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Insolúvel
É curioso como, por vezes, o coração se engana nas veredas do afeto, como se um manto de bruma envolvesse nossos sentidos. Acreditei, por um instante que fosse, que havia calor nas mãos que me tocavam, que seus olhos repousavam em mim com um misto de ternura e desejo.
Ledo engano.
O amor que pensei ver desabrochar se revelou um espelho invertido, onde o reflexo era apenas o dele. Um narciso, que se nutre da própria imagem e do prazer cruel de ver-me despetalar, como flor sem primavera. Não sou vista, sou palco para sua vaidade, figurante no teatro de sua maldade velada.
E, no entanto, como dói ainda a ausência do que jamais tive. Uma ausência que, em vez de cicatriz, é ferida aberta, sangrando à sombra de momentos de calma fugaz. Nessas raras horas, confundo a trégua com a amizade, a superficialidade com a intimidade. Mas basta um olhar mais atento para ver que nada há ali, senão um abismo onde me perco, tentando encontrar em suas palavras alguma centelha de compaixão. Ao contrário, é a minha dor que o ilumina, a minha queda que o faz erguer-se mais altivo, enquanto me vejo esmagada pelo peso de um amor que jamais existiu.
Riquelme
Eu queria mesmo que você estivesse a algumas quadras ou andares de distância. A um toque incessante de interfone. Tudo parecia tão mais fácil e feliz! E verdadeiro. E íntimo. E real.
Eu estou bem triste agora. Há algum tempo, na verdade. Mas hoje isso me atropelou, porque tive que tomar a decisão que eu já deveria ter tomado.
Bem que dizem que quanto mais se adia, pior fica.
Dueto
Descobri o porquê de a gente brigar tanto.
Consultei a numerologia e o dia 30 não está alinhado com o nosso mapa astral. Os cosmos não aprovaram e a simbologia não nos favorece.
Ao contrário do dia 7, que resplandece toda a glória e a majestade da perfeição. O dia 7 ainda alcança as minhas mais profundas e inacessíveis memórias, me disparando o desejo de te felicitar nesse dia a cada mês.
À propósito: Feliz dia 7!
P.S considere me pedir em namoro novamente, para corrigir esse erro místico.

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Cotidiano
Olhar de ternura,
Sorriso que festeja,
Mãos que se abrem,
Corpo que se entrega,
Pés que procuram.
Abraço que embala,
Afago que acalenta,
Palavra que motiva...
Alma que se eleva!
O custo do equívoco
É estranho como nos apegamos ao erro, como se o simples fato de termos investido tempo e esforço pudesse torná-lo certo.
“O erro acumulado é o motivo maior do erro continuado.”
Preciso repetir devagar para refletir:
“O erro acumulado é o motivo maior do erro continuado.”
A verdade é que insistir num erro dá uma certa sensação de coerência. Pensamos: “Se desisto agora, tudo o que fiz até aqui foi em vão”.
É como o jogador que, tendo perdido tudo, aposta mais uma vez, não pela certeza do acerto, mas pela recusa em aceitar a derrota. E assim adiamos a decisão, presos à ilusão de que, por termos suportado até aqui, seremos de algum modo recompensados.
No fim, a gente só está prolongando o inevitável, como quem continua lendo um livro ruim só porque já chegou na metade.
Preferimos seguir, ainda que o desfecho seja doloroso, a encarar a verdade de que erramos desde o início.
Fim ou começo?
O sexo foi feito para acabar. Mesmo o dito tântrico só atinge seu objetivo quando termina. O orgasmo, o gozo: ele vem trazendo o êxtase, ao mesmo tempo em que avisa que o sexo acabou. E assim é desfrutado em sua totalidade: quando termina.
O sexo foi feito para acabar. O amor, não. Ele inicia no olhar interessado, no contato diário. Se desenvolve na rotina, perdura na dificuldade, se fortalece nas idiossincrasias e reinicia nas escolhas.
O amor é quando se tem muito para falar e quer falar: sem receios, sem reservas, sem rodeios. É quando não se quer falar com as palavras, mas só com a companhia, só com as contemplação de algo em comum. É quando se tem sintonia no silêncio. É quando se percebe ser notado, mesmo no escuro. É não estar só, ainda que sozinho. É estar junto, ainda que longe.
Só tenta.
2024 já se despedia quando a visita inesperada chegou. Foi como ancorar em águas calmas, depois de dias enfrentando tempestades.
Com ela, é como se o mundo parasse pra respirar. O barulho da vida se aquieta, o peso dos dias se espanta, e o que fica é só o essencial: aquele riso bom, aquela conversa que vai do sério ao besteirol, e um silêncio que não machuca. Parece coisa simples, mas não é.
Porque o mais bonito mesmo é o jeito que ela tem de me devolver a mim. Me vejo pelos olhos dela e descubro uma versão minha que eu gosto mais. É como se, naquele reflexo, eu finalmente enxergasse um mapa que sempre esteve ali, mas que eu nunca soube ler direito.
E então, o que antes parecia disperso ganha sentido. O caminho diante de mim se torna claro, como se o tempo tivesse, por fim, nos guiado ao mesmo ponto.
Amar, verbo reflexivo
Era uma daquelas frases que não chegam a ser ditas; elas são cuspidas, jogadas ao meio de uma discussão como se fossem uma granada. “Você é muito difícil de ser amada” não é algo que se joga ao vento esperando que caia como uma folha morta. É o tipo de coisa que se atira como uma faca, sabendo exatamente onde vai atingir. Não era descuido; era pontaria.
No começo, era quase um clichê romântico: flores exuberantes, jantares pagos com o entusiasmo de um mecenas apaixonado, palavras doces ditas no tom certo. Um amante à primeira vista perfeito, o tipo que faria inveja a qualquer personagem de comédia romântica.
Mas clichês são como trânsitos em horóscopo: nunca duram muito. As flores continuaram chegando, mas agora vinham acompanhadas de espinhos invisíveis, com o aroma estranho da manipulação.
Os jantares pagos vinham com recibos emocionais: “Lembre-se de quem fez isso por você”. E os olhos, ah, os olhos, agora estavam atentos, calculistas, procurando fraquezas para usar na próxima cena.
E então veio a frase.
“Você é muito difícil de ser amada” não era apenas uma frase; era uma arma. Disfarçada de sinceridade, mas repleta de crueldade, ela buscava desestabilizar, colocar em xeque tudo que ela acreditava sobre si mesma. Ele repetiu com aquele tom quase teatral, misturando sarcasmo e falsa convicção, como quem diz: “Eu apenas digo o que todos pensam, mas ninguém tem coragem de falar”. Quando questionado, ele recuou, é claro — mas apenas para, minutos depois, repetir tudo com mais vigor. Era sua estratégia: atacar, recuar, atacar de novo. Como um jogador de xadrez movendo uma peça para evitar um xeque-mate, mas sem jamais abandonar a partida.
E o mais curioso é que, ao dizer que ela era difícil de ser amada, ele inadvertidamente revelava algo sobre si mesmo: ele não sabia amar. O que ele sabia fazer era encenar. Sua vida era um grande palco, e ele estava sempre no papel principal, colecionando aplausos imaginários enquanto deixava para trás uma trilha de destroços emocionais. Ele não era um romântico; era um camaleão que se moldava a cada cenário, mas cuja essência permanecia a mesma: vaidade e dissimulação.
No fim, ela percebeu que não era difícil de ser amada. Difícil era encontrar alguém que soubesse amar de verdade — sem um espelho por perto para admirar a própria performance. Porque, sejamos honestos, quando o padrão de amor do outro é ele mesmo, qualquer relação se torna uma missão impossível.

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