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{flashback}
a cabana se tornava um dos seus lugares favoritos aos poucos. talvez porque a natureza ao redor da casa de madeira a lembrava do local em que havia crescido na Escócia, ou porque sua mãe odiava aquele lugar e isso garantia que jamais cruzaria com ela ali. não era como se não tivesse carinho pela mulher — ora, Gwendolyn amava sua mãe, apesar de tudo. mas se tornava gradativamente insuportável estar perto dela, ainda mais quando cada palavra em sua direção era uma acusação. seu pai apenas piorava, e não havia um minuto sequer de conversa com a mãe que não incluísse palavras pesadas sobre como a jovem era mal agradecida, e que se de fato amasse seu pai, faria o possível para se casar com Trevor e custear o tratamento do homem. verdade fosse dita, a jovem já se sentia vendida pelo fato do riquinho estar ajudando com as diárias do hospital, pois sabia do interesse que ele tinha em si. e sabia, ao mesmo tempo, do teor das conversas entre a mãe do rapaz e sua própria. se dependesse delas, o casamento já estaria marcado. não que sentisse que a senhora Green gostasse de Gwen, especificamente, mas a jovem era indubitavelmente bem educada e com seu pai doente, era fácil tê-la nas mãos. talvez por saber disso era que ela ainda lutava; esperançosa de que um milagre a pudesse salvar da masmorra para qual caminhava lentamente todo dia. um sinal, uma chance… uma palavra, quem sabe, de uma pessoa específica. pessoa que agora lhe salvava, inclusive, do nervoso passado no hospital. “obrigada pela carona” disse, a voz meio ríspida pela recente irritação, conforme se ajeitava no banco do passageiro do carro de Aslan. “Trevor não vem?” a pergunta continha um alívio quase impossível de mascarar. infelizmente para si, o celular tocou de prontidão, o nome mencionado aparecendo na tela.
menos de um minuto foi necessário para descobrir o status do amigo; estava a caminho, apenas precisava passar em um local antes para resolver algo do trabalho. menos mal, pensou. talvez se acalmasse até lá, já que ver Trevor possivelmente a deixaria mais desconfortável. “podemos ir. ele irá depois” explicou, colocando o cinto e esperando Aslan dar partida no carro. o rosto da jovem estava fechado, devido aos sentimentos que borbulhavam e aos pensamentos que esquentavam a mente. por que sua mãe a odiava tanto? por que o universo havia deixado alguém tão bom quanto seu pai tão doente? e por que cabia a ela se rebaixar daquele modo para salvar sua vida? ela não poderia fazer suas escolhas? viver como quisesse… com quem quisesse. bem, não era como se a pessoa que ela queria parecesse querê-la de volta. isto é, as vezes parecia, sim. e outras não. ugh!! Aslan era tão confuso. mal havia percebido que deixou um bufar irritado escapar audivelmente em complemento aos pensamentos, quando foi questionada pelo rapaz. “você errou o caminho” mentiu, de repente (e não muito razoavelmente) ainda mais irritada que ele não fosse capaz de saber o que tanto a incomodava. e quando o outro teimou estar no caminho certo, viu ali uma oportunidade de descontar sua raiva. “era pra virar na outra entrada. você sempre faz isso, muda o caminho do nada. quando eu finalmente acho que entendi pra onde está indo, você vai lá e muda de repente. e eu que tenho que me localizar de novo, sozinha. toda hora! e nem se importa em me explicar o que está fazendo. eu que me vire pra te dar as direções atualizadas quando você muda o que quer, como quer”
com um pouco de esmero, a analogia até podia ser entendível, mas o sotaque carregado que impedia a clareza das palavras de uma irritadiça Gwen fazia com que algumas coisas se perdessem. “é pra direita!!” não era. “vira, Aslan!” teimou, até o rapaz fazê-lo. e tão logo, estavam dando uma volta muito maior que o necessário — motivo pelo qual, antes de chegarem à cabana, a chuva torrencial os atingiu a ponto do carro atolar no portão. “perfeito. agora vamos ter que sair na chuva!” resmungou, ignorando que a culpa era praticamente cem por cento sua. somente ao olhar para o banco de trás que percebeu uma calamidade ainda maior. “ah não. deixei minha mala no hospital…” o que significava que se molhasse aquela roupa, precisaria esperá-la secar, já que era a única que teria pelas próximas trinta horas. bem, talvez seu destino fosse morrer de hipotermia. que fosse! sem esperar qualquer plano mais inteligente de Aslan, a garota deixou o carro e se aventurou na chuva que em poucos segundos a encharcava. pensou em desistir, mas só havia uma coisa pior que morrer de frio: admitir estar errada. por isso começou a correr em direção a cabana, torcendo apenas para que não tropeçasse no caminho.
ele pensara duas, três, quatro vezes antes de realmente resolver não sair do carro e entrar naquele hospital. não que fosse muito próximo do pai de gwen; muito embora já houvesse o visitado um par de vezes para ajudar a morena e até mesmo tivesse se dado bem com o mais velho, não era íntimo o suficiente para subir sozinho e interromper qualquer momento em família que estivessem tendo, fosse o mesmo agradável ou desastroso. ele também nunca faria nada que a deixasse minimamente desconfortável e, além de tudo, a mãe da garota tampouco era muito fã dele – era ridiculamente nítido o favoritismo depositado em trevor e suas palavras bajuladoras, além de que tinha certeza de que para a senhora, ele mesmo não passava de um ninguém. mas aslan, independente da opinião dela, seguia sentindo-se preocupado e envolvido com a situação. o fato do pai de gwendolyn apenas apresentar piora no quadro significava momentos de tensão, stress e tristeza para a morena, e isso consequentemente o comia vivo dentro de sua própria carapaça – a qual justamente mantinha para que esse tipo de coisa não acontecesse e se tornasse um obstáculo na jornada de alcançar seus próprios objetivos.
mas parado lá dentro do carro, resignado à espera de gwendolyn e preparado para receber qualquer tempestade de lágrimas ou frustração, aslan via-se quase desprotegido de suas barreiras, e era esse o momento em que percebia o quão importante ela era em sua vida. estava tudo bem desviar de seus objetivos por alguns momentos se o motivo fosse ela. estava tudo bem se importar com alguém naquele mundo ganancioso se esse alguém fosse ela. estava tudo bem passar um final de semana inteiro no campo entre amigos ao invés de trabalhar, mesmo que trevor estivesse junto, se fazer isso significasse passar um tempo com ela. e mesmo que isso também significasse ser obrigado a aturar as investidas de trevor, que não descansaria até conseguir realmente o que queria: ela. enfim, não poderia julgá-lo. no fundo, a queria tanto quanto o amigo, e já havia aceitado isso. não necessariamente ele se permitira ou seria permitido a fazer algo sobre isso.
a presença de gwendolyn o tirou dos próprios devaneios, fazendo-o destravar a porta de imediato para que ela entrasse. o duman não precisava ter ouvido a saudação seca pra perceber a aura pesada que emanava dela, pois a conhecia. algo havia acontecido, algo havia sido dito e algo havia a transtornado. “sempre.” respondeu o agradecimento, sucinto e modesto, enquanto ajustava o espelho. ela sabia que sim. “não sei. ele disse que provavelmente chegaria antes da gente. queria organizar algumas coisas.” e com isso, imaginou que “organizar algumas coisas” resumia-se completamente a preparar algo para impressioná-la. aslan estava habituado às cartas na manga de trevor, sempre extravagante e não entendendo muita coisa sobre gwen. ele a encarou, enquanto as mãos alvas e delicadas dela checavam as notificações no celular. aslan respirou devagar, estudando a linguagem tempestuosa dos traços de seu rosto. queria que ela lhe contasse. queria que ela dissesse o que a afligia e incomodava, para que ele pudesse ao menos tentar fazer algo para amenizar o dano todo em seu peito. a resposta definitiva dela para sua própria pergunta feita anteriormente foi a única necessária para que ele concordasse e desse partida. seria melhor assim. o loiro sempre a pressionava demais, e isso era o que ela menos precisava no momento.
o caminho estava sendo silencioso, pelo menos até a metade dele. não diria que era desagradável; talvez frágil fosse uma característica que se encaixasse melhor, então permanecia quieto. mas gwendolyn, apesar de transparente sobre sua incomodação, não era a pessoa mais clara do mundo sobre seus posicionamentos emocionais naqueles momentos. sentiu-se obrigado a ir atrás. “ok. o que está acontecendo, gwen? não abriu a boca durante os últimos quarenta minutos, mas é óbvio que há algo errado.” a resposta atravessara que recebera o fizera franzir o cenho. não podia estar errado, ele gravara bem o caminho. “como eu poderia? não é a primeira vez que estamos vindo pra cá, trevor já nos trouxe uma vez.” retrucou, vez ou outra olhando pra ela enquanto dirigia. “gwendolyn, a outra entrada nos levaria pras fazendas, eu olhei-...” a green falava rápido, e a irritação palpável em sua voz agravou ainda mais a situação, de forma que aslan não a interrompesse para pelo menos tentar entendê-la enquanto dividia sua atenção com a estrada. que diabos ela estava falando? “gwen! eu juro pra você que esse é o caminho certo. quando isso aconteceu? quando eu não te escutei?” o duman estava um pouco indignado pelas insinuações. era como se a green estivesse falando de outra pessoa, e não dele. “eu não estou mudando o nosso caminho, eu só estou seguindo o que eu acho certo, o que diabos você está dizendo?!”
aslan não costumava discutir com gwendolyn. na realidade, era uma situação muito nova pra ele, ainda mais por algo tão inusual e com argumentos tão específicos. por que sentia que havia feito algo errado? não parecia ter nada a ver com o trajeto traçado, mas ela continuava o pressionando com uma incoerência a qual sabia que pra ela, fazia sentido. de certa forma, fazia pra ele também, mas acreditar que a mais nova pudesse estar cobrando algo realmente relacionado à relação que tinham era impossível. ainda mais quando ele a amava, e seu amigo a amava também. somente pensar sobre isso o entristeceu. a discussão dentro do carro o deixou um pouco agitado, o que o fez gesticular com a canhota. “por que deveríamos virar aqui? eu preciso fazer o retorno agora, você não está me escutando! oh, merda.” com o praguejo baixo, enfim o moreno fez o que a green queria, virando à direita. acabaram numa estrada secundária que aslan não conhecia, e sinceramente, duvidava muito que gwen conhecesse também. “pelo amor de deus, gwen.” ela ainda o deixaria louco uma hora dessas. o stress dentro do carro enquanto aslan tentava dar um jeito de realizar o retorno durou mais vinte minutos ao que a chuva já existente engrossava. quando o carro atolou, o duman simplesmente encostou a testa no volante enquanto as mãos permaneciam segurando-o, após três tentativas de desenburacar dali.
“ei, onde você vai? gwen! volta pro carro, você enlouqueceu?” e, embora estivesse perplexo pela irresponsabilidade da mulher com a própria saúde e segurança, tudo o que fez foi sair do carro para alcançá-la. como ela entraria se estava sem a chave? “gwendolyn-... gwendolyn!” segurando a mão dela em meio à chuva torrencial, aslan não foi capaz de puxá-la de volta ao carro pela teimosia. “o que eu faço se você ficar mal depois? nós dois estamos sem a chave principal, imagina a dessa aí, vai entrar lá como?!” segurando a outra mão dela, os olhos semicerrados pela dificuldade de enxergar sob a chuva pesada tentaram focar na morena já ensopada. “o que está acontecendo? o que aconteceu no hospital? perguntou, mas a forma magoada como ela parecia encará-lo foi suficiente pra saber que não queria ser conhecedor da resposta. ainda mais se essa respostar envolvesse a ele próprio. primeiro precisava tirá-los dali. ali nem mesmo era a cabana principal onde ficariam dentre os chalés da família de trevor, mas teria de servir. “por favor, entra no carro. vou dar um jeito de abrir aquilo lá.” o jeito como pedira enquanto a guiava novamente até o automóvel era um último apelo.
ele correra novamente até a cabana inutilizada, procurando por perto qualquer coisa que pudesse abrir o cadeado da portal. quando a única coisa que encontrou foi um machado, infelizmente foi o que teve que usar. em três tentativas, o homem conseguira abrir a porta e, assim que o fizera, correra até o carro mais uma vez. gwendolyn estava pingando e tremendo lá dentro. praguejando novamente, pegou um casaco extra em seu banco de trás e basicamente a embalou para que saíssem rapidamente até dentro do local seguro, sem esquecer a própria mochila. fechou a porta da forma que pode assim que entraram, dando uma primeira olhada ao redor. estava um pouco empoeirada e escura pelo desuso e o tempo fechada, mas ainda tinha um pouco de lenha para a fogueira da pequena sala. os manteria aquecidos, pelo menos até trevor dar sinal de vida e buscá-los. com um suspiro pesado e as mãos nos quadris, finalmente a encarou de novo. “que diabos foi isso, gwen?” o moreno passou a mão pelos cabelos pingando, assim como pelo nariz. ela estava tão ou mais enxarcada do que ele, e aquela situação lhe cortava o coração. deixando a necessidade de respostas para trás, aslan resolveu trabalhar, juntando a lenha dentro da fogueira para que pudesse atear fogo com o querosene do lado da e o isqueiro que havia trazido. “você precisa... você precisa tirar essa roupa, com as idas ao hospital e a rotina com o seu pai, a sua imunidade anda muito baixa pra arriscarmos. pode pegar algo meu dentro da mochila.” comentou, a voz levemente trêmula. a julgar pela minúscula cabana mais rústica e antiga com estrutura de um quarto-sala, o banheiro ficava lá fora, não possibilitando que ela saísse pra se trocar. abanando com um livro próximo à lareira, aos poucos o crepitar do fogo aumentava, muito embora não fosse durar tanto tempo só com aquela quantidade de lenha. aslan tirou a roupa mais pesada pela água do corpo, pendurando o casaco e a camisa em uma das cadeiras, mantendo apenas a regata branca no torso. a água transpassara o tecido em pouco tempo, se soubesse, teria vindo mais agasalhado. “sei que deve estar irritada comigo por algum motivo, mas precisa se aquecer. por favor, faz o que eu tô pedindo dessa vez.”
SUGGESTIONS #397: Alp Navruz

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não que Gwendolyn fosse antissocial, embora tampouco fosse do tipo alma da festa, mas a quantidade de desconhecidos que a olhavam de cima abaixo com toda a pompa que só se encontra em herdeiros nascidos em berço de ouro começava a incomodar. seu vestido não era de grife, mas certamente mais caro do que podia gastar. aberto demais considerando o tempo esperado em Seattle durante o mês de janeiro, mas sua mãe fizera questão que a moça o utilizasse. seria mentira dizer que não era uma das mais belas peças que já havia utilizado, mas a sensação de estar sendo exposta em uma vitrine era inevitável quando sabia muito bem as intenções da senhora Green. já fazia pouco mais de um mês que a mais velha falava do tal Travis Reynolds e de como a jovem devia conhecê-lo, pois era um ótimo rapaz e um bom partido para casar. e ah, se não conhecesse a própria mãe há tanto tempo, até teria esboçado toda sua incredulidade. sabia, porém, que de nada serviria. se a mulher havia colocado aquela ideia na cabeça, nada tiraria. o fato de estarem naquela festa era a maior prova disso. e tudo que Gwendolyn queria fazer, era fugir para distante dos olhares que a mediam e julgavam. se a roupa não deixasse claro o suficiente a humildade da família, o sotaque escocês fazia um bom trabalho em garantir mais alguns olhares que a faziam sentir um bicho num zoológico.
sufocada, aproveitou a distração da mãe por um instante para caminhar para fora do salão. o caminho para o jardim não estava bloqueado, mas tampouco iluminado o suficiente - em uma sútil mensagem de que não era parte das festividades da noite. ótimo! pois a jovem não queria fazer parte destas. o vento gelado lhe atingiu o rosto de imediato, e só então notou o quão quente sua pele estava. as bochechas deviam estar vermelhas, e se não, certamente ficariam diante do frio. apesar de preferir temperaturas mais amenas, a sensação térmica do lado de fora lhe fizera sentir como se tivesse escapado de uma prisão. antes que sua mãe pudesse encontrá-la, decidiu caminhar jardim adentro, longe do campo de visão dos convidados. havia pedaços mais escuros, e outros iluminados por alguns postes de luz estrategicamente posicionado. a Green não fazia questão de tentar saber por onde andava, os pés apenas se moviam enquanto o som da música da festa ficava mais e mais abafado e distante. até ser totalmente substituído pelo som das folhas se movendo com o vento. por algum tempo, esse foi o único som que ouviu; até algo diferente lhe atingir o ouvido. parecia um… animal. só não saberia dizer qual. seguiu o som, que parecia vir de uma parte fechada do jardim. o muro repleto de folhas não era tão alto, e conseguiu apoiar o pé no tronco baixo de uma árvore até alcançar o topo do muro, e enxergar do outro lado uma armadilha que havia prendido um guaxinim.
“ei” com o cenho franzido, Gwendolyn semicerrou os olhos, buscando ver melhor o animal que parecia assustado. a iluminação naquele pedaço era fraca, mas suficiente. o bichinho tremia, e ela não sabia dizer se por medo ou frio. os dois, provavelmente. não que fosse uma grande conhecedora daquela espécie, mas se recordava de ler algo sobre como eles preferiam calor. “ok, me dá um segundo e eu solto você. só… preciso chegar aí. e depois descobrir como desarmar isso. mas uma coisa de cada vez” falou, como se o animal fosse capaz de oferecer alguma resposta. desceu do tronco, olhando para os lados como se fosse capaz de materializar uma escada se pensasse nisso com muita vontade. “se eu fizer tudo errado e arrancar um dedo meu no processo, acha que pelo menos posso usar de desculpa para fugir daqui?” a pergunta obviamente retórica recebeu um chiado do animal, o que a fez suspirar. “é. eu sei. nem se arrancasse uma mão eu seria liberada disso aqui” a jovem ainda prosseguiu, perdida nos próprios devaneios, e voltou a subir naquele mesmo tronco, que parecia ser sua única forma de chegar do outro lado. claro, a jovem não tinha como saber que havia um portão para aquele pedaço do jardim há alguns metros dali. escalar um muro com um vestido longo era uma tarefa terrível, especialmente com o salto alto. vista de fora, provavelmente parecia uma louca falando sozinha, tentando escalar um muro descalça no frio de oito graus. “sabe de uma coisa? você parece ser a companhia mais divertida da noite até agora” complementou, ainda falando com o animal, sem imaginar que haveria outra pessoa ali por perto.
gabsverse:
os olhos grandes corriam pelo espaço do jardim muralhado, como quem buscava absorver o máximo de detalhes possível a fim de encontrar uma eventual saída para sua situação. bem, para a situação do pobre guaxinim encarcerado. calculou mentalmente a distância do muro para o chão do outro lado, não parecia diferente do que teria que escalar. era alto o suficiente para que a manobra fosse complicada, ainda mais dado suas vestes, mas não o suficiente para parecer impossível ou mesmo perigoso. havia um risco real de rasgar o belo e caro vestido, mas naquele detalhe a jovem foi incapaz de pensar. estava para ser feita a peça de roupa que pareceria mais importante para ela que um animal como a criaturazinha peluda do outro lado. além do mais, a peça que utilizava de fato era linda, mas sequer havia sido sua escolha. e no frio, durante a caminhada, chegou a amaldiçoar a escolha deste conforme o vento gelado lhe tocava as partes expostas da pele quase tão alva quanto o tecido recortado. para sua sorte, o esforço para subir no tronco, equilibrar-se ali e alcançar o muro, trazia um pouco de calor para os músculos que se esforçavam. tinha ainda um pouco mais de sorte, pelo menos, por não estar nevando; ou a tarefa já difícil de continuar descalça no tronco gelado seria impossível. a luva que utilizava, por outro lado, era-lhe útil para ajudar a se segurar no muro, inclusive oferecendo certo atrito do tecido e do concreto que ajudava a manter sua posição. isto, claro, até a voz masculina e completamente inesperada não apenas a tirar dos devaneios que a faziam falar com o guaxinim como se este pudesse formar uma resposta lógica, mas também a surpreendera de tamanha maneira que o susto fora inevitável, causando o espasmo involuntário do corpo para longe do som repentino, e a desequilibrando por um instante.
Gwen era criativa e imaginativa, mas jamais havia esperado por um segundo sequer que sua conversa ali gerasse uma resposta do coleguinha de pelo acinzentado. de modo que não estava minimamente preparada para um som diferente dos ruídos característicos da criatura, que soavam como algo entre um grunhido e um guinchado. foi em um reflexo rápido que agarrou-se com força ao muro com uma mão, e com força adquirida pelo pico repentino de adrenalina que se manteve pendurada até os pés reafirmarem sua posição no tronco. devia ter ela mesma soltado um som parecido com o animal do outro lado. ocupada com os próprios movimentos, não foi capaz de prestar atenção detalhadamente em quem lhe direcionava a palavra, apenas pudera captar pela visão periférica que o dono da voz também havia subido no tronco e se encontrava razoavelmente próximo, na sua altura. na verdade, mais alto — o que, ela perceberia mais tarde, garantia que ele tivesse muito mais facilidade em se apoiar na mureta. “mas que susto!” constatou o óbvio, o coração acelerado em batidas fortes que estralavam no próprio ouvido. que idiota! quem chegava assim tão de repente, tão na surdina, perto de uma pessoa longe do chão? ainda estava se recuperando quando foi incapaz de impedir que um riso (que mais soava como se expelisse ar pelo nariz) escapasse. talvez pelo absurdo da situação toda, misturado com a forma que o desconhecido (idiota! ainda estava brava com a falta de noção alheia) tinha simplesmente engrenado os dizeres no seu discurso, brincando de volta com suas frases. por um mísero segundo, até menos, imaginou o que a mãe pensaria se soubesse que tudo o que a jovem Gwen havia dito fora escutado por algum dos convidados. “um hospital psiquiátrico? consigo pensar em futuros piores” como casar com alguém daquele meio, que pouco lhe interessava, acrescentou mentalmente. agora que sabia que não falava mais apenas com o guaxinim, era melhor ponderar o que deixava sua boca.
“bem, e o que você sugere? que eu deixe ele preso, pra congelar durante a madrugada?” a irritação do susto havia sido atenuada por achar graça das brincadeiras alheias, mas não sumido por completo. ainda mais quando seu plano era julgado por outrem. ora essa, tomaria seus devidos cuidados! claro que não queria ser mordida pelo animal, mas o que podia fazer, desistir? além do mais, parecia ingenuidade pedir por ajuda de algum dos responsáveis pelo jardim ou dos seguranças, visto que as armadilhas estavam ali exatamente para capturar as criaturas. duvidava que seu pedido de ajuda fosse atendido por algum deles. o rosto finalmente virou na direção do rapaz, em um ângulo que não pudera enxergar muito bem de primeira. a iluminação não era das melhores, daquela maneira. “sabe, para quem está preocupado que eu possivelmente contraia raiva, você não teve problema nenhum em quase me causar um ataque do coração” reclamou, a tendência ao exagero dramático característico, bem como o tom petulante. percebeu que sua posição estava desajeitada (devido aos movimentos bruscos recente), e então se mexeu para melhor se posicionar ali apoiada. foi quando finalmente pôde encontrar o ângulo que a permitia ver o rapaz mais de perto, e com iluminação suficiente para que o rosto relaxasse como quem entra em um transe. se as bochechas já deviam estar vermelhas pelo frio, certamente o rubro se intensificava. e os lábios inchados pelo mesmo motivo deviam combinar muito bem com o brilho imediato que pudera ser observado nos olhos que absorviam, dentro do possível, o rosto alheio.
mais do que incapaz de imaginar que havia alguém lhe escutando, não poderia construir na sua mente uma hipótese tão… ela nem conseguia pensar bem em uma palavra. atraente parecia superficial, bonito também não parecia captar exatamente a situação. homens bonitos haviam uma porção naquela festa (embora estaria pronta para dizer com tranquilidade que nenhum tanto quanto aquele), mas não havia sido só isso. o olhar dele, o… carisma? ainda parecia pouco. e para alguém que conhecia tantas palavras, foi estranha a sensação de que nenhuma poderia captar o que sentiu naqueles míseros segundos. o que, no homem, havia causado um disparo ainda maior do coração que o perigo inesperado de minutos atrás. quanto tempo o encarava? não saberia dizer. algo entre um segundo e uma hora inteira. quando o jovem continuou as respostas no mesmo tom brincalhão, piscou algumas vezes, fazendo certo esforço para tirar de seu rosto o que dê certo era uma expressão tonta. ah, sim, se pouco antes havia o xingado mentalmente pelo susto, tão de repente já não existia aquela mesma Gwendolyn. a que talvez o responderia com algo do tipo ‘não quero conversar, quero tirar logo esse guaxinim dali’. mas ela queria, sim. pela primeira vez na noite toda, inclusive. o complemento alheio, ainda, deixou claro que o homem também tinha interesse em liberar o bichinho, o que não passou despercebido pela morena. o que está fazendo, Gwen? é só um cara! será que havia caído e batido a cabeça, e agora estava sonhando? não — a sensação gélida da sola do pé contra o tronco era suficiente para mantê-la presa a realidade. “e eu que achava que era a única que queria sair do meio daquela gente a qualquer custo” respondeu, dando uma pequena risada. os braços estavam cansados de a prender naquela posição, e então a jovem desceu do tronco, apoiando os pés na grama úmida ao fazê-lo. quando o homem fez o mesmo, em um gesto cordial de se aproximar, percebeu que a falta das sandálias de salto alto a deixava a mercê da visível diferença de alturas ali. “meu nome é Gwen. Gwendolyn, mas pode me chamar de Gwen. e o…” antes de poder perguntar o nome alheio, um som mais alto do animal pôde ser ouvido, roubando sua atenção e a fazendo focar outra vez na missão. “coitado. ele tá tão assustado. ok, só… preciso pensar em como pular isso” talvez se não fosse a mistura do frio, e da forma que a mente derreteu um pouco ao conhecer o homem diante de si, teria pensado que talvez haveria um portão por perto, um caminho mais plausível. “você é alto. consegue me levantar? acho que se eu subir no tronco, e você me ajudar a subir um pouquinho mais, eu alcanço lá em cima.“
quase todos os resmungos da morena foram simplesmente deixados de lado por aslan enquanto acompanhava a graciosidade da existência dela. não que os deixasse de ouvir completamente – afinal, já havia entendido muito bem que quase lhe provocara um infarto agindo como um babaca sem senso social, e que agora o adorável rosto dela estava vermelho como uma maçã em meio à neve da pele e dos arredores –, mas ele não conseguia vê-los como um mau começo, porque traçara como novo objetivo transformar aqueles minutos de interação em quanto tempo pudesse passar com ela, apenas pra permanecer em sua presença. o kent não tinha grandes pretensões ou intenções maldosas, ele só não queria deixar de olhá-la, como qualquer ser humano que encontra e admira algo belo na natureza. “não vamos deixá-lo preso. só precisamos de... um plano um pouco mais elaborado pra não corrermos riscos.” comentou, aos poucos prestando um pouco mais de atenção no ambiente em si ao retor da mulher. ela provavelmente estava fazendo o que seu instinto bem feitor estava mandando, coisa que de certa forma o encantava. ninguém de dentro daquele salão se sujeitaria a fazer o mesmo por um animal “sujo e perigoso”. certamente se somente trevor seria um que faria uma grande careta de nojo, então esperava o pior dos outros. “perdão pelo susto. eu só achei... peculiar. não é todo dia que a gente vê uma mulher tentando pular um muro enquanto fala sozinha.” comentou, com as sobrancelhas levemente arqueadas. “muito embora agora eu saiba que você estava falando especificamente com alguém. ou algo, não sei como colocamos a existência do nosso novo amigo. enfim, não resisti.” assim como também não evitou o curvar de lábios. não quando toda a indignação perdia espaço para o riso e os sorrisos dela. provavelmente eram capazes de deixar qualquer um sonhando acordado o tempo todo ou de fazer qualquer ser humano dormir feliz pensando neles. ele acompanhou a movimentação dela, não só percebendo a diferença da altura, mas também a silhueta quase desprotegida para uma noite fria como aquela. os pés descalços embranqueciam ainda mais com o frio do orvalho molhado e gelado da grama, que se molhavam o couro de suas botas pretas, provavelmente congelavam as solas desnudas. “se o que quer é sair, então o faremos. precisamos acabar logo com isso, gwen.” comentou, um tanto preocupado. por mais que estivessem fugindo dali, devia levá-la pra um lugar quente, no mínimo. imaginou que a inocência andaria de mãos dadas com a imprudência milhares de vezes, e agora, ela havia sido capaz de confirmar suas hipóteses. “eu-...” teria se apresentado se não fosse a participação do guaxinim na conversa. aslan olhou em direção ao chiado, apertando os lábios um contra o outro. precisava resolver aquilo rapidamente. voltou a olhar pra ela ao que a acompanhava dividir sua ideia. certamente não seria um problema fazê-lo, mas não queria que ela o fizesse sozinha, ainda mais vestida daquela forma. quase cedera por ser o que a morena desejava fazer, mas queria e precisava achar outra forma para poupá-la de riscos maiores. expirou, passando a mão pelo cabelo ao olhar para o muro, e depois para os arredores, como se pudesse encontrar algo que os ajudasse. a expressão até mudou quando identificou o portão para o outro lado a alguns metros de distância, se sentindo um imbecil. a encarou novamente, deduzindo que o frio e o impulso realmente mexiam com a cabeça das pessoas. “me dê a mão e desça daí. eu acho que tenho uma ideia melhor.” ele riu baixo, não aguentando. assim que ela o fez, mesmo que confusa, ajudou-a a calçar os sapatos – deus, ela deveria estar morrendo de frio. a frustração o fez virar-se de costas, abaixando-se o suficiente para que ela subisse por trás de seu corpo. “suba.” indicou. pelo menos, suas costas estariam quentes. quando sentiu os braços finos envolverem seu pescoço, ajustou-a e segurou-a pela parte de trás dos joelhos, caminhando por alguns metros até que chegassem em frente ao portão. “ainda bem que eu vi o portão. por alguns segundos, eu realmente cogitei a ideia de embarcar nessa loucura de pular o muro com você.” comentou divertido enquanto abria o portão com uma das mãos, curvando-se um pouco mais para frente de forma que ela se mantivesse segura em suas costas. “aposto que esses seu olhar firme e brilhante é capaz de convencer um monte de gente a fazer o que você quer, gwendolyn.” a observação parecera pretensiosa, mas o fizera apenas para provocá-la. aslan andou por mais alguns metros com a morena, de modo que ela não precisasse pisar no chão enquanto estivesse segura agarrada em seu pescoço. e ele, bem, de forma alguma reclamaria. o cabelo dela cheirava a algo gostoso e doce que nem mesmo conseguira identificar. ao chegar em frente ao acidente florestal no meio a seattle, viu o guaxinim mover-se assustado e chiar ainda mais. fazia anos que não desativava uma armadilha. o pai costumava fazê-lo na área mais rural de onde moravam, sempre arranjando encrenca com os vizinhos. “deve ter alguma mecanismo simples de destrava. eu vou tentar soltá-lo devagar. se você tiver habilidades igual às das princesas da disney que falam com animais pra acalmá-los, esse é o momento de usar gwen. é sua hora de brilhar.” o mais alto brincou, soltando-a de suas costas aos poucos, para que ela se equilibrasse na grama com o salto. retirou o paletó e o casaco quente que usava e colocou-os por cima dos ombros femininos. “preciso que você não sofra de hipotermia por agora. agradeceria se fizesse isso por mim.” sorriu breve, ajustando-o sobre o corpo dela ao fechá-lo, silenciosamente pedindo para que ela segurasse as peças assim, de forma que tapassem a parte da frente de seu corpo. serviria por agora.
iniciou a movimentação de dar a volta para trás do guaxinim, mas o pequeno animal se debatia e o acompanhava. talvez o ganhasse no cansaço. arregaçou as mangas da camisa, tentando achar um jeito de soltá-lo sem despertar seu medo. ou o animal o morderia quando tentasse soltá-lo, ou se esquivaria pra fugir e se machucaria mais. aslan precisava ser rápido e muito certeiro no destrave. “aquilo parece um botão, não?” comentou, pedindo pra ela observar a elevação redonda. “é uma armadilha sem dentes por ser menor e feita pra animais pequenos, então ela só prende e pressiona forte. provavelmente faz doer, mas não como aquelas que cravam e ferem animais maiores e mais fortes.” como se isso fosse tranquiliza-la, aslan soltou a informação, imaginando que uma movimentação maior do animal o faria fazer mais barulho pelo forte incômodo. “eu vou tentar, tome cuidado pra deixar o caminho dele livre, ok?”
{flashback}
não que Gwendolyn fosse antissocial, embora tampouco fosse do tipo alma da festa, mas a quantidade de desconhecidos que a olhavam de cima abaixo com toda a pompa que só se encontra em herdeiros nascidos em berço de ouro começava a incomodar. seu vestido não era de grife, mas certamente mais caro do que podia gastar. aberto demais considerando o tempo esperado em Seattle durante o mês de janeiro, mas sua mãe fizera questão que a moça o utilizasse. seria mentira dizer que não era uma das mais belas peças que já havia utilizado, mas a sensação de estar sendo exposta em uma vitrine era inevitável quando sabia muito bem as intenções da senhora Green. já fazia pouco mais de um mês que a mais velha falava do tal Travis Reynolds e de como a jovem devia conhecê-lo, pois era um ótimo rapaz e um bom partido para casar. e ah, se não conhecesse a própria mãe há tanto tempo, até teria esboçado toda sua incredulidade. sabia, porém, que de nada serviria. se a mulher havia colocado aquela ideia na cabeça, nada tiraria. o fato de estarem naquela festa era a maior prova disso. e tudo que Gwendolyn queria fazer, era fugir para distante dos olhares que a mediam e julgavam. se a roupa não deixasse claro o suficiente a humildade da família, o sotaque escocês fazia um bom trabalho em garantir mais alguns olhares que a faziam sentir um bicho num zoológico.
sufocada, aproveitou a distração da mãe por um instante para caminhar para fora do salão. o caminho para o jardim não estava bloqueado, mas tampouco iluminado o suficiente - em uma sútil mensagem de que não era parte das festividades da noite. ótimo! pois a jovem não queria fazer parte destas. o vento gelado lhe atingiu o rosto de imediato, e só então notou o quão quente sua pele estava. as bochechas deviam estar vermelhas, e se não, certamente ficariam diante do frio. apesar de preferir temperaturas mais amenas, a sensação térmica do lado de fora lhe fizera sentir como se tivesse escapado de uma prisão. antes que sua mãe pudesse encontrá-la, decidiu caminhar jardim adentro, longe do campo de visão dos convidados. havia pedaços mais escuros, e outros iluminados por alguns postes de luz estrategicamente posicionado. a Green não fazia questão de tentar saber por onde andava, os pés apenas se moviam enquanto o som da música da festa ficava mais e mais abafado e distante. até ser totalmente substituído pelo som das folhas se movendo com o vento. por algum tempo, esse foi o único som que ouviu; até algo diferente lhe atingir o ouvido. parecia um… animal. só não saberia dizer qual. seguiu o som, que parecia vir de uma parte fechada do jardim. o muro repleto de folhas não era tão alto, e conseguiu apoiar o pé no tronco baixo de uma árvore até alcançar o topo do muro, e enxergar do outro lado uma armadilha que havia prendido um guaxinim.
“ei” com o cenho franzido, Gwendolyn semicerrou os olhos, buscando ver melhor o animal que parecia assustado. a iluminação naquele pedaço era fraca, mas suficiente. o bichinho tremia, e ela não sabia dizer se por medo ou frio. os dois, provavelmente. não que fosse uma grande conhecedora daquela espécie, mas se recordava de ler algo sobre como eles preferiam calor. “ok, me dá um segundo e eu solto você. só… preciso chegar aí. e depois descobrir como desarmar isso. mas uma coisa de cada vez” falou, como se o animal fosse capaz de oferecer alguma resposta. desceu do tronco, olhando para os lados como se fosse capaz de materializar uma escada se pensasse nisso com muita vontade. “se eu fizer tudo errado e arrancar um dedo meu no processo, acha que pelo menos posso usar de desculpa para fugir daqui?” a pergunta obviamente retórica recebeu um chiado do animal, o que a fez suspirar. “é. eu sei. nem se arrancasse uma mão eu seria liberada disso aqui” a jovem ainda prosseguiu, perdida nos próprios devaneios, e voltou a subir naquele mesmo tronco, que parecia ser sua única forma de chegar do outro lado. claro, a jovem não tinha como saber que havia um portão para aquele pedaço do jardim há alguns metros dali. escalar um muro com um vestido longo era uma tarefa terrível, especialmente com o salto alto. vista de fora, provavelmente parecia uma louca falando sozinha, tentando escalar um muro descalça no frio de oito graus. “sabe de uma coisa? você parece ser a companhia mais divertida da noite até agora” complementou, ainda falando com o animal, sem imaginar que haveria outra pessoa ali por perto.
odiava cigarros e charutos. fediam, eram caros e, literalmente, tinham a capacidade de matar alguém. não entendia como grande parte dos grandes homens que naquela festa se encontravam eram inteligentes o suficiente para comandarem impérios financeiros – de forma lícita ou não – mas também estúpidos o suficiente para abandonarem a própria saúde em prol de ostentar qualquer coisa cara que julgassem ser dignas de admiração e reconhecimento de status. mas imaginava que não precisar lidar com as consequências de fazer a merda que quisessem era um comportamento comum entre aquele tipo de gente. se quisessem um pulmão novo, conseguiria de qualquer jeito, nem que precisassem pagar milhões de dólares para isso. cigarros e charutos e pulmões novos e imediatos eram apenas três das coisas que indignavam o jovem kent desde muito jovem, quando decidira dar a cara a tapa e entrar num mundo que – ainda – não era seu.
de fato, lá permanecia ele, ao lado de trevor, sustentando um corpo presente e disciplinado em meio a risos e conversar sobre casos extraconjugais, presenças femininas, golfe e, por fim, finanças. o amigo parecia querer encaixar-se a todo custo em um espaço que já era seu mas, como qualquer peça mal lixada, sofria para passar nos cantos. já aslan, por outro lado, sentia-se exausto por ter de aguentar ser utilizado de jovem lacaio pelos colarinhos brancos que insistiam em “querer lhe ensinar alguma coisa”. desde que não tinha pretensão nenhuma de aderir ao porco tabagismo ou trair sua futura esposa, pediu licença e retirou-se com educação, abandonando trevor à própria sorte entre gente de sua própria espécie. tudo bem ser tachado de indelicado. não dependeria de puxar o saco de nenhum deles no futuro, então não fazia sentido fazê-lo no presente. respirar algo que não fosse fumaça enquanto caminhava pelo jardim fez bem até mesmo para sua alma. talvez fosse isso, talvez fosse também o fato de, pela primeira vez na noite, não precisar vestir uma armadura de ouro para conversar com pessoas que poderiam menosprezá-lo só com um olhar ou uma sentença inocente que indicasse que o lugar de onde viera era diferente daquele ali. era como se sua própria companhia fosse a única a lhe confortar num ano novo solitário, que se não fosse pela insistência de trevor, teria passado com sua família em montpelier, e não na fria seattle. “mas era uma oportunidade única”, ouviu, e acreditou. sim. uma oportunidade única de sentir-se sozinho.
imaginou que mais nada de interessante aconteceria consigo naquela noite quando os olhos captaram uma cena e um monólogo no mínimo peculiar. aproximando-se discretamente enquanto ela parecia realmente mandar uma conversa com alguém. a altura e um pedaço do mesmo tronco que ela tentava utilizar pra subir lhe ajudaram a recostar-se com os cotovelos no topo do muro ao lado dela, numa distância segura ao que estudava o que realmente ocorria ali. oh, ela falava com um guaxinim capturado. “a julgar pela situação do nosso amigo, suas chances de escapar são bem maiores que as dele.” ponderou, deixando que a cabeça tombasse discreta e minimamente para um lado enquanto ainda encarava o bichinho. “um dedo não sei, mas a mão inteira com certeza te tiraria daqui. te levaria direto pro pronto socorro.” um sorriso de canto curto surgiu nos lábios carnudos do moreno. “e depois provavelmente para um hospital psiquiátrico por tentar fazer isso sozinha correndo perigo de ser mordida por um guaxinim e contrair raiva.” analisou, finalmente voltando o olhar para a mulher, agora já pendurada em cima do muro. por alguns segundos, um quase sempre tão eloquente aslan teve suas palavras roubadas pelo rosto que lhe devolveu o olhar.
não soube explicar o que sentira num primeiro instante, mas talvez charles aznavour pudesse, se também a houvesse visto. tudo o que enxergava parecia ter sido perfeitamente planejado por deus, desde a tez macia até os lábios cheios, os olhos amendoados expressivos e enfeitados com o brilho das orbes quase indecentemente inocentes, e a surpresa pura por ter, tardiamente, percebido sua presença ali. não importava mais o que aslan havia passado naquela noite, pelo menos não naqueles segundos infinitos onde pareceu ter encontrado algo muito raro. ele mal processara seus próprios pensamentos antes de respondê-la, mas o fez, da melhor e única forma que poderia fazer naquele momento: lhe dando um final divertidamente aberto. “mas eu agradeço pela observação. só não acho que conversamos muito, talvez devêssemos fazer mais isso.”
“claro, enquanto tentamos ajudar nosso amigo ali a escapar de uma forma um pouco mais segura. acho que é um bom plano inicial pra duas pessoas que já estão de saco cheio desse lugar.“
Jere, I don't want you to hate us, but I think about her all the time.
The Summer I Turned Pretty || 2.05
ASLAN DUMAN KENT | AZZY, ASH, LANNY, DUMAN | 186CM; 86KG | MONTPELIER, VERMONT | ENGENHEIRO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS | HETEROSSEXUAL | 34 ANOS | + PACIENTE, + DEDICADO, + INTELIGENTE, + DETERMINADO, + JUSTO | - CALCULISTA, - PESSIMISTA, - DESCONFIADO, - ORGULHOSO, - SARCÁSTICO.
📿terceira criança da terceira geração de uma família inteira que partira da turquia para tentar a sorte nos eua nos anos 60, aslan sempre foi o receptor de muitos planos dos pais. cresceu em uma casa grande e modesta numa área tranquila e arbórea em montpelier, junto aos irmãos, aos pais e aos avós – que por quarenta anos gerenciaram uma pequena joalheria no centro da cidade, repassando os ofícios de lapidário e ouvires para o filho e os netos. ainda que o pequeno kent tenha realmente aprendido muito e se divertido ao lado do avô – sua pessoa favorita na face da terra – seu pai sempre esperara mais de seu caçula e, de certa forma, um influenciado aslan também pensava o mesmo. via-se na obrigação de seguir um caminho diferente, tendo em vista que seus irmãos já seriam responsáveis por dar continuidade aos negócios da família. ele nunca tivera a pretensão de ser apagado no meio da competição deles.
📿foi assim que decidiu trilhar um caminho mais desafiador. desde pequeno sempre se interessara por montar coisas. houvesse sido ou não o avô a despertar essa habilidade no menino, aslan era habilidoso em relação à lógica e visivelmente seu pai ficava muito satisfeito com isso. foi justamente por essa razão que não mediu esforços e nem economias para bancar os estudos de seu menor em escolas caras e que realmente tratavam jovens inteligentes e especiais como seu filho exatamente como qualquer futuro gênio deveria ter sido tratado no passado. entretanto, tudo o que é bom tem um preço e, por vezes, nem sempre monetário. apenas os melhores e mais abastados filhos das famílias tradicionais da cidade tinham este tipo de regalia, e a família kent não era esse tipo de família. além de empréstimos e hipotecas, emir buscou por todo tipo de bolsa de estudos que pudesse receber para o filho, em prol de não precisar estar sempre no vermelho. essa dedicação intensa também acabou criando uma rivalidade muda e uma mágoa engolida entre seus filhos mais velhos ao se verem preteridos em relação à aslan e, como se não fosse o suficiente sentir-se um estranho entre os próprios irmãos, também se sentia um peixe fora d’água na escola. em meio a tantos “amigos” ridiculamente ricos, era natural que participar do círculo social de uma parcela tão pequena da cidade o faria repensar muito sobre onde seria realmente seu lugar.
📿ainda assim, mesmo que deslocado, nunca esmoreceu. nunca estivera lá pra fazer amigos, e sim para alcançar um objetivo específico. ele também ganharia dinheiro um dia, tanto quanto todos aqueles garotos. queria devolver tudo o que sua família fazia em prol de seu sucesso e retribuir por todo o tempo dedicado a ele, então nunca pudera se dar ao luxo de reclamar sobre qualquer comportamento discriminatório que lhe ocorria nas instituições que frequentava. mesmo que não vivesse uma vida que era sua agora, mais tarde seria. e foi acreditando nisso que acabou conquistando alguns amigos nesse meio tempo. um deles foi trevor reynolds. demorou para que o jovem duman de quinze anos realmente o chamasse de amigo. não por causa da inveja sobre sua riqueza ou sorte em abundância, ou por ser um almofadinha insuportável que realmente era, mas sim porque viviam competindo, fosse em notas, fosse na vida. a determinação do moreno batia de frente com a competitividade afoita do loiro que, apesar de ter tudo o que queria materialmente, nunca tivera nada parecido como a família de aslan, então era o equilíbrio perfeito para que tais opostos se atraíssem. trevor acabara desenvolvendo uma obsessão inconsciente e nada saudável sobre as vitórias e a existência de aslan por mais que o adorasse, e aslan aprendera que nem todo rico era um porco sem coração quando percebia trevor dar um jeito de arrastá-lo pra todo canto como se sua presença fosse necessária num mundo tão difícil quanto a alta sociedade, que não espera menos do que a excelência de seus rebentos. em meio à amizade competitiva que estabeleceram enquanto percorriam seus caminhos juntos e separados ao mesmo tempo – sempre fora ridiculamente visível a forma como aslan precisava se esforçar o dobro pra subir seus próprios degraus com pesos nas pernas enquanto trevor era simplesmente carregado até o topo – mais de dez anos se passaram e, embora o duman reprovasse muitos comportamentos egoístas do jovem herdeiro, nunca deixou seu lado. pelo menos não até conhecer gwen.
📿aslan sentiu que ela surgira com um sol numa noite fria de janeiro. cumpria seu segundo ano de estágio na empresa do pai de trevor quando a conhecera, como se algo que nunca foi houvesse acontecido pra realmente ser. contentou-se com sua amizade por algum tempo, assim como com os meses que mostraram que o tempo não é nada quando se encontra uma alma que facilmente se une com a sua. a conexão que sentira fora tão forte que a palavra amor não lhe assustara. pelo menos não até o anúncio de noivado entre um de seus únicos amigos e possivelmente a única mulher pela qual se apaixonara em todos os seus anos de existência. aquela foi a primeira vez que aslan sentiu que não poderia fazer alguma coisa, e gwen foi a única pessoa em sua vida que clara e inconscientemente lhe mostrou que ele não era invencível. entretanto, além do ego, além da frustração, o que mais lhe marcou foi a impotência de não conseguir permanecer ao lado dela ou de trevor. querê-la os machucaria, e deixá-la provavelmente o mataria. aslan preferiu morrer para os dois, pelo menos até que pudesse recolher o que sobrara do que tinha dentro do peito.
📿a promoção viera em boa hora. a ótima relação com o pai do amigo e todo o esforço colocado em cima dos projetos que participava foram suficientes para que ganhasse a confiança e a admiração do sr. reynolds, que reconheceu no jovem homem um grande potencial para crescer em sua área – aslan prosperaria, de uma forma ou de outra, pelo brilhantismo e a excelência que seu filho nunca conseguiria realmente mostrar. deixar a família para partir rumo à espanha fora difícil, mas também fazia parte do processo de retribuição mais tarde. ele seria melhor, maior, mais poderoso, mais importante e, com esperança, menos machucado dali a alguns anos. se ficar longe das pessoas que amava fosse o preço se crescer, então lamuriar-se por isso seria inútil àquela altura do campeonato. precisava viver uma vida apenas dele. e precisava ficar longe dos sorrisos e abraços de gwendolyn antes que fosse tarde demais e desistisse.
📿a vida de aslan na espanha foi um mistério para todo mundo, mesmo para trevor e gwen, que nunca deixaram de tentar manter contato com o rapaz. tudo o que se sabe do kent é que se tornou um promissor e disputado engenheiro de energias renováveis o qual só não escapou da empresa dos reynolds por meio de grandes aumentos salariais e propostas interessantes durante os últimos seis anos. uma delas, inclusive, sendo a de retornar para vermont e tocar um grande projeto na cidade para tornar montpelier 100% dependente de energia sustentável. já era hora de voltar pra casa. ter enfrentado tanta coisa durante os últimos anos provavelmente já deveria tê-lo preparado para o que estava por vir. mas ninguém nunca se prepara o suficiente pra rever um antigo amor. não completamente. nunca completamente.