inteira só com o olhar, estalavam a língua numa linguagem secreta e sabiam exatamente onde estar para ajudar. No início, parecia tudo o que precisava e mais um pouco. A criança iluminada, sol do meio-dia, com sua versão oposta e igual à tiracolo. Mas... Era diferente e estranho, um dar de ombros para quem perguntava e a ofensa máxima quando não acreditavam na relação. Bartholomeow era protetor e ciumento, quase possessivo, e só enxergou o um depois que separou do todo.
Antes que comecem as teorias de conspiração, não é nada do que estão pensando! Só um desvio de rota para benefício geral e da nação. Desde cedo era evidente que Illya nasceu mutante. Kitty Pryde que o diga! As costas constantemente doloridas por carregar uma criança que brincava com o próprio peso. As cadeiras trocas por estruturas metálicas, ou o pai responsável pela parte mecânica dos afazeres maternos. Crescer com aquele poder era fácil quando o pai passara pelos mesmos problemas. Quem não ia amar esse especialista? Guiando, treinando, tentando colocar controle no menino cheio de energia.
Logo, poder aparecendo cedo e papai não dando conta? Manda logo para o Instituto.
Existiam experiências e ensinamentos que apenas o Instituto poderia promover; e mesmo sob esperneio e revolta de não ter o irmão, Bartholomeow aceitou a mudança. Aceitou e deslumbrou. A mudança de chave combinou com o surto de crescimento, tampinha para arranha-céu no primeiro ano. O desenvolvimento da habilidade e do aço orgânico sendo diretamente proporcional à evolução e crescimento. Era como... Não, eles andavam juntos. E com a aceitação tão completa do loiro, os resultados se tornaram exponenciais. Jornais começaram a perceber sua movimentação, notar nas entrevistas em datas comemorativas. Venha, venha, me fale mais sobre você. Aquelas astúcia comunicativa cativando o público e a direção do programa. De espectador sorridente, Illya passou a ser futuro X-men.
Nisso, Belomir já tinha se juntado ao Instituto e feito lar semipermanente no dormitório do irmão. A união e a sinergia, ah aquela deliciosa energia que se complementa, impulsionaram ao mais alto cargo de defesa mundial. Bartholomeow enchia o peito uniformizado e erguia a cabeça em orgulho, sorrindo como quem tinha o mundo nas mãos (e o tinha). Enrolado com um laço floreado no dedo mindinho, cuidado com tanto carinho quanto as madeixas loiro douradas na cabeça cheia de folhas de louro.
E ele dormia tranquilo todas as noites, na cama sobressalente no quarto do irmão. Pés jogados para cima, empurrando o joelho alheio com os calcanhares. Feliz, satisfeito, completo. O jantar de família marcado para o fim de semana, três encontros por dia e a certeza de notas louváveis para o fim do semestre.
Incrível, não é?
O ar ficou esquisito, Illya levantou do colchão e toda a realidade mudou.
Bom... A única coisa que posso dizer, agora, é que... Ter sido 'estalado' com o irmão gêmeo foi a pior coisa que Thanos fez para si mesmo.
Personalidade:
Bartholomeow não nasceu sabendo, é óbvio, mas foi fácil demais conhecer e aperfeiçoar os cinco pontos cardeais de sua personalidade.
Primeiro ponto: charme. O charme para se safar de problemas e ir atrás de encrencas, de convencer que o céu é cinza e debater qualquer tópico em sala de aula, de extrair água de pedra e mudar a localização de uma montanha. É tudo uma questão de convicção, e determinação para atingir o objetivo.
Segundo ponto: disposição. Não adianta ter a voz de mercador e não mostrar por onde. Fala, convence e vai. Transforma uma saída para padaria em aventura épica e compromete o fígado para afogar as tristeza de um amigo. O céu não é o limite e um detalhe de 'é muito tarde' nunca entrou no vocabulário.
Terceiro ponto: inteligência. Privilégios de liberdade desregrada tem o preço clássico de registros escolares impecáveis. A conversa o safava da grande maioria, mas tinha algumas... Vezes... Que não dava para escapar. Ele logo percebeu que era mais fácil estudar e conseguir boas notas do que viver da sorte e dos dons.
Quarto ponto: lealdade. Ser o maioral, o encantador de serpente, o ride or die, o orador da turma. Nada compensa se não existe uma base. Alguém para apoiar e dividir os lucros e felicidades. Ele tem um círculo fechado desses grandes amigos e não mede esforços para... Vocês já conhecem essa ladainha. O diferencial é que o soco dele dói... E muito.
O quinto, e último, ponto: preservação. Não é sobre querer ser mártir (primeira lição foi reconhecer que é falho e limitado) ou miss universo com a paz mundial (estou aqui para resolver tudo). É mais sobre... Reconhecer quando precisa parar. Ele se fecha e recolhe, transforma em aço e esconde-se entre as folhagens. É no silêncio que a mudança é vista, no sorriso que não chega aos olhos. Alguém assim, englobando o sol e todos os sistemas cósmicos, precisa de um momento para ser seu próprio planeta.
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As diferentes linhas do tempo misturavam-se numa harmonia que impedia a separação exata de onde começava uma e terminava a outra. Um ataque antigo, fresco pelo rastro, com o de agora ensurdecedor. Suas mãos pairavam sobre o corpo do semideus sem preconceito ou urgência de reconhecimento. Não. Caíam naquela mentalidade adquirida nos campos de guerra seis meses atrás. O que tinha acontecido? Como tinha acontecido? Por que tinha acontecido? Perguntas que caíam por terra e davam espaço para pensamento tático e eficiente.
Dedos encostando na pele e no tecido rasgado, passando por baixo do nariz e acompanhando o pulsar suave do pescoço. O poder florescendo em fagulhas da ponta dos dígitos, mapeando os ferimentos que se alastravam por centímetros demais e tomando decisões de urgência. O que mataria? O que ajudaria a morrer? E ela selava a saída de sangue, ligava as fibras musculares, permitia o semideus abaixo de si uma chance de recuperação completa. Gastar tanta energia colocando-o em movimento não compensaria. Infelizmente. Porque, pelo canto dos olhos, ela via outro par de pés descalços embaixo da arquibancada. Um muito delicado para seu próprio coração agitado.
E não ajudava aqueles pelo eriçados na base da nuca, provocando a tensão dolorida entre os ombros encolhidos. Poppy se diminuía mesmo exposta como uma papoula vermelha no meio do inverno. Deliberadamente abafando os sons em seus ouvidos para fazer um trabalho decente. Um que justificasse o sacrifício de Beatrice do outro lado do anfiteatro. O entendimento imediato quando se viu indefesa, ocupada demais em salvar o caído, agilizando para sair do caminho. Poppy colocou-se de pé para pegar o descansado pelas axilas. Arrastar para um lugar seguro, tentar não ser um fardo para a guerreira.
O ar parecia preenchido de cristais vermelhos e estrelas cadentes carmins. Rastros de consistência familiar, endurecidos e afiados como a pequena faca que tinha em mãos. O cheiro de cobre e sal e pedra e algo apodrecido, encoberto pelo ruído insuportável de pedra contra pedra. Rangendo, chiando, estalando, molhado e terroso. Aquela criatura enorme não parecia ter fim no braço estendido e no rosto obscurecido, recebendo cada golpe como se não fosse nada.
E não era nada.
Porque passavam e tiravam pedregulhos, mas parecia não fazer efeito. Os pontos atacados não demonstrando sinais de nada além de desgaste. E um que logo materializava-se, mostrando trincos e a estrutura novamente pronta para o uso. A mão fechou com força sobre a faca, que zumbia na magia aninhada pela forma oculta de sua espada. Damascena não mostrava sede de sangue, tampouco surgiria a seu bel prazer. Não. O coração de Poppy ainda não entrara na consciência protetora dos templários, não quando não sabia o que fazer para vencer.
O tempo arrastava-se. Milésimos de segundo parecendo as vinte e quatro horas de um dia comprido, entediado. Os passos hesitando quando se aproximava, seu rosto franzindo e contraindo com cada mudança em Beatrice.
Ela falhava. Ela perdia sangue. Ela tinha brigado com Poppy. Ela não podia chegar perto. Ela precisava agir.
A faca foi a primeira a ser arremessada e, mesmo sem pontaria, a lâmina seguiu o caminho certeiro para o rosto do gigante. Triscando a face e fincando na lateral do nariz bulboso, encimado da boca que abria e soltava um rugido de pedras caindo em avalanche. Poppy cobriu os ouvidos, mas manteve-se inerte. Parada e esperando, deixando as cores animadas (e empoeiradas) das suas roupas fazerem o resto do trabalho. O rosto rochoso cruzou com sua figura quatro metros abaixo e, sem mais delongas, ela começou a correr.
ㅤ Regra número 1: Gigantes são lentos.
A prova era óbvia. Cada passo retumbava na cabeça de Poppy e a fazia pular com o pequeno terremoto. Os braços esticados e balançando para compensar e encontrar o equilíbrio, porque o chão parecia cada vez mais convidativo. Ela olhava para trás e se desesperava. Como podia estar tão perto? Mais uma resposta, mais um imediato suspiro. Cada passo lento equivalia metros e mais metros em compensação na distância. Poppy levantou a mão e fez o gesto, seus dedos abrindo para receber a faca que voltava para a mão.
ㅤ Regra número 2: Nunca subestime a inteligência de qualquer criatura.
Diferentes tipos de inteligência superavam outras em seus devidos nichos e aptidões. O grande conseguia superar o pequeno em colher frutas do alto, o pequeno reconhecia as raízes do chão. Poppy tinha velocidade e sabia se guiar pelo acampamento. O gigante não parecia interessado em mais nada além dela e não exibia sinais de cansaço. Ou distração. Poppy fez um ziguezague arriscado e inverteu o caminho, escondendo pelas estruturas destruídas da festa e voltando para o anfiteatro.
O alívio veio ao olhar por cima do ombro. Nada. Visualmente limpo para a mesma cacofonia desesperadora. Outros gigantes, outros feridos. Outro rugido distante, a leve vibração sob os pés. E o rangido de madeira, com o ar movimentando-se logo acima de sua cabeça. Poppy conseguiu se jogar antes da árvore passar zumbindo por onde estivera segundos antes.
Regra número 3: Davi tinha cinco pedras lisas e uma funda contra Golias.
Poppy não tinha nenhuma dessas armas, mas tinha uma adaga bumerangue. Girou no chão e ficou de frente para o gigante, o grito saindo da garganta na mesma hora que arremessou a faca contra o rosto lá no alto. Não tinha força para enfrentar de frente. Então chamou de novo e de novo. Arrastando-se para trás e tentando ficar em pé e caindo alguns metros depois. Sempre arremessando e soltando gritos sem fôlego, se jogando quando ele lançava a mão enorme num arco perigoso. Cada tentativa ficando cada vez mais próxima dela.
A faca raspava o rosto e provocava fúria. Acertava um olho e ficava surda por um momento. Afundava na bochecha e pedrinhas juntava a poeira em seus olhos. Poppy lacrimejava e respirava sem compasso.
ㅤ Regra número 4: Reconheça sua própria falibilidade.
Não podia deixar o gigante vagando por aí, ameaçando mais semideuses em seu caminho. Não sabia do que era feitos e como matá-los. Nenhuma poeira brilhante, nenhum sinal de que tinha fraquezas. Até onde entendia, aquela criatura era um imortal. Algo criado da mesma substância dos deuses, um oponente digno de quem sabia lutar.
Poppy não era nada disso.
E a culpa por não saber lidar era explícita. Entre a cruz e a espada, e nenhuma delas sendo dignas das mãos coberta de sangue e poeira da Poppy.
E se...
Um grande gasto era justificável se a pessoa curada acabasse com o problema, certo? Uma escolha lógica e sensata, visando entre dois males o menor. Poppy ficaria fora de combate por um tempo, precisando ser colocada na estufa sob os efeitos da luz adequada, mas... Seria bom, não seria? Beatrice levantaria e saberia o que fazer. Tendo testado todas as possibilidades... Ela teria forças para...
Poppy derrapou numa poça escura escorregadia. Cascalho e pedras não sendo suficientes para retirar o fator perigoso da arma escolhida de Beatrice. E ela acumulava abaixo de si, aumentando conforme chegava perto do corpo desfalecido da semideusa. Só mais um pouco... Curar era tão rápido quanto respirar, ainda mais quando era alguém que já tinha passado por seus cuidados. Era só... Encostar a mão.
Porém, antes de sentir o calor dela sob os dedos, o mundo girou e sacudiu. A cabeça explodiu em chamas e a terra desapareceu sob seus pés. A distância do chão aumentando e aumentando conforme cada fio de cabelo puxado protestava no aperto cruel do gigante. Poppy sentiu o hálito cavernoso antes de ficar face a face com rocha expressiva.
Golias tinha três metros, era de carne e sangue e morreu com uma pedra no meio da testa.
O gigante tinha a faca de Poppy no meio da testa, despontando alegremente em seu brilho prateado do disfarce.
E zumbia. Agitava-se. Tremulava ansiosa para a ação.
Porque ela tinha percebido antes de Poppy as intenções dela para aquele momento.
Suspensa pelos cabelos, chorando pela dor e o cansaço, seu principal pensamento era em Beatrice logo ali. Era no semideus escondido embaixo da arquibancada. Era no outro desmaiado do lado de fora, do outro que tinha curado no meio do caminho. Era na enfermaria cheia, nos bravos com suas armas, na magia de poderes diversos defendendo um objetivo em comum.
E não era covardia.
Poppy piscou os olhos uma vez e se lançou para frente, agarrando ao rosto do gigante com pernas e braços e pescoço dolorosamente curvado para trás. A boca gigante abria e fechava e beliscava a pele da sua barriga, mas ela não soltava. Nãoquando precisava daquele apoio para arrancar a faca da testa e se colocar em movimento rápido. Rápido.
Damascena cresceu na mão da curandeira no instante que saiu da pedra, numa versão bem perfeita de Excalibur em seus tempo de glória. O pulso dela sabendo o que fazer ao girar no ar e passar no espaço reduzido entre o escalpo abusado e a mão pedregosa.
Loiros e dourados fios brilhando enquanto passava para o outro lado, arrastando pelo pescoço e evitando a mão que largava a arma para afastá-la da cabeça. Poppy tirou as pernas quando o tapa veio, pedra explodindo em pedra, outra avalanche de trincar os dentes pressionados com força. Os pés encontraram reentrância escondidas, assim como a mão esquerda encontrou no topo da cabeça outro lugar para se apoiar.
E, aí, entrava parte que Poppy não entendia. Aquela força e espírito que entrava em si quando empunhava aquela relíquia bíblica. A ponta absteve-se de riscar qualquer outro lugar além de...
ㅤ Regra número 5: Golias caiu por terra e Davi o matou cortando lhe a cabeça
Damascena não encontrou resistência ao atravessar o pescoço, mas enroscou e forçou sua movimentação ao longo do robusto cilindro. O gigante sacudiu abaixo de Poppy, que perdeu o apoio e ficou suspensa pelas mãos coladas no cabo da espada. Feito uma boneca de pano, indo de um lado para o outro. Cada encontrão aflorando em vermelho e roxo na pele alva delicada. Mas ela não soltava. Não quando aquele frenético movimento fazia a espada separar lentamente a cabeça do resto do corpo.
Poppy chorava quando caiu num repentino despencar. A cabeça pedregosa catapultando para a arquibancadas pelo corpo da espada. Ela escorregou pelo gigante, a turbulência e os frios nos cortes profundos da pedra... E ficando presa na substância escuro em que ele se dissolvia.
Quando enfim firmou os pés no chão, a lama cobriu-a até a metade das canelas. Um gemido nauseado saiu de sua garganta enquanto dava passos altos pela lamaceira fedorenta.
Ela precisava chegar à Beatrice e rápido.
Só que...
Poppy olhou para baixo e viu o corpo emitir o brilho da cura. Desde que tinha recebido a benção de Apolo, o uso e a intensidade eram traduzidos no brilho da pele e dos dedos. Ela não tinha ativado conscientemente. Seu estado ainda estava fora da zona de risco, não existindo necessidade de reparação. A menos... Apenas em ocasiões de perigo da própria vida, seus poderes entravam em ação instintivamente. Mas não... Poppy acompanhou o brilho e percebeu que era mais forte abaixo dos joelhos.
A... Lama...?
Curvando-se, pegou um pouco entre os dedos e esfregou entre os dígitos, trazendo-os à altura dos olhos para uma melhor análise. Porém... Não precisava. Os dedos entravam em dormência imediata e o poder, agora enfraquecido, subia para além de suas pernas. A visão ficou turva, os músculos tremeram com o esforço. Não podia ser a lama, o último pensamento coerente reverberou pelo silêncio forçado daquela magia estranha.
— Você acha que a gente teria alguma oportunidade? — ela respondeu em um tom divertido e apontou discretamente para os irmãos espalhados pela festa. Alguns em guarda na porta da nova toca, alguns na saída, e outros em cantos estratégicos. — Essa festa foi ideia deles, não minha. O karaokê veio do Ezekiel, aquele traidor, por isso que ele tá controlando tudo. Eu vou ser forçada a ficar aqui até quando eles quiserem em nome da boa hospitalidade. Imagina um wonderlander não cuidando bem de convidados, o escândalo que seria— ela ficou na posta dos dedos para enlaçar o pescoço do outro. — Só porque eu te dei três presentes, você inventou cinco, não foi? Espero que seus pais tenham trago algo pro Ezekiel, ou ele vai roubar algo de mim, e você acabou de me dar muita coisa que ele usaria contra mim — era uma brincadeira. Ela sabia que não era uma competição. E, tecnicamente, um dos presentes dela nem tinha valido tanto assim, mas os dele acarretaram em um beijo demorado e ela se virando ali mesmo, nos braços do maior, para vê-los melhor. Remanescer com o mapa e o caderno com todos as lembranças, rindo do que Hagan havia escrito e já planejando o que iria por ali. Poderia acabar algo se tornando algo para um futuro que ela se pegava em alguns momentos imaginando, mas quando pensava em falar sobre ele para Hagan, algo desconhecido a segurava.
Ela quase não sentiu a irmã mais velha invadindo que só os dois estavam ocupando. Só percebeu isso quando uma risada conhecida preencheu seu ouvido. — Ok, Hella, isso já tá passando do limite. The yearning is strong with these two, too strong. It's disgusting. — a probabilidade gritou em sua mente, fazendo seu olhar pular entre Bella e Hella e ela segurar os presentes quase como uma proteção contra as duas irmãs mais velhas. Quase forçadamente, mas com cuidado, a mais velha arrancou cada um dos presentes e entregou para Hella que quase os jogou nas mãos de Hagan. Por coincidência, a música tocando havia acabado exatamente naquele momento, fazendo Delilah fuzilar o irmão gêmeo com os olhos. — Ezekiel, cancela a fila aí, é a vez do show da Delilah! — Delilah abriu a boca para se manifestar, mas logo tinha um braço segurado por Bella e o outro segurado por Hella que quase a carregaram até o palco. Com Bella se separando para por um pedido de música com Ezekiel longe de uma Delilah que tentava fugir, mas o aperto de Hella era firme demais.
Então a música começou e ela congelou completamente. — Eu mostrei um vídeo de você cantando aquela banda de My Immortal pra Hella. Shut up, she's family now, Delilah Ho-Ho, I say she can know your little secret — os olhos de Delilah aumentaram completamente ultrajada — E com a senioridade feminina dos irmãos Hofferson e Hopps, nós entramos em consenso que nós precisamos da sua versão de Misery Business na vida. Pra marcar a mudança para Berk e tudo mais que rolou. Make us proud, little sis.
Hella lhe entregou o microfone e lhe deu um tapa nas costas que deveria ser confortador, mas só quase lhe fez tropeçar para fora do palco com a cara no chão. A batalha interna de Delilah durou alguns segundos. Uma parte dela, tinha uma vergonha gigantesca de cantar em público, sem saber como outras pessoas reagiriam a algo que a deixava tão vulnerável. E a outra sabia a letra da música, tinha cantado essa música em segredo para si quando sentia que era a única coisa que entendia seus sentimentos. A segunda parte ganhou ao entrar em acordo com a primeira. Delilah começou a cantar, mas de costas para onde os convidados. Fechando os olhos e fingindo que esse era um momento só para ela e não com basicamente toda pessoa importante na sua vida olhando diretamente para ela. Seus pais não sabiam que ela conseguia cantar direito e ela cantava sobre superar uma mulher na frente de todos?
Ela não estava só vermelha, não. Sentia seu corpo inteiro queimando de timidez que geralmente era rara a ela. Até que sentiu alguém segurando sua mão e a levantando para fazê-la dançar. De todas as pessoas do mundo, era Lia. E logo Ezekiel se juntou a dupla. Os dois gritando a letra e pulando no palco frágil como se realmente estivessem num show. Foi aí que ela percebeu que aquilo não era algo para se ter vergonha, não, era uma vingança. Alguém tinha ferido duas famílias, bagunçado suas realidades completamente, e eles se sentiam vingados pelo seu pequeno showzinho. Soluço e Melequento pulavam como se fossem jovens de novo. — CHARYBDIS JORGENSON, DID YOU KNOW THIS? — escutou o pai de uma de suas amigas próximas perguntar a filha que só se importava com o show, fazendo pequenos chifres com a mão para ela.
Ezekiel tinha razão, ela podia ser vulnerável com aquelas pessoas. Não havia motivo para esconder partes dela ali, principalmente para aquele que a olhava com os olhos brilhando e se divertindo com a situação. Na troca entre uma parte da música, acabou tirando o moletom que usava e o jogando na direção de seus "fãs" e mostrando o top cinza que usava por baixo e Bella havia lhe dado, quase como pra testar até onde poderia ir, e alguns chegaram a gritar animados. Pulando com a música. Foi só um sorriso de Hagan que conseguiu arrancar todas as paredes que ela tinha posto entre si e outras pessoas, então começou a testar até onde conseguia ir. Se tinha uma voz boa mesmo. O suficiente para tirar o sentimento de si de todos ao redor.
I watched his wildest dreams come true
Not one of them involving you
Just watch my wildest dreams come true
Not one of them involving
Cantou a última parte diretamente para Hagan. Sabia que ele tinha odiado ser tratado como objeto, mas aquilo era para dizer que agora havia alguém que iria proteger os sonhos dele, que não iria menosprezá-lo. Que iria à guerra pelo o que os dois tinham.
Quando acabou, recebeu mais aplausos do que qualquer um até então, então se viu forçada se curvar agradecendo, mas não durou muito. Belladona Hopps tinha outros planos a arrastando na direção que Hagan. — Let me make something abundantly clear to you, Triple H. Minha irmã é uma deusa, e aqui está a prova, você tem sorte que ela que ela começou a escrever versões do nome dela com o seu sobrenome no diário dela quando era pirralha e não achou nada melhor depois, e vai por mim, eu tentei. Agora, nossas famílias estão felizes por vocês dois, então cuide disso, ela vai ter sempre razão e você não, esse tipo de coisa, eu quero ela feliz todo dia, se precisar de ajuda, me fale, estamos entendidos? Se eu souber que você a machucou, seu viking gigantesco, eu empalo você e o seu dragão quando vocês dormem sem nenhuma hesitação, e eu tenho a autorização da sua irmã mais velha pra fazer isso, porque, pelo que parece, Delilah foi a melhor escolha que você já fez na vida — Bella deu um tapinha carinhoso no rosto de Hagan e saiu de perto dos dois.
— What in the fucking fuck just happened? — foi a reação de Delilah olhando para o outro.
"Te deixar com o celular não seria o básico? Muitas pessoas podem estar desejando parabéns por lá, já que não puderam participar da festa." Falou mais por falar do que obter uma resposta para o problema. No fim, acabou sendo o melhor. Redirecionou o surto de nervosismo de Hagan para as novas atividades, deu tempo para dar um tapa no visual e chegou na hora perfeita para pegá-la livre (isso parecia mais influencia dela do que sorte dele, só dizendo). "O presente do seu irmão é incrível e eu não vou dizer o que é para não correr o risco de descobrir antes de abrir o pacote. Lia teve a ideia de colocar uma coisinha para que vocês dois não consigam prever e deixar tudo, nas palavras dela, mais mágico." Assim como ele sentia ali, acompanhando Delilah com o olhar brilhante por cima do ombro. A cada página passada e presente aberto, ele e via querendo pegar e acrescentar. Mais um detalhe que tinha passado, mais uma frase engraçadinha. Usaria aqueles minutinhos antes de sair para o treino, Delilah ainda dormindo na cama, para colocar esses últimos pontos.
Hagan suspirou em resignação. O que mais poderia fazer? Se Hella estava envolvida, era melhor deixar tudo acontecer com o mínimo de interferência possível. E... Acompanhando tudo como espectador semi envolvido, tal decisão se provou absurdamente correta. "Isso não é yearning! É completamente o sentimento. É amor estabelecido." A defesa foi além e não foi percebida. Aquele pequeno desespero de afastar dela ganhando o poder da eloquência e o fazendo ir atrás, puxá-la para mais um beijo com o sussurro de boa sorte no mesmo fôlego perdido. "Agora sim, yearning." O desejo, a saudade, emplastrado na expressão do enorme viking afastando com passos para traz.
Veja bem... Hagan Hofferson estava mortificado.
Sim, nível de jogar uma bomba de fumaça e desaparecer na neblina. Transformar o corpo em água e derreter, ou em gás e subir. Não que ele não gostasse de demonstrações públicas, inferno, ele era capitão do time de magibol e era muito bom nisso. Mas... Conforme a letra foi fazendo sentido, cada partezinha do corpo virou gelo e pedra e vidro quebradiço. Metaforicamente falando, claro; seu físico de carne e osso manteve firme. Por Merlin, o que estava acontecendo? E conforme aquele sentimento crescia e expandia, a comichão subindo pelo pescoço com a inevitável avalanche de olhares quando associaram de quem ela cantava, Hagan só pode ajustar a postura, colocar as mãos em concha ao redor da boca e gritar um belo de um incentivo. Não sabia a letra para acompanhar, mas batia palma conforme Lia mostrava, balançava os braços ao ritmo mais ou menos aprendido e sorria... Porque o conforto dela no palco, a animação de cantar daquele jeito, valia a pena o estado em que se encontrava.
E isso porque nem tinha subido no palco para a vez dele de cantar.
Hagan fez questão de ser o que aplaudia mais alto e, não muito orgulhoso desse momento, colocou os dois dedos na boca e assobiou sonoramente. Ruffrunner até levantou a cabeça, não entendendo o chamado do lugar confortável no telhado de casa. E colocou todos os anos de doutrinamento das irmãs para abaixar a cabeça e escutar cada uma das ameaças da outra Hopps. Não faça gracinhas. Todo ultimato é sério, Hagan! "Bom, ainda bem que meu plano é aumentar para 4H. Por quem eu preciso passar primeiro para conseguir? Você, Ezequiel ou seus pais? Posso reservar o centro de eventos de Berk e fazer um grande reunião também, estou aberto à opções." Das ameaças? Hagan sentia o rosto abrindo e os lábios, entortando. Um sorriso tão grande que refletia tudo, em tudo, para todos. O coração transbordando de tal jeito que era... Era meio absurdo demorar tanto tempo para aquela promessa bem aninhada no bolso. Porque aquele nível de proteção, de agressividade acumulada no minúsculo corpinho, significava que estava aceito. Ninguém fica tanto no pé de algo que não quer que dê certo. Mesmo assim, ele colocou a mão sobre o peito - a outra já em Delilah inconscientemente. "Eu prometo, Bella. E se eu fizer qualquer coisa dessas, por favor, me divida em pedaços e espalhe por todo o Reino em lembrete e aviso." Com um aceno de cabeça solene, ele finalizou.
"Eu estou estupefato, embasbacado. Desde a- O que foi isso? Assim, eu tenho um repertório em primeira mão de quão deliciosa é sua voz quando faço certos movimentos. De que meu nome nos seus lábios é o canto dos anjos. E quando você descreve o que eu preciso fazer daquele jeito é... Mas cantar desse jeito? Lilah, o que você viu em mim para me escolher????" A brincadeira tinha olhos arregalados e expressão igualmente surpresa. Isso com um braço enlaçando-a pela cintura e trazendo-a para perto, erguendo do chão e colocando os pés por baixo. Uns centímetros a mais para beijá-la com conforto. Longa e lentamente. "Agora, se é sobre sua irmã, não posso dizer que não estava esperando. Veio um pouco tarde, inclusive." Porém, mais do que isso, ficaria para a próxima. Hagan queria deixar aquela doideira de lado e continuar ali, mas tinha concordado em participar do karaokê. Você não vai numa festa de cantoria e não cantar! E tinha o favor de Jormungand para pagar. Um favor em troca de dividir a obrigação e suavizar a pressão indireta exercida pelo pai. "Chegou a minha vez de falar Que diabos aconteceu em... 5 minutos. Tente não ser tão fã quanto eu fui com você, ok? Eu preciso ser o mais mais."
Porque a música já fazia uma coloração rosada subir pelo pescoço e salpicar as bochechas em sardas estreladas. Ainda mais quando a parte fácil ficava com o primo e Hagan... A mais rápida e sugestiva desse tal Jason Derulo em Spicy Margarita.
No fim, arfando depois de passos muito elaborados e twists vocais inesperados, dava para ver que era aluno da Academia de Dança Jorgenson.
— Me preparando para morrer, Kael, me preparando para morrer — confessou já perdendo a paciência. Ele não via que ela estava desesperada? Deuses, eles tinham feito missões juntos. Calla nunca foi a garota que se perdia em seus sentimentos em meio de algo importante. Pelo amor dos Deuses, ela era chefe do chalé de Deméter, o número de responsabilidades em suas costas era gigantesco. Só que a ironia do momento não lhe falhava. — A última vez que eu irritei um deus por simplesmente existir, meu pai foi acertado por um raio e basicamente pulverizado na minha frente, o que você acha que vão fazer agora, hum? Porque a gente não sabe quem fez as flores. Ninguém sabe, mas todo mundo sabe alguém capaz de fazer aquilo com as duas mãos amarradas nas costas — ela colocou as mãos atrás nas costas ilustrando exatamente o que estava falando. — E minha mãe, a deusa que falou com todas as letras, que era perigoso eu ficar perto de um filho de qualquer um dos três grandes, porque eu era uma afronta a eles, escolheu você a dedo. Dentre todos os semideuses no acampamento, é claro que os deuses iriam escolher o único que consegue me torturar só por existir e nos mandar para uma missão na minha terra natal. Não está vendo? Se eu falhar nessa missão, eu, ou alguém com quem eu me importo morre. E eu nem sei se não sou a culpada por tudo isso, porque ter poderes como um semideus é uma grande de uma merda — enterrou os pés mais sobre a terra macia, se sentindo um pouco melhor com o solo sujando seus pés e lhe trazendo algum conforto. — Então não me mate por estar pensando nos meus arrependimentos, quando um lembrete de mais de dois metros deles está andando do meu lado, enquanto, eu tenho que babar o ovo de deuses que não ligam pro fato que eu tô apavorada.
Calla se virou para árvore que tinha feito e resolveu que agora precisava de um tempo. E ela não tinha mentido, pensava melhor próximo das suas árvores do que ao redor de pessoas. Então apoiou o pé e mesmo com o vestido, subiu na árvore para fugir daquela conversa. — Vou usar as plantas para ter um mapa completo e detalhado desse lugar no lugar do que nos deram. Faça o que quiser — se virou minimamente e sussurou: — De todas formas no lo entenderás, así que no hay necesidad de preocuparse por una criatura no muerta.
Kael não deveria achar tanta graça num momento tão merda quanto aquele, mas não podia evitar. A ironia, o golpe do destino, a organização de cada escolha e consequência culminando naquele minúsculo segundo em que seus olhos acenderam em animosidade. Era um engraçado em graça nenhuma, daqueles risos sem força e rascante, mais destruindo em passagem de ar do que chegando aos olhos naquelas descrições melosas dos livros. Ou da filha de Afrodite que tinha se envolvido no ano passado. Kael puxava o inferior para dentro da boca e mordia. Maltratava a parte interna da boca, tecido macio e delicado, apostando que não traria o gosto metálico para o topo da língua. Seus olhos buscaram o céu, mas o chão era mais seguro. Sua cabeça balançando tão devagar em negativa que bem podia ser confundida com o monitoramento da festa adiante. Cão de caça em posição de sentido, disfarçando a óbvia atividade com o fascínio do luxuriante verde sob seus pés.
A Ironia? Aquilo tudo soava familiar aos seus ouvidos. Tão familiar quanto... Carinhoso. Algum deus do destino ou da história, pegando o livro da própria vida e transformando num de crianças. Suave, enfeitado, cheio de reviravoltas. Os e se, se eu não, se tudo for... Condições e possibilidades de conseguir algo diferente quando ele, a quem aparentemente ela tentava conseguir algum centímetro de sua boa vontade, nunca tivera oportunidade. Calla teve o acampamento inteiro para quem recorrer, se quisesse. Buscar ajuda, dividir fardo, todo o arco de amizade pregado por Percy Jackson. Ele? Kael Skargard? Uma marca e título de pária. Cada passo um julgamento, cada aparição um lembrete da escolha do pai. Má sorte? Missão fracassada? Espada perdendo fio? É o equilíbrio do mundo lembrando que cada segundo roubado era um segundo a mais no pagamento.
E ela...
O sorriso brilhante exibia humor de pedra. As palavras batendo nas muralhas grossas, tamanho arranha-céu, e caindo por terra sem fazer nada além de... Não, nem cócegas. Ele não conseguia se colocar numa posição de importar por cada atualização que teria implorado para ter anos atrás. Pelo estúpido trono do idiota com coroa, Kael teria sido o primeiro a puxá-la de qualquer lugar em que estivessem e levado para aquele lugar. Segurado sua mão, queimado o gramado com os raios, jurado o pai nessa mais nova promessa de vingança. Mas... Arrependimento? Lembrete de dois metros? Os deuses escolheram desse jeito e ele não via, não tinha, não aceitaria qualquer parcela de culpa - ou de empatia.
Quando ela desapareceu na copa das árvores, Kael se deu um minuto para escolher seu próximo passo. E ele começava com uma simples frase. O uso da voz voltando ao normal, de falar estritamente o necessário. "Concordo em discordar, Manzanillo. Eu entendo, porque eu só não estou morto por teimosia." Pinicando na pele, a corrente baixa correndo por baixo do terno. Kael não podia sair de perto por conta da missão, não podia melhorar sua cabeça ficando sozinho. E tinha sido assim pelo ano que passou sozinho no chalé de Zeus, até egoistamente ficar aliviado com a paternidade de Raynar anos depois.
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A casa ao lado sempre tinha sido como a sua, é ela sabia disso, mas os barulhos vindos dos Muray superavam o normal. Logo cedo Amara tinha deixado a roupa do irmão mais sobre o muro que dividia a propriedade e tratou de ir se arrumar. Eram livros, mochila, projetos... Isso sem contar com a pequena briga que teve com o irmão pelo banheiro. Mas no fim o mais velho saiu feliz da vida que não teve que levar os irmaos para o colégio e podia buscar a namorada em paz. Mal sabia ele que a mais nova também estava comemorando internamente enquanto tomava seu café lentamente e discutia algo com a mãe. "Não esperem por mim, vou treinar hoje a noite. Talvez eu volte com Félix." Cantou da porta antes de descer as escadas já seguindo para o território ao lado.
Não deu dois segundos que ela atravessou a barreira invisível entre as duas propriedades e a porta estava aberta pra si. "Bom dia senhor gigante." Brincou sorrindo de orelha a orelha virando minimamente o rosto para que o beijo fosse no canto de seus lábios. Algo tão discreto que apenas os dois saberiam e isso ainda podia causar dúvidas... O sorriso dela só cresceu entrando no carro, já conferindo a cada uma das crianças rapidamente, para poderem seguir.
A negra passou a língua pelos lábios com a pergunta virando o rosto pra ele tentando disfarçar o sorriso "Dormi até que bem. Muitas descobertas... Poderia ser melhor mas uma janela de distância é muito." Fingiu ponderar tristemente mas não resistiu em rir envergonhada. Não sabia flertar, pelo menos não com seu crush e muito menos sendo algo retribuído! Seus olhos foram aos meninos no banco de trás para garantir que não tinham suspeitado de nada, mas os dois tavam animados demais um com o outro pra ligar pros irmaos "E você? Depois de tudo o que rolou..."
Felix manobrou o carro para sair da garagem de casa, o braço casualmente deixado atrás do encosto do passageiro. Era melhor não considerar aquela provocação dela. Pelo menos, não ainda... Com testemunhas demais e um linguarudo que o encarava pelo retrovisor. O jogador ergueu as sobrancelhas, provocando, e o irmão distraiu com o vizinho sentado ao lado. "Se for uma referência daquele filme... Pela sua janela? Na sua janela? Eu não vou saber. Me recusei a assistir quando deu aquele hype." Aquele e outros mais de romance adolescente. Sim, era um adolescente na época, mas quem pedia para assistir consigo dizia tudo o que precisava saber sobre do que se tratava... E qual era seu papel nas fantasias. Felix coçou o lado da cabeça meio envergonhado, a mão agora envolvendo o câmbio de marcha. "Demorei para pegar no sono. Sabe quando pasa tudo na sua cabeça e você quer começar a fazer ali e agora? Do tipo atravessar o telhado e pular-." Não completou para não ficar tão óbvio, fácil demais para os irmãos entenderem. Com alguma técnica ele conseguiria fazer isso... Mas chegava a conclusão de que não valia a pena se arriscar tanto por algo que não seria incomum acontecer com permissão dos pais. Uma visita, uma sessão de estudos, uma festa falsa.
A primeira parada foi rápida. "Já venho." O irmão mais novo pulou do carro assim que parou e Felix, pacientemente, tirou Hilde da cadeirinha e ajeitou a coroa de princesa. Era seu xodó aquela cabecinha loura e ela só o largou quando chegou bem perto da entrada da escolinha. Despachado os mais novos, o Murray voltou ao seu lugar atrás do volante. "Amanhã eu tenho treino até umas quatro, cinco da tarde." Era sábado e, por mais tarde que fosse, era o único dia que o time conseguia o ringue todo por horas seguidas. "Depois eu fico livre. Eu estava pensando... Se você também estiver livre..." Sem os olhos curiosos, Felix encontrou a mão dela e enroscou os dedos, apertando-a gentilmente. "Que tal um cinema? Eu pago a pipoca."
Desde muito cedo no relacionamento a bruxa descobriu que o corpo quente de Timotheus encaixado em si era o travesseiro perfeito para sua cama. Ele era quente, deliciosamente macio, com braços musculosamente aconchegantes... Sabia dos perigos de se relacionar com um meio vampiro era perigoso, mas ela amava tanto aquela sensação de te-lo consigo. A luz entrava leve pela janela indicando mais um dia recomeçando, mas aquela bolha matutina era deliciosa demais para ser estourada assim tão rapidamente "O que? Tinha alguma ideia diferente?" Perguntou praticamente miando de vontade enquanto encostava mais o corpo no dele, fazendo que sua bunda grudasse em seu quadril.. A pergunta porém a fez franzir o cenho, ainda sem devidamente acordar e abrir os olhos "Óbvio que não Tiny. Do que você tá falando?" Ela respirou fundo se expreguicando, já percebendo que não iria ganhar seu querido orgasmo de bom dia, para poder virar de frente para ele. Seus olhos cansados o miravam com carinho, enquanto sua mão subiu ao peitoral calmamente seguindo para seu pescoço e terminando na sua bochecha. O que levou a um simples, e preguiçoso, selar de lábios. "Bom dia pra você também moço." Disse baixinho toda manhosa suspirando como se estivesse quase voltando a dormir
O sentimento crescente de perturbação expulsava o sono numa velocidade alarmante. Cada sentido embolado e grogue acordando ao nível de ameaça e fuga. A segunda opção conjecturada, mas rapidamente jogada para o lado frente as condições em que estava. Evelyn não era um caso. Bastava olhar ao redor para perceber, as coisas delas espalhadas pelo seu quarto e tão bem inseridas que pareciam pertencer ao ambiente. Tymotheos piscou e se afastou, o tronco levantado do colchão para avolumar-se sobre ela. Aspirar, respirar, farejar a origem daquele aroma diferente. Porque ser como a irmã ainda não tinha entrado em sua cabeça. "Evelyn. É sério." A voz não tinha nada do rouco de puro flerte, seus olhos não brilhavam em sugestão. O cenho estava franzido ao ponto de nó e ele parava antes de passar para além da linha da cintura feminina. "Quando foi sua última lua?" Não era pudico nessas perguntas, então a uso daquele expressão era total de familiaridade. O ciclo lunar dos lobos com o de sangue das mulheres. Das bruxas.
Mesmo que Tristan quisesse, não havia algo no mundo que o distraísse quando Marín estava falando. Era quase como se ela o hipnotizasse e ele via a boca se movendo, as palavras eram gravadas em seu cérebro quase que pra sempre, seus braços se acomodavam ao redor da outra de forma confortável e ele se via só assentindo para incentivá-la a continuar. Continuar para sempre.
— A história das palmas eu já sei, é quase histórica no acampamento — ele começou seu raciocínio. — Até onde eu saiba eu sou seu mordomo, então um peixe seria redundante e... — seu cérebro travou ao tentar criar uma retruca para a última. Porque aquilo... era completamente ridículo, um filho de Hipnos se beliscando para ter certeza que não estava em um sonho. Porque poderia não dizer em voz alta, mas haviam alguns sonhos que ele guardava à sete chaves e usava todos os seus poderes para que fossem só deles. Momentos em que ele havia idealizado situações como aquela, e que não haviam o preparado para como responder à aquilo. — Pelo rio Lete e o mundo dos sonhos, por favor, me diz que o terceiro é verdadeiro — sussurrou unindo suas testar. Tão próximo que um som mais alto parecia errado, sacrilégio. — Você é o sonho mais lindo que eu já pude viver.
Marín não sabia o que esperar naquele milésimo de segundo onde o tempo parecia suspenso eternamente. Uma rejeição? Não necessariamente, não vinda de Tristan. Uma resposta diferente? Também não. A incerteza dando nós no estômago porque misturava a certeza com esperança. Uma verdade absoluta com aquele pensamento que se privava antes de dormir. Pensar demais nele deixava seus sonhos... Diferentes. "A culpa é sua, sabe? Se não fosse tão abelhudo em sonhos, talvez acontecesse antes..." E ela lembrava daqueles dias em que acordava tarde e ele estava ali, a encarando com o sorriso mais torto possível. Marín acreditava no respeito, mas ele saber... Ter aquele vislumbre... Dava início a criação de borboletas e constelações inteiras. Ela se aproximou, o rosto encostado com os olhos fechados. O coração entrando no compasso daquele que batia perto, tão perto, pele com pele. "Eu sou?" Insegurança? Nervosismo? Ansiedade? Palavras fora do vocabulário e, mesmo assim, tão perfeitas para descrever o que sentia. O medo... Era melhor falar em voz alta. "Não deu para ser diferente do clássico que a gente costumava brincar... Quando- Lembra? Esparramados na varando do meu chalé, avaliando os casais que passavam e criando histórias. Um dia, eu nos vi ali e o medo... Não podia dar uma chance de perder o que tínhamos- Temos."
Existia uma parte dela que alcançava uma certa paz quando em Berk. Uma segunda casa, talvez. Primeiro veio a amizade com os filhos da família no poder, algo natural e simples; e depois a tutelagem com Soluço que havia lhe prometido uma proteção que toda e qualquer outra possibilidade parecia incapaz de lhe prover. Os poderes dela e do irmão faziam com que eles fossem visto como armas; a possibilidade de ter alguém que pode controlar o futuro como um aliado é algo que atiça a cobiça de qualquer um. Bem, menos das pessoas em Berk, eles a viam como uma pessoa, uma garota só tentando conseguir alguma paz. E talvez, com Hagan segurando sua mão e a guiando pela trilha que ela tinha quase tatuada em sua alma, também lhe vissem como uma companheira.
Delilah segurou o braço de Hagan quase como se precisasse estar conectada a ele de alguma forma para acreditar no que estava acontecendo. — "A gente", uma vírgula, você — ela riu baixinho — Eu disse que o melhor jeito era voltar pelo caminho e procurar pedras e galhos secos, mas você disse que entendia mais de fogo do que eu e que iria estragar o momento, ai eu acabei tendo que tentar ajudar eventualmente, mesmo que tudo que a gente precisasse era um isqueiro — ficar relembrando do passado fez o brilho de lágrimas aparecerem em seu rosto, era tanta história num canto só. Delilah tinha feito a casa na árvore perto da toca como uma base secreta para todos os seus irmãos (por mais que muitos nem pisassem lá, já que coelhos não agem muito bem com altura), agora aquele lugar, aquele lugar era só dos dois. — Claro, quando você esqueceu do pequeno detalhe: que eu não sabia nadar — ela apontou para a água logo à frente dos dois. — Você me ensinou à nadar aqui também. Senhor "Está tudo bem, Lilah, tem alguns dragões selvagens na água, mas eles são inofensivos" Hofferson. Tem ideia do quão louco é falar isso para alguém que não é de Berk? — imitou a voz antiga dele, a falha que fazia ter um sorriso fácil por achá-la adorável e engraçada ao mesmo tempo.
Antes, não teria força o suficiente para mover o barco marcando o lugar secreto, mas os calos de Hagan eram correspondidos pelas pequenas cicatrizes de queimaduras e calos em suas mãos. Uma das primeiras coisas que aprendeu a fazer foram machados para Dragon Rider, então conseguiu levantar a parte da frente do barco, encontrando o círculo de pedras do jeito exato que tinha deixado. Um suspiro de alívio escapou entre seus lábios antes que conseguisse controlar. Então queria dizer que o segredo daquele lugar estava completamente seguro. Sentou-se do seu lado, cruzando as pernas embaixo de si e descansando os cotovelos sobre os joelhos para observá-lo. — Eu também mudei, Hagan — seu olhar, no entanto foi para as chamas a sua frente. — Sendo bem sincera, você conhecia uma versão de mim, mas não me conhecia por completo. Esconder um sentimento forte como esse, quer dizer que eu estava escondendo uma parte de mim. Além disso, eu nem faço ideia como eu vou ser no meio disso. Não tenho nada para comparar. Você é o primeiro cara que eu amei na vida e, bem, qualquer coisa que chegava perto de se assemelhar foi tão transicional quanto uma conversa, não foi nada demais. E se eu acabar sendo ruim nisso? De compromisso? — apontou para ele e para ela — Tem muita coisa que eu não sei desde o momento que você resolveu apareceu na porta da minha casa com flores. O que me deixa apavorada, mas ... eu não quero congelar de novo, não com isso, não com a gente — mordeu o lábio inferior e tirou o anel anelador da bolsa e o pôs no polegar, precisava estar no presente e não no futuro — O que eu acho que a gente pode fazer é fazer uma coisa de cada vez. Eu não sabia que você era tão fácil de provocar e, de alguma forma, você não sabia que eu tinha um parafusos faltando, mesmo eu sendo de Nova Wonderland e é quase um requerimento para conseguir a cidadania — moveu o corpo levemente para que se aproximasse do outro o suficiente para por a cabeça sobre seu ombro.
Deixou que um silêncio confortável se instaurasse entre os dois. Só com o barulho da fogueira acesa e a caixinha de música tocando a melodia de alguma música que não prestava atenção. — A gente deveria estabelecer regras — suas bochechas ficaram vermelhas considerando o que falava poderia ser encarado de uma forma muito ruim. — Ou, pelo menos, uma básica — ela segurou o queixo do outro com o indicador e o virou para ela. Seus olhos se perdendo nos azuis elétricos que a olhavam de volta. — You and me, that's it. For the good, the bad, and the ugly. Não importa o que aconteça, a gente vai ser melhores amigos primeiro. O que está acontecendo agora evoluindo para sabe-se lá o que, ou acabando. Você vai olhar na minha cara e dizer se eu estou sendo uma maníaca por controle e eu vou olhar na sua cara e dizer você estar querendo dar uma de mártir, e tudo que vier no meio. Descobrir coisas sobre o outro é parte disso. Isso é novo, mas a gente sabe como ser melhores amigos, nós fomos por anos. Essa vai ser a base, o que vier além... vai adicionar a isso — deixou suas testas encostarem. — Só me promete que não vai sair da minha vida, por favor. E eu prometo que vou estar aqui, pra quando você precisar e querer que eu esteja, não importa da forma que for.
Nem precisava acompanhar a linha daquela costa para lembrar de algo que fizeram juntos. Duas crianças fantasmas, brilhando nos contornos, em diversos estágios de comprometimento ao caos. Um apontando adiante, outro puxando de volta, um grito pelo susto e aquele, seu preferido, de atrair o dragão para que Delilah pudesse encostar no focinho. Um pedacinho de Berk era capaz disso, imagina por inteiro? Criando e misturando e entrelaçando casa com outros sentidos. Ampliando tão facilmente quanto tinha permitido aquela garota estranha em sua vida. E agora, igual e diferente,
O reflexo do sol na água salgada fazia maravilhas aos olhos perdidos de Hagan. Água e maresia criando ilusões encantadas, de contornos brilhantes, onde duas crianças dividiam a costa em milhões de pequenos fragmentos. Corriam pela areia, confabulavam com as cabeças próximas, brigavam por coisas bobas, cruzavam os braços emburradas, arremessavam pedrinhas e apontavam adiante. O menino chamando um dragão para perto e ajudando a menina a encostar no focinho. A menina falando e falando sobre tudo e nada enquanto o menino observa sorrindo, torcendo para não acabar.
Era engraçado e ver ali, anos depois, no mesmo lugar e tudo parecer absurdamente diferente. A mesma menina, agora mulher, com a cabeça contra si e os lábios cheios de saudade dela. De sentir aquele calor dentro do peito por algo diferente de orgulho, de companheirismo, de... Ainda era, mas era mais... Algo que a garganta travava logo antes de conseguir colocar para fora. "Nós erámos uns pestinhas, hein?" Era mais fácil seguir por aquele caminho. Rever aquelas memórias com a ótica de que talvez tenha sido diferente... De que sempre esteve lá, esse sentimento, mas tinha problema demais para enxergar direito. A bruta diferença com a família, o legado que seguiria, a academia, a mudança. Quando ouvia a mãe reclamando da 'puberdade' nos casos de Hella, ele entendia o porquê.
Hagan baixou a cabeça e encarou a faixa de areia entre as pernas, seus braços apoiando nos joelhos. Aquela parte não doía. Esconder um sentimento não cutucava a ferida aberta, nem esfregava sal. Ainda precisaria de tempo para colocar na cabeça que culpa era um termo que não se aplicava ali... Mas, o que quer que tenha começado a entender, meio que caiu por terra numa única frase. O primeiro cara que eu amei na vida. Tudo mais caindo algumas oitavas e ficando como voz de fundo. Sim, acompanhava e entendia o que era dito. Se perguntasse, saberia dizer. Mas aquela frase voltava. E voltava. E brilhava. E enrolava. E aumentava aquela sensação de sufoco no peito, do bolo tomando proporções de trem e meteoro. Por que não conseguia dizer? Não seria obrigação, nem necessidade de retribuir para não ficar estranho. Tão fácil, tão mais fácil espremer os lábios numa fina linha e se deixar conduzir pelos dedos em seu rosto.
Não tinha muita certeza do que refletiria nos próprios, mas o que viu no dela foi pior do que aquela confissão mais- Espera, isso não tinha sido uma hora atrás?? "Você está sendo uma maníaca, 'Lilah. Não por controle, mas uma maníaca igual. Eu ia perguntar se você está se ouvindo, mas, dizendo em voz alta, nada mais é do que você e seu poder manifestando." O passado, presente e futuro; o talvez, a incerteza e a segurança. E a culpa, tanta culpa, por tê-los colocados naquele ponto de confiança. Porque... Porque, nesse momento em que tudo estava sensível demais, Hagan ainda... Não encontrava palavras para descrever. Ou melhor, Delilah tinha dito a exata: mártir. As sobrancelhas franziram de leve, os lábios entortaram levemente e ele sentiu as pontadas nos olhos, aquele salgado de olhos marejados. "Eu acabei de te colocar do lado da minha casa, Lilah. Você acha mesmo que vai me perder de vista? De que eu tenho planos diferentes de arrastar para todo o canto? Melhores amigos e mais, para os dois. Estarei aqui tanto quanto você estará por mim, e mais. E tanto mais." Abaixou a cabeça para um beijo na testa feminina.
"Vamos voltar. Acho que vão precisar de nossa ajuda para finalizar a mudança."
Delilah estava enebriada, sim, mas não o suficiente para perder seus sentidos. E a lembrança da última parte do presente voltou e agora ela conseguia ver outras formas de executar o plano — Ela sofrerá alguns ajustes — brincou com um sorriso grande, que fazia seus olhos virarem linhas.
O beijo em si não a surpreendeu, mas talvez a ânsia por ele. Então era assim que ele se comportava quando enebriado e feliz demais? Bom saber, guardou o pensamento em uma gaveta já que poderia usá-lo um pouco mais tarde. A verdade era seu corpo queria esquecer o que havia planejado e simplesmente fazer o que os dois queriam, mas a parte inventora dela queria que ele recebesse o que tinha feito com tanto cuidado, e os planos adicionais pareciam divertidos. — Você pode entrar, mas tem que fechar os olhos — abriu a porta e puxou o outro para dentro.
Seu quarto não parecia mais ser só dela. Em um canto tinha uma jaqueta esquecida dele, os travesseiros tinham o cheiro dele, as comidas guardadas tinham algumas das saudáveis dele. Era o espaço dos dois. Ela foi na direção de onde havia guardado o presente final (no fundo do closet) e saiu carregando uma réplica quase perfeita do machado preferido de Hagan, excluindo uma engrenagem presa no cabo com o símbolo que havia dado para ele na parte da base. — Você deve estar pensando: "Delilah, você recriou meu machado?". E a resposta é sim e não — apertou no símbolo por alguns segundos e o machado gigantesco virou um anel com a engrenagem de antes nele em uma versão menor (que ela tinha medido e sabia que cabia no indicador da mão dominadora dele — Coloca o indicador sobre o símbolo dentro do anel e imagina qualquer arma grande. Só uma observação, eu não consegui fazer funcionar para arcos, mas o dá ok com uma besta. Eu posso tentar ajeitar pra arcos depois — esperou que ele o fizesse e então segurou a mão dele sobre o cabo da arma, a levando até a engrenagem no cabo da arma escolhida. — A engrenagem tem 10 dentes. Só girar a engrenagem e imaginar outra arma que tecnicamente você pode carregar até dez armas diferentes no seu indicador. Se quiser fazer outras, só refazer o processo, mas não testa isso agora — deu um selinho divertido no outro e tirou o seu anel anulador.
— Fecha os olhos, e não ouse abrir, porque eu vou saber — disse andando de costas na direção de onde seria seu pequeno escritório. Que tinha uma pequena parede o isolando do quarto. Havia sido lá que tinha escondido o bolo só para ele com a vela espalhafatosa e os cookies, mas também era lá que tinha deixado a jersey que ele tinha esquecido no quarto e que era tremendamente confortável para dormir quando ele não estava por perto, especialmente sem nada além dela.
Subiu na cama, com o bolo em seu colo e os cookies no seu lado esquerdo. — Tecnicamente, já é seu desaniversário, então... — usou seu bastão para acender a vela colorida demais do bolo. — Pode abrir os olhos.
Delilah, contrariando a lógica de contos de fadas, tinha nascido sabendo controlar sua voz o suficiente para que parecesse quase que a canção de desaniversário era quase uma canção de ninar.
De olhos fechados, Hagan adentrou o quarto sem dificuldades. Lembrava como tinha deixado mais cedo e pela rotina estabelecida pelos dois, sabia que Delilah deixava aquele caminho desimpedido para si. Seu sorriso enorme por baixo das mãos emplastradas no rosto, riso subindo e agitando os ombros... Som rouco demais, fruto do álcool em excesso e do calor que aninhava no umbigo. Podia culpá-lo de ter um caminho específico de fantasias para seguir? Ainda mais depois de segui-la logo atrás, espiando por baixo dos dedos o quadril que balançava de um lado para o outro.
O presente parecia estranho nas mãos. A energia impregnada no machado própria era diferente, o cabo amaciado e perfeito para comportar cada calo das mãos bem utilizadas. Hagan balançou suavemente, testando o sabor do corte no ar inocente. Quando colocou o dedo no símbolo e pensou na espada a mãe, um arfar surpreso saiu por entre os lábios. A curiosidade masculina o fizera testar antes de terminada as instruções e seu rosto, pós a última frase, exibia um sorriso presunçoso. Malicioso. Seguindo os comandos, fez a arma virar um anel e o colocou ao lado da cama, em cima da escrivaninha com outros itens pertencentes a si. "Obrigado." Murmurou contra os lábios dela, ânsia quase impossível de não segurar o rosto dela ali. De usar a palmas no ventre e empurrar contra a cama.
Fechar os olhos não significa: ficar parado. Hagan manter as pálpebras cerradas enquanto se despia, ficando apenas com a boxer no meio da cama dos dois. Dessa vez não colocou as mãos nos olhos, preferindo amassar e soltar as dobras do lençol abaixo de si. O cheiro doce ativou seus sentidos mais instintivos. Afinal, neto de Estoico, Hagan sabia muito bem como prevenir a ressaca no dia seguinte. Mas... Ao abrir... Não sabia se estava mais tão animado com as guloseimas quanto ficou com a visão de Delilah. Cegamente alimentou-se com o que podia, devorando tudo enquanto ouvia a canção e engolia a visão perfeita dela. Dela. Os dentes fechando sobre o lábio inferior na possessividade trazida pela camisa grande demais. Da forma como as curvas deixavam o tecido solto. Das pernas dobradas e acessíveis, precisando apenas de um incentivo para sanar a sede que constringia a garganta.
O braço virou elástico, a mão numa bandeja para colocar o bolo em um lugar seguro. Se ela tivesse pensado que aproveitariam agora, estava enganada. E Hagan com toda a certeza de que cada movimento que fazia tinha sido manipulado e entalhada no poder único de Delilah. Ah, a falta de escolha. Ah, o inevitável acertar de ações sem que precisasse pensar. O Hofferson ficou de joelho, cada um de um lado das pernas grossas da Hopps. "Braços para cima. Mãos no espaldar. Você teve seu tempo para respirar, Delilah." O lamber dos lábios foi a única coisa que a outra viu quando ele levantou a barra da camisa e se escondeu embaixo.
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— Era sempre assim, não era? Por mais que você também seja cabeça-quente, mas você era o calculista e eu era a cabeça-quente que você tinha que salvar de não pular de cabeça num ninho de monstros, mesmo você sendo o que dava uma de kamikaze entre nós dois, ai quem tinha que salvar alguém era eu — talvez fosse o álcool de alguma forma fazendo efeito nela. Ou o simples fato que a última vez que tinham ficado próximos por tanto tempo havia sido... antes. — Não acredito que estou falando isso: você tem razão. Só fica no alerta caso eu faça plantas crescerem pelo salão inteiro involuntariamente, porque eu tô me sentindo... inútil, bem inútil.
Ela poderia estar confundindo o que ele falou com cuidado, mas a verdade era que, pela primeira vez, estava feliz por ter sido ele e não outra pessoa que foi posta na missão com ela. Alguém que não iria se curvar as suas decisões. Alguém que a via pela garotinha assustada que realmente era por dentro. Alguém que lidava com poderes muito além do que ela tinha capacidade de aguentar. Ele via isso, claramente.
— Está pedindo para ser mudado do papel que eu te dei a alguns anos? — caminhou na direção de um dos garçons para pegar uma taça de champagne e continuar com a farsa que aquilo era simples. Que aquilo era sua lua de mel. Que tudo aquilo era nada demais. Afrodite sabia, talvez até era soubesse, de fantasias que ela havia tido com um cenário parecido com aquele. E como, com o peso do mundo nas costas, ela não conseguia sorrir com a ironia disso tudo. Como a pequena Lily realmente tinha conseguido o seu desejo, mas da pior forma possível. — Se vale de alguma coisa. Eu realmente quero te mostrar a minha cidade natal... depois disso tudo. Antes, bem, antes eu pensava que ir para um lugar colorido e alegre que não tivesse a iconografia dos imponentes deuses gregos e o peso de missões e batalhas em todo lugar iria te alegrar, nem que fosse um pouco.
Antes. Antes, quando a convivência deles era fácil. Quando ela tinha construído um jardim inteiro só para descobrir qual era a planta preferida dele. Quando os dois treinavam juntos e ela pregava peças nele simplesmente porque o som, mesmo que mínimo, da risada dele a fazia o dia inteiro dela ficar melhor.
Foi ela que destruiu isso.
Zeus já tinha tirado o seu pai dela. O que ele poderia fazer através do filho? O que ele poderia fazer com o próprio filho?
O medo a impediu de simplesmente abraçar o amigo quando o mundo dele mudou completamente. O medo a impediu de dar qualquer chance de fechamento para uma Lily mais nova.
Medo... medo que ela sentia agora.
Aproximou do mais alto e enlaçou o braço com o dele, para puxá-lo na direção de um canto um pouco mais afastado do jardim do hotel e abrir o medalhão em seu pescoço, e pegar uma semente específica entre as várias ali, e a colocá-la dentro da terra com cuidado, enquanto uma tatuagem em uma mão esquerda brilhava levemente. — Eu preciso conseguir pensar claramente. Não, a gente precisa. Esse fim de semana inteiro — com acima de onde colocou as mãos de onde havia posto a semente e sussurrou algumas palavras em grego antigo. O chão tremeu um pouquinho até que uma árvore começou a crescer até o perfeito desabrochar com várias flores de moringa ao redor. Ela escutou aplausos de pessoas distantes, mas sua atenção continuou na planta. — Eu penso melhor com as minhas árvores por perto. E você pensa melhor quando tem uma forma de esquecer sobre multidões, até onde eu saiba. So, this is a peace offering — apontou para a árvore já formada logo à frente dos dois. Ela estava ofertando uma desculpa por antes, ou só em nome da missão? Nem Calla fazia ideia, mas sentia que precisava fazer isso. Não só pelo bem do que deveriam fazer, mas porque se iria morrer no final daquele fim de semana, pelo menos tinha tentado não viver com o peso do medo nas suas costas. — Então pelo resto do fim de semana, eu serei a sua esposa super amorosa e leal. Você vai ter passe livre para fazer o que quiser. Se quiser, eu até conto das suas proezas sexuais para alguma socialíte ou influencer bonitona que eu achar e vira uma oportunidade para você depois. Não posso falar por experiência própria, mas eu ouvir rumores. — claro, ela tinha que arruinar algo que poderia ser bom, por conta da memória muscular que aquilo nunca daria certo. Sua existência era contra os filhos dos três grandes. Ela era a resposta das deusas esquecidas desse ranking, não poderia deixá-los à vontade por nem um segundo. Deméter (e Kael) era a única razão por ela ainda estar viva.
O que ali tinha sido muito diferente do que teria feito em qualquer outra ocasião? Mostrar a razão em palavras de uma contagem que tinha esquecido ter um limite. Impedir a morte tão clara quanto a assinatura num certificado de morte, ou dar a moeda não mão de Caronte. Kael nivelou a respiração e diminuiu a agitação do próprio corpo, notando apenas agora o quão longe tinha ido nas reações involuntárias. Por quê? A verdade era bem óbvia. Em outros casos, ele teria empurrado e feito sozinho. Teria estalado a língua no céu da boca, fechado a cara, reduzido o grupo com um olhar e assumido a liderança. Sem desperdício de tempo e palavras tentando buscar a razão. A parte certa diria que era o certo a se fazer, o mais adequado. A parte adormecida, no entanto, colocava a perspectiva da análise. Comparação. De querer ouvir a opinião e tentar atingir um patamar em que não estivessem em confronto direto todo o santo minuto. O reconhecimento entre si, não o que falava mais alto.
Kael meneou a cabeça e deixou passar o 'deslize'. Ele tinha a razão e sabia disso, assim como sabia que nada frutífero viria no vangloriar da pequena vitória. Se é que tinha em si esse sentimento de ser visto como o grande maioral detentor da verdade. Assim como o irmão mais velho, as características herdadas dos deus dos deuses passavam longe do megalomaníaco. Autoridade no porte e poder fora do comum. Absolutamente. Pavoneamento e braços abertos para os aplausos? Dispensam. Abri o caminho de volta para as pessoas foi um interruptor ligado. A luz refletida no sorriso de arco de boca, pescoço meio de lado e mão rondando a semideusa. "Manterei a vigilância ambiental e estou falando do disfarce." Anos? Seus olhos azuis refletiram o brilho do champanhe, o peito constringindo o movimento num receio de deixá-la continuar na consumação. Quando começava a falar do passado...
Daquela maneira...
Meias luas na palma da mão fechada em punho, disfarçada pelo tecido do bolso em que enfiava. O ponto que queria chegar abria uma gama de possibilidades grandes demais para o momento e não era a ocasião para isso... Simplesmente não era. "Eu não vou sair do hotel. Me mostre que precisamos fazer um tour para conseguir o convite e eu vou. Sem isso: não." Talvez no passado, quando ainda carregava a esperança de ser um deus menor... Ou até um erro no sistema, um humano com visões da outra realidade. Teve um dia que aceitaria ser o oráculo, aquele uma semana depois do símbolo de Zeus sobre sua cabeça. O pensamento de sair e explorar era... Inútil. Sem sentido. Um desperdício de tempo para a missão, para o acampamento, para todos os envolvidos. "Serei o marido que escolheu o hotel pelas atividades internas."
O contato visual com o barman iniciou o ciclo que prosseguiu nas próximas horas. A bebida mais fraca nunca ficando fazia em sua mão. Trocada como Kael trocava de companhia na festa. Uma parte tentando aproveitar o ambiente, a outra pescando informações e preenchendo blocos mentais concisos. A gravatá fechando um pouco mais ao redor da garganta enquanto pequenas gotas de suor acumulavam por baixo do tecido, criando aquele ponto úmido na base das costas. A cada piscar e os sentidos revoltavam, exigindo um olhar por sobre o ombro ou um panorâmico. O álcool não era o suficiente para afogar completamente os instintos de sobrevivência de um semideus. E um do calibre do Skarsgard? Parecia pior. Uma culpa crescendo pelo desleixo, espetando-o com a ponta afiada da espada. Ah, é assim que vai ser? Criando ameaças invisíveis.
A gravatá soltou no meio do caminho até os jardins, puxada pelo gancho do indicador fantasma e involuntário. Aquele pulsar discreto ganhando força antes de relaxar, como a tempestade se dispersando depois de lançar toda sua força no mundo abaixo de si. Kael odiava multidões. Não importa o tempo, a terapia de exposição, o nível crítico da missão. Era como pequenas criaturas rastejando sobre a pele, mil olhos sobre si e o sufoco de olhar para os céus e não alcançar a vastidão solitária. "Essa parte não precisa de pensamento crítico." Murmurou por baixo do fôlego, dessa vez abrindo os primeiros botões da camisa branca. Kael manteve as costas para o jardim, o olhar sem sair da festa e os anfitriões divinos. A pausa não tirava a missão do guerreiro.
De lado, com ela na visão de bordas começando a bordar. Kael forçou a cabeça para estalar o pescoço de um lado e do outro, fechando os olhos por um momento para... Respirar fundo e tranquilamente. A brisa conduzida pelas novas estruturas trazia um aroma conhecido. Delicado. Doce e envolvente, que fez os ombros baixarem no mesmo instante. Não, a postura continuava a mesma (aquilo estava no DNA), mas... Os músculos reagiram como numa massagem. O perfume da moringa em ondas, suavizando um pouco mais na onda conforme respirava. O ar trocado pelo saturado de perfume. Quando abriu os olhos, as sobrancelhas juntaram-se no meio... Confusão e uma pitada de raiva na tempestade domada do azul escurecido.
"O que você está fazendo?" Kael não estava entendendo Calla. Não estava ativamente fazendo leitura profundas e comparativas, não estava ali para entender o estado de espírito ou emocional. Eram dois semideuses numa missão sensível, envolvendo tempo minguante e perigo de vida. "Estamos numa missão. Nós somos casados. Não vai ter nada depois disso." Era como esperar que uma criança entendesse, pensou Kael. Era como necessitar de uma resposta sem fazer as perguntas certas. O nó na garganta apareceu e era enorme, tão grande que os lábios entortaram numa careta. Ele não entendia aquela montanha-russa de sangue quente, suas decisões conflitantes e esse... Essa troca de personalidade. Sim, ele reconhecia cada uma delas. Como não? Mas tinha passado tanto tempo sem ver a primeira, que a segunda era tudo o que conhecia e esperava. Que se recusava a reconhecer que a primeira poderia existir quando ele estivesse na mesma equação. "Eu não quero uma oferta de paz porque não estamos em guerra. Essa é uma missão, cada m tem seu papel e pronto. Assim que terminarmos, voltamos à programação normal." Porque usar a moringa... A tensão voltando dolorida para os ombros, pesando a respiração que... Que começava a parecer demais com o menino no meio da multidão boquiaberta. Da energia estática condensar nos raios elétricos ao redor de si, confirmando que era o mesmo o filho da marca sob a cabeça. Usar aquela informação era um golpe baixo. Subterrâneo. "Agradeço o pensamento, mas dispenso. Troque por algo de seu gosto, porque é assim que sempre foi- Não quero sua empatia. Mude."
w. @inolvidablc
at. Hopps residence in Berk
when. Delilah's (and Ezekiel's) birthday
Aquilo havia saído do controle de Delilah bem rápido. Ophelia Hopps nunca seria conhecida como alguém ingrata. Jamais. E Berk havia aceitado os Hopps de braços abertos, ao ponto que alguns dos filhos mais novos, mesmo com aquele pouco tempo já se sentiam em casa ali. Com dragões sobrevoando a casa e causando tremedeiras no chão.
Então quando a matriarca da família percebeu que o aniversário dos gêmeos se aproximava, a ideia de uma festa a lá wonderlanders no meio da terra dos dragões foi divulgada para a família inteira. Opiniões foram jogadas e aceitas antes mesmo que Delilah pudesse processar aquele fato. Sim, ela estava feliz com a adaptação da família a uma cultura em que já se via inserida a alguns anos, mas tudo que queria para seu aniversário era o que já tinha. Um fogueira, um dragão para acender a fogueira, marshmallows and... her boyfriend? Boyfriend... Boy...friend... Ok, ele era um cara e era seu amigo, e havia momentos em que ele se referia a ela assim, girlfriend. Mas até que ponto isso ia? Tinha feito uma certa investigação mais por curiosidade do que desejo de controlar a situação. Haviam coisas que haviam acontecido entre ele e a ex-namorada que Hagan não tinha lhe contado e ela não queria forçá-lo a dizer nada, mas isso não queria dizer que não ficasse curiosa sobre o que ela não tinha visto. Algumas pessoas ao redor dos dois soltavam detalhes sem perceber. Um "ele parece mais feliz com você" e um outro "vocês parecem fazer bem um para o outro", com uma pitada de "ela sugava ele". Então Delilah se perguntava se era isso, o fantasma do passado, que impedia que simplesmente se tornassem o ímpeto dela clamava para que eles se tornassem. O que aparecia quando estavam sozinhos e tudo parecia se calar — que era exatamente o que ela queria para o seu aniversário de 23 anos. Passaria algum tempo com o irmão gêmeo, claro, talvez uma pequena comemoração entre família, mas depois... tudo parecia ficar tão mais fácil quando todos os seus sentidos eram inundados simplesmente por Hagan e nada mais.
E a outra ressalva que ela teve foi o desejo do irmão para o dia. Que disse, em alto em bom som, que queria fazer uma festa com karaokê no jardim da casa. Delilah tentou pestanejar, porque quando encontrou os olhos do irmão com o mesmo brilho arroxeado que sabia que seus tinham quando acessava a probabilidade, sabia muito bem o que ele estava planejando. Ezekiel era aquele que usava a habilidade dos dois com a probabilidade para ir além dos seus limites, se arriscar. Delilah era a que tinha medo de fazer isso. — Eu não vou cantar em público, se é o que você está esperando — praguejou para o irmão gêmeo. — Just trust me, ok? — seu irmão falou em meio da conversa entre os outros irmãos, então era o mais próximo que teriam de uma conversa privada naquela casa. — You're a shitty communicator, você fala, fala, fala, mas no final das contas não falou o que realmente importa, and Hagan is too, porque ele demonstra as coisas por ações, até onde eu consigo ver de vocês dois, e você é o tipo de pessoa que precisa de informações claras e concisas. Você pode estar se dizendo que vocês tem agora é o suficiente, mas eu te conheço melhor do que eu conheço a mim mesmo e não é. Compartilhar um quarto sempre que possível e se esconder na praia com uma fogueira com música antiga não é um suficiente pra você. Então eu sou capaz de apostar que fazer algo que vai deixar você, ele e todo mundo que pisar nessa casa vulnerável. Seja a vergonha alheia, ou ao que for, pode ser exatamente o que vocês dois precisam. Plus, pelo coelho que atravessou para o mundo dos humanos, qualquer santa oportunidade de ter o Alastair passando vergonha em público vale apena o sacrifício que for. Porque você sabe que ele vai começar a se irritar com alguma pessoa cantando a letra errada de uma música que ele diz que é dele e boom, nosso irmão mais velho estará bêbado, provavelmente sem camisa e com uma gravata presa na testa cantando alguma música da época antes da maldição como se a vida dele dependesse disso — e olhos de ambos os gêmeos brilharam em um tom arroxeado simultaneamente, junto com um riso síncrono que atravessou os dois ao perceber que a probabilidade de ganharem o irmão mais velho passando vergonha como presente de aniversário era bem grande. — Eu não vou forçar você em cima de um palco. Só te estou dando a oportunidade de ficar verdadeiramente vulnerável com pessoas que irão de proteger de tudo e de todos pelo menos uma vez na vida. Será a mesma coisa para mim. Eu sei que suas invenções são sua arte, mas existem outras formas de se expressar que não são palavras trancadas num diário que você não deixa nem a sua sombra ler direito — ele segurou uma das mãos da gêmea e a apertou de leve. Uma linguagem entre os dois que, se estava sendo duro demais, ele pedia desculpas. — E outra, está vendo, todo mundo se adaptou aqui. Essa confusão inteira foi uma coisa boa para a nossa família, mas será que já se tornou algo bom para você? Será que você realmente parou de olhar por cima do ombro esperando que algo de ruim aconteça agora que um monte de coisas boas aconteceram pra você, para nós e para vocês dois?
E ele lhe abandonou ali. Partindo para outra conversa com diferentes irmãos, planejando a festa que Delilah estava... bem, ela estava confusa demais para ser algum tipo de ajuda em qualquer coisa, então sou obedeceu a ordens. Foi até o tio de de Hagan que lhe chamava de "Provável" para conseguir músicas para o karaokê. Pediu ajuda de Soluço para que conseguisse montar algo a tempo, além de um pequeno palco. Seus outros irmãos se puseram a decoração, trazendo um pedaço de Wonderland para a Berk, mas era possível ver os elementos se misturando. Os pequenos dragões que os Hopps não conseguiram afugentar, então acabaram parte do ambiente. As roupas que já estava começando a se misturar com o pequeno pedaço de Wonderland dos coelhos.
Então a festa veio. Bella e Ezekiel proibiram qualquer um que não tivesse o sobrenome Hopps de adentrar naquela casa o dia inteiro, então o máximo que conseguiu falar com Hagan foi com mensagens rápidas que ela mal teve tempo de verificar as respostas. Sua mãe havia feito uma roupa para ela como que para ilustrar o que estava acontecendo ao redor deles. Uma moletom verde musgo bordado de acordo com outros vikings, mas com pequenos relógios ao redor e uma saia longa roxa escura.
Talvez tenha sido a roupa com suas botas sempre confiáveis que tivessem feito tudo parecer real demais, ou foi o fato que o karaokê, assim que a festa começou, pareceu virar território do grupo histórico de Berk, com Melequento Jorgenson puxando todos os outros do grupo e as conjugês que vieram depois para participar do que quase parecia ser a festa particular do grupo.
Foi observando a confusão, que avistou o... namorado? Namorado, se aproximando
— Hey — inclinou a cabeça vendo que agora outra música havia sido colocada. — Eu acho que seu pai e seu tio estão prestes a dizer o quanto eles se sente como mulheres para Berk inteira. Sem julgamentos. Eu agradeço o presente de aniversário. Será que eles puxam você e o filho dos Jorgenson pro meio? Eu lembro dos pequenos showzinhos que o Senhor Jorgen-, pelo Coelho, se ele me ouvisse o chamando de qualquer outra coisa além de "Rudy", ele soltaria o dragão dele atrás de mim de novo. Sim, aqueles que ele dava pra gente para ensinar o que era "música de verdade" para gente. — ela puxou a mão livre de Hagan e o incentivou a se virar para o que ela estava assistindo. — Parece que vai ser mais um desses. Alguém deveria gravar. Lembra que eles viviam gravando a gente?
Esperar pelo momento certo é a pior decisão que alguém poderia escolher. E Hagan sentia isso na pele.
A caixinha de veludo roxo ria da cara dele no canto da mesa. O espelho emprestado de Lia ao lado, refletindo a própria imagem enquanto ajeitava os cabelos. Muito tempo tinha passado nessa busca de oportunidades. Tempo demais, como diria Lia com suavidade ao visitá-lo no quarto. Burro demais, delicadamente lembrado por Hella ao puxar sua trança de propósito. Contudo, provocando ou incitando, as duas não o julgava pela demora. Não quando o alívio de vê-lo livre das garras da princesinha era motivo de festas diárias. De ver ao vivo, todo o santo dia, a felicidade do irmão do meio aumentar.
Hagan passou os dedos nas tatuagens temporárias no couro cabeludo. Desenhos relacionados à sua linhagem, ao dragão que o escolhera, seu compromisso com Berk. E, principalmente, de detentor do segredo principal e cargo igualmente importante: protetor do ninho. Rylina brincava sobre parecer muito com Harry Potter e o feitiço Fidelius. "Você é o Fiel do Segredo, Hagan. Não seja um Pettigrew!". O cabelo raspado tinha o meio entrelaçado, ouro pálido e couro, tão comprido que os pequeno tufo fazia cócegas na base do pescoço. "O problema nunca foi esse, Hagan Hofferson." Ralhou para a imagem refletida. O dedo indicador cutucando-o bem no meio da testa fria e dura. "Você já sabe, você só precisa falar." Falar. Dizer o que sente. Repetir o que ouve toda a hora e responde roubando-lhe o ar, apertando-a contra si, sorrindo de orelha a orelha e murmurando nadas. Já estava ficando ridículo!
"Já estou indo!" Gritou para o corredor se apressando para pegar todos os presentes e não derrubar tudo no processo. Parecia que tinha crescido mais depois de concluir o treinamento viking. Hagan se juntou aos Hofferson na entrada da casa e chegaram juntos na mais caótica festa de aniversário.
"Finalmente! Passei a tarde inteira achando que foi abduzida." A brincadeira emendou com uma risada sincera ao comprovar que, de fato, seu pai estava preso numa chave de braço de Melequento. E, nenhuma surpresa, parecia estar no lugar que queria estar. Sua mãe, por outro lado, encontrava Scylla entre os convidados e escolhia se esconder com a bruxa. "É bom que seja sem julgamentos mesmo porque a minha música é três depois da deles. Tio Rudy me mostrou na última vez que foi lá em casa e eu posso ter gostado muito. Não tanto quanto você." Acrescentou com um sorriso ladino, a mão espalmando na base da coluna feminina e a puxando para perto. A outra mão estava ocupada para segurar o resto... E se mostrou inútil porque ele encontrava os lábios de Delilah mesmo assim. Um beijo, um beijo. Um beijo que saía e passeava pelo rosto, estalando na testa e empurrando-a em várias direções com o movimentar da cabeça. "Estarei aqui morrendo para saber qual foi a sua escolha, senhorita Hopps. E que o presente da 'família Hofferson' não me representa. Não completamente. Eu trouxe os meus aqui comigo." Quatro presente amarrados juntos com uma tira de couro, a ponta enrolada no punho ocupado e erguido para ficar entre os dois. Na altura das mãos dela. "O sistema de vigilância ganhou umas câmeras novas, sabe... Umas convenientemente apontadas para esse jardim. Você não sabe de nada, Delilah. Nem tente descobrir onde estão. Em nome da memórias futuras, hum? Agora, os presentes!"
O primeiro estava num longo cilindro de couro. O tecido macio e resistente, quando desenrolado, mostrava o mapa de Berk. Porém, ao invés dos principais pontos e descrições, estavam marcados seus grandes feitos e primeiras vezes. A casa da árvore, a fogueira na praia, a caverna das aventuras, o primeiro afogamento, a primeira maçã roubada, o primeiro salvamento de esquilo. Cada pequena coisinha que tinha feito sua infância mágica - e, agora, que tinha alimentado a sementinha do sentimento que carregava por ela. O segundo presente era um complemento do primeiro. Um caderno grosso e de capa dura, com a foto mais atual dos dois na frente. Cada página, montada em ordem cronológica, tinha fotos e vídeos curtos, tudo por magia. História escrita do punho de Hagan, com espaço para Delilah escrever seu ponto de vista (acrescentar os detalhes que queria). Dentes faltando, joelhos ralados e aquela vez que ficaram brigados pelo recorde de 89 segundos. Metade do livro em branco, pronto para novas aventuras. O terceiro presente vinha de Ruffrunner, mas colhido pelo próprio Hagan. Escamas mais duras e protegidas, lapidadas num pingente que assemelhava a Yggdrasil. "Ruff aceita os agradecimentos deles depois. E o último." Último... A palavra pesou na língua do Hofferson... "Penúltimo..." Desceu o rosto para ficar bem rente ao ouvido, a voz diminuta para não correr o risco de ser ouvido por qualquer outra pessoa. "O penúltimo envolve uma fita de cetim em um lugar que só você pode ver. Ele e o último só mais tarde, Delilah. I mean it."