“Aceitar o que a vida tem pra dar”
Repetia isso diversas vezes em voz alta, enquanto se servia mais uma vez. Aquele copo, que há pouco esteve cheio de gim e gelo, agora se encontrava vazio — como ela mesma se sentia. Mas tomou o copo em suas mãos e se deslumbrou com o brilho daquela bebida transparente, que mais uma vez preenchia todo o vazio. Pegou três pedras de gelo e, delicadamente, misturou-as com o dedo, girando no copo como se tal movimento fosse sua própria vida: a girar, a girar, a girar.
Ao tomar goles muito bem sorvidos, passou a procurar aquele que, nos dias atuais, seria seu único companheiro: o cigarro. Mas tinha que ser o do filtro vermelho, pois ela dizia que os de filtro branco comum eram fracos demais, e de fracos lhe bastavam os dias. Queria tragar algo forte para suprir a sua ânsia demasiada.
Com o copo e o cigarro em mãos, foi até a varanda do apartamento — pequeno, mas sua redoma — de frente para uma praça. Olhou para aqueles bancos vazios, assim como sua vida, e pensou: quantas pessoas, quantos pedidos de namoro, beijos apaixonados, brigas, cenas de ciúmes — todas essas baboseiras que dizem ser o amor — aqueles velhos bancos agora solitários não seriam testemunhas oculares de todas essas ilusões?
Caía uma chuva rala, sabe, aquela garoa fininha sobre a cidade numa noite de verão. Olhou para o relógio na mesinha de cabeceira: já se passava das 03h47. Seu pensamento ia muito além da praça, do copo, do cigarro, dos bancos vazios. Voltava ao mesmo do início da noite, da semana, do mês: “aceitar o que a vida tem pra dar”. Se perguntava: seja lá o que for, seria realmente assim que as coisas acontecem?
Ao voltar para o interior do apartamento, decidiu se deitar, porém sem sucesso. A insônia de meses não permitiria que adentrasse no mundo dos sonhos. Olhando pela janela e vendo a chuva molhar a cidade, se lembrou de algo que sempre soubera: o amor é um dos únicos jogos em que ambos os jogadores podem ganhar. Porém, ela nunca tivera sorte no jogo, quaisquer que fossem eles.












