“USP 7%”: conteúdo e repercussão
O documentário “USP 7%” , Dirigido por Daniel Mello e Bruno Bocchini, discute a ausência de alunos negros na maior universidade do país, o racismo no ambiente universitário e a necessidade de estabelecer políticas afirmativas.
Conversamos sobre a produção com o jornalista Daniel Mello, e ele nos deu uma perspectiva de como as mídias hegemônica e alternativa receberam seu trabalho.
Como surgiu o projeto do documentário, Daniel?
Eu e o Bruno trabalhamos na Agência Brasil e bom, na época a gente estava cobrindo a questão das cotas. Trabalhávamos na questão das cotas e ao mesmo tempo estávamos pensando em criar uma produtora, pra fazer documentário mesmo. Surgiu um edital do Ministério da Cultura para produtores negros, e ai as coisas casaram. Era um assunto que estava forte e achávamos que era um assunto que ia crescer, então, como tínhamos o interesse, assim como em outros temas sociais, lançamos essa proposta para o edital, que acabou sendo contemplada.
Quando vocês começaram a produzir o documentário?
O edital ficou embargado na justiça em 2013, mas isso refletiu no nosso documentário. O fomento saiu em 2014 e foi quando começamos a produzir. Nos aproximamos da militância, do Núcleo de Consciência Negra, começamos a fazer as pesquisas. Antes queríamos fazer um debate, ouvir todos os lados, mas achamos que não era esse o formato, começamos a desacreditar nisso, até pelo fato de sermos jornalistas. Muitos usam o discurso da neutralidade para dar uma opinião totalmente não neutra, e no documentário, basicamente, eu vou contar uma história. E vai ser a história que eu acho que é. Lógico que há ponderações sobre o tema, e quando eu assumo um ponto de vista aberto eu fico aberto a criticas. Não fiz um trabalho neutro, não ouvimos todo mundo. A gente chegou até a tentar falar com pessoas que são contra, tentamos contatar a universidade, mas não conseguimos, eles não quiseram. A gente também não achou que isso era fundamental. Nossa história era contar como a militância dentro da USP estava lidando com isso, saber quais as dificuldades, por que eles fazem isso. Partimos de uma perspectiva histórica, ouvimos militantes que fundaram o Núcleo de Consciência Negra, que estiveram lá no inicio, e ouvimos pessoas que estão hoje no campo da discussão. E com a perspectiva histórica conseguimos entender o porquê de se ter cotas, e como isso funciona hoje, quais as resistências a esse processo. Há algumas ponderações, opiniões ligeiramente diferentes, mas o discurso é um só, a história é uma só, a nossa história.
Vimos que veículos bem diferentes falaram sobre o filme. Como você acha que ele foi recebido pela mídia?
Bom, assim, a recepção da mídia teve um facilitador, da nossa rede de contatos. Conhecemos muita gente, então, quando divulgamos, e com o assunto quente, as pessoas vieram nos procurar. Eu não mandei nenhum release, só montei a página do facebook e produzi o material de divulgação, mas as pessoas vinham nos procurar, muito por conta da rede de contatos. As pessoas que procuravam eram pessoas essencialmente interessadas em temas sociais, e também jornalistas que cobrem educação. O interesse foi muito positivo. Tivemos penetração em vários veículos. Nesse ponto tem algo interessante: não penetramos nem nos muito alternativos, naqueles mais identificados com a esquerda, nem nos mais “mainstream”. No G1 por exemplo, sim. Já a Fórum não veio atrás da gente, a Pública também não veio. Os veículos mais fortes foram a CartaCapital, que trouxe muita repercussão, e o G1. Boa parte eram sites menores, especializados em educação. Na EBC também. A maior parte da repercussão foi por veículos não muito mainstream, mas também não muito alternativos. O Jornal do Campus também, o IG, a Geledés, além de reproduções de matérias em outros sites. E aí entram várias questões, né. Tem a linha editorial do jornal, os jornalistas. Se a gente pega um jornal como O Globo, ele é muito conservador. Os colunistas, a capa, sempre conservadora. Mas ele tem um espaço para os repórteres agirem, e grande parte não são conservadores, então há uma pluralidade. Na Folha também há certa liberdade, mas esse processo é mais controlado, é um processo de mercado. Porque esses são veículos para a classe média. E a classe média a gente tem uma proporção assim, dois conservadores para um progressista, e o que eles querem é atingir o público todo. Em alguns veículos isso é meio "frouxo", mas na Folha isso é pensado, você tem o Antônio Prata e o Reinaldo Azevedo, e outros conservadores, que estão em quantidade até maior. Aí você tem uma outra coisa, que por exemplo, até a Veja tem, que é essa TV Veja, TV Folha, que eram muito mais progressistas que o produto principal. Mas é isso, é estratégia de mercado. O G1 não sinto muito um editorial, apesar de aproveitar da Globo como um todo, mas o G1 é muito focado no factual, o que esconde o editorial. Tem o espaço com os jornalistas e isso acaba fazendo parte. Agora tem uma questão que talvez não entre nos meios alternativos é que tudo é feito por classe média branca, e às vezes são assuntos que realmente não interessam. Se a gente pensar, a USP tá falando de cotas há uns 20 anos mais ou menos, e agora foi alguma "coisinha" pra frente, mas muito pouco. O desinteresse vem por aí, é uma pauta que as pessoas que fazem a mídia não se interessam. Quando analisamos a mídia, muitas vezes, é muito melhor ver quem faz e para quem faz do que outra coisa. Às vezes pensamos que é o patrão que manda, temos essa tendência, mas muitas vezes as coisas acabam se organizando para funcionar daquela maneira.
Você não ficou um pouco espantado com o fato de que aquilo que a gente entende como mídia alternativa não está cobrindo as cotas?
É, realmente existiu um pouco esse estranhamento. A gente tinha um pouco de medo de que só saísse na mídia alternativa. Mas tem um pouco essa questão da pauta, mas também outra, e que é pior, é que, de certa forma, o que a gente entende como mídia alternativa é um mesmo grupo de pessoas. Todo mundo ali se conhece...A partir do momento em que não estamos inseridos nesse grupo por quaisquer motivos a gente passa despercebido por eles. Não é a pauta que eles estão lidando. Nós do documentário e também as pessoas da militância. A militância não é desse grupo da mídia alternativa, e eles ficam invisíveis. Ela (a militância da USP) está invisível há muito tempo, nessa época em que fazíamos matérias sobre cotas, já estava invisível. Não foi fácil encontrar pessoas para conversar. Para alguns temas você tem porta-vozes óbvios, e foi muito difícil, tivemos que ir lá, ficar um tempo lá, descobrir quem era interessante. E acabou que tinham pessoas muito interessantes que já estavam precisando de uma janela, por exemplo, a Monica mesmo, é uma pessoa muito forte, mas precisava de uma janela para aparecer né.
Aí entra a nossa hipótese, que é a de que os veículos que se criam em torno da questão racial estão cumprindo um papel que a dita mídia alternativa não dá conta de cumprir. Você considera que o seu documentário exerce um pouco essa função?
É, acho que é que nem eu falei no início. Somos produtores de conteúdo, e nesse caso, foi muito livre, e é isso, produção de mídias. Cada vez mais são mídias e não apenas "a mídia", hoje há várias formas de conteúdo, várias janelas. Vemos que estão em xeque certas formas tradicionais, pois financiamos esse documentário através de um edital, e agora o lançamos para festivais, para ver a repercussão. No último estágio colocamos na internet. Para as pessoas isso é algo louco. Muita gente diz "Ué, não tá na internet?", e eu digo que não, até porque não queremos que isso seja algo efêmero...Tivemos um trabalho, queremos extrair bastante disso. Acho que há vários canais, as pessoas estão produzindo conteúdo, e quando se faz de forma estruturada você tem espaço, quando fazem de maneira consistente, há demanda.
Você já tinha contato com a militância ou isso aconteceu depois do documentário?
No meu caso, nunca militei de fato, apesar de sempre ter proximidade com as causas. Sou e continuo sendo um produtor de conteúdo. Com o filme eu ganhei lugar na militância, que eu não recusei. É um tema que eu estudei, as pessoas me procuram para falar sobre o tema e eu tenho uma posição sobre ele. Mas eu fiz o documentário como um cineasta, um jornalista, sobre um tema que eu acredito, mas não que eu estivesse envolvido, não que eu militasse, eu nunca estudei na USP. Eu vim aqui realmente ver isso aqui pois acho que tem relevância para a sociedade, é uma questão social maior. Estamos falando de universidade pública, de sistema de educação, de desigualdade sócio racial. Mas também tem o lado de eu ser negro, de ter vivido isso, mesmo nunca tendo atuado na militância.
Por Laura Himmelstein e Vinícius Almeida