Ao sentir seu corpo colidindo com o do rapaz, que a impedira de cair em direção ao chão, agarrou-se a mão que agora segurava sua cintura, como se ela fosse a única prova concreta de que não perderia completamente sua consciência. Tudo está resolvido. Aquela frase ressoava em sua cabeça, e novamente um nó começava a surgir em sua garganta. Mas ela resistiria, não se renderia a sua vontade de chorar. Após o pico de adrenalina que acabara de experienciar, era de se esperar que aquela sensação a acometesse. Após o poder que sentira em suas próprias mãos e reverberando por todo o seu corpo, agora parecia ter sido puxada de volta para o mundo real, o que a fazia perceber que, na verdade, nada de fato havia sido resolvido. Por algum motivo desejava que aquelas asas fossem destruídas, que o lembrete de sua perda não permanecesse no mesmo plano que ela. Mas aquilo não traria Lukas de volta para sua vida, e aquela realização a entristecia. — Me… me desculpe. — Balbuciou, ainda sentindo-se fraca e incerta sobre aquele seu pedido de perdão. A última coisa que desejava era envolver qualquer pessoa em seus problemas, perder seu autocontrole ao ponto de outras pessoas enxergarem seu lado que esforçava-se para esconder de todos, inclusive de si mesma.
O homem não havia lhe feito perguntas e muito menos tentara a impedir de fazer aquilo, ao invés disso não hesitara em se unir a ela e a ajudar a realizar seu desejo. Não podia evitar perguntar-se o motivo para tal atitude. Talvez, por terem a mesma origem, o rapaz se sentisse na obrigação de ajudá-la. Ou ela os conectasse de alguma maneira. Ou talvez aquela fosse apenas uma característica pessoal do híbrido. Mas, independente de seus motivos, sentia-se grata. Era reconfortante saber que não estava sozinha. Não sabia o que poderia acontecer caso se encontrasse ali naquelas condições. Possivelmente, acabaria destruindo a si mesma tentando eliminar aquelas evidências.
Sentia-se tola e frágil, características que abominava. Detestava prestar-se ao papel de donzela em perigo. Imaginava que um guerreiro como a Drako a via de maneira ainda pior. Contudo, não se apegaria àquele sentimento, afinal não estava ali para impressionar ninguém, aquele nunca havia sido seu propósito. Seguindo sua indicação, respirava fundo, tentando retomar o ritmo de sua respiração. Sentiu o toque em seu rosto, e logo percebia quais eram suas intenções com aquilo. Como fios prateados penetrando seu corpo, ela podia sentir sua vitalidade sendo transferida, resultando na normalidade de seus batimentos cardíacos e a velocidade com a qual o oxigênio adentrava seus pulmões. Logo já era capaz de manter-se sobre os seus pés novamente, e com exceção de seu estado emocional, era como se nada grandioso tivesse acontecido ali. Sem soltar de sua mão, afastou-se do rapaz, virando-se de frente para ele. — Seu… Seu cachorro está bem? — Disse em um tom de voz baixo, enquanto abria seus olhos – que agora já haviam readquirido sua coloração azul – para encará-lo diretamente nos seus. Sua pergunta se mostrava característica da mulher, demonstrando a parte de sua personalidade que mais a agradava, seu humor. Sabia que o animal não havia sido tocado pelas chamas, se certificara de que ninguém se machucaria. Aquela era apenas sua maneira de dizer que estava tudo bem consigo, que ainda preocupava-se com o bem-estar de ambos e que não sabia ao certo o que fazer agora que haviam compartilhado um momento tão distinto.
O franzir de seu cenho fora inevitável, ao ouvir o pedido de desculpa da loira, não entendia o significado daquilo, ela não tinha motivos para se desculpar, pelo menos não motivos aparentes, mas com certeza existia ali, algo além do entendimento de Drako, porém não fazia muita questão de saber, não naquele momento, estava mais preocupado na saúde alheia do que em qualquer tipo de explicação, na verdade, existia a chance de sequer questioná-la sobre isso, não pretendia entrar em assuntos tão pessoais. Se ele não tinha muito gosto por falar sobre sua vida, acreditava que os outros podiam ter o mesmo desejo de não divagar sobre as suas. E com um movimento sutil com a cabeça, assentiu ao seu pedido de perdão. Na realidade, sentia que ele é quem devia pedir desculpas, de certa forma, se não fosse por Noxsidus, eles não estariam ali.
Enfim deixou que a mulher se equilibrasse sozinha, novamente. Um riso saíra abafado dentre seus lábios, ela estava preocupada com o cachorro, com certeza não era uma pessoa normal, ela estava, a cada segundo, o cativando de uma forma um tanto indesejável, mas não podia negar que parecia ser interessante experimentar coisas novas. --- É, ele está bem, mas assim como eu, deve estar preocupado com você. --- ficou em silêncio por alguns segundos, para que pudesse sentir a presença de seu fiel companheiro no andar inferior, sim ele estava muito bem, não que tivesse dúvidas sobre isso, mas confirmar não seria nada demais.
Seus olhos iam de encontro com os belos olhos azuis da híbrida, podendo sentir que ela estava bem, ao menos fisicamente. Manteve sua mão junto a dela por mais alguns segundos, até ter certeza que ela conseguiria se manter de pé sem nenhuma ajuda, logo soltando-a, em um movimento um tanto brusco. Engoliu em seco. Sentia sua mão, que segundos atrás, estava junto a dela, começar a tremer de forma instável, não sabia dizer se a situação, a proximidade, o levou a ficar de tal forma, ou fora, apenas, a utilização discriminada de seus poderes, que ficaram guardados por quase cinco anos. Talvez ele estivesse fraco e não se importasse, seu corpo buscava algumas formas de dizer isso a ele, mas o moreno negava-se a aceitar. --- Você parece bem... --- comentou, tentando disfarçar um pouco deu constrangimento com toda aquela tensão que se instaurava no ar. --- ...mas deveria descansar. --- completava, mas não só dizendo aquilo para a loira, mas para ele, tinha que recuperar os poderes perdidos. Por mais que tivera feito pouca coisa, teve que dividir a própria vitalidade com a mais nova, além de que transmitir poder entre corpos não era algo muito saudável. Em um ato despretensioso e automático, levou, novamente, uma das mãos até o rosto alheio, tirando os fios dourados de cabelo que tampavam parte do rosto de Astrid e colocando-os atrás de uma das orelhas da menor. --- É melhor sairmos daqui. --- sem dúvidas, aquele lugar não estava fazendo bem para eles.