Devorava-o uma paixão, a mais profunda, a mais insaciável, que absorve toda a vida de um homem e, a criaturas como Ordínov, não concede um canto que seja na outra esfera, a da atividade prática, cotidiana. Essa paixão era… a ciência. Ela vinha até agora corroendo sua juventude, como um veneno inebriante, de efeito lento, intoxicava sua paz noturna, subtraía- lhe o alimento sadio e o ar fresco, que não penetrava nunca em seu canto sufocante, mas Ordínov, na embriaguez de sua paixão, não queria se dar conta disso. Ele era jovem e até esse momento não necessitava de mais nada. Essa paixão o havia transformado numa verdadeira criança perante o mundo exterior e já para sempre incapaz de se impor a outras pessoas de bem, quando se fizesse necessário demarcar para si ao menos um cantinho entre elas. Nas mãos de pessoas hábeis, a ciência é um capital; a paixão de Ordínov era como uma arma apontada para ele mesmo. (Fiódor Dostoiévski)










