em momentos como aquele, mishti percebia o quanto amava a voz de kenneth. limpa, jovial, capaz de fazer seu coração flutuar mesmo quando suas palavras não queriam dizer alguma coisa realmente. não exatamente pelo timbre, ou pelo tom, ou pela entonação; o sawyer sofrera diversas mudanças conforme o tempo passara, e claramente com sua voz não seria diferente. mas ela amava. era apaixonada. porque era a voz que podia ouvir por horas – mesmo que geralmente fosse ela a falar muito mais naquele relacionamento – e ainda assim a faria esperar por mais, como uma criança que espera por uma nova história na hora de dormir. porque era uma voz que lhe trouxera tanto conforto em dias de tristeza, e uma voz que, mesmo que em momentos específicos, a impactara com conselhos e verdades cirúrgicas as quais muitas vezes não estava nem pronta para ouvir. mas as aceitava, e o escutava. e era exatamente isso que diferenciava a voz de kenny entre todas as outras: ela dava valor a absolutamente todas as palavras que aqueles lábios soltavam. entretanto, estas mesmas palavras proferidas pela voz que amava tanto tinham o poder e a capacidade de levá-la tanto para o céu quanto para o inferno – lugar para o qual recebera passagem só de ida ao que o loiro trouxera à tona uma condição imposta pela noiva.
apesar de tentar manter os pés no chão sobre o motivo insano de estar ali –e compreender sua atual posição na vida de kenneth –, não pode evitar o sentimento incômodo da rejeição. era errado sentir-se assim? sem dúvida alguma. mas isso nada queria dizer para a mulher passional e apaixonada em frente ao melhor amigo e o objeto alvo de todos os seus esforços. de fato, seu sorriso esmoreceu por segundos, vítima de suas expectativas descabidas, mas tão logo o mais alto iniciou sua busca por alternativas, a mahajan fez esforço para recompor-se, recuperando o sorriso que tinha só pra ele. "vamos dar um jeito. nós dois sempre conseguimos, não é? temos tempo e, agora que eu voltei definitivamente, você não vai conseguir se livrar de mim. se depender da sua morena favorita, vai ser como nos velhos tempos." comentou divertida– e, claramente, ignorando completamente a existência de cassandra. mish referia-se a quase todos os momentos em que foram obrigados a encontrar tempo na agenda um para o outro, mesmo em grandes adversidades, mas também ao fato de que, depois de tudo, nada mudara totalmente. e ela estava lá agora, nada mais iria tirá-la do caminho dele. além da facilidade de convencer kenny a fazer muitas coisas, tinha capacidade de encontrar brechas nas agendas de ambos para passarem tempo juntos. ah, e ela iria. nem que ela precisasse abruptamente estabelecer sua presença na vida de kenneth novamente, e deixar claro para cassandra quem era e o que poderia representar para o loiro.
"ah, sim, a mala!-" e como uma brincadeira do universo que insistia em minar sua confiança, mais uma vez foram interrompidos pela castillo. mishti inspirou devagar, acompanhando a conversa unilateral. perguntava-se se cassandra também o chamava de "amor". se ela era carinhosa o suficiente para alguém como o sawyer, tão sincero e sensível, e se ela o valorizava direito – mesmo embora soubesse, pelas pinceladas delicadas de kenneth sobre a personalidade da noiva, que ela não era a pessoa ideal. não fazia ideia do que o amigo especificamente via nela, mas também sabia que talvez sua visão fechada e individualista devido aos próprios sentimentos devesse bloquear qualquer qualidade positiva que pudesse ser identificada em cassandra. o convite, por fim, lhe surpreendeu. mas não muito. algo lhe dizia que a intenção do jantar não era apenas receber amigavelmente a melhor amiga do noivo. convivera com mulheres semelhantes à cassandra a vida toda, não era sua primeira vez no parque – muito embora desejasse que fosse a última. tinha certeza que a castillo usaria o jantar para determinar papéis entre as duas, típico comportamento de alguém sem segurança no próprio relacionamento. e isso só queria dizer uma coisa.
cassandra tinha aqueles olhos verdes bem abertos.
"estou. ainda mais se for algo que você quer que aconteça." respondeu e, assim que ele deslizou a mala com uma mão para perto, a mahajan instantaneamente segurou com a própria a mão que ele usara para atender o celular, acarinhando-a levemente com os dedos. enquanto caminhavam para fora do salão de desembarque, e mesmo com toda a análise que acabara de fazer sobre a mulher com quem deveria lutar pelo enorme coração do sawyer, ela o olhava com o sentimento mais genuíno que tinha dentro de si naquele momento. "eu não quero mais perder nenhum momento que envolva você e o que é importante na sua vida, kenny. afinal, eu ainda faço parte dela, e pretendo fazer por quanto tempo a minha permitir."
kenneth ainda tinha em seu rosto um sorriso, mas os olhos cresceram um pouco, em um pânico interno. ‘sua morena favorita.’ seria aquela uma constatação justa? ele estava noivo, afinal. e teoricamente, a mulher com quem planejava casar deveria ser a pessoa mais importante para ele. não que qualquer coisa no mundo fosse capaz de mudar a estima que o loiro sempre tivera pela melhor amiga, e certamente não era como se ele se importasse com ela um por cento a menos sequer, mas sentia que considerá-la acima de cassandra era simplesmente errado, dado o contexto. como se mentisse para a futura esposa sobre o que ela representava para si. e kenneth a amava. certo? certo… é, certo! então, ele talvez devesse considerar ambas no mesmo patamar, apenas de maneiras diferentes. cassie e mishti tinham seu amor por completo, porém amores distintos. deveria ser assim. “nem acredito que está de volta para valer depois de todo esse tempo.” comentou, com sinceridade. não que pensasse por um segundo que ela havia voltado por ele, há alguns anos havia feito as pazes com o fato de que mishti jamais voltaria. mas porque sempre fora como se seu lar, e todos os que o representavam (ele próprio incluso) fossem pequenos demais para seus grandiosos planos.
três anos, para ser mais específico. faziam três anos que kenny finalmente aceitara que a amiga nunca se contentaria com… bem, com ele. havia considerado seriamente se mudar para londres atrás dela, na época. tinha sido por isso que viajara na ocasião, inclusive — não que ela sequer sonhasse com aquilo. em algum surto psicotico, o sawyer havia decidido que enfim seria honesto quanto aos sentimentos que enchiam seu coração toda vez que a via. até mesmo havia confidenciado sua decisão à irmã mais velha, na época, considerando que a parte mais difícil seria deixar sua família em outro país. e ah, ele chegou tão perto! no reino unido, no entanto, as coisas não saíram como ele havia planejado. mishti tinha sua agenda repleta de compromissos que não poderia desmarcar, e um deles era com um modelo idiota que ela havia esquecido de mencionar ser seu mais recente caso. nada sério, ela tinha esclarecido. não importava. kenny percebeu que já havia passado da hora de superar aquele sentimento que jamais seria retribuído. não a culpava, muito menos a ressentia. era culpa somente dele que tivesse se permitido iludir por tantos anos, envolvendo-se em buscas românticas repletas de auto sabotagem enquanto se resguardava para um amor que jamais aconteceria. quando se despediu da jovem no aeroporto, decidiu se despedir também daquela trava que havia colocado no coração. e demorou, claro. não foi fácil e nem agradável. a distância física ajudava, mas o contato constante e a própria prontidão a estar disponível para ela sempre que precisasse tornava tudo mais difícil. mas conseguiu. e então conheceu cassandra. e agora ele estava noivo. e amava sua noiva! precisava tomar cuidado para não cair em padrões antigos, não agora que estava feliz e via um futuro em sua relação.
“claro que eu quero. estou ansioso para minhas duas pessoas favoritas se conhecerem” a frase não fora tão inconsciente assim, pois quis reforçar de algum modo que ele não poderia mais priorizar mishti como fizera a vida toda. não se ele quisesse ser feliz com outra pessoa. foi como um lembrete em voz alta de que o lugar antes ocupado unicamente pela melhor amiga, agora era partilhado. presumia que ela talvez não lidasse tão bem com as mudanças que estavam por vir na dinâmica dos dois, mas aquilo estava fadado a acontecer eventualmente. o sawyer simplesmente não poderia continuar deixando tudo de lado por ela. mishti havia passado uma vida correndo atrás de seus objetivos, independente de tudo e todos. era a vez dele fazer o mesmo. olhou para a mão que segurava a dele, quase suspirando audivelmente diante da carícia. sabia que não seria fácil manter sua decisão quando a visse pessoalmente outra vez, mas não sabia que a batalha interna travada seria tão difícil. sentiu o peito apertar em desconforto, não porque não gostava do toque, nem porque pensava em cassandra, mas porque se sentira fraco por um mero toque ser capaz de lhe confundir a mente outra vez. tossiu, como se o som fosse capaz de trazê-lo de volta ao eixo. dessa vez, seria forte: seguiria decidido. discretamente, soltou a mão da dela, sob a desculpa de precisar de ambas para ajeitar a mala pesada em mãos antes de segurar o celular ali apenas para que a mão não ficasse livre. ‘você está noivo, kenneth. não pode passear por aí como se mishti fosse sua namorada’
“fico feliz em ouvir isso. você sabe que eu não vivo sem você, mish” respondeu, dizendo nada menos do que a verdade. uma verdade que ele vez ou outra desejava não ser. porque as vezes era dolorido demais sentir aquilo. amá-la tanto, querê-la muito mais. não parecia justo nem com ela, que sem intenção alguma causava nele aquele buraco no coração toda vez que ia embora. já havia desejado parar de se importar tanto. já quis que a distância os afastasse, que ele eventualmente se cansasse de estar de prontidão. mas nunca chegara nem perto. infelizmente para o sawyer, sua frase era uma verdade incontestável. não havia kenneth sem mishti, não importava o que ele fizesse, não importava a distância entre eles ou o tempo que passasse. o braço enorme do loiro passou pelos ombros alheios em um aperto amigável e breve, que reforçava o carinho de suas palavras, mas que finalizara muito mais rápido do os toques que normalmente partilhavam. estava em suas próprias mãos a tarefa de se desvencilhar da necessidade que nutrira todos os anos, e por mais difícil que fosse, tinha que se esforçar. do lado de fora do aeroporto, não demoraram para chegar no carro e após deixar a bagagem no porta malas, abriu a porta para a garota entrar. já no banco do motorista e resolvendo utilizar seu óculos escuros para aliviar o sol, deu partida sem perder tempo. “ainda preciso achar uma roupa para esse evento de sábado” comentou, distraído com o trânsito. “cassie sempre diz que ocasiões especiais pedem roupas novas. alguma coisa sobre energia renovada, mas eu acho que ela só cansa um pouco rápido das coisas” havia leveza na voz, um sorriso carinhoso até, porque não considerava aquilo um ponto negativo. para alguém que se apegava fácil a todo tipo de bobagem, era interessante observar o dinamismo da castillo. “sei que sempre saímos pra comer alguma coisa quando você chega, mas cassie marcou um horário em uma loja super chique pra eu provar umas roupas. eu nem sabia que tinha loja com horário marcado. enfim, eu não consegui te avisar porque foi de última hora. mas não se preocupe, dá tempo de te deixar em casa antes”
toda vez que kenneth mencionava a importância de cassandra em sua vida, mishti sentia como se o loiro se esquivasse a empurrando pra trás com a mesma força que levantava pesos. talvez com esforço, mas certamente com um objetivo em mente, e este era afastá-la do objetivo que ele provavelmente não fazia ideia que ela tinha. essa era a prova de que a castillo estava enraizada em sua cabeça, como um visco arrancando ideias e memórias que envolvessem a existência da mahajan — outrora não mais imponente e importante do que ela própria. mishti sabia que digerir as palavras de kenneth dessa forma era dramático e autopunitivo, e que a comparação não era justa (até porque a desvantagem era dela), mas a morena não podia evitar sentir-se preterida por cassandra e pelos limites que o sawyer estava transparentemente impondo. nesses momentos, queria esquecer o quão fiel aos princípios o loiro era, mas ao mesmo tempo, o sentimento agridoce de vê-lo firmar um compromisso com alguma coisa sempre a fazia lembrar que esse era o kenneth que amava. claro, não doía menos por isso. obrigava-se (afinal, precisava) a pensar que de nada adiantava jogar a toalha e afundar-se em lamentações enquanto ainda tivesse chance, mas não queria dizer que era menos frustrante. mesmo sabendo que era errado sentir-se desse jeito por alguém que não lhe pertencia, ainda assim era difícil para mishti não desapontar-se consigo mesma e com a situação.
apesar da recaída quanto ao retrato de sua capacidade de conquista que acabara de porcamente pintar, mais uma vez kenneth mostrava que tudo o que dizia poderia levá-la ao céu ou ao inferno em questão de segundos. ela sentia verdade em cada sílaba escapulida pelos lábios do loiro ainda hoje, e somente aquela declaração simples e tão cotidiana quando se tratava da forma com a qual kenny demonstrava seus sentimentos foi suficiente para que o sorriso desconfortável abrisse como um botão de flor satisfeito com a luz do sol. era isso que kenneth era. o sol. ironicamente, uma das coisas que mishti mais sentira falta no reino unido. a vida era bastante engraçada quando parava pra pensar.
tentou não se abalar pelo fato de kenneth afastar sua mão e, muito embora apenas aquele abraço desengonçado de lado recebido como um prêmio de consolação ainda fosse um pouco decente, ela era mishti mahajan e não se contentaria com somente isso. kenneth não perdia por esperar. "engraçado. eu morreria por você sem pensar duas vezes. tem algo que não tá batendo nessa equação." brincou, seguido de uma piscadinha ao tentar azê-lo rir, muito embora não fosse uma de suas melhores ou mais engraçadas respostas. mas mostrar pra ele que ela tinha um nível de intensidade maior mesmo que na esportiva dentro da intimidade que tinham pra fazer esse tipo de brincadeira era importante. "não sei o que tem de errado com as suas roupas. você tem que aparecer como você quer. ela deve ter total noção de que você fica bonito com tudo." resmungou, falhando em mascarar o ranço pela castillo, muito mais pela doçura nos trejeitos de kenneth do que pelo comportamento em si. talvez fizesse até o mesmo se tivesse a oportunidade de ver kenneth vestido com algo bonito e que teria certeza que ficaria bem nele. o carro pareceu abafado por um instante, e mishti quase teve certeza de que sua irritação era o motivo de tamanha reação química no ar.
deixá-la em casa era melhor do que nada, então mishti não pensara duas vezes antes de aceitar a carona e agradecer pelo gesto. dando partida, a mahajan pareceu, enfim, resolver o problema. "eu vou perdoar você por esse pecado capital de não me recepcionar direito depois de um vôo tão longo, mas você me deve, kenneth. não se esqueça disso. e eu quero pizza de paneer na primeira oportunidade que você tiver pra passar um tempo comigo." não foi uma sugestão. ela apenas o intimou, assim como nos velhos tempos. obviamente ela não comentara sobre isso ser feito no quarto do hotel em que ficaria ou no apartamento que logo alugaria, mas ah, ele iria. "eu estou em um hotel. triste, não? ainda não tive tempo de ver como o apartamento está. e eu tenho que me organizar, começo na FRIDA em dois dias. definitivamente não vou ficar na casa dos meus pais. vão tentar planejar e controlar cada segundo dos próximos dias. e eu meio que tinha reservado pra você."















