Continuo espantada com o fato de haver tanta produção de textos feministas mas de somente uma parte muito pequena da teoria feminista procurar falar com mulheres, homens e crianças a respeito de como podemos transformar nossa vida mediante uma conversão à prática feminista. Onde encontrar um corpo teórico feminista cujo objetivo seja ajudar os indivíduos a integrar o pensamento e a prática feministas em sua vida cotidiana? Que teoria feminista, por exemplo, tem o objetivo de auxiliar os esforços das mulheres que vivem em lares sexistas para produzir uma mudança feminista?
Sabemos que, nos Estados Unidos, muitos indivíduos usaram o pensamento feminista para educar-se de um modo que lhes permitiu transformar sua vida. Costumo criticar o feminismo baseado num estilo de vida determinado, pois temo que qualquer processo de transformação feminista que busque mudar a sociedade seja facilmente cooptado se não estiver radicado num compromisso político com um movimento feminista de massas. No patriarcado capitalista da supremacia branca, já assistimos à mercantilização do pensamento feminista (assim como assistimos à mercantilização da negritude) de um jeito tal que dá a impressão de que alguém pode participar do 'bem' que esses movimentos produzem sem ter de se comprometer com uma política e uma prática transformadoras. Nesta cultura capitalista, o feminismo e a teoria feminista rapidamente se transformam numa mercadoria que só os privilegiados podem comprar. Esse processo de mercantilização é perturbado e subvertido quando, na qualidade de ativistas feministas, afirmamos nosso compromisso com um movimento feminista politizado e revolucionário que tem como objetivo central a transformação da sociedade. Desse ponto de partida, automaticamente pensamos em criar uma teoria que fale com o público mais amplo possível. Já escrevi em outros textos, e disse em inúmeras palestras e conversas, que minhas decisões sobre o estilo de redação, o fato de eu não usar os formatos acadêmicos convencionais, são decisões políticas motivadas pelo desejo de incluir, de alcançar tantos leitores quanto possível no maior número possível de situações. Essa decisão teve consequências positivas e negativas. Os estudantes de várias instituições acadêmicas reclamam que não podem incluir minhas obras como leituras obrigatórias para os exames de conclusão de curso porque seus professores não as consideram suficientemente eruditas. Todos nós que criamos teorias e escritos feministas num ambiente acadêmico onde somos continuamente avaliadas sabemos que os textos considerados 'não eruditos' e 'não teóricos' podem nos impedir de receber o reconhecimento e a consideração que merecemos.
Mas, na minha vida, essas reações negativas parecem insignificantes em comparação com as reações maciçamente positivas à minha obra tanto dentro quanto fora da academia. Há pouco tempo, recebi uma série de cartas de presidiários negros que leram meus livros e queriam me dizer que estão trabalhando para desaprender o sexismo. Numa carta, o escritor se gabou, afetuosamente, de ter transformado meu nome numa 'palavra que todos conhecem na penitenciária'. Esses homens falam de uma reflexão crítica solidária, de usar essa obra feminista para compreender as implicações do patriarcado como força que molda sua identidade e sua ideia de masculinidade. Depois de receber uma poderosa resposta crítica de um desses homens negros ao meu livro Yearning: Race, Gender and Cultural Politics, fechei os olhos e tentei visualizar essa obra sendo lida, estudada e comentada num ambiente de penitenciária. Uma vez que o ambiente que mais me fez comentários críticos sobre o estudo da minha obra é geralmente acadêmico, partilho esse fato com vocês não para me vangloriar nem por falta de modéstia, mas para testemunhar, para que vocês saibam a partir da minha experiência pessoal que toda a nossa teoria feminista que tem o objetivo de transformar a consciência, que realmente quer falar com um público diversificado, funciona: não é uma fantasia ingênua.