Sexta-feira
Era pra ser descanso. Acordar sem o bendito despertador, respirar diferente, deixar o dia passar sem peso algum. Mas nĂŁo foi isso que aconteceu. Virou o dia em que eu me deparei comigo mesma de um jeito que eu nĂŁo esperava â e que, honestamente, eu nĂŁo tinha pedido.
Tudo por causa de duas conversas no dia anterior. Duas. Em um Ășnico dia. E uma verdade que chegou sem avisar, sem filtro, sem a delicadeza que a gente Ă s vezes precisa pra nĂŁo desabar no meio do caminho.
A primeira conversa eu jĂĄ sabia de alguma forma.
Ouvi que sou "difĂcil de entender." E sabe o que foi estranho? NĂŁo me surpreendeu. NĂŁo chegou como um choque. Chegou como aquela confirmação silenciosa de algo que vocĂȘ jĂĄ sente hĂĄ um tempo, mas que ninguĂ©m ainda tinha dito em voz alta. E quando falam, vocĂȘ sĂł balança a cabeça por dentro e pensa: "eu sabia."
Faz tempo que nĂŁo me sinto pertencente a esse lugar. Faz tempo que eu chego, observo, Ă s vezes participo â e ainda assim saio com aquela sensação estranha de que eu estava ali, mas nĂŁo estava de verdade. Como se ocupasse um espaço sem realmente preencher nenhum. E por muito tempo eu achei que era coisa da minha cabeça, que eu estava sendo dramĂĄtica, que eu precisava me esforçar mais, me abrir mais, me moldar mais.
Mas tem um ponto em que vocĂȘ cansa de se moldar pra caber em um espaço que nunca foi feito pra vocĂȘ.
As palavras sĂŁo diferentes. Os interesses sĂŁo diferentes. O jeito de observar, de sentir, de querer â tudo diferente. E eu nĂŁo estou dizendo que diferente Ă© errado. Estou dizendo que Ă© esgotante. Ă esgotante tentar se fazer entender por quem nĂŁo tem interesse real em entender. Ă esgotante perceber que a conexĂŁo que vocĂȘ acredita existir Ă© muito mais sua imaginação do que realidade.
E o pior? Quando tentei falar sobre isso uma vez, a culpa voltou inteiramente pra mim.
Que eu sumia demais. Que eu nĂŁo falava. Que eu nĂŁo compartilhava, nĂŁo dava detalhes, nĂŁo me abria o suficiente. E talvez parte disso seja verdade â eu nĂŁo sou perfeita, nunca fui, e tenho consciĂȘncia dos meus erros. Mas existe uma diferença enorme entre alguĂ©m que realmente quer te entender e alguĂ©m que usa a sua ausĂȘncia como desculpa pra nĂŁo precisar te enxergar. Existe uma diferença entre reconhecer um erro e carregar uma culpa que nĂŁo Ă© inteiramente sua.
E eu carrego. Eu sempre carrego.
Isso sempre me resumiu em qualquer ciclo da minha vida â a forma como vocĂȘ me tratar, volta pra vocĂȘ em dobro. NĂŁo como vingança, nĂŁo como frieza calculada. Ă sĂł quem eu sou. Ă como eu funciono. E as pessoas que realmente prestam atenção em mim sabem disso.
JĂĄ a segunda conversa foi diferente. Foi a que eu nĂŁo esperava.
Essa veio de um lugar que eu nunca teria imaginado. De uma pessoa que eu nunca teria apostado que me enxergaria dessa forma. E começou com coisas boas â palavras que eu ouço Ă s vezes de outras pessoas, mas que, por algum motivo, naquele momento, pesaram diferente. Que sou gentil. Que sou doce. Inteligente. Corajosa. Discreta. Sincera. SĂĄbia de um jeito que nĂŁo Ă© comum.
E eu ouvia. E sorria. E ao mesmo tempo alguma coisa dentro de mim torcia o nariz, porque faz tanto tempo que eu parei de reconhecer essas coisas em mim mesma que ouvir alguém listando parecia quase uma descrição de outra pessoa. Como se estivessem falando de alguém que eu um dia fui, ou de alguém que sou só nos olhos dos outros, mas que eu mesma perdà de vista completamente.
E entĂŁo veio a frase. Simples. Direta. Sem rodeio nenhum.
"VocĂȘ se martiriza demais."
Eu congelei.
NĂŁo foi uma frase longa. NĂŁo foi um discurso. Foram quatro palavras que chegaram e ficaram. Que pousaram em algum lugar dentro do meu peito e nĂŁo saĂram mais. E eu fiquei ali, tentando respirar normalmente, tentando manter a compostura, tentando nĂŁo deixar o choro subir, porque ele queria subir, e muito. Aquela vontade de chorar que nĂŁo Ă© de tristeza, Ă© de reconhecimento. Ă quando alguĂ©m diz exatamente o que vocĂȘ nunca teve coragem de dizer pra si mesma.
Me senti exposta de um jeito que raramente me sinto. Mas ao mesmo tempo me senti â e essa Ă© a palavra certa â "compreendida." Vista. NĂŁo pela versĂŁo que eu mostro quando estou bem, nĂŁo pela versĂŁo que eu monto pra nĂŁo incomodar ninguĂ©m. Mas por alguma camada mais honesta de mim que eu nem sabia que estava aparecendo.
E foi aĂ que me peguei pensando: se eu mesma ouço com frequĂȘncia que sou gentil, doce, cuidadosa com as pessoas â por que eu nĂŁo sou assim comigo? Por que a primeira pessoa que fica de fora da minha gentileza sou eu? Por que me condeno por coisas que nĂŁo controlei, por mudanças que simplesmente aconteceram, por culpas que nem sĂŁo minhas mas que abracei porque ninguĂ©m mais estava disposto a examinĂĄ-las direito?
Por que eu me martirizo tanto?
E nĂŁo tenho uma resposta boa pra isso ainda. Tenho sĂł a consciĂȘncia de que Ă© real. De que Ă© um padrĂŁo. De que eu faço isso hĂĄ tempo demais.
O que me quebrou de verdade nessa segunda conversa nĂŁo foi sĂł ser vista. Foi perceber o quanto eu sinto falta disso no dia a dia.
TransparĂȘncia. Reciprocidade. Honestidade sem medo. AlguĂ©m que chegue e fale de verdade, sem rodeio, sem construir uma versĂŁo de mim baseada em suposição, sem me encaixar em um molde que nunca foi meu. AlguĂ©m que nĂŁo precise de semanas pra dizer o que poderia ser dito numa tarde.
Eu nĂŁo sou uma pessoa difĂcil de se ter por perto. Eu sou uma pessoa que precisa de profundidade. Que cansa na superfĂcie. Que nĂŁo consegue fingir que uma conversa rasa tem o mesmo valor que uma conversa real. E talvez isso me faça parecer intensa, ou exigente, ou difĂcil de entender â mas eu prefiro isso a passar o resto do tempo me convencendo de que migalha Ă© banquete.
E aà fica a pergunta que não saiu da minha cabeça durante o resto do dia.
"Se eu jå sei que não é o meu lugar... por que ainda permaneço aqui?"
Eu fico me fazendo essa pergunta. E acho que a resposta tem a ver com carinho. Com vĂnculo. Com aquela parte teimosa da gente que insiste em acreditar que as coisas podem mudar, que as pessoas podem surpreender, que vale mais uma chance, mais uma tentativa, mais um pouco de paciĂȘncia.
Mas paciĂȘncia sem reciprocidade nĂŁo Ă© virtude. Ă desgaste lento.
E eu estou cansada de me desgastar.
NĂŁo estou dizendo que saio sem olhar pra trĂĄs, sem sentir nada, sem peso. Tenho carinho genuĂno. Tenho memĂłrias que importaram. Mas ter carinho por um lugar â ou por pessoas â nĂŁo significa que esse lugar faz bem pra mim. NĂŁo significa que eu preciso permanecer onde nĂŁo existe equilĂbrio, onde eu me sinto invisĂvel mesmo estando presente, onde a minha ausĂȘncia sĂł Ă© notada como falha e nunca como sinal de que algo nĂŁo estava funcionando.
EntĂŁo essa sexta-feira que era pra ser descanso virou, na verdade, um ponto de virada silencioso. NĂŁo tomei nenhuma decisĂŁo dramĂĄtica. NĂŁo mandei nenhuma mensagem. NĂŁo fiz nada de extraordinĂĄrio.
SĂł fiquei comigo mesma e deixei as coisas pousarem.
E o que pousou foi isso: eu preciso parar de me martirizar. Preciso parar de carregar culpas que nĂŁo sĂŁo minhas. Preciso aprender â de verdade, nĂŁo sĂł no reconhecimento â a ser tĂŁo gentil comigo mesma quanto eu sou com todo mundo ao redor.
E preciso, aos poucos, ir dizendo adeus a tudo que me esgota sem me preencher. Mesmo que doa. Mesmo que demore. Mesmo que eu sinta falta.


















