o sorriso amigável que mantinha durante a conversa de poucos segundos com o noivo desapareceu instantaneamente no momento em que desligou o celular. apesar de kenneth não demonstrar sequer um sinal apenas de nervosismo ou falta de jeito ao atendê-la e responder seu convite, a presença da vadia absolutamente ainda a incomodava. não conhecia mishti e não tinha a menos pretensão de dar uma chance à uma possível nova relação, o convite fora pretexto para apenas avaliar em que chão estaria pisando.
se tinha uma coisa que confiava menos do que saltos baratos era em "melhores amigas". e não, não era por não acreditar em kenny ou sentir-se insegura sobre si mesma. era porque mulheres como mishti infiltravam-se como trepadeiras e cresciam sozinhas à ponto de atravessar janelas e, sabendo disso, era sempre melhor prevenir do que remediar. "vou ensiná-la sobre o lugar dela hoje." comentou, mais para si mesma do que para demir, presente na poltrona confortável de sua sala dentro do setor diretivo da FRIDA. "eu não acredito que meu pai fez questão de contratá-la. ainda não vejo sentido nenhum em trazer essa cobra pra cá. o público britânico é diferente do americano. ela até pode fazer sucesso lá, não quer dizer que vá fazer aqui."
finalmente encarou o moreno elegantemente sentado na poltrona, fitando-o por alguns segundos antes de levantar uma sobrancelha. desde que o conhecera, demir sempre parecera absurdamente delicioso aos seus olhos — ainda mais naquela cadeira, que além de já ter sido palco pra uma das melhores transas dos dois, também fora testemunha de tudo o que já ocorrera naquela sala com ele —, mas agora, era uma mulher comprometida. e, obviamente, apaixonada por kenneth, como sempre gostava de reiterar desde que os olhos verdes bateram nos azuis e viram mais do que algo apenas físico. "por que está me olhando desse jeito? você também não fica parado quando alguém tem a intenção de roubar algo que é seu. e me poupe dos comentários sobre você estar assistindo um lado novo meu. odeio quando faz isso."
comentou, voltando a prestar atenção no portfólio cheio de conceitos que ele havia acabado de lhe trazer para validar no novo projeto. o conhecia muito bem, então obviamente já sabia o que estava por vir. "é provável que você vá trabalhar bastante com ela. boa sorte." deu de ombros, ainda mal humorada, mesmo que assinando o portfólio. apesar da personalidade duvidosa e dos comportamentos erráticos e quase desinteressados de demir quanto às formalidades do trabalho, ele ainda era talentoso e um ótimo profissional, que por acaso ainda tinha esperanças ao trabalhar na FRIDA. e, de certa forma, também odiava o fato de que mishti adentraria ainda mais em sua vida por causa dele. "está ok. parece ter se esforçado mais dessa vez. gosta tanto assim da primavera? nunca vi florear tanto um conceito."
@gabsverse
a calmaria inerente à personalidade de demir se fazia notar pela postura largada do homem na cadeira, girando ocasionalmente alguns graus para um lado, depois o outro, enquanto os olhos continuavam fixos na garota à sua frente. ele não entendia cassandra, e nem era pretensioso a ponto de achar que um dia o faria. ele sabia o que era crescer com tudo na palma de suas mãos; o dinheiro e a influência poderia fazer com que reais prioridades se confundissem. as vezes, era quase impossível reconhecer o que valia a pena, quando tudo era tão fácil. demir tendia a compensar esse vazio em experiências, fossem elas culturais ou absolutamente distante disso. desde viajar pelo mundo ou viajar pelo consumo de drogas ilícitas, bem, ele planejava poder dizer um dia que já fizera de tudo. não era um objetivo nobre, mas era um que o mantinha boiando naquele mar de insatisfação. já cassandra, bem, ela compensava de um jeito diferente. queria a vida perfeita, o emprego perfeito, o noivo perfeito, e até o amante perfeito. costumava ser implacável para eliminar a competição, e não duvidava que seria diferente com a tal garota nova. até onde demir sabia, a situação era delicada. ao mesmo tempo em que ele acreditava que ela não tinha que se preocupar tanto assim — quem seria maluco de trocar alguém como cassandra? —, também compreendia os motivos da desconfiança alheia. kenneth parecia bem… devoto, por falta de melhor palavra, àquela garota. e se o loiro fosse um cara superficial, demir admitiria que entenderia a confusão. duas mulheres absolutamente atraentes, talvez as mais que ele já houvera visto antes. mas não; kenny tinha um coração equivalente ao seu tamanho. e para o ashford, isso não era exatamente um elogio. ele pegou o celular e, após alguns cliques no instagram, riu de lado. “bem, eu acho que ela deve fazer sucesso onde passa” falou alguma coisa pela primeira vez depois de muito tempo apenas escutando, e sabia que era o oposto do que a morena na sua frente queria ouvir. “estou brincando! quer dizer, mais ou menos. você sabe que eu não minto” disse, antes de se corrigir. “não pra você”
ele então se ajeitou na poltrona, encarando a outra com um olhar curioso. enquanto demir tendia a ser um livro aberto para um público de crianças de cinco anos, cassandra era como uma daquelas relíquias em uma língua morta que se requerem especialistas para traduzir. “a diferença é que eu não me importo em dividir” argumentou, o sorriso malicioso deixando claro que o ‘algo seu’ naquela equação era a castillo. certo, não era como se ele acordasse todos os dias com orgulho tremendo da relação que eles tinham. tinha alguma noção de certo e errado, mas quando seus desejos estavam na mesa, ficava difícil pender para outro lado. não tinha nada especificamente contra kenneth, apenas não tinha coisas a favor o suficiente para deixar de encontrar cassandra quando ela queria. “mas eu estou assistindo. e é estranho. quer dizer, o que esse cara tem de tão especial pra te deixar desse jeito, hein? qual é, cassie, ele não está no seu nível.” e acreditava mesmo naquilo. pessoas como demir e cassandra… era outra vivência. simplesmente não eram da mesma espécie que pessoas como kenneth, ou até mesmo a nova garota. “posso pensar em piores pessoas para passar meu tempo” comentou, dando de ombros. não conhecia mishti, mas conhecia kenneth. haviam duas possibilidades em que o veria sentindo algo pela tal amiga: mishti era o completo oposto de cassandra, e se assim fosse, não teria dores de cabeça com uma pessoa modesta, compassiva e boba no trabalho. ou mishti era exatamente tão difícil, implacável e divertida quanto cassandra. e se esse fosse o caso, ele não apenas estava acostumado como adorava aquele tipo de caos. “e posso pensar em melhores, também” se levantou, aproximando-se dela muito mais do que deveria, dado o status de ‘noiva’ que o anel em sua mão gritava, mas antes de encostar na morena, passou por ela até o quadro onde apresentava o conceito. “certo” disse, agora que finalmente falavam sobre o motivo original de estar naquela sala. “o conceito não é só sobre as flores, mas sobre quantidade. excesso. eu pensei em uma espécie de progressão. primeiro as flores, depois bloco de cores, depois estampas. ainda não decidi se estampas geométricas ou animal print. mas no final, uma mistura dos três. basicamente: quanto mais chamativo, melhor. no mainstream a gente pode ver essa onda básica, e qualquer trend setter que queira se destacar, vai fugir disso”























