Acordou. Um sĂșbito movimento do ĂŽnibus o acordou. A chuva caia, a mesma que caia quando ele dormiu. VĂĄrias luzes vermelhas Ă sua frente, as mesmas que estavam lĂĄ quando ele dormiu.
"Where diiiiid your long hair go" cantava Brian Wilson nos seus fones de ouvido. "Esse Ă© um bom disco." pensou ele. NĂŁo conseguia se lembrar em que mĂșsica tinha dormido. Passou por um pequeno sentimento de culpa por ter dormido durante um dos seus discos favoritos, resolveu o escutar de novo. "Esse Ă© um bom disco." pensou de novo. Dessa vez, o pensamento o levou pra longe, mais longe de onde o ĂŽnibus em que ele se encontrava jamais sonharia em levar - mesmo num mundo sem luzes vermelhas para bloquear o caminho.
Cinco anos atrĂĄs, Starbucks da Haddock lobo, ele estava mexendo em seu celular. Tinha acabado de voltar da sua aula de bateria, estava com tempo livre, entĂŁo resolveu tomar um frapuccino antes de voltar pra casa. Tomou o frapuccino como se fosse o Ășltimo, gostava de fazer as coisas assim, sem pressa, com calma, gostava de jogar tempo fora. Enquanto deliciava sua bebida, leu um capĂtulo de Caçando Carneiros, do Haruki Murakami, e depois foi dar uma olhada no Twitter e no Facebook, pensou em ler um pouco de Dom Casmurro, mas deixou pra lĂĄ.
Nesse dia, resolveu sair com uma de suas camisetas de mĂșsica, algo que era rotineiro, porĂ©m, ele gostava. Escolheu sua camiseta do Pet Sounds, que ele havia ganhado do seu pai. NĂŁo era muito fĂŁ dos Beach Boys, havia escutado o Pet Sounds umas duas vezes, mas nĂŁo gostava dele, sentia falta de guitarras altas. Mas, resolveu usar a camiseta daquele disco naquele dia, mesmo com a culpa de se sentir um pouco poser.
"Esse é um bom disco." disse uma garota, à sua frente, também com um frappuccino. A garota era um pouco mais baixa que ele, estava com um vestido de bolinhas vermelhas num fundo branco, um laço (também vermelho) apertava o vestido à sua cintura, o vestido ia até um pouco antes do joelho. Ela tinha belas pernas. A cor da sua pele era branca, mas não muito. Ela tinha seios bonitos, de um tamanho perfeito. A alça do seu sutiã cruzava com a alça do vestido. Ela usava uma franja e tinha cabelos longos. Na alça da bolsa dela haviam bottoms de diversas coisas, de Arctic Monkeys a Pulp Fiction.
â Ă verdade â disse ele, apĂłs concluir suas observaçÔes da aparĂȘncia da garota. â Apesar de nĂŁo gostar muito dele, tenho que reconhecer que ele Ă© bom.
â Se nĂŁo gosta dele, por que estĂĄ usando uma camiseta dele?!
â Na verdade, eu nĂŁo sei. Apenas senti vontade de usĂĄ-la hoje. Belo bottom, esse de Hellcat Spangled Sha-la-la-la; Ă© uma boa mĂșsica, me lembra Beatles.
â VocĂȘ gosta de Beatles? Sabia que o Pet Sounds influĂȘnciou o Sgt. Peppers?
â Acho que li algo sobre isso uma vez.
â Hm. â Murmurou ela, pontuando a conversa. Um breve porĂ©m longo momento de cinco segundos seguiu a conversa. Durante o longo porĂ©m breve momento, os dois pareciam se encarar, olhavam fixamente uns nĂłs olhos dos outros.
â Escuta, â disse ela, fazendo um novo parĂĄgrafo. â Posso me sentar nessa cadeira? Aqui estĂĄ meio lotado e nĂŁo sei onde mais eu sentaria.
O coração dele acelerou por um momento. â Claro que pode, deixa eu tirar essa mochila dela.
Ela se sentou, eles voltaram a se olhar sem dizer nada. Ficaram assim por quase um minuto.
â O que faz por aqui? â Ele disse.
â Preciso encontrar uma amiga, vamos para um bar na Augusta daqui a pouco.
â Ainda nĂŁo decidimos entre o Violeta e o Charm.
â Entendi. EntĂŁo, vocĂȘ gosta de Beach Boys, Beatles, e Arctic Monkeys?
â Sim, senhor, algumas das minhas bandas favoritas.
â Me parece um bom gosto musical.
â Concordo. E vocĂȘ, alĂ©m de Beatles e Arctic Monkeys, do que mais gosta?
â Led Zeppelin, Nirvana, Foo Fighters, as carreiras solo dos Beatles, do Elvis. TambĂ©m curto Raul Seixas e umas bandas novas, daqui do Brasil, tipo O Terno e Selvagens Ă Procura de Lei.
â O Terno Ă© bem legal! Fui no show deles no Centro Cultural Vergueiro.
â Eu tambĂ©m fui! NĂŁo me lembro de de vocĂȘ lĂĄ.
â Nem eu de vocĂȘ. â Ela sorriu por um breve momento, ele respondeu com outro sorriso. â Me desculpa, interrompi sua lista de gosto musical.
â Hahaha, sem problemas, Ă© melhor eu deixar pra lĂĄ, afinal posso continuar a lista por um bom tempo, talvez atĂ© eternamente, me faltaria saliva e te faltariam ouvidos!
â Que exagero! Sabe, tambĂ©m gosto de bastante coisa, acho que isso Ă© bom.
O celular dela emitiu um som, ela o pegou.
â Ei, minha amiga estĂĄ lĂĄ embaixo, vou descer pra encontrar ela.
â Gostei de vocĂȘ. VocĂȘ quer meu nĂșmero de celular? AĂ a gente marca de sair, outro diaâŠ
Eles trocaram nĂșmeros. Ela foi embora. Pouco depois, ele tambĂ©m foi. Dentro do ĂŽnibus ele mandou uma mensagem pro WhatsApp dela, dizendo que estava escutando o Pet Sounds. A resposta nĂŁo foi imediata, bateu nele uma momentĂąnea tristeza, ele guardou o celular no bolso. Ele vibrou. Ele abriu a mensagem, sem nem ler a notificação.
â UĂ©, vocĂȘ tem ele no seu iPhone? Achei que vocĂȘ nĂŁo gostava dele!
â TambĂ©m nĂŁo sei porque o tenho, hahaha.
Cinco anos depois, um outro iPhone - mais moderno - vibrou, interrompeu o seu sonho nostĂĄlgico. Era uma notificação do WhatsApp, mas nĂŁo era uma mensagem dela. Ela jĂĄ nem devia ter seu nĂșmero, ele ainda guardava o dela.
Sloop John B. tocava no seu fone de ouvido. Ele lembrou das vĂĄrias vezes que escutou esse disco. Ele lembrou da terceira vez.
A chuva caia, as luzes vermelhas ainda estavam lĂĄ. O ĂŽnibus chegou num ponto e abriu as portas.
Ele sentiu uma lĂĄgrima cair dentro dele.
"Esse é um bom disco.", pensou ele.  Decidiu descer naquele ponto e fazer o resto do trajeto a pé.