O primeiro filme de Martin McDonagh que vi
Eu comecei a me interessar pela obra de Martin McDonagh quando meu colega de classe decidiu que íamos apresentar um trecho da peça “The Hungman” para nossa aula de inglês. Enquanto nós estudávamos o texto eu fui me apaixonando pela forma de escrever deste dramaturgo inglês que usa de um humor ácido para representar a violência de forma cotidiana.
Quando fui pesquisar mais sobre ele, descobri que também era autor de “O Homem Travesseiro”, um sucesso do teatro contemporâneo que rendeu a Martin várias premiações e que por sorte, anos atrás, eu havia assistido no Teatro Parlapatões ao espetáculo montado para este texto que me marcou muito pela dramaturgia e pela forma sombria que o diretor escolheu apresentar na montagem. Pronto! Eu já tinha mais um motivo para amar este escritor que fazia me lembrar a todo momento daquela história complexa e cheia de reviravoltas que eu vi em cima de um palco e que usava como elementos cênicos apenas algumas cadeiras, mas que pela riqueza de texto fez minha mente viajar até o mais profundo do ser humano.
Eu queria ler todas suas peças, mas não encontrei pelo submundo da internet, muito menos para comprar aqui na distante Moscou, onde moro. Mas McDonagh, sendo brilhante como é, não concentrou seu talento escrevendo apenas para o teatro e diversos filmes foram assinados por ele. Dentre eles “In Bruges” que também foi dirigido por este insano.
Tudo começa quando uma dupla de assassinos de aluguel foram mandados para a pequena cidade no litoral belga depois de concluir um serviço que custou mais caro que a vida pela qual um deles foi contratado para tirar. Ray estava furioso por ter que passar duas semanas ali naquele fim de mundo, ou buraco de merda, como ele gostava de chamar, enquanto Ken estava tentando curtir as férias forçadas que ele foi obrigado a tirar ao lado de seu colega. Mas tudo começa ficar mais divertido para ele quando ele conhece Cloe, uma linda local que estava trabalhando no produção de um filme que estava sendo gravado no centro da cidade. Para que Ray ele pudesse ir ao jantar planejado com a moça, ele precisou convencer a Ken que o deixasse sair à noite ao invés de esperar a ligação de Harry, o chefe deles, que os incumbiu de esperar sua chamada para dizer o que realmente estavam fazendo ali. Como apenas um deles era necessário para saber o que Harry queria, Ken concorda em deixar o colega livre para passear com sua pretendente com uma condição, que no dia seguinte os dois fizessem uma excursão pelos lugares que Ken queria sem escutar as reclamações de Ray. Durante o passeio, descobrimos que o assassinato ao qual Ray foi incumbido estava o torturando psicologicamente pela conclusão dramática que se sucedeu: o tiro que era dedicado ao alvo, matou também um menino inocente.
Não importa o quanto a dor que Ray sente por matar um garotinho seja dura, ele tem um encontro e mulheres valem mais a pena do que qualquer drama acontecendo ali dentro de sua cabeça. Eles se encontram em um restaurante e enquanto Cloe vai ao banheiro, ele briga com o casal da mesa ao lado, espancando tanto o homem quanto a mulher ao ponto de deixá-los no chão e então eles saem do restaurante. Cloe, que já havia confessado a Ray que era uma traficante de drogas fica ainda mais instigada pela personalidade de Ray e o convida para sua casa. Enquanto isso, Ken recebe a ligação de Harry, que o incumbe de assassinar Ray, pela falta cometida durante o crime, que seria o seu primeiro trabalho como assassino. Já no apartamento de Cloe, enquanto eles estão numa pegação muito forte, um cara que se diz namorado de Cloe chega no apartamento com uma arma ameaçando Ray. Muito hábil, ele desarma o cara enquanto a garota se explica, dizendo que ele é seu ex, e que ela seduz turistas para seu apartamento para que o casal os roubem, mas que ela de fato gostou de Ray e que não era a intenção roubá-lo, ela também assume que a arma está carregada com balas falsas apenas para assustar. O ex namorado de Cloe tenta agredir Ray, que em defesa, atira na cara dele com as balas falsas, machucando seus olhos. Cloe corre para o hospital para ajudar seu ex, mas pede que Ray a espere, pois ela gostou dele. Enquanto ele espera no apartamento, ele encontra as drogas que ela vende. Já no bar, pensando que vai ter que matar seu amigo, encontra o anão que trabalha no filme que está sendo rodado em Bruges, e os dois socializam, logo em seguida chega Ray e convida a todos para usar as drogas encontradas.
Depois de uma noite intensa, Ray acorda depois que seu amigo já tinha saído para encontrar Yuri, o responsável por entregar a arma que ele vai usar para o assassinato. Então ele vai para o parque e Ken, que já estava planejando matar o colega ali mesmo, chega no momento em que Ray coloca a arma roubada do ex namorado de Cloe em sua própria cabeça, mas dessa vez com balas verdadeiras, para se matar. Ken, compadecido pela cena, salva o colega e o convence a não se matar, também desistindo de cumprir o serviço. Ele despacha Ray num trem para qualquer outro lugar da Europa, onde ele deveria começar uma vida nova. Liga para Harry, conta o ocorrido e Harry, furioso com o ocorrido promete a Ken que se ele não matasse Ray, quem iria morrer era Ken, que o responde dizendo que estaria em Bruges esperando para ser morto. Então Harry decide ir a Bruges matar a Ken com suas próprias mãos.
Durante a viagem de trem em que Ray fugiria para sua vida nova, a polícia impede a continuidade em busca do irlandês, que bateu nos canadenses no restaurante em Bruges. Eles encontram Ray, e os levam de volta para a cidadezinha belga. Cloe, que realmente tinha gostado dele, o resgata na prisão e logo em seguida Harry chega na cidade. Agora estão todos eles em Bruges, Harry desejando vingança contra o funcionário displicente, Ken esperando por sua morte, e Ray desejando uma vida nova com sua mais nova paixão. E assim toda a trama está enredada para chegar no seu clímax.
Em Bruges é um filme cheio de diálogos inteligentes, que mostra toda a característica do autor inglês e sua forma de enxergar os europeus e os americanos, sua montagem é linear, apesar do flashback que mostra os detalhes do crime cometido por Ray. A captura rápida das imagens, com muita movimentação de câmera, cria uma sensação de dinamismo, mesmo que o filme seja mais baseado na conversa dos personagens. Em qual gênero caracterizar este filme? Esta é uma boa pergunta, já que a comédia está presente em todo momento, mesmo que sejam nas piadas racistas e xenófobas, o drama também se faz presente ao mostrar o sofrimento de um assassino que matou uma criança, mas talvez seja a ação que caracterize a obra, mesmo que muito pontuada. O trabalho de diretor também foi feito com excelência, escolhendo atores muito excelentes para os papéis, uma trilha sonora muito envolvente e enquadramentos que exploram muito bem a cidade, sem deixar parecendo um programa de viagens.
Além de indicar este filme, sugiro ainda as outras obras de Martin McDonagh citadas aqui neste texto. Enjoy!