Patrick riu baixinho do comentĂĄrio da aluna sobre Bruto Malfoy. Sim, ela estava corretĂssima em pontuar o quanto nĂŁo dava para desviar de tal personagem da vida real quando se entrava em contato com aquele conto. Como tambĂ©m era impossĂvel nĂŁo se horrorizar com tanta lorota preconceituosa. Ele mesmo perdera as contas das vezes que lera esse e os outros contos na tentativa de descobrir mais alguma coisa nas entrelinhas. A sorte Ă© que o livro era pequeno o bastante para uma leitura rĂĄpida e, particularmente, sempre fascinante todas as vezes em que o terminava. Com o passar dos anos, sempre tinha uma nova perspectiva. Perspectiva essa que vinha se alterando mais uma vez conforme o relato dos alunos e da prĂłpria corvina Ă sua frente. - Perguntei mesmo porque minha cultura Ă© um tanto quanto diferente da sua, mas chego a conclusĂŁo que passar pelo Beedle Ă© quase uma obrigatoriedade a qualquer infĂąncia mĂĄgica. - apontou o indicador na direção da mais nova, mimicando um tiro imaginĂĄrio. - Super duper que a Srta. Ă© das minhas. Chegou um tempo que nĂŁo mais me contentei com uma versĂŁo. Com mais idade, e com mais acesso aos livros, fui atrĂĄs de aprofundar meu conhecimento. NĂŁo diria que foi tal livro que me fez correr atrĂĄs de HistĂłria da Magia, mas foi o bastante para me deixar fascinado atĂ© os tempos atuais. - relatou amigavelmente. O conto em si agira em Patrick como um estalido de um tempo em que tentava se encontrar em todas as disciplinas dadas em Ilvermorny. - C'mon, Srta. Blackwood. Para quem me disse que nĂŁo lembra da histĂłria, suas opiniĂ”es me soam como se tivesse lido o conto ontem. Talvez, vocĂȘ deveria dar mais crĂ©dito as suas pesquisas particulares porque elas tĂȘm um jeito insano de enraizar na nossa mente. Melhor que uma leitura longa e exaustiva. O que nĂŁo Ă© o caso, but Beedle tem sua forma de deixar a mente em parafuso. - bateu o indicador no canto da testa enquanto sorria largamente. Esperou mais uma vez seu tempo de fala, apurando a longa resposta da aluna. - A Srta. acaba de citar uma briga diĂĄria de pelo menos mil seres humanos existentes no planeta Terra. Essa parte da adaptação em nome do outro, que pode anular muito das nossas caracterĂsticas e da nossa personalidade. Ă um absurdo. Somos quem somos, como diria o clichĂȘ. O complicado por aqui Ă© que o MinistĂ©rio ainda distribui meios e formas de bruxos passarem despercebidos no mundo trouxa, mas Ă© meio impossĂvel evitar nossa paixĂŁo por capas verde-esmeralda pontiagudas. - seu tom tinha um pouco de brincadeira no intento de manter o debate leve. - Eu disse algo parecido para minha turma do sĂ©timo ano. Vivemos entre duas facetas e o conto prioriza apenas uma. A Era das Fogueiras nĂŁo levou embora unicamente bruxos com porte de varinha. Levaram tambĂ©m nascidos-trouxas, em maioria mulheres que nĂŁo atendia as regras da igreja que tinha punho firme nessa mesma Ă©poca, ditando quem era ou nĂŁo herege. Um homem com uma panela, seja por meio da varinha mĂĄgica ou nĂŁo, ditando que suas ervas curavam era uma forma de heresia pura. O mesmo se aplicava a mulher que praticava o mesmo por intermĂ©dio da magia natural, o curandeirismo. Fato Ă© que pouco se refere Ă s mulheres nascidas-trouxas que sofreram nessa Ă©poca. Veja bem, a Srta. me citou as 19 enforcadas enquanto o mundo bruxo cita unicamente Wendelin, a Esquisita. A heroĂna do mundo mĂĄgico que escapou da fogueira vĂĄrias vezes por intermĂ©dio do feitiço congelante. NĂŁo tenho dĂșvidas de que nascidas-trouxas foram mais prejudicadas porque o patriarcado da Ă©poca era a fonte que alimentava a igreja tambĂ©m. Grande parte dos ditos pecados, como traição e recusas matrimoniais, caĂram como uma luva para homens que acusavam e afirmavam a sedução como obra de magia. HĂĄ sim uma linha tĂȘnue, em que hĂĄ razĂŁo de sobra para manter o sigilo, mas nĂŁo seria melhor que, depois de tantos anos, se começasse a abordar mais abertamente os dois lados para tentar dissolver a impressĂŁo de que hĂĄ sĂł um culpado nessa histĂłria?
Hailey assentiu, engolindo em seco. Se sentir constrangida nĂŁo era uma novidade para a garota, mas naquele instante estava sendo sufocante a mesma nĂŁo ter se organizado para dar uma resposta decente. A leitura breve do conteĂșdo fez com que a mesma nĂŁo prestasse tanta atenção quanto desejava, e o resultado disso estava ali, agora. Ainda assim, a bruxa estava dando o seu mĂĄximo para exceder as expectativas impostas a ela, ainda mais na frente de tanta gente. â De fato. Ă quase que uma tradição alguĂ©m contar sobre cada um dos contos pelos comentĂĄrios de Alvo Dumbledore. Embora hoje em dia possa nĂŁo ser de grande interesse para as crianças, Ă© um clĂĄssico. E ainda assim, continua sendo mĂĄgico. â sorriu-lhe, impulsionando o corpo para trĂĄs como se tivesse realmente recebido um tiro, voltando a sua postura anterior em seguida, entre risos. Estava começando a se sentir menos desconfortĂĄvel. â HistĂłria da Magia Ă© um assunto complicado. Por isso Ă© encantador. Sempre hĂĄ versĂ”es, visĂ”es e comentĂĄrios diferentes referentes a eventos passados que podem embaralhar nossa cabeça de forma que nos instiguem, de certo modo, a explorĂĄ-los. â comentou, com uma paixĂŁo em sua fala, como a verdadeira leitora que era. Hailey nem sabia ao certo o que estava falando, sĂł estava se deixando levar pelo que ouvia. Parecia que as palavras estavam se formulando sozinhas. â Mas eu meio que li ontem, desculpe. Por isso que nĂŁo sei ao certo se o que digo Ă© 100%, pois nĂŁo estudei as minhas pesquisas da forma que queria. Sim, sim. Confesso que levei um tempo para interpretar o conto. Mas valeu a pena. Quando criança, aquilo me parecia tĂŁo monĂłtono e insignificante. Talvez esse fato me deixara desmotivada para explorar o conteĂșdo. But, cĂĄ estou eu, com os parafusos trabalhando ĂĄ mil. â sorriu amarelo, apoiando seus cotovelos na mesa enquanto ouvia atentamente a fala de seu professor. Uma ou duas vezes maneava a cabeça em concordĂąncia com suas palavras, e outras apenas perdera-se em suas reflexĂ”es. â Seria, de fato. O que pode ser surpreendente Ă© um lado mostrar-se o extremo-oposto-oportuno se comparado ao lado que nos habituamos a ver. O que nĂŁo Ă© necessariamente o certo, aprendi a entender a verdade dos outros, e a respeita-la. Embora essa polemica precise de uma resolução, eu nĂŁo faço a mĂnima ideia de como me posicionar perante essa questĂŁo. Muita coisa se perdeu dentre tantos fatos, e a verdade absoluta pode nĂŁo ser tĂŁo concreta quanto queiramos. Mas nĂŁo tenho dĂșvidas de que com o pensamento independente e o livre uso de expressĂŁo possa ser de grande uso, se for para dissolver realmente a impressĂŁo de que hĂĄ sĂł um culpado nessa histĂłria, e enfim obtermos o resultado esperado. Mas o senhor sabe como funciona a nossa polĂtica. De qualquer forma, a sujeira sempre vai pra debaixo do tapete.Â