Julia Margaret Cameron, two versions of ‘Too late! Too late!’, 1868
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carta para a criança que vive em mim.
Ei. Você sempre imagina como seria um diálogo com seu “eu” do futuro, não é? Pois agora eu estou aqui, quase 20 anos depois, tentando me conectar com você, cada dia mais. De repente, isso se mostrou importante. Por muitos motivos que depois eu te explico. Mas eu nunca deixei de pensar em você, sabia? Por exemplo, agora mesmo estou lembrando de quando saiu uma música que você ama, Lugar ao Sol, do Charlie Brown Jr, que naquele dia tocou de hora em hora nas rádios.
[Que engraçado, precisar ficar ouvindo a rádio o dia inteiro esperando sua música favorita tocar. Hoje a gente não faz mais isso, mas isso é história pra outro dia]
Enfim, nessa cena banal que não me saiu da cabeça, você estava no sofá vermelho da sala, com seu walkman, ouvindo Lugar ao Sol. Naquela altura do dia já tinha decorado a letra inteira, afinal, tocava de hora em hora, né? E você não tinha mais nada pra fazer, só contemplar a vida, porque você era criança (e também porque era domingo). Você cantava (ou gritava, já que estava de fone) aquela letra:
“irmãos do mesmo Cristo, quero e não desisto”.
Aí a Dani apareceu na sala e perguntou “uai menina, cê tá ouvindo música gospel?” Hahaha, não, era Charlie Brown Jr ué, não tinha nada de gospel. Mas aquela música falava de Pai, casa de Deus, paredes azuis, céu. Lembrei disso porque agora estou aqui, tantos anos depois, ouvindo essa mesma música em um fone bluetooth (longa história, depois te explico). As coisas mudaram muito de lá pra cá. Não vou entrar em detalhes pra não estragar o final, você deve sentir cada etapa, boa ou ruim, porque elas foram importantes e moldaram quem você é hoje.
[É, eu sei que você, quando imaginava essa conversa, já ficava morrendo de raiva só de pensar que eu poderia te dar uma resposta evasiva assim, “não vou entrar em detalhes”. Mas que diabos? Pois é. De certa forma você adivinhou que eu viraria essa pessoa, mas isso faz parte de crescer. (Sim, você também consideraria essa frase aí um clichê). Mas a gente vai aprendendo a abraçar os clichês também.]
Beleza, agora vamos ao que (te) interessa: você cresceu (não muito), continua achando divertindo pintar os cabelos quando tem vontade de mudar, tem a sorte de contar com amigas maravilhosas na sua vida e você realizou alguns sonhos que nem imaginava ser capaz! Você não conseguiu estudar em uma escola particular, muito menos trabalhar na MTV, mas conseguiu entrar em faculdade federal, conseguiu bolsa em uma particular, fez mestrado. Sim. Você virou “mestra” Hahaha. Até hoje rio desse título piegas pra caralho, o que mostra que você (ou a minha visão infantil) ainda vive em mim. Você continua “vendo o mundo com os olhos de criança”, afinal.
Essas conquistas são suas, mas agradeça ao Lula, viu? Não era você que gostava tanto quando ele falava na TV que, quando tinha eleição pra presidente, ia lá pra urna com sua mãe certificar que ela realmente estava “apertando o 13”? Pois é, o Lula virou presidente (e se Deus quiser, vai virar de novo). 🙏
(Isso aí em cima é um emoji. Outra longa história)
Enfim, vamos falar de amor, porque sei que isso pra você é muito importante (eu sei lá porque, já que você é só uma menina). Mas hoje você sabe que o amor tem muito mais a ver com companheirismo do que com casamento de princesa com véu e grinalda. Você tem um namorado lindo (em vários sentidos) que também é seu melhor amigo. Vocês estão construindo um lar juntos. “O amor é assim… é a paz de Deus em sua casa”. Não à toa, hoje sua casa é o seu lugar favorito. Você sempre teve sorte de morar em lares carregados de amor.
Mas não vou mentir, os tempos andam difíceis. Algumas pessoas foram embora e você sente falta delas todos os dias. Todos. Como viver a vida sem elas segue sendo um questionamento diário, mas você vem conseguindo. Andando pra frente sem largar suas raízes para trás. Não posso me alongar muito, mas queria te dizer que quando a tristeza bate (e isso é tão normal quando frequente nos dias de hoje), eu lembro do seu otimismo e da sua capacidade infinita de sonhar. Como era a letra mesmo? “Que bom viver, como é bom sonhar”.
Nesse sonhar-acordada, você se encontra com quem vive firme em seu passado e no seu coração, mas distante desse plano que a gente conhece. “Nossas vidas, nossos sonhos, têm o mesmo valor”. Engraçado. Hoje eu tava pensando sobre essa letra de Lugar ao Sol e notei que ela é muito mais do que uma música “meio gospel”: o Chorão compôs enquanto passava pelo luto da morte do pai. Por isso ela é tão sensível: o “pai” a quem ele se refere é uma palavra polissêmica, carregada de sentidos E essa música, de repente, ganhou um novo significado pra você também. “Caro pai, como é bom ter por que se orgulhar…” A vida pode passar, não estou sozinha. E nem você.
“Eu sei, se eu tiver fé, volto até a sonhar”. (Talvez esse último verso tenha um recado para mim mesma. Levo-o no meu coração a partir de agora pra onde eu for, de agora em diante e pra vida inteira).
“Um dia eu espero te reencontrar numa bem melhor, cada um tem seu caminho.” Não se engane e não se desespere: tudo vai ficar bem.
https://www.youtube.com/watch?v=PdpWvCaRvEg&feature=emb_title
Minha amiga ícone @damycoelho bem nouvelle vaguezinha ❤️
"Os grandes portais de música vêm fazendo uma espécie de revisionismo, exaltando tardiamente álbuns que foram ignorados ou que não passaram pelo crivo de qualidade na época de lançamento. Talvez isso aconteça no futuro com Solar Power, ou talvez ele continue sendo apenas um ponto fora da curva na discografia de Lorde, assim como foi o "Lionheart" de Kate Bush. Vai saber. Para todos os efeitos, para uma crítica que cai na mesmice de classificar álbuns originais como “pretensiosos” e aqueles mais leves como “genéricos”, não surpreende que este revisionismo seja necessário. Solar Power pode ser qualquer coisa, menos mais um álbum genérico de música pop. Ele diz sobre dilemas e dos contrastes de uma vida levada na corda bamba entre o otimismo e o desespero, entre a autocrítica e a sensação de não pertencimento, e também sobre os desafios em relação à sustentabilidade, tema tão caro atualmente."
Texto completo na #EntreLP: Lorde, Solar Power e a arte de ser leve
@damycoelho
Rock n' roll is sexist when it doesn't recognize that the wife of a great musician doesn't have to be a groupie. When it reduces the presence of a woman in the scene as a fetish ("She is a drummer and, most of all, she's hot!") or when it judges her as uncapable of playing well. Rock n' roll is sexist when it reads this article, and thinks this discussion is "old news." It is particularly sad that this happens to this music genre, which they sold to us as being defying, spontaneous and smart. It was born in the slums, as a way of rebellion, and has such a beautiful background.
In the 20th-21st century, what made rock n' roll recreate itself was female-fronted bands. Many of them, independent. We've had Courtney Love, Janis Joplin, Stevie Nicks, and Kathleen Hanna (and many, many other examples of women who questioned sexism by grabbing their guitars), who helped to open the way, but were never the majority.
Damy Coelho in an article about the villanizaton of women such as Courtney Love and Demri Parrott. Translated from Portuguese to English by Vicki (@wildhoney1967). [link to the original post]
meu texto sobre courtney, demri e o machismo em torno dessas mulheres, traduzido para o inglês ♥️

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reencontrei este perfil depois de quase 10 anos (!!) que deleite. Muita foto em preto em branco, falas de filmes, trechos literários, nus conceituais de pessoas que eu não conheço. Percebo que hoje estou menos melancólica, menos pedante, mais rococó.
(esta sou eu, jovem, feliz e levemente bêbada, a muito, muito tempo atrás, para fazer jus à última vez que entrei aqui - que também foi a muito tempo atrás.)
Depois de mais de dez anos, estou de volta nesta rede social. Sempre amei o Tumblr, apesar de ser uma rede social com nome muito difícil de escrever. (ainda não sei se aprendi a escrever certo, inclusive, porque assim que escrevi já apareceu o tracinho vermelho embaixo da palavra, o mesmo tracinho que eu vi durante anos na minha vida, porque nunca aprendi a escrever Tumbrl. Tem coisas que a gente nunca aprende mesmo, mas aparentemente são coisas irrelevantes, porque senão a gente já teria aprendido. Não é mesmo? Além do mais, é uma palavra com muitas consoantes seguidas. Não sou obrigada meu bem, eu nasci no Brasil).
Não sei bem porque abandonei isso daqui, deve ser porque usava o Tumblr como um grande depósito de imagens bonitas, e aí inventaram o Pinterest. Na verdade aproveitei pouco as funcionalidades desta rede social, poderia ter escrito mais aqui, principalmente levando em conta que não foi uma plataforma falida como o Fotolog, onde postava todas as minhas agruras juvenis e que infelizmente (ou felizmente) foi deletada pós-falência levando consigo milhares de bites em memórias alheias, inclusive as minhas. #luto
Confiando na longevidade do Tumbrl (deixei errado mesmo para provar a verossimilhança do meu discurso), estou de volta para compartilhar algumas coisas com quem me segue (apesar de eu mal saber mais quem vocês são, me desculpem, são muitos anos e a memória falha). Obrigada por ainda estarem aqui, de qualquer forma. (Espero que não esteja falando sozinha, se sim, pelo menos isso me remonta aos primórdios do twitter. Que saudades).
Para quem quiser acompanhar as coisas um pouco mais sérias que escrevo, sou colaboradora da coletiva Entre LP, formada por mulheres que escrevem sobre outras mulheres. Basicamente, é isto. Se você quiser só acompanhar bobagens despretensiosas e fluxos de pensamento confusos e sem sentido algum, aqui (talvez) seja o lugar certo.
Mais decepcionante do que o velho discurso de que "a TV brasileira não tem nada que presta" (ZzZz...) é ver os próprios críticos fechando os olhos para algo que é realmente novo. Agora, fala-se que a novela das nove é ruim pois (vejam só!) quer "dar aulinha de ética para o público". Depois de reproduzir um discurso racista, homofóbico (e insira qualquer outro preconceito nojento aqui) durante décadas, finalmente uma emissora tão tradicional (no sentido mais pejorativo da palavra) como a Globo vem abrindo portas para falar de temas de extrema relevância e muitos especialistas em TV estão pouco se lixando para isso. A Globo fez isso tardiamente? Isso é claro. Agora o faz de forma inocente, como se finalmente tivesse criado consciência da amplitude cultural e social do seu público? Óbvio que não. Mas a cena mostrada hoje que retrata uma senhora esbravejando absurdos como "a Ditadura só foi ruim para quem foi subversivo" ou "essas velhas sem vergonha são uma afronta à família brasileira", sobre o núcleo do casal formado pela Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg , não me pareceu "liçãozinha de moral" nenhuma, muito menos falso. É, aliás, bem parecido com o absurdo homofóbico que eu li em diversos comentários por essas redes sociais. A importância de se retratar tudo isso, por si só, já é algo a ser louvado, por mais que a novela possa não ser lá isso tudo. Tem gente esperando pela "nova Avenida Brasil" a cada nova novela e com isso, acaba por desmerecer uma produção promissora. "Babilônia" vem de uma sequência realmente fraca de novelas nessa faixa de horário, e ainda não vi nenhum enorme furo de roteiro que me fizesse pensar que seja uma novela ruim. Como disse, sua intenção e sua mensagem são importantes, principalmente em um país atualmente tão retrógrado que chega a fazer ''boicote contra essa baixaria toda que tá por aí''- o que,obviamente, estremece a audiência. O pior de tudo isso é ver que os críticos de TV e entretenimento (os vulgos ''especialistas'' - botando aí muitas aspas) estão comprando esse discurso. Acho que a mudança principal precisa vir da cabeça desses ~grandes jornalistas de grandes mídias~ que fazem críticas há anos e parecem não estar conseguindo acompanhar as mudanças de produção, audiovisuais e de roteiro que a TV vem mostrando - mudanças para melhor, inclusive. De jornalismo preguiçoso, o Brasil já está saturado. E de gente ultrapassada, também.
Michael Wolf

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Audrey Hepburn modeling the many fashions of My Fair Lady by designer Cecil Beaton, 1963.
Alix Cléo & Jacques Roubaud. The former took many a nude self-portrait.
Paris, Texas. (Wim Wenders)

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The Cola Road (2013)