Hard to explain | Diffths [PT]
casstellation-g:
O sótão do cabeça de Javali era empoeirado, baixo e quase inabitável. Cass escolhera o lugar aleatoriamente e já estivera ali uma única vez, quando visitara Hogsmeade há alguns anos e tentara escapar de um grupo específico de estudantes que no dia estavam sendo reunidos e discutiam próximas ações. Como no momento atual, ela fora convidada para aquilo, mas conseguira escapar anteriormente, conseguira escapar dos aspirantes a comensais com a desculpa de ter passado mal. Lembrava-se de ter se encolhido no canto daquele cômodo encolhendo-se como se, assim, pudesse sumir dali e levar as mentiras junto. Com a varinha ainda em mãos e o coração acelerado pela operação, Cassiopeia andou até a pequena janela redonda poeirenta que dava para a rua, se não fosse tão baixa teria batido a cabeça no teto assim como Dedalus, paralisado, o fez ao ser aparatado. A rua estava um rebuliço só, com um feitiço a ravina bloqueou a entrada e empurrou uma caixa para cima da portinhola no chão, demorou um tanto para isso já que a caixa era mais pesada do que imaginava.
Importou-se em olhar para Dedalus só depois de ver que estavam seguros, ela ergueu as mãos como indicando que nada aconteceria e desfez o feitiço antes dele terminar por si só, apoiou a varinha sobre a caixa que segurava a porta e tornou a ficar com as mãos erguidas. Cassiopeia imaginou que o garoto estaria aterrorizado ou com realmente muita raiva então não queria ser vista como uma ameaça. “Eu não vou fazer nada, eu juro que não vou te machucar. Prometo, faço voto contigo.” Abaixou as mãos, passando-as no rosto e começou a andar para um lado e para o outro, tentando organizar direito as palavras em sua mente para que nada ficasse faltando e o outro não entrasse em desespero a ponto de aparatar direto para o meio da bagunça. “Não posso falar muito, Ded. Realmente não posso, queria poder, mas você está sendo salvo porque eu…” Cortou sua frase ali, o que diria? Que não queria que ele fosse torturado e levasse aquela cicatriz pela vida? Mas tantas outras pessoas estavam tendo aquele destino àquela noite que a relevância de um lufano nascido-trouxa devia ser nula, devia. “Eu não quero que você se machuque, eu não entrei nisso para tentar impedir algo, as escolhas que eu fiz me levaram a isso.” Indicou a própria capa que usava e, como se a notando pela primeira vez, tirou-a com asco, jogando do outro lado do sótão. “Te tirar dessa é o mínimo que eu posso fazer.” Cass ajeitou o vestido para sentar-se no chão empoeirado e assim o fez, apoiando-se na caixa pesada que arrastara anteriormente. Ela estava cansada e esperava não ser pega; mesmo os feitiços não impediam que alguém aparatasse ali dentro, impediam apenas que alguém que não conhecesse o local não o invadisse por acaso.
Aquela noite contradizia praticamente toda a vida de Cassiopeia em Hogwarts. Estava com um nascido-trouxa, não o torturaria e ainda admitia que não queria machuca-lo, mas sim salvá-lo de algo pior. Ainda por cima vestia-se de acordo com a mentira que estava vivendo, duas camadas: uma para a capa de aspirante à comensal e outra como a filha de um casal importante de indianos puristas. “Desculpa por ter te assustado, os outros já estavam a caminho e eu não podia ser pega conversando com a vítima que fosse.” Admitiu, olhando-o de canto de olho e suspirando. “Pode continuar a me odiar, se quiser, tudo vai voltar ao normal quando amanhecer. Não pense que me deve alguma coisa por isso.”
Uma fina camada de poeira encobria toda e qualquer superfície do lugar. O corpo esguio de Dedalus era obrigado a se curvar, única maneira de impedir que sua cabeça se chocasse contra o teto rebaixado. Livre do feitiço de petrificação, a primeira reação de Dedalus foi se afastar o máximo possível de Cassiopeia. A cena em sua frente lhe invadia a cabeça com um sentimento agonizante de déjà vu. Dedalus já havia vivido aquilo antes.
Tinha onze anos quando um garoto mais velho o isolou do resto do grupo de lufanos. Dedalus era jovem, ingênuo e facilmente manipulável, ou seja, carregava as três características que poderiam marcar a ruína de um nascido trouxa. Acreditando na boa fé do outro rapaz, um jovem Dedalus se deixou levar pela promessa tentadora do que parecia ser um caminho mais curto para seu destino. A primeira azaração o pegou desprevenido. Aquele era um mundo novo, novo demais para que palavras como ‘traidores do sangue’ e ‘sangue ruim’ fizessem qualquer sentido para o garoto. “Se você contar sobre mim para alguém, não vai sobreviver da próxima vez, sangue ruim.” No final da tarde, seria levado para a Ala Hospitalar. Madame Pomfrey se sentaria ao seu lado, afagando com ternura os cabelos do garoto machucado, que se fingiria confuso demais para se lembrar do que aconteceu.
A situação com Cassiopeia parecia replicar aquele momento de seu passado. Dedalus esperava, os nós dos dedos contraídos com força, agarrados à varinha que descansava no bolso de seu casaco. Dessa vez, tentaria se defender. Sacou a varinha, os movimentos um pouco atrapalhados devido ao nervosismo que lhe invadia o corpo inteiro. A mão trêmula apontava o objeto para a garota. Ao invés do ataque, o que Dedalus enfrentou foram as palavras confusas de Cassiopeia. “Eu não entendi nada, Cassie. Como é que você acha que está me salvando, me trazendo para essa droga de lugar? Você deve ter uma ideia bem deturpada do que significa ajudar alguém. ” O rosto do garoto demonstrava o completo tumulto de ideias que corriam em sua cabeça. Quando Cassiopeia estendeu as mãos para o alto, Dedalus hesitou por um instante. Logo, abaixou a própria varinha. Se Cassie possuía qualquer intenção em machucá-lo, sem dúvidas estava fazendo tudo errado. Se aproximando da garota, Dedalus colocou uma das mãos em seus ombros, uma forma simples de tentar confortá-la. Estúpido Dedalus Diggle e sua estúpida vontade de querer ajudar todo mundo. Como é que podia estar pensando no bem estar da mesma garota que o havia sequestrado? “Espera, Cassie, vá com calma. Só me explica o que está acontecendo de uma maneira que faça sentido. Até agora, tudo que eu sei é que você me petrificou e me trouxe para um lugar totalmente isolado. Isso não é bem o tipo de coisa que inspira confiança.”















