Isabela Barbosa é Artista Dançarina, estudante da Dança Clássica Indiana Odissi - linhagem de Guru Kelucharan Mohapatra - e da Teoria Fundamentos da Dança, de Helenita Sá Earp. Teórica da Dança em formação pela UFRJ. Gosta dos temas Escrita Sensível, Metodologias em Dança, Representações de Corpo e Presença Cênica.
Estou aqui porque as suas (d)escritas me moveram… Quem diria! É comum pensarmos que a Dança surge no corpo em uma necessidade de se colocar, de interagir, expressar. Que isto pode nascer a partir de uma memória, de uma música, do silêncio… Mas acho que essa é uma das primeiras vezes que me movo tão fortemente a partir de uma leitura. Enquanto começava, senti a apreensão que costuma vir quando me deparo com um texto acadêmico, que é a possibilidade de não entender nada mesmo me esforçando bastante. Eu estava ali para me deparar com um conceito novo, e temi não alcançar o lugar proposto. Mas em algum momento a leitura das (d)escrições me capturou.
Em algum momento me percebi incomodada com estar sentada no meu banco, parada. Sentia dores em vários lugares! E percebi também que eu estava viajando para as cenas. Elas iam se formando em minha mente, a partir do texto. E eu fui me mexendo junto! Em vários momentos me percebia não mais no texto, mas dentro de mim com as cenas, uma outra dimensão, numa espécie de transmissão de memória. Eu mesma não assisti aos espetáculos mas, olha que loucura, eu os estava assistindo a partir das suas memórias. Eu vi o triângulo amoroso do piano-bailarina-pianista, vi as escápulas da Maria Alice Poppe; vi a Marcela e sua série de movimentos impossíveis e fortemente viscerais em percursos estranhos para mim. Me vi junto a você entrando para
assistir ao Casa de Especiarias. Me vi ali, no lugar ambientado por luz e cheiros, imagens… E quando me dava por mim, estava me balançando no banco. Estava querendo girar, querendo sentir minhas articulações, meus músculos. Ia me dando conta do quanto meu corpo queria se mexer pois “assistir” àquilo tudo, mesmo em tempo e espaço diferentes daqueles experimentados por você, isso me capturou. Me devorou, acho que você usou essa palavra em algum momento. A arte nos devora!
Minha consciência ia das cenas ao meu corpo, indo e vindo. Me peguei pensando em quantas vezes assisti a apresentações e tive de me conter pra permanecer quieta na cadeira do teatro. Estou pensando aqui comigo, será que isso acontece com todo o mundo, essa captura que te faz querer dançar junto? Ou isso é coisa de quem dança? Volto pra questão do se conter. Não tem escrito em nenhum lugar que é proibido fazer isto, mas parece que há uma “norma-escrita-em-lugar-nenhum” mas que todos parecem conhecer. “Etiqueta de plateia”. Acho que as (d)escritas me libertaram disso hoje. Não no sentido messiânico, libertaram na medida em que constatei que não sou a única que passa por isso. Que deve ser algo comum. E, caramba, é bem difícil se conter. Acho que assistirei próximos trabalhos com mais frouxidão, menos tensão/contenção. Fruir com a obra de corpo inteiro, literalmente! Não sei se é a palavra certa mas acho que rolou uma cinestesia. Queria que você soubesse disso. Eu terminei o artigo querendo muito escrever pra você. Achei as (d)escritas autoetnográficas algo mágico, tipo entrar na Matrix. É uma experiência não só para quem escreveu -você- mas para todos que lerem, tenho certeza. Eu fui a outro lugar, no meu corpo, através dos seus olhos, das suas sensações. Fui (retornei?) ao meu próprio corpo e suas vontades de ação. Quem me dera poder sentir os cheiros das especiarias... Obrigada pela partilha das suas (d)escritas!
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Este texto foi escrito para a pesquisadora Drª Luciane Coccaro, após a leitura que fiz de seu artigo mais recente, chamado "(D)escrições Autoetnográficas: performance em diálogo com abordagens de pesquisa antropológica", que reverberou bastante em mim. Você pode encontrá-lo aqui.
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Esta semana acontece a JIctac - Jornada Giulio Massarani de Iniciação Científica, Tecnológica, Artística e Cultural, promovida pela UFRJ. Devido ao atual cenário pandêmico, ocorrerá de modo remoto, 100% online! Uma ótima oportunidade para conferir trabalhos em diversas áreas do conhecimento sendo produzidos pelo corpo discente. No campo da Dança tem diversos temas sendo discutidos!
Eu apresentarei no dia 26/03 às 18:00hs o trabalho “Study With Me no fazer-pensar a Dança Odissi: Autoetnografia e mídias digitais”
As inscrições para ouvintes acontecem durante toda a semana do evento e a programação se encontra disponível no site. Venha conferir a teorização como prática de Dança!
No segundo semestre do ano de 2017 entrei para o curso de Bacharelado em Teoria da Dança pela UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas o que uma pessoa quase formada em Ciências Biológicas foi fazer neste curso?
A questão é que a dança me mordeu por volta de 2002 em um projeto chamado Pólo de Educação pelo Trabalho, uma iniciativa da Prefeitura do Rio de Janeiro voltada a alunes da rede pública de ensino, que oferecia aulas de diversos temas como tecelagem, informática, patchwork, dança, dentre outros. Em uma Escola Municipal em Botafogo, que não era aonde eu estudava, tive contato com modalidades como Ballet e Dança Contemporânea (que é mais do que modalidade de dança... Mas esta é uma outra história, para ser contada em outra ocasião), me encantando com o trabalho corporal a partir do sensível. Sempre tínhamos músicas agradáveis nos aquecimentos e estes momentos, além do próprio contato com a dança em si, foram para mim o início de aquisição de capital cultural (o que é isto? Outra história para outra ocasião!). Pegar CDs emprestados para ouvir em casa era algo frequente! E lá estava uma adolescente causando estranhamento em casa com aquelas “músicas esquisitas”. Quando nossa professora, a Bailarina e Filósofa Claudia Paiva, decidiu apresentar àquelas crianças e adolescentes a Dança Clássica Indiana… Ah… Aqueles foram dias de puro maravilhamento! Todas nós queríamos mais! O que era aquela dança, ao mesmo tempo vigorosa e extremamente graciosa?
Aqueles adornos? O contorno nos olhos, nas mãos e pés, tão belamente destacados? O som dos guizos, ah, o som dos guizos… Não conseguia tirar da cabeça! Escondida, em casa, eu batia meus pés imaginando usar um par de guizos como aqueles que vira e ouvira em um vídeo de Mohiniyattam(1), onde a dançarina(2) Dr. Omcheri Balla performava uma dança de Shiva. Desde então, surgiu esse amor inexplicável pelas danças clássicas indianas...
Ao longo dos anos pude experimentar estilos diferentes conforme a oportunidade surgia -e isto incluia ter de ser aluna bolsista. Era a única maneira possível. Eu perseguia essas danças onde quer que houvesse traço delas e, naquele início dos anos 2000, isto não era tarefa fácil. Comecei e parei várias vezes, até chegar ao ponto de parar de dançar totalmente, por falta de oportunidades.
Chegada a época do vestibular, em 2008, duas opções estavam em mente: Dança e Biologia - um amor de longa data e um amor recente. Lembro de comentar com meus pais, de pé na sala, sobre a primeira possibilidade. Ouvi a preocupação na voz de ambos ao dizerem “Dança? Mas como você vai ganhar dinheiro? Isso no Brasil não dá dinheiro, filha...”. Ao que eu, desanimada, respondi cabisbaixa: "Ah, mas tem a Biologia...”. Explicando que Bióloga era uma profissão, já que eu não tinha argumentos para explicar que dança também poderia me proporcionar profissão e renda (adivinha só? Outra história!), convenci meus pais a pagarem para mim o cursinho e os vestibulares, ingressando na UFF no segundo semestre de 2009.
Aqueles anos onde, saindo das asas confortáveis do Ensino Médio iniciara como estudante universitária, foram muito difíceis. Ali minha auto-imagem começara a ruir. Eu não era mais a melhor aluna. Muito mal, eu era uma aluna mediana. Havia um ambiente de competição bastante acirrada cujos lugares de destaque eu não conseguia alcançar, não importando o quanto me esforçasse. Não dava conta do volume de matérias, todas extremamente conteudistas. Eu não sabia estudar. E não havia arcabouço emocional para lidar com tudo aquilo, somado à sensação de estar perdida num lugar grande demais para mim. Não conseguia entender como funcionava a Universidade, traçar estratégias que fossem eficazes, entender que não bastava fazer as matérias para me tornar bióloga - que era eu quem ativamente deveria construir meu currículo/aperfeiçoamento com outros envolvimentos para além da sala de aula. Eu ainda “estudava para passar”, como na escola e no colégio…
Lembro da minha maior decepção, que fora entender que para estudar a vida (Biologia = estudo da vida) eu deveria provocar a morte. As opções eram estudar os corpos mortos nas aulas práticas ou corpos que alguém matara, seccionara, liquefizera, testara e catalogara nos livros. Todas as minhas áreas de interesse envolviam experimentação animal e morte. Esta realização foi um choque muito grande! Acredito que foi a partir disso que a Biologia parou de fazer sentido para mim. E, sinceramente, é muito difícil levar adiante algo que não faz sentido algum. Acredito hoje que por esse motivo, que não é tão simples assim, eu abandonei vários estágios. Mesmo aqueles que lutei muito para conseguir. Eu estava experimentando uma vida sem sentido, onde tudo que eu fazia das nove da manhã às nove da noite era estar na faculdade/estágio sem saber por quê. Eu só tentava continuar empurrando para frente. Era “o futuro, a profissão, a renda”. Mas esta história pode continuar depois, em outra ocasião.
A questão é que esse processo todo na biologia me adoeceu. E levei anos para entender que estava mergulhada em um estado psicológico do qual eu não sairia sem ajuda especializada. Tentei muita coisa, de religião a terapias pseudocientíficas para tentar sair por conta própria da depressão. Mas eu só fazia piorar até não conseguir mais seguir com aquilo. Foi então quando, apoiada pelo meu esposo, decidi prestar vestibular para Dança. Essa era uma grande aposta. Investir em um antigo sonho, que nunca me abandonara por completo. Aí sim tudo faria sentido!
Errado. Arrastei para minha nova graduação os problemas adquiridos na anterior. Porque é isso que os problemas fazem, eles vêm com a gente se não os resolvemos. Eu decidi começar a procurar ajuda especializada em 2019, iniciando os tratamentos psicológico e farmacológico, tão necessários ao meu restabelecimento… Decidi isto porque não queria continuar perdendo sonhos, vendo cada coisa potencialmente bela escorrendo por entre os dedos.
Eu experimentei perda de sentido também nesta graduação. Por quê Dança? Eu serei capaz de atuar nesse mercado? Acho que sou mesmo é uma fraude! Olha só como a galera dança pra caramba e eu não… Por que essas disciplinas? Como tenho conduzido minha formação? E talvez a maior questão de todas: por quê eu não consigo manter meu interesse inicial nesta graduação e nas matérias, por que esse interesse cai e desaparece, me fazendo abandoná-las no final do período? Por quê essa oscilação? Por quê não consigo sustentar meus interesses? Demorei para chegar na questão do “sustentar”, essa palavra veio para mim no processo de análise, com a psicóloga. E ultimamente tenho me dedicado a entender como fazer para alimentar esse sustentar.
No meu processo recente de adquirir o hábito de praticar exercícios físicos, tenho utilizado como peso para os exercícios de braço os dois livros mais pesados à minha disposição: em uma mão, O Senhor dos Aneis, volume único; na outra, o Bhagavad Gita(3). Certo dia olhei para o primeiro, lembrando de quando o li pela primeira -e única - vez quando estava na oitava série (atual nono ano). Lembrei-me de que naquela época não consegui ler o prefácio pois achei extremamente enfadonho. Me dei conta de que eu sequer sabia do que se tratava seu conteúdo! Curiosa, sentei-me no chão após finalizar os exercícios e comecei a ler. Vi que se tratavam de considerações escritas pelo autor sobre sua obra. Logo um trecho me chamou a atenção, de modo profundo, pois aquelas palavras entraram em consonância com o que tenho elaborado em análise:
“A composição de O Senhor dos Anéis aconteceu em intervalos entre os anos de 1936 e 1949, um período no qual eu tinha muitos deveres que não negligenciei, e muitos outros interesses como estudante e professor que frequentemente me absorviam. A demora, sem dúvida, aumentou com o estouro da guerra em 1939, e no final desse ano eu ainda não tinha terminado o Livro I. Apesar da escuridão dos cinco anos seguintes, descobri que a história não podia ser inteiramente abandonada, e continuei de maneira árdua, principalmente à noite, até parar diante do túmulo de Balin em Moria. Ali fiz uma pausa prolongada. Já se passara quase um ano quando comecei de novo, e então cheguei a Lothlórien e ao Grande Rio, no final de 1941. No ano seguinte escrevi os primeiros rascunhos do material que agora representa o Livro III e os inícios dos Capítulos I e III do Livro V, e ali, quando os faróis se iluminaram em Anórien e Théoden chegou ao Vale do Harg, eu parei. A previsão falhara e não havia tempo para reconsiderar. Foi durante 1944 que, deixando as pontas soltas e as perplexidades de uma guerra que eu tinha por tarefa conduzir, ou ao menos reportar, eu me forcei a lidar com a viagem de Frodo a Mordor. (...) Todavia, passaram-se mais cinco anos até o conto chegar ao seu fim atual; nesse tempo, troquei de casa, de cargo e de universidade, e embora os dias fossem menos sombrios, não eram menos árduos.”
Esse é o caminho da minha grande descoberta. Sustentar algo demanda trabalho, e ele é árduo. Não há outro jeito. É este trabalho, este elaborar, que nos aproxima da coisa desejada, que nos permite construí-la enquanto a experimenta - e nesse processo, enamorar-se ou afastar-se da coisa, deixando de reconhecê-la. Mas o que sustenta esse trabalho é o MOTIVO. Esse é o grande pulo-do-gato! Sempre pensei em motivação como algo que oscila, com a qual não se pode contar. Recentemente ressignifiquei esta palavra. Aliás, isto é o trabalho da Arte: ressignificar a vida (talvez eu escreva sobre isso em outro momento, quem sabe?). Tenho agora a motivação como motivo da ação ou sentido. Esse motivo não é algo dado a nós. As coisas em si mesmas não possuem sentido algum, somos nós que precisamos elaborar um. E isso exige sentar, analisar, pensar, gastar energia e tempo… Mas sem isso, não há avanço.
Colocada assim, minha descoberta não parece lá grandes coisas. Mas uma coisa é pegar as frases prontas; outra é elaborar, na experiência do viver, até chegar nesta conclusão. É um entendimento que fala por si, vindo de um lugar profundo... E sem ser algo complicado. Como bem disse o mago Gandalf ao finalmente descobrir como passar pelos portões de Moria: “É claro, é claro! Absurdamente simples, como a maioria dos enigmas quando você descobre a resposta”(4).
Não temos controle sobre como nossos planos se darão. Fazemos previsões, mas elas falham. Ou pior, fazemos projeções e construímos um imaginário sobre a coisa desejada e lidar com a realidade(5) da coisa - e de si mesmo- conforme ela se desvela pode ser um processo muito dolorido de perda de identidade e de sentido, tanto porque a imagem não existe, quanto por ser irremediavelmente impossível de alcançar (Bingo! Olha a depressão aí).
Percebo hoje que não existe uma linha contínua que se estende do momento inicial de algo até ao infinito e além, inquebrantável, até a conclusão de um objetivo. Existem paradas. E existem vários começos. Acredito hoje que a vida é sobre isso, sobre esse mecanismo que envolve sempre ter de recomeçar. Pelo menos é como tenho lidado com a construção de hábitos e sentidos atualmente. Não precisa continuar, é só começar de novo quantas vezes forem necessárias, enquanto a vida continua acontecendo. Olhando para trás, esses vários recomeços constituem a continuidade.
Fiquei imensamente feliz de encontrar sabedoria nas palavras do mestre Tolkien. Este trecho transcrito, que tanto reverberou em mim, foi o que me fez querer escrever tudo isto e finalmente começar este pequeno projeto que vinha namorando em minha mente a um bom tempo...
Tenho sentido a vontade de publicizar, de compartilhar minha trajetória, colocar no mundo... Então, cada vez que um tema me instigar ao ponto de não conseguir me conter, esta será a oportunidade de elaborar para dar à luz. Talvez nem sempre os filhos sejam bonitos, podem sair uns com cara de dúvida, cara de asco, imperfeitos, porém todos com seu lugar. Cada um como caminhos possíveis em uma jornada inesperada. Aliás, este seria o nome do blog, “Uma Jornada Inesperada”, em referência ao universo cinematográfico baseado nas obras de Tolkien. Mas decidi diferente… Porque o que eu mais quero ao longo da jornada, acima de tudo, é Que Haja Sentido!
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(1) Mohiniyattam: um dos oito estilos de Dança Clássica Indiana
(2) Bailarina ou Dançarina? Há! Outra história, para outra ocasião
(3) Texto religioso hindú, do séc. IV AEC. Traz o diálogo entre Krishna e o heroi Arjuna, que representa a alma confusa sobre o seu dever ou caminho (dharma).
(4) TOLKIEN, J.R.R.; O Senhor dos Aneis - A Sociedade do Anel. Volume único. Martins Fontes, 2002, pg 321
(5) Existe realidade? Tchan tchan tchan tchan… O que aprendi em Dança e Sociologia sobre isto? Contarei em outra ocasião.