Daisy não tinha um nível de inteligência altíssimo e nem se destacava em atividades de lógica, mas ela poderia ser considerada uma garota esperta, e que sabia se virar muito bem quando precisava. Mas naquele dia em especial (e que realmente deveria ser um dia especial) tudo havia contribuído para que ela ficasse completamente perdida, e no sentido mais literal possível da palavra, é claro. Começara com o nervosismo habitual de alguém que estava iniciando uma aventura, aquele frio da barriga de não saber onde estava pisando e o que iria encontrar no momento seguinte, mas era uma sensação engraçada, que fizera Daisy rir para si mesma quando se levantara de sua cama no dormitório feminino da Hufflepuff naquela manhã. Tanto Grace como os gêmeos, Leonard e Matthew, haviam lhe falado sobre a experiência de estudar em Hogwarts. Havia escutado histórias e mais histórias sobre o fantástico castelo e estava mais do que ansiosa para explorá-lo, estava ansiosa pelas aulas, por tudo o que tinha para aprender, por conhecer pessoas novas e por não ser mais a única Hookum que não tinha experiências mágicas para compartilhar nos jantares com a família.
No entanto, algo atrapalhara sua crescente animação naquele dia. Sua mãe certamente teria algum ditado engraçado sobre a duração de sentimentos bons ou qualquer coisa que ela deveria ter lido em um dos muitos livros pelos quais estava cercada na livraria onde trabalhava, mas Daisy não conseguia pensar em nada melhor para definir o sentimento que se apossara dela: ela estava com raiva. E então frustrada. Depois disso, enquanto sua cabeça se enchia de pensamentos confusos, se perdera. E ficara apavorada, principalmente porque a sensação de ter não-pessoas conversando com ela pintadas em quadros antigos pelas paredes de um castelo tão antigo quanto não era nada agradável ou engraçado quanto pareceria em qualquer outro momento. Nada parecia agradável para ela depois de ter sido completamente ignorada por seu melhor amigo. Mark era a única pessoa naquela escola que ela conhecia além de seus irmãos, e definitivamente não havia sido preparada para a possibilidade de se deparar com alguém que era o oposto daquele garoto com quem crescera, aquele garoto que ela poderia considerar um irmão. Estava frustada, estava furiosa, e o pior, ela estava triste. E tudo isso em seu primeiro dia de aula. Poderia haver uma explicação melhor para o fato de ter se perdido por aqueles corredores tão idênticos?
Ao dobrar no próximo corredor a sua frente, deparou-se com uma estátua de gárgula. Nos pés desta crescia uma planta estranha que a pequena Daisy não soube reconhecer, mas de uma coisa tinha certeza: já havia passado por aquele lugar antes, e provavelmente estava andando em círculos. Foi quando ouviu passos atrás de si e uma voz animada rapidamente lhe alcançou, tagarelando tão rápido que Daisy se assustou. Era um garoto mais alto, mas que ainda assim não parecia muito mais velho do que ela. Tinha um semblante simpático, e a animação dele era bastante familiar, o que agradou a Hookum, que não conteve um sorriso em resposta às palavras dele, sentindo-se aliviada por um momento ao perceber que não tinha porque estragar todo o seu dia por apenas um pequeno episódio, pois poderia acertar aquilo mais tarde. “Oh, olá! Eu- Ah, obrigada! Isso é muito gentil, eu estou meio perdida mesmo, esse lugar é enorme e tem aquelas escadas malucas lá embaix- Ou seria lá em cima? Esper- É, bem perdida.” Ela riu, percebendo que realmente não conseguiria se localizar sozinha por ali e imaginando quando tempo demoraria até que se acostumasse ao menos um pouco com o lugar. “Se não for atrapalhar, aceito sua ajuda. Tenho aula de Transfiguração agora. E, oh, é mesmo, sou Daisy. É um prazer, Ethan!”