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Trees in Bloom (1872) by Claude Monet
Van Gogh escrevendo para o irmão pedindo tinta Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado nas sarjetas de sua cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs matando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua a impossibilidade de ser humano Maupassant enlouquecendo em um barco a remo Dostoiévski enfileirado no muro para ser fuzilado Crane fora do barco em direção à hélice a impossibilidade Sylvia com a cabeça no forno como uma batata assada Harry Crosby saltando naquele Sol Negro Lorca assassinado na estrada pelas tropas espanholas a impossibilidade Artaud sentado num banco de hospício Chatterton tomando veneno de rato Shakespeare um plagiador Beethoven com uma corneta para surdez enfiada na cabeça a impossibilidade a impossibilidade Nietzsche enlouquecendo completamente a impossibilidade de ser humano demasiado humano esse respirar pra dentro e pra fora pra fora e pra dentro esses marginais esses covardes esses campeões esses cachorros loucos de glória movendo esse pedacinho de luz em direção a nós impossivelmente.
— Poema "Feras Saltando Através do Tempo", de Charles Bukowski, no livro "Poesia Beat", de Sergio Cohn. (Ed. Azougue; 1ª edição [2012]).
Autotomia
Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.
Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.
No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.
Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.
Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.
Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.
Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.
Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.
Aqui o coração pesado, ali oNão Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um vôo.
O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca.
---
Wislawa Symborska
“The Empty Room” Mia Bergeron

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—Franz Kafka, "The Diaries" (from the travel diaries, 1912)
17 de fevereiro de 1903
… O senhor me pergunta se os seus versos são bons. Pergunta isso a mim. Já perguntou a mesma coisa a outras pessoas antes. Envia os seus versos para revistas. Faz comparações entre eles e outros poemas e se inquieta quando um ou outro redator recusa suas tentativas de publicação. Agora (como me deu licença de aconselhá-lo) lhe peço para desistir de tudo isso. O senhor olha para fora, e é isso sobretudo que não devia fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se o senhor for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples “Preciso”, então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem de se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho desse impulso. Então se aproxime da natureza. Procure, como o primeiro homem, dizer o que vê e vivencia e ama e perde. Não escreva poemas de amor; evite a princípio aquelas formas que são muito usuais e muito comuns: são elas as mais difíceis, pois é necessária uma força grande e amadurecida para manifestar algo de próprio onde há uma profusão de tradições boas, algumas brilhantes. Por isso, resguarde-se dos temas gerais para acolher aqueles que seu próprio cotidiano lhe oferece; descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza – descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Caso o seu cotidiano lhe pareça pobre, não reclame dele, reclame de si mesmo, diga para si mesmo que não é poeta o bastante para evocar suas riquezas; pois para o criador não há nenhuma pobreza e nenhum ambiente pobre, insignificante. Mesmo que estivesse em uma prisão, cujos muros não permitissem que nenhum dos ruídos do mundo chegasse a seus ouvidos, o senhor não teria sempre a sua infância, essa riqueza preciosa, régia, esse tesouro das recordações? Volte para ela a atenção. Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros.
E se, desse ato de se voltar para dentro de si, desse aprofundamento em seu próprio mundo, resultarem versos, o senhor não pensará em perguntar a alguém se são bons versos. Também não tentará despertar o interesse de revistas por tais trabalhos, pois verá neles seu querido patrimônio natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade. É no modo como ela se origina que se encontra seu valor, não há nenhum outro critério.
Por isso, prezado senhor, eu não saberia dar nenhum conselho senão este: voltar-se para si mesmo e sondar as profundezas de onde vem a sua vida; nessa fonte o senhor encontrará a resposta para a questão de saber se precisa criar. Aceite-a como ela for, sem interpretá-la. Talvez ela revele que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso, aceite sua sorte e a suporte, com seu peso e sua grandeza, sem perguntar nunca pela recompensa que poderia vir de fora. Pois o criador tem de ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si mesmo e na natureza, da qual se aproximou.
Mas talvez, depois desse mergulho em si mesmo e em sua solidão, o senhor tenha de renunciar a ser um poeta (basta, como foi dito, sentir que seria possível viver sem escrever para não ter mais o direito de fazê-lo). Mesmo assim não terá sido em vão o exame de consciência que lhe peço. Seja como for, sua vida encontrará a partir dele caminhos próprios, e que eles sejam bons, ricos e vastos é o que lhe desejo mais do que posso manifestar.
O que ainda devo dizer ao senhor? Parece-me que tudo foi enfatizado da maneira apropriada; por fim, gostaria apenas de aconselhá-lo a passar com serenidade e seriedade pelo período de seu desenvolvimento. Não há meio pior de atrapalhar esse desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo talvez possa responder, na hora mais tranqüila.
Foi para mim uma alegria encontrar em sua carta o nome do professor Horacek; guardo uma grande estima por esse amável sábio, e uma gratidão que se mantém através dos anos. Por favor, mencione a ele o que sinto; é muita bondade que ainda se recorde de mim, e sei apreciá-la.
Devolvo também os versos que o senhor me confiou amigavelmente. E lhe agradeço mais uma vez pela grandeza e pela cordialidade de sua confiança, de que procurei me tornar um pouco mais digno do que realmente sou, como um estranho, por meio desta resposta sincera, feita da melhor maneira que pude. Com toda devoção e toda simpatia, Rainer Maria Rilke
(in Cartas a um Jovem Poeta, Rainer Maria Rilke, LP&M)
❝Hoje dias ruins e noites ruins acontecem Demais, O velho sonho de ter alguns anos Tranquilos antes de morrer- Aquele sonho desapareceu assim como os outros Sonhos. Uma pena, uma pena, uma pena. Desde o início, ao longo dos Anos e próximo ao fim: Uma pena, uma pena, uma pena. Houve momentos, Faíscas de esperança Mas eles dissolveram rápido Voltando à velha e mesma Fórmula: O fedor da realidade. Mesmo quando havia Sorte E vida dançando na Carne, Sabíamos que e permanência Seria Curta. Uma pena, uma pena, uma pena. Queríamos mais do que Algum dia pudesse haver: Mulheres com amor e Com risadas, Noites selvagens o bastante para o Tigre, Queríamos dias que passeassem pela Vida Com alguma graça, Um pouquinho de Sentido, Uma utilidade razoável, E não algo Apenas para Desperdiçar, Mas algo para Lembrar, Algo para Dar um soco Nas entranhas Da morte. Uma pena, uma pena, uma pena. Somando todas As coisas, é claro, nossa pequena agonia é Estúpida E fútil Mas sinto que os nossos Sonhos não São. E nós não estamos sós Os fatores implacáveis não São uma vingança Pessoal contra um Único Indivíduo. Outros sentem a mesma Queimadura do Desconcerto, enlouquecem, suicidam-se, ficam Estúpidos, correm feridos para Deuses Imaginários, ou embriagam-se, drogam-se, emburrecem Naturalmente Desaparecem nessa multidão de nadas Que nós chamamos de famílias, Cidades, Nações. Mas o destino não é o único Culpado Nós desperdiçamos Nossas oportunidades, Nós estrangulamos Nossos próprios corações. Uma pena, uma pena, uma pena. Hoje nós somos cidadãos do Nada (…) ❝ Charles Bukowski, Amor é tudo que nós dissemos que não era - poema Paraíso Bastardo.
queríamos dias que passeassem pela vida com alguma graça, um pouquinho de sentido, uma utilidade razoável, e não algo apenas para desperdiçar, mas algo para lembrar, algo para dar um soco nas entranhas da morte. Charles bukowski.

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Unknown / Undated - by Lutz Dille (1922 - 2008), German/Canadian
16/11/25
Escreve-me sobre esperança e amor, e sobre corações que resistiram —
Fala-me de manhãs suaves que nascem depois de longas noites sem estrelas,
De promessas sussurradas levadas pelo vento, leves, porém inquebráveis.
Conta-me de mãos que se seguraram com fé trêmula,
Dedos entrelaçados em meio a tempestades que ninguém viu chegando.
Escreve-me sobre corações que continuaram batendo,
Mesmo quando todos os medos gritavam por rendição,
Corações que aprenderam a florescer de novo em solo ferido,
Que voltaram a ficar verdes de possibilidade após o rigor do inverno.
Fala-me de risos que se ergueram como o nascer do sol,
De lágrimas que lavaram feridas até virarem cura,
De vozes erguidas não em derrota, mas em canção resiliente,
De sonhos reacendidos, frágeis, mas insistentes.
Escreve-me sobre a coragem silenciosa,
Sobre a bondade simples oferecida quando o mundo pesava demais,
Sobre segundas chances, sobre a misericórdia dada sem medida,
Sobre duas almas que se levantam na escuridão, juntas, com esperança.
E nessa história, deixa-me acreditar
Que o amor pode ser âncora mesmo quando o mar se enfurece —
Que a esperança é uma chama que nenhum vento consegue apagar —
Porque, em corações que resistiram, eu vejo o eterno.
Cupid Carving His Bow by Italian painter and late Renaissance artist Parmigianino.
It is currently being housed in the Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria.
The story of a marble worker Evrard Flignot from Brussels who devastated by the death of his wife built a pretty mausoleum for her in Cimetière de Laeken.
At first look inside, there is a mourner reaching out to an empty wall. But, once a year, on the day of the summer solstice, the Sun draws a light that recalls this love for almost a century.

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Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
[...]
Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Trecho de Tabacaria - Álvaro de Campos - Fernando Pessoa