depois que se cresce, é estranho perceber que tudo o que escrevemos acaba sendo muito mais sobre nós mesmos do que exatamente para alguém.
sempre tive dificuldade em escrever sobre algo que não amor ou pelo menos esse sentimento muito específico de aperto pesado bem no meio da minha caixa torácica, que nasceu no dia em que eu descobri que nunca conheceria a xuxa e que minha analista chamou de devastação.
digo que ela chamou por licença poética. na verdade, ela é uma boa analista que jamais nomearia algo por mim, porque ela sabe que minha questão de dar nomes às coisas me atravessa por inteiro. fui eu quem nomeei de devastação. antes de estudar o conceito, já me pareceu tão familiar, já senti o furo da faca rasgando, abrindo e tirando essa dor de mim.
acontece que hoje me pergunto se consigo viver sem ela [a dor]. se o que me fazia companhia nas noites em que minha mãe saía e eu sabia que ou ela estava indo transar com algum outro homem que não meu pai ou indo para a casa de alguma amiga-vizinha-fofoqueira de quem ela estava extremamente próxima naquele momento e dali a algum tempo seria a pior pessoa do mundo era essa dor.
desde então ela [a dor] me acompanha nos amores que dou às mulheres que amei. todas, até minha mãe. todas, menos minha mulher, com quem casei e divido a vida e é um ponto fora da curva, fora do gráfico, é um ponto porque é um cometa distante desse sistema solar que concebi só pra tratar de mim. voltei a falar em estrelas, isso é voltar pra um lugar.
ela [minha mulher] sempre despertou em mim esse lugar de um amor novo que eu não conhecia e que ela me ensinou. mesmo depois que minhas tendências naturais me levaram a tentar corromper isso transformando em mais um amor-dor-no-peito, ainda consegui limpar e juntar toda essa sujeira em outro lugar, pra que eu possa continuar gozando fora.
gozando fora. "gozo" porque, sem nenhuma pretensão de rigor teórico em relação ao conceito psicanalítico, esse foi outro nome que dei ao amor-dor-na-alma que me fez companhia. porque me sentir amada se misturou a sentir que amo, que é o mesmo que sofrer e saber que sofrem por mim, que é o mesmo que doer e infringir dor, que é o mesmo que sentir falta e ter a falta sentida, que é o mesmo que comer e querer ser comida, consumir e ser consumida, queimar e pegar fogo.
não sabia ao certo se queria continuar esse texto falando com você, porque parecia tão bonito ter algo não endereçado, me dar licença pra falar de mim sem falar com alguém. alguém que é você que é esse lugar. esse lugar que eu volto, que não solto, que pertenço, que sinto no corpo, que a boca enche d'água, que me sinto vista, viva, desejada, devorada, engolida, fodida. mas, falar com você, agora, é a melhor forma de falar alguma coisa que me faça descobrir mais algo de mim. falar com você sempre foi falar de mim e me descobrir enquanto me mostro pra você. falar com você mais do que falo na minha análise e, portanto, saber o quando ainda me escondia de mim e dela [minha analista, que encarna todas essas mulheres que amo, desejo e temo].
lembro que quando criança queria morrer, fechava os olhos e pensava que se eu quisesse o bastante, meu corpo deveria responder. pedia pra Deus me levar, por favor. hoje percebo que minha mãe pedia a mesma coisa aos gritos. eu pedia em silêncio. Deus nunca nos respondeu. uma criança de 8 anos não deveria estar de olhos fechados pedindo pra morrer, nem uma mulher de 35.
até hoje quando fecho os olhos não consigo me ver. a imagem de mim, do meu corpo, do meu cabelo, são inexatas, são distorcidas, estremecidas, menores, maiores. não ser bonita não vai me fazer ser desejada. e aí como posso criar as relações que preciso pra me manter nesse lugar? você tem razão, eu não sei fazer laços que não sejam sexuais. preciso ser desejada, preciso da tensão, não preciso da concretização. isso me alimenta, me dá sentido, me dá de volta esse lugar que busco incessantemente. e nunca falei disso pra ninguém que não você porque não quero estar a mercê do julgamento de alguém que pode não me achar bonita. não sei se você acha, por isso enlouqueço.
tenho uma analisante com uma clareza de vida e mente que só 41 anos e muitas coisas vividas poderiam oferecer, que diz com consciência do ridículo que o sonho dela é ser bonita. ela fala e ri. eu rio também. rio como analista, mas rio porque também é o meu sonho. ela é linda, diga-se de passagem. mas não é padrão. e parece inassimilável não ser bonita se não é bonita pra TODO MUNDO.
obrigada por me facilitar chegar nessa merda toda. precisei dos 8 anos de análise anteriores pra não colapsar uma vez que cheguei a tudo isso. foi um prazer fazer sintoma com você. mas, de novo, você tem razão, existe um esforço muito consciente meu e seu [assim, separadamente] de não fazer essa parceria, de não gozar junto. só que, do fundo do lixo, do resto da minha fantasia, me satisfaz saber que você faria sintoma comigo se não se esforçasse. isso quer dizer que dei a volta e consegui burlar? ou só que posso ter essa como a última conquista até ter que dar conta disso tudo e abrir mão de vez?
existe uma última parte do ciclo de todas as vezes que tenho tentado nas últimas 24 horas não fazer com você que é: uma vez que consigo saber do tamanho que tenho pra essas mulheres, deixo. saio, vou embora, quero fazer falta, saudade, dor. machuco, deixo elas sangrando, quase como premeditado. aí me sinto amada. quando dói nelas a dor que dói em mim.
não tinha me dado conta até agora. como de costume, até falar pra você. amanhã tenho análise às 17h.















