Livro: Poesias que escrevi enquanto aprendia a viver - Fagner Mera.
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“Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou o coração humano, o que Deus tem preparado para aqueles que O amam”
— 1 Coríntios 2.9

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Quem dizia isto talvez jamais tivesse conhecido a linguagem universal, porque quando se mergulha nela, é fácil entender que sempre existe no mundo uma pessoa que espera a outra, seja no meio de um deserto, seja no meio das grandes cidades. E quando estas pessoas se cruzam, e seus olhos se encontram, todo passado e todo futuro perdem qualquer importância, e só existe aquele momento, e aquela certeza incrível de que todas as coisas debaixo do sol foram escritas pela mesma mão.
– O Alquimista (Paulo Coelho)
Apesar de tudo, eu sou feliz. De verdade. Minha vida tem sido cercada de coisas boas, de amor, de planos e de momentos que aquecem o peito. Tenho motivos para sorrir todos os dias, mas, às vezes, eu sorrio tentando disfarçar o peso que algumas situações deixaram. É um sorriso real, mas que também carrega silêncio.
É estranho perceber como, de repente, algumas relações começam a se perder não por falta de amor, mas por excesso de ruído. Palavras atravessadas, julgamentos que não foram pedidos, interferências onde só cabia o respeito. No meio disso tudo, sinto a sensação constante de ser colocada como responsável por um caos que eu não criei. Tem coisas que doem não pelo que são, mas pelo que representam. Quando alguém que você ama passa a falar no plural, como se duas pessoas tivessem cometido o mesmo erro, quando, na verdade, só uma armou o cenário inteiro, algo se quebra dentro da gente. Dividir a culpa pode até parecer confortável para quem está no meio e não quer se indispor, mas para quem está sendo injustamente incluída nessa conta, o peso é insuportável.
Eu não quero guerra, nunca quis. Eu sempre busquei a paz. Mas aprendi que paz não é silêncio forçado, não é engolir desrespeito para manter uma aparência de equilíbrio ou uma harmonia de fachada. Paz é limite. Paz é ter a maturidade de reconhecer quando alguém ultrapassa todas as barreiras e não normaliza o absurdo. O que mais entristece não é o conflito em si, é perceber a cegueira seletiva de quem deveria nos proteger. É sentir que o amor que diz cuidar também pode acusar. É ver que quem deveria enxergar a raiz do problema escolhe enxergar apenas a nossa reação, ignorando o que a causou.
Quando a responsabilidade vira um injusto “vocês dois”, a conexão se perde. Porque quem ama de verdade também deveria saber diferenciar o trigo do joio, o ataque da defesa, a verdade da encenação. É exaustivo ser o lado que "tem que entender", enquanto o outro lado é o que tudo faz e nunca é cobrado.
Esses dias eu lembrei muito daquela letra da Marília Mendonça: “Deixa, deixa mesmo de ser importante, vai deixando a gente pra outra hora, e quando se der conta, já passou, quando olhar pra trás, já fui embora”. Pois é, essa música me faz pensar sobre a prioridade que se perde pelo caminho. É sobre o perigo de ir deixando o que é real, o que é sangue e o que é história, para um “depois” que o destino não garante. A vida é um sopro, uma construção delicada que desmorona quando a gente prefere a conveniência de não ver a verdade em nome de uma paz falsa. Quando você deixa de dar importância ao que realmente importa, o tempo cuida de criar um abismo silencioso e quando alguém finalmente se der conta de que a gente foi ficando para "outra hora", talvez esse abismo se torne inalcançável. Eu cansei de carregar pesos que não são meus e de ser cobrada por conflitos que eu não plantei. A gente não vai embora de uma vez. A gente vai se retirando aos poucos, cada vez que se sente desamparada por quem deveria ser nosso porto seguro. O amor que não sabe ser justo, acaba, aos poucos, deixando de ser lar.
— Conspire

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