Eu sou feita de intensidade e de silêncio.
De cuidado e de abandono.
De vontade e de ausência.
Carrego dentro de mim uma chama que não se apaga, mesmo quando o mundo insiste em apagar o que sente,
em calar o que é verdadeiro.
Cada gesto meu,
cada atenção que dou,
cada olhar que não desvia,
é um pedaço do que sou.
E às vezes sinto que é demais
para quem só sabe viver pela metade.
A vida me ensinou que ser sensível é pagar caro.
Que se importar é carregar o peso
de tudo que poderia ter sido diferente,
de tudo que se foi
ou nunca chegou.
Mas mesmo assim,
continuo me oferecendo inteira, mesmo sabendo que a entrega dói,
que a gentileza é confundida com fraqueza,
que a atenção é desperdiçada.
Eu continuo porque não consigo ser diferente.
Porque cada ato de amor que sai de mim
é a única prova de que existo de verdade.
Quando olho para o mundo,
vejo pessoas que perderam a ternura,
que esqueceram que a humanidade se mede pelo cuidado
e não pelo acúmulo de conquistas ou aparências.
Sinto uma solidão que é difícil de explicar.
Estou rodeada de gente,
e ainda assim completamente só, no modo como sinto,
no modo como dou de mim.
É um peso constante.
Como se o ar fosse mais denso dentro do meu peito,
e cada respiração precisasse carregar a consciência
de que ser assim custa.
E custa caro.
Eu vi perdas que rasgaram a alma,
amores que se foram,
oportunidades que evaporaram como fumaça.
E mesmo assim,
continuo me lançando no mundo, oferecendo colo,
atenção,
cuidado.
Mesmo que ninguém perceba.
Mesmo que ninguém retribua.
Porque, se não fizer isso,
quem sou eu?
Se não arder inteira,
se não sentir cada detalhe,
se não sofrer,
se não amar sem medida,
então talvez eu não esteja vivendo.
Apenas existindo.
É essa entrega que me define.
Ser intensa.
Ser inteira.
Ser humana, no meio de um mundo que insiste em se contentar com o superficial.
E eu sei que dói.
Que pesa.
Que assusta.
Mas prefiro mil vezes a dor de ser inteira
do que a anestesia de ser metade,
do que a mentira de me conter,
do que a frieza de negar o que sou.
Que quem ler isso saiba:
existe valor em sentir demais,
existe dignidade em se importar,
existe coragem em não se esconder.
E que talvez,
ao reconhecer essa verdade em mim,
também se veja refletido, quem somos quando deixamos que o mundo nos molde,
ou quem podemos ser,
se nos permitirmos existir
com toda a intensidade que carregamos.
Eu sou feita de chamas que queimam
e de águas que afogam.
De dias que explodem
e noites que não terminam.
De amor que queima
e saudade que dói.
E se for para pagar caro por ser assim,
que seja.
Porque o preço é alto, mas a recompensa é existir inteira mesmo que o mundo não saiba lidar com isso.