"Ah, vejo que os ventos trouxeram você até aqui... Seja bem-vindo! Eu sou Zafira, uma humilde vidente a serviço das estrelas e dos mistérios do universo. Aqui, na minha loja mística, La Magia di Khadel, você encontrará mais do que objetos carregados de magia — encontrará caminhos.
Os moradores me chamam de 'cigana Zafira', mas o que faço é apenas continuar o legado da minha família. Meus dons não vêm de histórias ou lendas — eles vêm da minha família, que sempre acreditou no poder das energias e das conexões espirituais.
Se procura respostas, posso ler seu destino nas cartas de tarot ou na bola de cristal. Prefere algo mais sutil? Tenho poções naturais para acalmar a alma, atrair casamento, prosperidade ou até mesmo proteção. Ah, e não se engane! Essas ervas secas, esses frasquinhos e amuletos? Cada um deles tem uma história, um propósito.
Todos sabem Khadel carrega uma maldição, e alguns acreditam que esse é o ano em que as coisas vão mudar. Alguns indícios começaram a acontecer, mas... como descobrir quem são os enamorados? Talvez você seja um dos destinados a quebrar o ciclo. Talvez não. Mas posso ajudar a descobrir.
Entre, sinta o aroma das velas e dos incensos. Toque os cristais, deixe que a energia deles guie você. Aqui, cada cliente é um mistério que adoro desvendar.
Leio a mão, cartas, bola de cristal, faço rituais para abrir caminhos e até interpreto sonhos e mapa astral. Quer desabafar e jogar conversa fora? Posso ser uma ótima terapeuta também... pagando bem, que mal tem?
Então, me diga... o que o seu coração busca hoje?"
OOC.
Esse é o blog da Zafira. Vai funcionar como uma brincadeira em ooc, mas também vai valer para ic.
Vocês podem mandar asks sempre que quiserem. Se colocarem "(ic)" no início, eu vou entender que é para responder sério, e que isso será válido para o jogo. Se colocarem "(ooc)" no início da ask, não será considerado como se tivesse acontecido no jogo.
Nem todas as asks ic serão respondidas com respostas úteis, é claro. Mas vale a tentativa. Se quiser algo certeiro, tem a dinâmica dos pontos para conseguir sessões com a Zafira.
Podem fazer perguntas sobre ela, sobre o jogo, comprar coisas. Sejam criativos!
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Ler o diário de James estava sendo mais cansativo emocionalmente do que Aleksander poderia prever. Mas dias depois da primeira vez que leu duas passagens em dias diferentes, ele decidiu tirar do cofre e fazer uma nova leitura.
Ele abre o diário ao acaso, torcendo para que dessa vez o peito não aperte, que as lembranças venham suaves, que ele apenas leia como se fosse algo distante. Mas não é.
DIÁRIO DE JAMES
[Sábado, 01 de novembro de 1924]
“Eu acabei de voltar da casa dela. Estávamos sentados no chão, na sala, com folhas de papel e carvão espalhados entre nós. Tentávamos desenhar um ao outro, e, honestamente, rimos tanto com os resultados que por um momento, tudo pareceu leve. Era bom estar com ela. É sempre bom.
Mas aí ela disse… que talvez estivesse apaixonada por mim.
Nós somos namorados. Essa deveria ser uma coisa comum de se ouvir, certo? Mas não foi. Aquilo me paralisou. Meu estômago embrulhou, o sorriso morreu no meu rosto. Eu sabia que o certo era retribuir, dizer que sentia o mesmo. Era o que qualquer garoto normal faria. Mas eu não sou qualquer garoto. Eu não pude. Não consegui mentir. Deus estava ali comigo, eu senti. E Ele veria a mentira se eu dissesse algo que não fosse real. Mas então, se eu não a amo… e amo outra pessoa… será que isso também aborrece Deus?
Minha resposta foi dizer que ela merecia alguém melhor. Alguém que a amasse de verdade. Disse: “Você seria a escolha perfeita, se eu pudesse escolher.” E acho que ela não entendeu. Mas como explicar que o coração escolhe sem a nossa permissão?
Ela é tudo que eu sempre achei que procuraria em uma garota: doce, gentil, linda, inteligente, vinda de uma boa família. Meu pai a aprova. Quando comecei a namorá-la meses atrás, ele até parou de me olhar daquele jeito, como se tivesse algo errado comigo. Talvez seja por isso que tentei tanto. Mas ela espera um príncipe encantado. E apesar de acharem que eu pareço um, a verdade é que eu não estou procurando por uma princesa.
Queria muito que tudo fosse diferente. Saí da casa dela sem jeito, sem saber o que fazer. E agora, olhando para trás, não parece nem que namoramos de verdade. Foi tudo estranho. Eu gosto de estar com ela. Adoro a companhia dela. Mas não conseguia desejar o toque dela. Não sentia vontade de beijá-la. Que tipo de garoto é esse?
O que há de errado comigo?
Ao mesmo tempo… eu sei a resposta. Tem nome, sobrenome, uma dificuldade horrível com tarefas escolares e olhos lindos.
Espero que Deus me perdoe por amar quem não devo.”
Aleksander fecha os olhos com força. Aquela cena. Era aquela cena. A mesma da visão com Zafira. Ele consegue lembrar da sensação do carvão nos dedos, o sorriso dela, o jeito como ela pareceu tímida ao confessar o que sentia… e o desconforto que nasceu em James logo em seguida.
Tudo está registrado ali. Exatamente como a lembrança. A mão de James segurando a dela, a hesitação, o peso da verdade não dita. Aleksander engole em seco e vira a página seguinte.
DIÁRIO DE JAMES
[Quinta-feira, 06 de novembro de 1924]
“Terminei o namoro. Acho que nunca terei coragem de dizer a ela o motivo pelo qual fiz isso. Tive que partir. Eu sou um monstro, incapaz de amar uma garota. Sou errado, inapropriado e pecador. Nada mais a declarar.”
Uma onda de mal-estar atravessa Aleksander com força. O peito aperta como se aquele julgamento escrito por James tivesse sido lançado diretamente contra ele. "Errado", "pecador", "monstro". Aleksander não se sentia assim por si, mas a leitura fez com que sentisse como se fosse ele. Como se a dor pertencesse a ele. Cada palavra pesa como uma pedra em seu estômago.
É como se ele mesmo tivesse escrito aquilo. Como se o eco daquela culpa ainda estivesse dentro dele, mesmo depois de outra vida. Como se toda a repressão que James viveu ainda existisse em suas veias, em sua memória antiga, mas ainda dolorosa.
Não é só dor. É vergonha. É medo. É aquele silêncio abafado que muitos garotos como ele aprendem a usar como armadura. Ele sente a humilhação de não se reconhecer, de tentar se moldar ao que esperam, de tentar agradar ao pai e nunca ser bom o suficiente, de sorrir quando tudo dói.
Mesmo assim, ele se força a voltar algumas páginas. Não quer encerrar ali. Ainda não.
DIÁRIO DE JAMES
[Domingo, 12 de outubro de 1924]
“Tenho 16 anos. E começo a achar que tem algo errado comigo.
Meus amigos todos já se apaixonaram, ou pelo menos dizem que sim. Eles falam de como o coração acelera, de como não conseguem parar de pensar na menina com quem saem. E eu... eu nunca senti isso. Já me perguntei mil vezes se o problema sou eu. Talvez meu coração esteja atrasado. Talvez esteja esperando por alguém certo.
E então ela apareceu. Uma garota incrível. Gentil, inteligente, com um sorriso calmo e os olhos mais doces que já vi. Tínhamos que fazer um trabalho juntos e acabamos nos aproximando. Teve um momento em que achei que talvez fosse isso. Aquilo. Amor. Ou um começo.
Na primeira semana de namoro, eu me sentia flutuando. Não por estar com ela, mas por parecer… certo. Meu pai me elogiava, meus amigos me parabenizavam. Ela me olhava como se eu fosse especial. Tudo parecia no lugar.
Mas depois… não sei. Comecei a perceber que não sentia vontade de segurá-la pela cintura, de encostar meu rosto no dela. Quando ela me beijava, eu devolvia o beijo, mas era como se eu estivesse repetindo uma receita. Não havia fome. Não havia fogo.
Ela é linda. As ondas do cabelo loiro dela parecem feitas de sol. O sorriso é gentil, paciente, sempre sincero. A forma como ela se importa com os outros, como escuta com atenção, como se lembra dos detalhes… é encantadora. E eu adoro estar com ela. Mas não consigo sentir o que eu deveria sentir. Não sinto vontade de beijá-la. De tocá-la. O que há de errado comigo?
Eu só peço a Deus todos os dias que tire de mim os pensamentos que me rondam, os sentimentos que tenho quando estou ensinando matemática pro Landon — ou tentando, porque o coitado pode ser bonito e popular, mas é péssimo com estudos.
E peço a Deus que me faça sentir isso. Eu quero sentir isso. Por ela. Quero me apaixonar. Ela parece a escolha perfeita, meu pai a adora, e ele passou até a conversar mais comigo. Oro todos os dias para me apaixonar por ela. E, se não, que me dê forças para deixá-la e não partir o seu coração. Kimberly merece ser amada. Ela é incrível.”
Aleksander fecha o diário com cuidado, mas é como se as palavras ainda estivessem abertas em sua pele. O nome dela nunca foi dito na visão de sua regressão, mas ele sabe agora. Era ela. A garota do olhar partido, da confissão tímida, da despedida dolorosa.
Ele queria saber mais. Queria saber se ela ficou bem. Queria saber se os dois se acertaram no futuro, se ficaram amigos. Mas não hoje.
O cofre é reaberto. O diário volta ao seu esconderijo. E ele deixa para continuar em outro dia.
O sino da porta tilintou com a entrada de Babette. O início do dia dava à loja um ar ainda mais íntimo, sem clientes, com as luzes tênues das velas projetando sombras nas cortinas pesadas. Zafira, sentada atrás do balcão, ergueu os olhos e sorriu de leve.
— Veio cedo hoje, garota problema. Ou tarde, dependendo do ponto de vista. — provocou a cigana.
Babette, sempre de expressão controlada, quase indiferente, deu um meio sorriso. Seu olhar vagava inquieto pelas prateleiras abarrotadas de frascos e talismãs. A aura de misticismo da loja não a assustava, mas estar ali, por escolha própria, era um sinal de desespero.
— Zafira... eu... — hesitou, como se as palavras fossem difíceis de admitir. — Eu tô tendo uns sonhos. Pesadelos, na verdade. Queria saber se você tem alguma poção ou ritual que ajude a... parar com isso.
Zafira ergueu uma sobrancelha com leve divertimento.
— Ora, sonhos, minha cara, nem sempre devem ser silenciados. Muitas vezes são o modo que o seu inconsciente encontra para falar o que você insiste em calar. Ou alguém tentando lhe alertar de algo. Pode até ser lembranças de outra vida. — Inclinou-se levemente. — Já pensou em interpretá-los?
— Interpretar? — Babette franziu o cenho, desconfiada. — Isso vai me custar quanto?
— Nenhum preço espiritual, se é o que está preocupada. — Zafira não sabia o quanto os reencarnados compartilhavam entre si, mas imaginou que a tatuadora soubesse de algo. — Só o valor habitual do serviço. — Zafira respondeu com naturalidade, cruzando as mãos sobre a mesa. — Mas exige coragem. Para ouvir, e aceitar.
Houve uma pausa breve. O ceticismo ainda brilhava nos olhos de Babette, mas a exaustão era mais forte.
— Tá. Vamos lá.
Zafira levantou-se com um leve aceno, trancou a porta principal e fechou as pesadas cortinas. A loja agora estava completamente isolada do mundo lá fora. Levou Babette até a mesa de rituais no fundo.
Sobre a mesa, acendeu quatro velas dispostas nos quatro pontos cardeais, formando um quadrado. Colocou um pequeno incensário no centro, de onde saía uma fumaça espiralada. De um dos armários, retirou uma sacola de veludo vermelho e despejou sobre a mesa várias pedras ovais, com antigos símbolos gravados — runas.
— Usaremos as runas. Elas traduzem os símbolos escondidos no seu sonho. Às vezes, o que a mente não entende, a alma revela.
Babette observava em silêncio, as mãos nos bolsos, evitando demonstrar qualquer crença ou descrença.
— Agora, conte o seu sonho. E seja sincera. Cada detalhe importa. Tudo o que aconteceu, o que te causou sensações, boas ou ruins, preciso que explique.
Respirando fundo, Babette começou:
— Foi uma mistura de sonhos que tenho frequentemente. Várias cenas, alternando de ordem, por várias noites seguidas.
Zafira ouvia, mas os olhos concentrados nas runas.
— Eu estava observando o riacho de uma cidade, em cima de uma ponte de pedras. É uma lembrança da vila na Alemanha onde morei. Algo que eu fazia frequentemente voltando da escola. No mesmo sonho, a cena mudava, e eu estava na estação de metrô em Berlim, sempre perdendo o trem, por motivos diferentes. Depois, eu estava em uma viagem de carro que nunca tem fim, e eu sinto muito medo, mas não sei o motivo. Fico querendo sair do carro, mas ele não para, eu estou sozinha, e não consigo reagir. E aí, quando eu consigo sair, eu volto a ser criança. Estou no parque em Monschau, cidade dos meus pais adotivos, e um casal sem rosto me busca no parque. Eu já tive esse sonho antes, e eu era adulta em algumas vezes. Eu não sei quem é esse casal.
Enquanto Babette narrava, a cigana deslizava lentamente a mão sobre as runas espalhadas. Murmurava palavras em um idioma antigo, sussurrado quase como um canto baixo, invocando símbolos de sabedoria ancestral. À medida que as palavras da loira fluíam, algumas runas pareciam aquecer sob sua mão, ganhando um leve brilho apenas sob o olhar da morena.
Quando Babette terminou, Zafira abriu os olhos. Seu olhar era agora mais profundo, atento. Separou as runas que destacaram e as organizou na mesa. Uma ao lado da outra. Suspirou, antes de começar a explicar os significados.
— Comecemos pelo parque em Monschau... — disse, movendo uma runa com um símbolo triangular. — Essa runa representa proteção. Ela brilhou enquanto você falava essa parte do sonho. Esse casal sem rosto talvez não seja um enigma tão difícil quanto parece. Pode ser uma idealização, Babette. Um desejo inconsciente de resgate. Não sei como é a sua relação com seus pais biológicos... mas pode ser que, dentro de você, ainda exista o anseio de que eles apareçam. Como se, de alguma forma, eles pudessem te resgatar: da cidade, da maldição, ou de si mesma. Mas a verdade, Babette... — seus olhos sustentaram os dela com firmeza. — ...é que só você pode fazer isso por si mesma. Talvez encontrar sua alma gêmea ajude. O amor tem o poder de clarear a mente e o coração. Mas, no fim, o resgate é sempre nosso.
Babette desviou o olhar, inquieta. Zafira viu a leve tensão em seus dedos. Sabia que ela mentia sobre não saber quem era o casal no sonho, mas preferiu não dizer nada.
— Agora... a viagem interminável de carro. Essa foi a runa que brilhou quando você contava esse momento. — Moveu outra runa, com o símbolo do ciclo eterno. — Você se sente presa num looping. Talvez seja a maldição, os rituais que nunca entregam respostas concretas. Ou talvez seja algo anterior. Algo não resolvido com sua própria história, sua jornada, suas escolhas. Essa sensação de estar num carro que não para, sem controle... — continuou Zafira, com voz calma. — ...pode refletir seu medo da falta de controle. Você sente que sua vida é guiada por forças externas: quem você encontra, por quem sente algo, quem o destino empurra até você. Como se não tivesse escolha. Como se o caminho estivesse escrito, sem opção de sair dele. Mas, acredite, meu bem, apesar da sensação, você tem escolha sim. Terá de arcar com as consequências, mas a escolha é sua.
A próxima runa foi virada. Representava o fluxo e as oportunidades.
— A estação de metrô em Berlim. Você está sempre perdendo o trem, por motivos diferentes. Isso pode significar que, em várias fases, seja na vida passada, na sua vida antes de Khadel, ou até aqui, você deixou passar oportunidades. Pessoas, situações, relações que talvez pudessem mudar seu destino. A vida muitas vezes dá empurrões. Nem sempre claros. Às vezes, discretos. Às vezes, brutais. Preste atenção, Babette. Tem algo ou alguém que você, inconscientemente, sente que está deixando passar. Mas dentro de você, uma voz grita para dar atenção à isso, e não deixar perder o trem.
Por fim, a runa com o símbolo da água. Zafira a segurou por mais tempo, analisando-a com o cenho franzido. Permaneceu em silêncio, pensativa, como se algo muito mais profundo se revelasse.
Sem dizer nada, levantou-se e foi até uma pequena estante. Retornou com um antigo relógio de bolso, prateado, com detalhes minuciosos na tampa. Segurou-o com firmeza entre as mãos e murmurou mais algumas palavras num idioma ancestral. Quando abriu os olhos, a intensidade em seu rosto parecia ter aumentado, como se tivesse visto uma resposta definitiva.
— Esse riacho não é apenas uma lembrança inocente. — Sua voz agora soava quase sussurrada, mas densa. — Há uma memória muito antiga ligada à água daqui. Não da Alemanha. Aqui. Em Khadel. Mas em 1925. Um fim trágico. Uma morte junto à cachoeira que hoje conhecemos como Cascata Jack. Era para ser uma lembrança de dor. De perda. Mas você não teme essa lembrança. Porque, no fundo, você partiu daquela vida pensando: "Se eu tivesse que passar por tudo isso outra vez, só para tê-la nos meus braços por um instante, eu faria." — Zafira esboçou um sorriso triste, como se a lembrança fosse sua. Enquanto segurava o relógio, era essa a sensação.
O silêncio na loja ficou ainda mais pesado. As velas tremulavam. Alguma presença ali não gostava de ver Zafira entregando respostas tão diretamente.
Zafira então estendeu o relógio para Babette.
— Segure. Acho que isso te pertenceu uma vez.
Relutante, Babette aceitou o objeto. No instante em que seus dedos tocaram o metal frio, seu corpo enrijeceu. A visão diante dos olhos mudou num piscar.
Ela se viu na beira da cascata. O som ensurdecedor da água caindo. A mão de alguém se soltando da sua. O golpe repentino, a queda, o vazio, o frio absoluto. O último pensamento antes do fim: amar Rose valera a pena.
Na loja, Babette arfou, as mãos tremendo, o peito subindo e descendo rápido demais. Os olhos marejados tentavam manter a compostura. Foi apenas um vislumbre. Cinco segundos de terror total ao lembrar de maneira tão intensa e vívida os últimos segundos de sua vida passada.
Zafira apenas observava. Em silêncio. Deu-lhe tempo, até que ela se recuperasse. Pagou o que devia e saiu, ainda atônita, carregando o relógio consigo.
A loja de Zafira exalava o mesmo aroma familiar de ervas e incensos quando Matteo entrou, pouco tempo depois da leitura de tarot. O tilintar leve da sineta anunciou sua chegada. Ela ergueu o olhar do balcão e franziu o cenho, em confusão e surpresa.
— De novo? — perguntou, divertida. — Veio comprar cristais de proteção dessa vez?
Matteo esboçou um sorriso meio sem graça.
— Não exatamente. Acho que... preciso de algo mais claro. Não sei se as cartas de tarot ajudaram muito. Podemos tentar de novo?
Zafira inclinou a cabeça, como quem avalia as entrelinhas. Olhos semicerrados, quase desconfiada, ela respondeu:
— Matteo, eu falei que a sua relação com a sua alma gêmea era de um passado conturbado. Que vocês se feriram por anos, que tem orgulho e provocação envolvido, mas agora tem toque, desejo, curiosidade, sentimento... Você tem muitas relações assim?
— É que...
— Já sei. Não acredita nas minhas palavras? Acho que você precisa de mais para crer. Você precisa ver. E sentir. O que acha?
— E como isso funciona? — Ele cruzou os braços, desconfiado.
— Fique tranquilo que também não tem preço espiritual. Mas é um pouco mais caro... financeiramente falando. Você vai se sentir um pouco exausto no final, mas passa em algumas horas.
Matteo suspirou. Ergueu os ombros, como quem não tem alternativa a não ser topar. No momento em que estavam, valia tentar quase tudo.
— Tome isso. Para garantir que teremos sorte na sessão. — entregou o vidrinho com a poção.
Zafira o conduziu pela loja até a pequena sala nos fundos. No centro, uma mesinha redonda, e sobre ela, repousavam velas finas e um pequeno incensário de cerâmica ornamentada.
Com gestos delicados, ela acendeu o incenso e as velas. Havia um sofá confortável e uma cadeira ao lado. Zafira indicou o sofá para o rapaz, pegou o relógio e o colocou para tiquetaquear. Sentou-se na cadeira ao lado dele. O ambiente ganhou um tom acolhedor e misterioso.
— Feche os olhos... Respire fundo. Agora... vamos atravessar o tempo.
Sua voz se mantinha hipnótica, guiando sua respiração, as sensações com o corpo, pedindo para esvaziar a mente, conduzindo os pensamentos dele. Lentamente, o presente foi se desfazendo.
— Visualize uma porta à sua frente. Quando estiver pronto, atravesse essa porta... Não tenha medo. Observe o que surge. Deixe vir o que sua alma quiser mostrar. Não precisa me dizer nada. Apenas sinta.
A visão se forma devagar, como se as bordas do tempo estivessem sendo puxadas para dentro de si.
E então, Matteo começou a ver.
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A primeira imagem era de uma casa simples, porém organizada. Um cheiro sutil de madeira encerada no ar. Ele via tudo como se estivesse dentro daquele corpo que entrava na casa. Ele se olhou no espelho.
— Eu vejo no reflexo um rapaz de cabelos loiro escuro. Os fios bagunçados. Parece que sou eu. — Matteo explicou. Olhos fechados.
— Shh... não diga nada. Apenas visualize e sinta.
Matteo ouviu o som de passos leves e, logo à frente, a figura de um rapaz sorridente, cabelos negros, surgiu na porta. Tinha um semblante tímido, mas um olhar simpático.
Matteo começava a sentir as sensações como se estivesse lá. Estava contrariado, ainda meio defensivo. As memórias o invadiam, ele conseguia compreender toda a cena. A tarefa escolar o trouxera até ali, e inicialmente o silêncio foi desconfortável. Mas as palavras logo começaram a fluir. O rapaz à frente dele era espirituoso, gentil e exibia um humor sutil, que desarmava qualquer resistência.
Flashes de dias diferentes apareciam na visão de Matteo. Diversos momentos dos dois estudando juntos. Na escola, na casa de um deles, na biblioteca da cidade. O rapaz loiro sentia uma estranha leveza, um calor súbito no peito. O sorriso do moreno era... bonito. E ele percebia isso, sem entender ao certo o porquê de se sentir assim.
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A cena mudou. Agora estavam do lado de fora da cidade, no alto do Monte della Penombra. O sol pendia baixo, tingindo o céu de tons dourados e cor-de-rosa. Uma toalha de piquenique estava estendida na grama, mas quase nada foi tocado.
Em silêncio, dividiam o espaço. Trocavam olhares e sorrisos, quando o rapaz, mais uma vez, deitou a cabeça no ombro dele. Os dedos se buscaram lentamente, entrelaçando-se com delicadeza. O rapaz loiro sentiu o contato quente das mãos, o bater calmo dos corações tão próximos. Nenhuma palavra dita. Apenas o conforto de saberem o que o outro sentia. Mas também o medo: a sociedade lá fora jamais aceitaria aquilo.
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A terceira visão chegou com força.
Era noite. Chuva batendo na janela. O moreno chorava durante um desabafo sobre o que ouviu na igreja. Comentários maldosos, sussurros de intolerância, faziam com que ele sentisse que havia algo errado com ele. O loiro parecia em desespero ao ver o outro em prantos. Movido pelo impulso, o puxou para perto, enxugando-lhe as lágrimas com as próprias mãos. A voz saiu firme:
— Ninguém mais importa. Você é lindo. É especial. Eu... eu te amo.
Pela primeira vez, as palavras foram ditas. O choro do outro se intensificou, mas agora de alívio e emoção. Se tinha algo de errado com ele, então os dois seriam errados juntos.
— Eu também te amo... — ele sussurrou, antes de ceder ao beijo. Um beijo cheio de lágrimas, de urgência, misturado ao alívio de finalmente se entregarem ao que sentiam.
O momento bonito virou fumaça, como as outras cenas.
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A sequência seguinte foi dolorosa.
Estavam sentados lado a lado, mas o ar estava pesado. O moreno tentava sorrir, tentando amenizar, mas a confissão caiu como uma lâmina:
— Estou doente... há anos. Não sei mais quanto tempo tenho de vida.
O pânico tomou conta do loiro. As mãos dele procuraram as mãos do outro com desespero. O nó na garganta, impossível de conter.
— Não... não, por favor... — murmurou.
Os olhos de ambos brilhavam com as lágrimas de medo. O loiro chorou, sentindo que era a primeira vez que fazia diante do outro. Sentia-se completamente impotente, mas prometendo, com a alma, que cuidaria dele até o fim.
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A dor atingiu o auge com a cena seguinte.
Agora o quarto era silencioso. O moreno, pálido e frágil, deitado na cama. O cheiro forte de hospital pairava no ar. As mãos continuavam unidas, apertando firmemente. Ninguém mais estava no hospital. Os pais de James o renegaram quando descobriram. Não revelaram a mais ninguém por vergonha.
— Você precisa viver. Prometa que vai viver... mesmo sem mim.
O loiro engolia o choro, a dor dilacerante tomando conta.
— Eu não sei como viver sem você. — Ele sussurrou.
O outro sorriu fraco.
— Vai aprender. Terá uma vida bonita. Eu quero isso pra você. Por favor... me prometa.
As lágrimas desciam incontroláveis pelo rosto do loiro. Com um beijo delicado e desesperado, ele sussurrou a promessa:
— Sei que você não acredita em reencarnação... mas eu não acredito que nosso amor acaba aqui. Eu vou te encontrar. Onde quer que seja. E nós vamos ter o nosso final feliz. Isso eu te prometo. Eu vou te amar até o fim da vida, James.
— Eu te amo, Landon.
O moreno sorriu pela última vez.
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E então as cenas cessaram. Mas Matteo não despertou. Levou algum tempo, mas as memórias começaram a flutuar rápido, como lampejos. Agora, ele se via num corpo infantil.
Primeiro, um quarto de criança, iluminado por velas. Uma cabana de lençóis improvisada, duas crianças pequenas, de cinco e seis anos. Ela lia em voz alta, com a paciência típica de quem ama ensinar. Ele, um pouco frustrado por ainda errar algumas palavras, mas rindo da cumplicidade.
Depois, uma fumaça levou a memória, trazendo outra. Era o entardecer nos campos. Os vidrinhos de vidro nas mãos, capturando vaga-lumes. Tropeços e gargalhadas ecoando pela relva alta.
— Eu vou pegar mais vaga-lumes que você.
Por fim, agora adolescentes, aparentavam uns quinze anos. A imagem ficava mais clara. Matteo conseguia ver os fios loiros da menina. Deitados sob as estrelas no telhado de alguma casa. Ela criava histórias para as constelações. Ele falava que as estrelas eram janelas por onde as pessoas que morreram assistiam aos vivos. Os dois prometiam se cuidar e se proteger sempre.
— Você é meu primo favorito, Landy.
— E você é minha melhor amiga, Kimmy.
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Aos poucos, as imagens se dissolveram. A voz de Zafira, suave e firme, o guiou de volta.
— Respire fundo... Você está aqui. No presente. Está seguro.
Matteo abriu os olhos, o coração disparado. Ainda sentia o calor na pele e o peso das emoções. O amor, a dor, as promessas e o reencontro finalmente possível.
Zafira apenas o observava, em silêncio, respeitando o turbilhão que acabara de presenciar.
OOC.
O pov foi comprado pela player do Matteo por 150 pontos + 30 pontos da poção da sorte.
Helena chegou à loja de Zafira como das outras vezes. O aroma adocicado de incensos preenchia o ar, e as cortinas de veludo tremulavam levemente com a brisa. A cartomante a recebeu com um sorriso sereno, mas com os olhos mais atentos que o habitual, como se já soubesse o que a trazia.
— O que te traz aqui de novo, senhorita? As sombras não diminuíram? Pelo menos na sua casa.
— Não vim falar sobre isso. Quero saber quem fui, Zafira. Quero saber se fui... ela. — Helena respondeu com firmeza, mas o nó em sua garganta revelava o peso da dúvida.
— Então... está em busca de respostas mais profundas? Deu sorte. Desde o ritual que acenderam as 8 velas, minha magia parece mais forte. O que gostaria de tentar hoje? — Zafira perguntou, num tom delicado.
— Só preciso de respostas. E nenhum preço espiritual.
— Há uma forma. — disse, caminhando até um pequeno altar ao fundo. — Alguns espíritos não enxergam apenas o que fomos nessa vida, mas veem nossa alma como um todo... todas as nossas existências. Eu posso chamá-los. Não há preço espiritual desta vez, meu bem. — garantiu, suavizando o tom. — Sei que já carrega fardos demais com as sombras que te acompanham. Esta será apenas uma conversa... se o espírito aceitar vir.
Helena assentiu em silêncio.
Zafira aproveitou o fim de expediente, com a loja vazia, e apagou algumas luzes. Trancou a porta, acendeu novas velas, formando um círculo ao redor da mesa de madeira escura. No centro, repousavam cristais translúcidos e uma bacia com água, refletindo as chamas tremeluzentes. O ambiente esfriou sutilmente. Ela espalhou folhas de arruda e lavanda, e então começou a recitar palavras em um dialeto antigo, quase sussurrando, numa melodia hipnótica.
As velas oscilaram com mais força quando a presença foi sentida. Helena se encolheu um pouco, sentindo um arrepio subir-lhe a espinha.
— Há alguém conosco. — murmurou Zafira, fechando os olhos. Seus dedos deslizaram lentamente sobre a superfície da mesa, como se buscassem algo invisível.
De repente, sua voz mudou. Ainda era a voz de Zafira, mas com uma cadência diferente. Era como se uma outra alma falasse através dela. A cigana abriu os olhos e sorriu. Um sorriso doce, nostálgico, que nunca viram no rosto da mulher antes. O espírito não encarnado que habitava o corpo dela naquele momento, reconheceu a alma de Helena, de outras vidas.
— Oh... quanta beleza havia naquela criança. Minha menina... eu ajudei a criá-la. Teimosa desde que aprendeu a caminhar. Desde pequena já mostrava que não seguiria as regras cegamente. Seu pai dizia que ela precisava ser firme, porém feminina, delicada, representar a família com orgulho e frieza... mas, mesmo assim, eu a via brincar escondida nos jardins, de polícia e ladrão, de pirata. Eu a ouvi fazer perguntas que não deveria, desejar coisas que ninguém lhe permitiria desejar. Queria ser policial, mesmo que fosse proibido, na época.
A voz de Zafira, carregada agora de emoção, prosseguiu:
— E então veio ela. Aquela moça de olhos doces... Ah... como foi estranho, no começo. Minha menina tentava esconder. Fazia piadas, fingia que não se importava. Mas não parava de falar dela. Era como se tivesse perdido o controle. Tão independente... e, de repente, estava ali, se esforçando para escrever poesias bregas, declamando versos à noite, levando flores como uma tola apaixonada.
Helena ouvia com o coração disparado. As imagens que sua mente formava pareciam vívidas, relembrando as descrições de Zafira sobre o que viu na bola de cristal.
— E eu... eu a vi mudar. De todas as meninas e rapazes que a rodeavam, de todos os pretendentes que seu pai tentava lhe impor, só Julieta fazia seus olhos brilharem daquele jeito. Nunca a vi tão feliz... e tão assustada.
A chama da vela diante de Zafira tremeluzia como se respirasse com o relato e o nome mencionado.
— Mas a cidade... as pessoas... — a voz tornou-se amarga — não aceitaram o amor entre duas mulheres. E o fim da minha menina foi... cruel.
Houve um silêncio tenso por alguns segundos.
Então, a voz voltou mais baixa, quase um lamento:
— Quando o pai dela descobriu que ela esperava um filho... disse que mataria a criança no rio. Mas eu supliquei. Implorei. Tomei para mim aquela vida inocente. O homem disse para a filha que a criança morrera, mas o salvei. Criei-o como meu. Enzo, dei-lhe meu sobrenome: Griffo. Ele cresceu aqui, fez sua vida... e eu parti deste mundo com o coração em pedaços, mas aliviada por tê-lo salvo. Tinha planos de apresentá-lo à mãe biológica, e lhes contar a verdade, mas nunca tive essa chance.
Helena sentiu um nó na garganta ao ouvir o desfecho.
— Posso perguntar como a senhora se chama? — Helena perguntou. Queria investigar depois.
— Carmela Griffo. Trabalhei para os Montaldi, ajudei a criar Romena. Bem... você. Em outra vida. — Sorriu, entristecido e saudosa.
— E por que a senhora não reencarnou? — Helena perguntou. Zafira, ou melhor, a alma que a possuía, respondeu com um suspiro pesado:
— Não estou pronta para recomeçar. Parte de mim ainda carrega a dor... a saudade... o arrependimento.
Helena assentiu.
— Espero que minha ajuda tenha sido útil, querida. Foi muito bom te ver mais uma vez. Ainda que em outro corpo. Espero que encontre a felicidade dessa vez. E que seja duradoura. — Carmela sorriu, saudosa.
As velas começaram a se apagar sozinhas, uma a uma, como se o espírito lentamente recuasse. Quando a última chama morreu, Zafira fechou os olhos e a cabeça pendeu para frente, como um desmaio. Despertou no mesmo segundo, respirando fundo como se lhe faltasse o ar.
A sessão havia terminado.
OOC.
O pov foi comprado pela player da Helena por 100 pontos.
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(ic) Eu imagino que é sua primeira vez ajudando pessoas com uma maldição desse tipo. Porque você quis nos ajudar?
Zafira suspirou lentamente, como se a pergunta a tocasse num ponto delicado. — Não é só sobre vocês... — murmurou. — Eu também nasci com essa ausência. Essa... incapacidade de sentir o que deveria ser o mais natural de todos os sentimentos. Cresci vendo minha mãe, minha avó... todas vazias. Todas presas nesse silêncio. — Ela pousou a mão sobre o próprio peito, como se buscasse algo dentro de si. — Minha vó tinha premonições. Desde pequena, ela me dizia que um dia, quando o tempo estivesse certo, os reencarnados tentariam quebrar a maldição. E que talvez eu fosse a ponte. A que abriria o caminho. Não porque eu fosse especial… mas porque eu entendi, desde cedo, o quanto é cruel viver uma vida inteira sem conhecer o amor. — Os olhos de Zafira brilharam levemente, não de lágrimas, mas de força contida. — Se há uma chance... se existe uma mínima possibilidade de mudar tudo isso… então essa é minha missão. Não apenas por vocês. Por mim. Eu sei que às vezes eu pareço não estar ajudando muito, mas só sou um pouco... ácida. De vez em quando.
(ic) zafira, sua família era de Khadel também? eles tinham esses... dons que você tem?
Zafira ergueu os olhos devagar, com aquele sorriso quase imperceptível que ela carrega, e respondeu com uma voz baixa, mas firme:
— Khadel é velha, querida. Meu sangue conhece essa terra há muito tempo... Não é em todo caso que os dons despertam em alguém. Mas sim, na minha família sempre tivemos bruxas, ciganas, tarólogas, videntes... Mas deveria usar seu tempo investigando os reencarnados, minha rebelde. Saber do meu passado não vai ajudar muito nesse processo.
A loja parecia a mesma — as cortinas pesadas de veludo escuro, o aroma persistente de sândalo queimado, as velas crepitando como pequenas estrelas presas em suportes de ferro. Mas, para Matteo, a sensação era diferente. Como se o próprio ar estivesse mais denso. Já havia ido lá outras vezes, em vão. Esperava que agora conseguisse respostas mais claras.
Zafira o observou entrar, com olhos atentos e o corpo apoiado na bancada de cristais. Sorriu quando ele se aproximou.
— Veio em busca de respostas, Hércules? — perguntou com um meio sorriso enigmático.
— Achei que tinha parado com os apelidos.
— Vocês me deixaram de bom humor depois do último ritual. Sente-se, rapaz. Fique à vontade. O que precisa?
— Quero... só confirmar algo. Sobre a minha... "alma gêmea". Talvez seja alguém que eu já imagino. Só preciso ter certeza.
— O amor é uma tapeçaria antiga. Tecida com fios de desejo, medo, passado e promessas não cumpridas. Podemos fazer um jogo de tarot, mas as cartas só podem mostrar padrões, reflexos... nunca nomes. — A cigana advertiu.
— Tenho que pagar algum preço além de dinheiro?
— Não. Fique tranquilo. — ela sorriu, lembrando de experiências passadas dele com o espelho.
— Tem alguma chance de isso dar errado? Ou de ser muito... confuso?
— O tarot sempre dá respostas enigmáticas. Eu vou tentar ser o mais clara possível com o que ele quer dizer, mas você vai precisar interpretar. No entanto, se quiser aumentar suas chances de boa resposta, posso te oferecer uma poção da sorte. E não, não é golpe para arrancar dinheiro. Não faria isso com você. — ele sabia que faria, mas não retrucou.
Zafira pegou o vidrinho com a poção e acenou com a mão para ele acompanhá-la. Nenhum outro cliente na loja precisava escutá-los. Deixou o lugar sob os cuidados de outra vendedora e levou Matteo até a parte privada do lugar.
Sentou-se e indicou a cadeira para ele. Entregou o vidrinho para que ele tomasse. Acendeu as velas. Embaralhou as cartas em movimentos hipnóticos. Olhos fechados, murmurando palavras num idioma antigo. Abriu os olhos, espalhou as cartas sobre a mesa.
— Escolha duas.
Matteo escolheu. Zafira virou as cartas com um movimento elegante.
🃏 A Lua
— Vamos falar sobre problemas que vocês podem enfrentar. A Lua fala de ilusões, segredos, confusões internas. Você carrega dentro de si muita história não contada. Orgulho. Mágoas. Medo que talvez nem saiba nomear. Sua relação com sua alma gêmea, mesmo que forte, ainda caminha sob neblina densa. É preciso coragem para dissipar essa névoa e encarar o que existe de verdade. Feridas antigas, embates não resolvidos, e inseguranças profundas podem surgir se não houver diálogo honesto.
🃏 O Sol
— A segunda carta traz uma energia muito diferente. O Sol... — Zafira sorriu ao fitá-lo. — ... é a promessa da alegria plena. Do amor sincero, vibrante, leve. Vocês têm diante de si um futuro que pode ser bonito, quente, cheio de cumplicidade, se houver entrega verdadeira. Mas para chegar até aqui, precisam despir-se do passado, conversar sem máscaras, curar as feridas com paciência. Amor, meu caro, é escolha diária. E quando feito com generosidade, transforma tudo. Mesmo as mágoas de outras vidas.
Zafira recolheu o baralho com um novo movimento de misturá-las. O silêncio encheu o espaço por alguns instantes, até que ela voltou a encará-lo com os olhos brilhando.
— Agora, Matteo... quero que pense nas pessoas que passaram por sua mente quando entrou aqui. Aquelas que seu coração considerou candidatas a essa conexão. Visualize-as. Apenas sinta, não me diga os nomes. E tire quatro cartas.
Matteo assentiu. As imagens vinham em turbilhão. Tanta história, tantos sentimentos. Confusos, intensos. Suspirou e escolheu as cartas. Zafira virou a primeira para interpretar, fazendo o mesmo com as outras depois, uma de cada vez.
🃏 Cinco de Paus
— O Cinco de Paus mostra disputa, competição, conflito constante. Há tensão nessa conexão. Frustrações. E, no meio disso tudo, uma inquietação que o faz querer, e ao mesmo tempo, querer desistir. É como lutar contra a corrente. Existe uma energia que os puxa para confrontos sempre que tentam se aproximar. Difícil encontrar clareza neste terreno de faíscas e provocações constantes. Há desejo aqui, sim, mas não o suficiente para te fazer ficar. Não me parece ter a força para uma alma gêmea.
🃏 Sete de Copas
— Esse aqui parece falar de outra pessoa... O Sete de Copas fala de confusão emocional. Desejos antigos misturados com novas possibilidades. Há em você uma saudade de algo que nunca chegou a florescer plenamente. Um "e se" que ainda dança em sua mente. Mas cuidado: nem tudo o que parece doce de longe será alimento verdadeiro quando saboreado. Essa conexão carrega fantasias, desejos não ditos e um certo conflito interno entre passado e presente. Talvez precisem se ver mais, investir nessa conexão, só para que você coloque um ponto final nesse "e se". Mas também não vejo futuro aqui.
🃏 Seis de Copas
— O Seis de Copas é memória. Nostalgia. Conforto. Vocês construíram algo bonito juntos. Há um amor genuíno aqui, mas um amor enraizado no conforto, na parceria, na amizade segura. Durante muito tempo, vocês acharam que talvez fossem destinados, e, de certo modo, são — mas não da forma que talvez imaginaram. Existe espaço aqui para mais história. Para carinho, crescimento, apoio mútuo. Mas a alma gêmea... a alma gêmea é outra coisa.
🃏 Os Enamorados
— Ah... — o tom de Zafira baixou, mais profundo, quase reverente. Ela sorriu com essa carta. — Os Enamorados. Eis o fio verdadeiro. Eis o laço de almas. Vocês vieram de um passado conturbado, feriram um ao outro por anos, se perderam em disputas, orgulhos, provocações. E mesmo assim, o destino costurou encontros improváveis. O toque que antes parecia impossível agora os consome em desejo, curiosidade, temor e desejo de compreender o que realmente sentem.
Ela pousou a mão sobre o centro da mesa, como selando o ritual.
— O amor verdadeiro nem sempre nasce do que é simples, Matteo. Às vezes, ele surge da ruína, do confronto, da longa jornada de almas que se desencontraram para, só então, aprenderem o real significado da entrega. Há muito a ser curado ainda. Mas se ambos escolherem esse caminho... será uma paixão profunda, antiga, e renovada.
O silêncio caiu pesado entre eles. Apenas o crepitar das velas preenchia o espaço. Matteo encarava as cartas, o coração batendo forte no peito. As imagens rodavam em sua mente, como fragmentos de um quebra-cabeça cujas peças começavam, lentamente, a se encaixar.
Zafira, por fim, fechou os olhos e soprou devagar as velas.
— Agora, meu caro... o resposta final mora em você.
OOC.
O pov foi comprado pela player do Matteo por 200 pontos.
Liling vasculhava os arquivos empoeirados dos jornais de 1925. Algumas reportagens pareciam ter se perdido no tempo, como contou a bibliotecária, mas no meio de recortes aleatórios, encontrou algo que chamou sua atenção.
Leu e releu o texto algumas vezes, sentindo um arrepio percorrer a espinha. Então, aproximou-se da bibliotecária. A senhora, de aparência frágil e cabelos totalmente brancos, aparentava quase noventa anos. Usava óculos finos de leitura e mantinha uma expressão serena e atenta, típica de quem conhecia cada centímetro daquela biblioteca. Era como se fizesse parte da mobília do Memorial Library, viva e cheia de histórias.
— Oi, senhora Vitti. — disse Liling com respeito, segurando o recorte com certo cuidado. — Estive lendo umas reportagens de 1925 e encontrei essa aqui... A senhora sabe me dizer por que Rose e Julieta não se davam bem?
A bibliotecária tirou os óculos por um instante, apoiando-os no peito com uma cordinha bordada. Seu olhar tornou-se distante, como se remexesse memórias antigas guardadas em caixas invisíveis.
— Todos achavam que era apenas por conta das famílias rivais. — começou com a voz baixa e carregada de tempo. — Mas diziam que elas viviam criticando uma à outra. Talvez fossem parecidas demais em certos aspectos... e isso as incomodava.
Liling assentiu devagar, voltando os olhos ao papel amarelado.
— É, na reportagem diz que elas enfrentavam as durezas das expectativas familiares. — comentou, ainda pensativa.
— É a reportagem sobre o quadro que Julieta pintou?
— É sim... — respondeu com um suspiro. — Triste, não é? Como tratavam desse assunto naquela época. Se bem que até hoje, algumas pessoas ainda pensam assim...
A senhora Claudia balançou a cabeça com tristeza.
— Sim, realmente triste. Especialmente porque, alguns dias após o ocorrido, descobriram que o quadro que Julieta pintou se tratava de Romena. E pouco tempo depois, ela foi brutalmente agredida.
Liling levou a mão à boca, chocada.
— Nossa! É verdade... — murmurou, voltando-se ao jornal para confirmar a data. — Isso aconteceu no fim de março de 1925. Foi quando as mortes começaram a acontecer, não foi?
— Sim, querida. — confirmou a bibliotecária, olhando fixamente para o nada. — Rafael havia morrido, Serena estava desaparecida, Jack foi assassinado... As pessoas queriam expulsar Edward da cidade... Khadel estava um caos. E ainda assim, havia quem se preocupasse com quem Julieta amava.
Um silêncio pesado se instalou entre as duas, preenchido apenas pelo som suave de páginas antigas sendo folheadas ao longe.
— A senhora sabe alguma informação a mais sobre esse mês que possa ser útil? — perguntou Liling, ainda com os olhos fixos na reportagem.
Claudia fechou os olhos por um instante, em busca de lembranças.
— Não muito, minha querida. Só que... Julieta e Rose tentaram, sim, ser amigas. Mas não tiveram tempo de desenvolver essa amizade. Rose estava com o coração despedaçado por Jack... E Julieta perdeu Romena poucos dias depois. E também... tirou a própria vida.
As palavras caíram como um sussurro melancólico, e Liling sentiu o estômago apertar.
— A senhora sabe onde está esse quadro?
A bibliotecária soltou um suspiro longo, como quem se entristece por não poder dar uma resposta melhor.
— Se perdeu com o tempo. Na reportagem, diz que ele foi retirado no fim do evento para preservação, mas... depois disso, nunca mais se ouviu falar da pintura. Só restou esse pedacinho na fotografia do jornal.
Liling assentiu, emocionada.
— Obrigada, senhora Vitti.
Ela então devolveu com cuidado a reportagem ao seu lugar na pasta da sala de arquivos, como quem devolve algo sagrado ao seu altar. Depois, caminhou para fora do Memorial Library, com o coração mais pesado do que quando entrou.
@rcliling
ooc: esse é um dos POVs de revelação que eu solto, com a permissão da player para citar a personagem.
Um cheiro de sândalo queimado pairava no ar, quando a porta da loja de Zafira, vazia naquele dia, se abria lentamente. Scarlet entrou em silêncio, se sentou em frente a cigana, observando-a. A mulher embaralhava as cartas com lentidão ritualística.
— O que procura, poderosa?
— Procuro respostas.
— De que forma? — A cigana ergueu uma sobrancelha.
— Não quero pagar nenhum preço espiritual.
— Direta ao ponto... Bem, podemos usar o tarot, o que acha? — mostrou o baralho, que acabara de usar em um atendimento.
— Não quero ler minha sorte. — revirou os olhos.
— O tarot pode dar respostas sobre sua alma gêmea. Qual a relação de vocês hoje em dia...
— E não me cobra nada em troca?
— Só dinheiro.
Scarlet pareceu desconfiada, mas apesar de misteriosa, Zafira nunca havia omitido informações sobre aquilo, em específico.
— Como funciona?
— Há muitas formas de se perguntar ao tarot. — ela começou, a voz baixa, melodiosa. — Posso abrir caminhos futuros... revelar a essência de um laço... ou até espelhar dois corações entrelaçados pela dúvida. Qual dessas você deseja?
Scarlet hesitou, e então respondeu com um balançar de ombros e um olhar sincero:
— Eu não sei... talvez... o que você achar melhor. Algo que ajude.
Zafira sorriu de canto, aquele sorriso que conhecia mais do que dizia. Cortou o baralho em três partes e reuniu-o de novo.
— Então deixemos que as cartas escolham. Farei uma leitura que fala da alma e do coração. Veremos o que você sente por essa pessoa... e o que ela sente por você. Veremos os obstáculos... e o que o tempo reserva.
A cigana acendeu as velas, recitou umas palavras numa língua antiga, e pediu que Scarlet cortasse o baralho quatro vezes. Depois, separou doze cartas, colocando-as em quatro fileiras de três. Cada uma com um gesto cuidadoso, como se tocasse em algo sagrado.
— A primeira fileira fala sobre como você vê a sua alma gêmea. A segunda é como essa pessoa te vê. A terceira falaremos do que atrapalhar vocês, e por último... o possível futuro.
🃏 O Enamorado, O Eremita, A Força
Zafira virou as três primeiras cartas e as avaliou antes de começar a narrar o que via.
— Você se divide entre a razão e aquilo que sente sem compreender. Essa pessoa lhe atrai de modo que o mundo ao redor silencia. Mas o medo... o medo de escolher errado também vive aí. Você tem motivos nobres para querer quebrar a maldição. Alguém que você quer muito amar. Um coração grande, num corpinho pequeno. E por isso você tem tanto medo de se entregar e ser pessoa errada. Você confia nessa pessoa, mas teme que, se ela visse toda a sua luz... ou toda a sua escuridão... se afastaria. Mas há desejo, sim. Há paixão, atração, intensidade, confiança... mas também autocontrole. Você não deixa escapar. Ou tenta. Mas o toque dessa pessoa, os olhos, o cheiro, a textura da pele... tudo isso quebra suas defesas. E é por isso que teme perder.
.
🃏 A Estrela, O Diabo, O Julgamento
Zafira virou as três da próxima fileira e as analisou antes de começar a explicar.
— Essa pessoa vê em você esperança. Há beleza na forma como você existe para ela. Sua companhia é serena, familiar. Como se estivesse exatamente onde deveria, sempre que está ao seu lado. As cartas revelam um desejo que queima. Essa pessoa não é cega à sua pele, à sua voz, aos seus olhos. A atração vai além disso. Há tentações que não quer nomear, porque teme o que isso significa, e o que pode perder se admitir o que sente por você. Essa pessoa sente algo que ainda não entendeu... porque existe um eco do passado que ainda pesa. Mas você... você a faz sentir que há vida após aquilo. Mesmo que ela ainda não saiba se deve seguir adiante ou olhar para trás.
.
🃏 A Lua, Cinco de Copas, O Oito de Espadas
Zafira estalou os dedos antes de virar a nova fileira.
— Ilusões. Há segredos entre vocês. Verdades escondidas por medo, por vergonha ou por proteção... Você sente o que não diz. A pessoa sente o que não admite. E isso cria um véu entre vocês. Existem feridas passadas — dela, suas, de outras vidas talvez. Alguém ainda se agarra a uma lembrança que dói. Uma ausência que impede outra presença de florescer. As cartas mostram prisão. Mas não uma cela real... é uma cela da mente. Vocês carregam ideias fixas, medos ou frases que disseram pra si mesmas tantas vezes que se tornaram correntes. “Não posso”. “Não devo”. “Não sou capaz.” Vocês precisam cortar essas cordas, mesmo sem saber se vão sangrar.
.
🃏 Dois de Copas, A Imperatriz, O Sol
Zafira encarou Scarlet para tentar capturar alguma reação, mas logo seguiu, virando as cartas da última fileira e avaliando-as.
— União. De um encontro que não é só físico. Um espelho. Um pacto silencioso entre dois corações que já se conhecem, mesmo sem saber ou entender como. Isso existe. Mas precisa ser aceito. O florescer. O amor maduro, o cuidado, a entrega. Essa relação tem o poder de curar. De crescer. De dar frutos. Mas exige que vocês parem de fingir que é só desejo, ou só impulso. Existe vida real aqui. Verdade. E a carta do Sol... ah, o Sol mostra que está claro. Os sentimentos de vocês, o que está por vir, se o caminho for seguido com coragem. Paixão ardente. Descobertas sinceras. Um amor que ilumina e aquece — mas que também revela tudo. As cartas mostram um futuro brilhante. A resposta está em vocês. No que ousarem sentir. No que tiverem coragem de abandonar... e no que tiverem coragem de começar.
Scarlet sentiu um arrepio. Como se tivesse ouvido muito... e ao mesmo tempo, nada. O perfume das velas queimando parecia mais forte agora. A loja estava mais quente.
E no fundo da mente dela... lembranças da feira. Um sorriso. Um toque. Uma voz. Um sussurro. Todas as pessoas que mexeram com seu coração ou a confundiram de alguma forma invadiam suas lembranças como se tentassem lhe dar algum sinal, uma resposta.
Nada parecia fazer sentido... ainda.
OOC.
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"O corpo carrega as cicatrizes, mas a alma também se cansa. Para cada batalha, uma cura; para cada dor, um alívio. Escolha bem o que deseja tomar, pois cada gole é um sussurro para o destino."
☕ Chá da Serenidade – Para acalmar a mente e o coração 💜
"Os ventos da maldição ainda sopram sobre Khadel… e aqueles que ousam desafiá-los sentem o peso do passado em seus ombros. Este chá acalma os ânimos, desacelera os pensamentos e protege contra os ecos das memórias antigas."
Ingredientes:
1 colher de chá de lavanda 🌿 (para acalmar os pensamentos)
1 colher de camomila 🌼 (para aliviar o peso no peito)
1 pitada de pétalas de rosa 🌹 (para fortalecer o coração)
Mel a gosto 🍯 (para suavizar as palavras não ditas)
Modo de preparo:
Ferva a água e despeje sobre as ervas. Tampe e deixe em infusão por cinco minutos. Coe e adoce com mel. Beba antes de dormir… e ouça o que seus sonhos querem lhe contar.
🔥 Poção do Renascimento – Para restaurar forças e curar feridas 🌿
"As batalhas deixam marcas, visíveis ou não. Esta poção aquece o espírito, acelera a recuperação e sela cortes e hematomas com o toque da terra e do tempo."
Ingredientes:
Folhas de confrei 🍃 (para regeneração)
Um punhado de hortelã 🌱 (para aliviar dores)
Gengibre ralado 🫚 (para restaurar a energia vital)
Um cristal de quartzo claro 🔮 (para purificar a essência)
Modo de preparo:
Aqueça a água e adicione as ervas. Deixe em infusão por sete minutos. Retire o cristal antes de beber—ele terá absorvido parte da energia da cura, e poderá ser usado novamente. Beba ainda morno, e sinta o alívio percorrendo seu corpo.
Qual dos dois você precisa mais? Ou talvez… os dois?
A loja está aberta. Mas lembre-se: a magia age apenas para aqueles que creem. ✨🔮
Zafira segurava o diário com ambas as mãos, como se carregasse algo sagrado — ou perigoso demais para deixar em qualquer lugar. — Achei certo deixar com você. — disse, estendendo-o para Aleksander com um olhar firme. — No próximo ritual, você deve levá-lo. — Ela hesitou por um segundo antes de continuar: — Talvez, se você ler com calma, encontre algo. Mas leia devagar, Alek. Pode causar… sensações. Especialmente agora que você sabe quem é.
Aleksander não respondeu. Pegou o diário sem cerimônia, mas a palma formigava como se o objeto estivesse vivo. Era pequeno, de couro gasto, com um fecho ainda intacto.
Ele o levou para o sua casa, fechou a porta do quarto e sentou-se na cama. Ficou observando o caderno por um momento antes de abrir na primeira página.
DIÁRIO DE JAMES
[Sexta-feira, 10 de agosto de 1923]
“Não sei bem como se começa um diário.
Mas tenho muitos pensamentos que não cabem em lugar nenhum. Não posso compartilhá-los com ninguém — não sem consequências — e me disseram que escrever pode ajudar a colocar ordem nas ideias.
Então, talvez isso funcione.
Talvez aqui eu possa existir um pouco mais livre. E até me compreender melhor.
Se alguém estiver lendo isso, espero que seja alguém bom.
Nos vemos por aí,
James.”
Aleksander franziu a testa. Esperava algo mais… relevante. Um segredo. Uma pista. A caligrafia era firme, porém delicada, como se cada letra tivesse sido moldada com paciência. Mas o conteúdo parecia banal, quase ingênuo.
Bufou.
— Que perda de tempo...
Com um suspiro, folheou as páginas apressadamente, parando perto do final, onde o papel já se mostrava um pouco mais amarelado. Abriu ao acaso, e ali estava outra entrada.
DIÁRIO DE JAMES
[Sábado, 21 de fevereiro de 1925]
“Hoje subimos o Monte della Penombra. O nome assusta os turistas, mas para nós é só… um refúgio. Ninguém sobe até o topo. Não nessa época do ano, não com esse calor.
Levamos frutas, água e um pano para deitar. Landon riu quando tropecei numa raiz, e depois disse que eu fazia isso de propósito só pra ele me segurar. Talvez eu tenha feito.
Deitamos lado a lado na grama. O céu parecia mais azul lá de cima. Nenhuma nuvem, nenhuma palavra, só o som das folhas se movendo, e nossas mãos se encontrando no meio do pano. Os dedos dele tocando os meus, com leveza, como quem pede permissão em silêncio.
Foi ali, naquele instante, que eu tive certeza.
Se o paraíso que o meu pai prega na igreja for isso, então eu já estive lá.
Como algo tão condenado por palavras pode ser tão sagrado no silêncio? Virei o rosto para encará-lo enquanto pensava tudo isso. Como podem olhar para esse tipo de amor e ver pecado?
De todas as bênçãos que eu já pedi a Deus, Landon foi a única que recebi em silêncio.”
Aleksander leu até o fim, e então permaneceu imóvel por alguns segundos. A garganta parecia apertada, o peito carregado de uma saudade que não era sua — ou que ele não reconhecia como sua. Não sabia o porquê, mas a imagem de dois jovens deitados no alto de um monte, mãos entrelaçadas no meio da brisa do verão, o assombrava como uma lembrança malformada.
Um nome ecoava em sua mente como um sussurro antigo.
Landon.
Quem era o seu (ou a sua) Landon, afinal? Onde estaria agora, em 2025? Ele sentia que precisava encontrar essa pessoa. Encontrar esse amor.
Tentou voltar ao diário, abriu mais algumas páginas. Mas nada fazia sentido. As palavras embaralhavam. Seu corpo se recusava a prosseguir. O aperto no peito era demais. Fechou o caderno com firmeza.
Levantou-se, atravessou o quarto, e guardou o diário num cofre discreto embutido no armário. Trancou. Não por medo. Mas porque não estava pronto para sentir aquela saudade esmagadora de novo.
O cheiro de incensos e ervas exalava pelo ar, misturando-se com a umidade do ambiente abafado da pequena loja. A loja estava movimentada. Algumas pessoas olhavam as pedras de proteção, outras as velas aromáticas, e Zafira finalizava um atendimento quando seus olhos castanhos encontraram a figura de Aleksander entrando no lugar. Sempre com aquela confiança de quem estava impecavelmente bem vestido, o perfume caro no ar como uma assinatura. Seus olhos, frios e desafiadores, passaram rapidamente pela loja, sem se importar com a decoração exagerada ou com o que ali poderia oferecer. Ele estava ali por um motivo, e só isso importava.
ooc: Para não ficar confuso, aqui o color coded para a leitura.
Aleksander Zafira Menina da visão Menino da visão (que é o Alek no passado)
O que tiver de azul é o Alek narrando aqui em 2025 para a Zafira, o que estiver de verde é o Alek na vida passada falando na lembrança, como ocorreu. Ele meio que só "repete" automaticamente o que aconteceu na cena.
Zafira o olhou com calma, quase como se já o esperasse, mas estava surpresa por vê-lo ali. O sorriso que apareceu em seus lábios foi enigmático, carregado de um mistério que ele ainda não conseguia perceber. — Veio buscar algo, meu caro? — Sua voz suave soou quase como um desafio.
Aleksander ergueu uma sobrancelha, um leve sorriso maroto nos lábios. Ele se aproximou da cigana, ignorando as velas e o ambiente movimentado ao redor.
— Ouvi dizer que você faz leituras de bola de cristal. — Sua voz era cheia de certeza, mas com um tom de deboche, como se não acreditasse naquilo. — E dizem que você cobra um preço...
Zafira manteve o olhar fixo nele, sem pressa de responder. O silêncio entre eles parecia crescer.
— A Helena veio aqui e pagou esse preço. — Ela finalmente disse, sua voz baixa e grave, quase como se falasse sobre algo que não fosse de seu domínio. — Pagou caro.
Aleksander deu uma risada baixa, cruzando os braços, se acomodando como se fosse dono daquele espaço.
— Dinheiro não é problema. — Ele se inclinou um pouco mais para frente, como se o desafio fosse apenas uma brincadeira para ele.
Zafira o observou com atenção, como se visse mais do que ele estava disposto a mostrar. Seus olhos brilharam por um momento, e ela se inclinou ligeiramente, sua voz mais grave.
— O preço, meu caro, não é apenas financeiro. — O silêncio se estendeu entre eles, pesado, até que ele sentiu uma pressão que não estava acostumado. — É um preço espiritual.
— Tipo o que? — Ele parecia quase curioso.
— Ouvir vozes. Sentir alguém te seguindo. Sentir toques, calafrios, pesadelos... — Ela narrou com naturalidade, a voz quase imparcial.
Aleksander se manteve imóvel por um instante, o sarcasmo desaparecendo de seu rosto. Ele sentiu a tensão crescer, como se a própria sala estivesse o observando. Mas logo seu sorriso se alargou novamente, como se estivesse testando os limites do que poderia provocar.
— Bom... — Ele se afastou um pouco, gesticulando como se tudo fosse um grande jogo. — Você tem alguma alternativa sem esse tal de "preço espiritual"? Algo mais... acessível?
Zafira, com seu olhar imperturbável, recostou o corpo na bancada ao lado e, sem hesitar, respondeu:
— Acessível financeiramente? Todos são, meu bem. Meus preços não são tão caros, e acredito que, para você, não teria problema se fosse, não é? Agora, para funcionar, é preciso ter uma alma. Você tem, meu leão? — Com olhar provocativo e a voz carregada de deboche, ela aguardou uma resposta que veio em forma de olhos revirados. A cigana riu, desdenhosa. — Tenho outra alternativa, sim. A regressão.
Ele a encarou por um momento, como se avaliasse a proposta, ainda com aquele olhar desafiador. Mas havia algo nos olhos dela, algo que o fez se sentir... desconfortável. Ainda assim, a curiosidade falou mais alto.
— Tá, vamos nessa. — Ele disse, num tom misto de deboche e interesse, sem perceber ainda o quanto estava se colocando à prova.
Zafira apenas sorriu, e o chamou com um aceno de cabeça para a salinha reservada dentro da loja. Fez um sinal para a atendente cuidar dos clientes — a mulher apenas recebia pagamentos, enquanto apenas Zafira atendia os casos personalizados.
O lugar era quase vazio, exceto por um objeto enorme coberto por um pano de veludo negro — o espelho, que ela ainda não havia confessado aos reencarnados a existência dele —, um sofá confortável e uma cadeira ao lado. Zafira indicou o sofá para o rapaz, acendeu as velas ao redor, pegou o relógio e o colocou para tiquetaquear. Sentou-se na cadeira ao lado dele.
— Preciso que se concentre. Libere seus pensamentos de tudo e todos, foque apenas na minha voz. Feche os olhos — disse ela, com a voz cada vez mais baixa e cadenciada, quase em sussurro. Queria que ele ouvisse como uma voz de seu inconsciente. — Respire fundo... mais uma vez... e solte devagar. Imagine uma luz suave envolvendo seu corpo, aquecendo seus ombros, seus braços, suas pernas.
Ela esperou alguns segundos, observando a respiração dele se tornar mais lenta e profunda. Narrava palavra por palavra, com calma, como se quisesse fazê-lo sentir o que ela descrevia.
— Cada inspiração te leva mais fundo. Cada expiração leva embora o peso do presente. Sinta seu corpo ficando leve, como se flutuasse. Deixe que a mente vá além do agora... além deste tempo...
Ela fez uma breve pausa, a voz sempre calma e serena.
— Visualize uma porta à sua frente. Uma porta antiga, mas segura. Quando estiver pronto, atravesse essa porta... Do outro lado, encontrará uma lembrança antiga, talvez esquecida... Talvez não pareça sua...
Zafira manteve o tom hipnótico, conduzindo com suavidade:
— Não tenha medo. Observe o que surge. Deixe vir o que sua alma quiser mostrar.
A visão se forma devagar, como se as bordas do tempo estivessem sendo puxadas para dentro de si. Aleksander não reconhece o lugar de imediato, mas tudo tem um cheiro antigo, de madeira envernizada, flores secas e tinta. As janelas filtram uma luz morna do fim da tarde, e as paredes estão salpicadas por desenhos pregados com tachinhas — margaridas, esboços de pássaros, contornos de rostos.
— O que você vê?
— Parece uma casa. — Ele responde, inconsciente, e sussurrando.
— Está dentro da casa?
— Estou. Tem uma... uma menina sentada no chão. De pernas cruzadas. Estou ao lado dela.
A menina segurava um pedaço de papel com as pontas sujas de carvão. Seu vestido branco tem bordados delicados nas mangas e está um pouco amarrotado. Os fios claros de seu cabelo caem em ondas leves pelos ombros, preso apenas por uma fita azul desfeita num laço imperfeito. Ela olha para o garoto à sua frente com um sorriso que parece maior que o mundo.
— Fica quieto, ou vou acabar desenhando você com dois narizes. — ela diz, com a voz leve como algodão, e solta uma risada clara que preenche o ambiente.
— Ela falou comigo. Parece gostar de mim. Tem um sorriso bonito.
— Você está observando a cena ou está nela?
— Eu estou nela. Eu sou o rapaz com quem ela está falando.
— O que mais você vê além do sorriso dela?
— Pele clara. Vestido branco. Carvão nas mãos. Ela está fazendo um desenho meu.
— Você consegue ver o desenho?
— Não é muito bom. — Ele sorriu, como se fosse uma lembrança própria, nostálgica.
Na memória da regressão, o rapaz tenta não rir, mas fracassa. Leva a mão ao rosto, fingindo vergonha, e acaba borrando o queixo com o carvão. A menina percebe e engasga de tanto rir, se inclinando pra frente enquanto segura a barriga, o papel quase escapando de seus dedos. Ele a encara por um segundo, surpreso pela naturalidade daquele momento. Nada parecia forçado. Nenhum deles parecia preocupado com o que viria depois.
— Você ficou com a cara de um fantasma assustado. — ela comenta, apontando para o carvão em seu rosto.
— E você está rindo de mim desde que eu cheguei aqui. — ele retruca, tentando parecer sério, mas os olhos estão brilhando demais para enganar alguém.
Ela para. Ainda com um sorriso nos lábios, mas agora os olhos fixos nele. O tipo de olhar que muda tudo. Lento, contemplativo, como se estivesse vendo algo pela primeira vez.
Ele percebe a mudança.
— O que foi? — pergunta, baixinho, curioso.
— Ela está me encarando. Eu perguntei o que houve.
A menina hesita. Pega o papel inacabado no colo e dobra com cuidado antes de largá-lo ao lado. Depois ergue o olhar de novo, mais vulnerável desta vez.
— Acho que estou apaixonada por você.
O silêncio que se segue não é desconfortável — é paralisante. Como se o ar tivesse desaparecido do quarto e tudo que restasse fosse o som abafado do próprio coração batendo. O rapaz engole em seco, mas a garganta parece trancada. As mãos formigam, presas sobre os joelhos, e uma parte dele — a parte mais quieta e escondida — deseja sentir o mesmo.
Aleksander, no sofá, se remexe, repetindo as ações de nervosismo de sua versão no passado, na memória que invadia sua mente agora.
— O que aconteceu?
— A menina disse... que está apaixonada... por mim.
— E isso é algo ruim? O que você sente na memória?
— Parece que quero dizer algo, mas não consigo.
— Você acha que isso pode ser um problema? — A menina pergunta, tentando sorrir, buscando alguma confiança, mas não encontra.
— Eu não acho que eu mereça você.
— Ela perguntou se isso é um problema. Eu disse que não a mereço.
O rapaz na cena inspira devagar. Aleksander faz o mesmo. Zafira apenas observa. As palavras que vêm não são planejadas. Só aparecem.
— Você seria a escolha perfeita... se eu pudesse escolher você.
A resposta é quase um sussurro. E naquele instante, Aleksander sente tudo o que o rapaz da cena sentiu. A tensão interna. O conflito. A frustração por não ter coragem de dizer a verdade. A angústia por não poder ser aquele que ela esperava.
— Por que não pode?
— Você espera um príncipe encantando. Eu te conheço. Eu não sou esse cara.
— Eu disse que ela seria a escolha perfeita, mas não posso ser o cara que ela merece. — Aleksander resumiu, em outras palavras, o que havia dito na memória.
A menina desvia o olhar e força um sorriso triste, magoado, mas gentil. Levanta sem dizer nada. Passa por ele em silêncio, e quando abre a porta para ir para seu quarto, ele tenta uma última vez.
— Eu queria muito que fosse diferente... — Ele sussurra, mas ela já saiu.
— Eu disse que queria que as coisas fossem diferentes.
— Você vê algo mais, Alek?
A visão parece prestes a desvanecer quando, de repente, algo muda. Uma nova cena invade como uma batida seca no peito. A transição é brusca, e Aleksander mal tem tempo de entender o que está acontecendo.
Tudo está borrado ao redor. Um corredor? Uma estação? Uma rua coberta de névoa? Ele não sabe. Só vê ela. Com o mesmo cabelo claro, agora preso num coque desalinhado. Vestida com uma blusa creme de gola alta e uma saia azul. Era um dia diferente. Os olhos estão vermelhos, uma lágrima solitária escorrendo pela bochecha enquanto ela fala, com a voz embargada:
— Você não pode me deixar assim.
O garoto da visão respira fundo. O coração está em conflito, e Aleksander sente cada batida, como se o sangue nas veias fosse dele também.
— Talvez um dia você entenda o motivo para eu partir.
E então ele se afasta, virando de costas, sumindo na névoa do cenário indistinto. O som dos passos ecoa, e o gosto amargo da despedida permanece.
Aleksander acorda com a sensação de que ainda está lá. Como se tivesse vivido aquilo. Como se tivesse perdido alguém que não lembrava ter amado.
— Alek... calma...
Ele respirava descontroladamente, sentando-se no sofá. Zafira buscou um copo d'água e ofereceu. Ele bebeu, ela o ajudou a controlar a respiração, e só quando ele pareceu mais calmo, voltou a perguntar.
— Você viu algo mais?
— Uma cena borrada. Não vi onde era, mas foi com a mesma menina. Eu estava indo embora.
Zafira pareceu analisar. Aleksander estava incomodado.
— Eu ainda sinto tudo. O que aconteceu. A dor de partir, o amargor de ver o rosto dela entristecido. Eu nem conheço a garota, como isso pode me afetar?
— É efeito da regressão. Pode ser que passe em instantes.
— Pode ser?
— Pode ser que fique por um tempo. Um bom tempo. Não tenho precisão.
— Tudo com você tem um preço, de qualquer forma.
— Ei, não seja ingrato. Você teve uma boa visão. Só precisa descobrir quem é a garota de cabelos claros. Se eu te mostrar fotos, consegue identificar?
— Acredito que não. A imagem era um borrão, não dava para ver detalhes.
— Talvez a visão volte e fique mais clara depois.
— Eu espero que sim. — Aleksander suspirou, quase frustrado.
— Agora você deve pesquisar. Vá nos jornais da cidade, converse com moradores antigos. Procure histórias sobre o passado deles. Pode ficar aqui na sala o tempo que precisar até se acalmar. O valor é só acertar lá fora. — Zafira fez um carinho nos cabelos de Aleksander, e sorriu, quase doce, quase empática. — Boa sorte, meu bem.
OOC.
O pov foi comprado pela player do Aleksander por 150 pontos.
O som da porta rangendo ecoou pela loja vazia, interrompendo o silêncio da noite. Matteo entrou com passos firmes. Zafira estava sentada à mesa, as mãos ágeis guardando os objetos do trabalho do dia. Ela não olhou para ele imediatamente, mas seu sorriso sempre misterioso surgiu aos poucos, como uma peça de teatro prestes a ser encenada. Matteo era reservado, ela não o conhecia muito, mas sabia que ele não era do tipo que a visitaria sem um propósito. Um homem sério, fechado, que raramente expressava mais do que a necessidade básica de ser educado. Ela se levantou, se aproximando lentamente. Seus olhos, profundos e enigmáticos, brilharam com um interesse sutil.
— Ah, Matteo... Já fechei o expediente por hoje. Mas posso fazer uma sessão especial para você. — ela falou com aquela mistura de provocação e diversão, como se estivesse se divertindo com a decisão dele de procurar por ela. Naquele horário. Ela sabia bem o que ele queria.
— Eu só quero entender como funciona. — respondeu Matteo, sua voz calma, mas com uma firmeza que não passava despercebida.
Zafira riu suavemente, um som baixo e cheio de significado, como se estivesse rindo da situação, mas de uma maneira amigável, quase cúmplice. Em certos momentos poderia não parecer, mas a cigana tinha tanto interesse em acabar com a maldição quanto alguns deles.
— Tem que estar preparado. O espelho... Ele... cobra um preço. — Ela deu um passo atrás e gesticulou em direção a um canto da sala, que levava a uma área mais reservada.
Lá dentro, um objeto enorme era coberto por um pano de veludo preto. O espelho. Ela descobriu o item, e fez sinal com a mão para que Matteo se aproximasse. Sua superfície escura refletia o brilho fraco da luz nas velas, mas não revelava muito mais do que isso. O vidro parecia escuro demais para refletir a imagem de alguém, e algo mais parecia viver ali, à espreita. Zafira se virou para Matteo, seu sorriso se alargando, mas com um toque de seriedade agora.
— Para invocar o espelho, você precisa recitar as palavras certas. — disse ela, quase como uma oração. Buscou um livro na mesinha atrás do espelho e abriu na página. — Você está preparado para o que vem depois?
Matteo sentiu um leve calafrio, mas não vacilou. Ele não sabia exatamente o que esperava, mas algo o impulsionava para frente.
— Eu vou sofrer uma consequência sem saber o que é?
— Não, o Espelho te revela antes qual o preço dele. E você aceita ou não.
— E se eu não aceitar?
— Ele não responde.
— Simples assim?
— É. Mas depois ele só pode ser invocado novamente em 30 dias. Então não desperdice a chance. E nem desperdice a pergunta.
Matteo parecia tenso, hesitando em concordar. Suspirou, frustrado, para o olhar quase pedinte de Zafira. Com um gesto sutil, ela ajeitou o espelho para que ele pudesse ver melhor, como um pedido de confirmação se podiam seguir em frente.
— Vamos lá... — a voz não soava muito confiante, mas Zafira sorriu.
Caminhou até ele e segurou o livro, apontando as palavras que ele deveria dizer.
— Repita essas palavras.
Matteo assentiu. Pigarreou e começou a recitar o poema, lendo devagar, com notável dificuldade.
— “Nas suas sombras, a verdade se esconde,
Ofereço meu sacrifício, que ao tempo responde.”
Quando ele terminou, o espelho não fez nada de imediato. O silêncio pairou por um momento, até que uma suave vibração começou a emanar do vidro. O lugar ficou mais escuro, como se o objeto sugasse a luz do ambiente. O som era como uma reverberação suave, um murmúrio que só Matteo parecia poder ouvir. A superfície do espelho parecia se distorcer ligeiramente, como se algo dentro dele estivesse começando a despertar.
De repente, o espelho mostrou a imagem de um rosto. Apenas um rosto. Flutuando. Sério, apático. Então, foi possível ouvir sua voz. forte, imponente, decidida. As palavras surgiram como se fossem parte de um poema fluido, dito por uma voz profunda e distante:
— Em busca da verdade, você se apresenta. Mas um sacrifício será necessário para a resposta que deseja. Ofereço minha visão, por um preço a pagar. O peso se dissipará, se o caminho mudar.
Matteo pareceu confuso.
— O que houve?
— Não entendi o final. Você consegue ouvir?
— Não. Só você. Mas ele deve ter repetido o que falou para mim. "Se o caminho mudar" significa "se a maldição for quebrada". Vocês têm doze meses, lembra? Na verdade, agora vocês só têm dez. Se no final do ano vocês quebrarem a maldição, o preço que vai pagar hoje será revertido, no fim.
— Entendi. E qual é o preço?
— Pergunte a ele.
— Senhor Espelho, qual... qual é o preço? — meio sem jeito, sentiu-se ridículo por falar com um objeto. Zafira conteve um riso.
A voz emitiu um resmungo, e algo mudou no ar. Era como se o estivesse avaliando, procurando em sua alma suas fraquezas para sugerir um preço que ele negasse... ou que, ao menos, o incomodasse. Por um momento, o vidro parecia se desfocar, e então, uma cena começou a se formar ali dentro.
Primeiro, um borrão. Depois, uma imagem começou a surgir: Matteo, ainda jovem, mas diferente. Magrelo, desengonçado, o rosto cheio de insegurança. Um reflexo de alguém que sofria bullying, alguém que se escondia, alguém que não sabia como enfrentar a si mesmo. O reflexo de sua adolescência, em toda a sua forma mais cruel.
Zafira observou Matteo, com os olhos focados no espelho, mas ela sabia que ele já estava vendo. Era possível perceber a mudança no semblante dele, de alguém que vinha algo, no mínimo, desagradável. O preço estava diante dele agora, em forma clara e dolorosa. O espelho falou de novo, agora mais sombriamente:
— O preço está feito. A cada olhar, o peso da sua alma refletida na infância. O que já passou, mas que nunca se apaga.
Matteo repetiu o que ouviu, e Zafira clareou a explicação.
— Toda vez que olhar no espelho, o seu reflexo vai estar... diferente. Você vai se enxergar como já foi um dia.
O espelho aguardou, em silêncio, e o reflexo de Matteo na adolescência continuou a olhar para ele, um lembrete do que ele poderia perder ao fazer essa escolha. A tensão no ar era palpável, mas ele não se afastou.
— Eu aceito. — A voz dele estava implacável, sem uma faísca de dúvida.
Zafira se surpreendeu.
— Matteo, o espelho mexe com as nossas inseguranças. Até o final do ano, você só vai enxergar no espelho a versão que você odeia. Isso se a maldição for quebrada, se não... — Ela tentou alertar.
Ele a interrompeu, sem olhar para ela, encarando o reflexo no espelho. Zafira suspirou.
— Eu aceito.
O silêncio entre eles parecia mais espesso. A decisão foi tomada. O espelho voltou a mostrar o próprio rosto, aquele flutuante e sério demais.
— Faça a pergunta.
— Eu fui James Scott na vida passada?
Zafira ouviu a pergunta, mas não via ou escutava nada do que o espelho dizia.
— Se você for, ele vai te mostrar imagens da sua vida passada e você vai ter... sensações. Lembranças. Se não, ele só vai sumir.
Matteo permaneceu em silêncio, os olhos fixos na imagem do espelho. Ele sabia que estava lidando com algo além de um simples ritual. Algo que poderia mudar sua vida, para o bem ou para o mal. Sem piscar, como se tivesse medo de perder alguma imagem.
O aroma de incensos e ervas preenchia o ar da pequena loja. No centro da sala, uma mesa coberta por um tecido bordado com símbolos arcanos, e Zafira atrás dela, embaralhando as cartas após finalizar uma sessão. Suas mãos, enfeitadas por anéis de pedras enigmáticas, repousavam sobre a mesa com um ar de paciência calculada. Seus olhos, escuros e insondáveis, refletiam um conhecimento que jamais seria oferecido de graça.
Quando a porta rangeu, anunciando a chegada de Helena, a cigana ergueu o olhar lentamente, como se já soubesse que a jovem viria. Um sorriso desenhou-se em seus lábios – um sorriso que não era apenas um cumprimento, mas um enigma por si só. Era cínico e acolhedor ao mesmo tempo, carregado de uma certeza silenciosa.
— Ah... — murmurou a cigana, semicerrando os olhos, como se enxergasse além do que estava ali. — Uma nova visita sua tão cedo, minha estrela? Como posso ajudá-la dessa vez?
— Da última vez, a regressão não funcionou. E eu paguei mesmo assim. — Helena provocou, cruzando os braços.
— Eu estava fragilizada, lembra-se? — Zafira respondeu, a voz carregada de um mistério calculado. — Se veio pelo seu dinheiro, posso devolver. Mas eu lhe dei uma visão.
— Que não me serviu de nada. Continuo sem saber quem fui… ou quem minha alma gêmea é. — A frustração era evidente em seu tom. Ela sentou-se diante da cigana, os olhos carregados de expectativa. — Preciso de uma nova sessão.
Zafira inclinou levemente a cabeça, analisando-a com aquele olhar que parecia atravessar a realidade.
— Lembra-se do que eu disse na outra sessão? A maldição dificulta meus processos e leituras.
— Lembro sim.
— Também falei no último ritual sobre o que descobri. Há um espírito cuidando para que a maldição não seja quebrada.
— E ele pode impedir você de tentar?
— Não. — O sorriso de Zafira era quase condescendente. — Mas ele vai cobrar um preço. E não falo de dinheiro.
— De você? — Helena disse, confiante.
— Não, minha estrela. De você.
Helena hesitou. Seu estômago revirou levemente, como se uma parte dela soubesse que não deveria perguntar.
— Que tipo de preço?
— Não sei dizer ao certo. Talvez ouvir vozes, enxergar vultos, sentir toques... Algo que o espírito saiba que pode te atormentar.
Helena mordeu o lábio. A lógica lhe dizia para sair dali, mas a intuição a mantinha firme. Tudo o que vinha acontecendo ultimamente provava que Khadel escondia mistérios que ela não podia ignorar.
Zafira aguardou pacientemente.
Por fim, Helena respirou fundo.
— Vou arriscar. Mas preciso de uma resposta real desta vez.
O sorriso da cigana se alargou, carregado daquele enigma que parecia saber demais.
— Podemos tentar a bola de cristal. Andei aprimorando meus dons com ela.
— Pode ser.
— Cinquenta euros.
Helena revirou os olhos, mas pegou o dinheiro e o estendeu sobre a mesa. Zafira o analisou por um breve instante, como se sentisse sua energia da nota de papel, antes de guardá-lo na pequena bolsinha pendurada no gancho da mesa.
A cigana pegou a bola de cristal e a posicionou com cuidado sobre um suporte, ajustando o ambiente ao redor. O brilho das pedras energéticas refletia-se na superfície límpida da bola, que começou a assumir um tom arroxeado.
— Concentre-se, Helena. Limpe sua mente.
As duas suspiraram juntas.
Zafira começou a murmurar palavras em um idioma antigo, e o ar pareceu ficar mais denso. A loja escureceu ligeiramente, como se a própria realidade estivesse se curvando ao ritual.
Então, os olhos da cigana brilharam.
— Estou vendo, minha estrela...
— Eu não vejo nada. O que está aí?
— Dois olhares se encontrando no meio da multidão... — Sua voz caiu para um sussurro, como um segredo que não sabia se deveria revelar. — Mãos se tocando às escondidas... O amor proibido sempre parece mais intenso, não é?
Helena sentiu o coração acelerar.
— Consegue ser mais clara?
— Olhares furtivos... — Zafira pausava conforme as imagens mudavam diante de seus olhos. — Uma pena riscando um pergaminho... Palavras borradas de tinta... Um quarto escuro e dois corpos se encontrando em segredo...
As figuras ainda eram opacas, turvas, apenas sombras nebulosas sem rostos definidos.
— Agora vejo... dois apaixonados correndo sob a luz da lua. Parecem felizes.
Zafira piscou rapidamente, como se estivesse sendo tragada pelas visões. As cenas mudavam rapidamente, como se quisessem contar uma história em poucos segundos.
— Uma rosa nas mãos da moça... Serenata sob uma sacada... — A cigana sorriu, tomada pela emoção da cena. — Ela escreve poesias e se sente boba por estar sendo tão romântica.
Helena se inclinou sobre a mesa, o peito apertado por um misto de ansiedade e reconhecimento.
— Essa moça... ela é... — Helena tentou dizer um nome, mas Zafira a interrompeu.
— Seus olhos encontraram os dela, e naquele instante, tudo mudou...
Zafira sorriu, os olhos lacrimejando. Helena sentiu a garganta secar.
— Meus olhos? Encontraram quem? Você está me vendo no passado?
— Sim.
— Como você sabe?
— Eu sinto. Você não sente?
Helena não respondeu. Não tinha certeza se aquela sensação forte era porque queria sentir, ou se era real.
A cigana hesitou por um segundo antes de voltar a narrar o que via, então pousou a mão sobre a bola de cristal. O ar ao redor pareceu vibrar. Zafira sentiu a visão mais forte e clara.
— Você tentou esconder... mas seu coração sempre soube a verdade, mesmo quando sua mente resistia. Estou vendo o momento exato em que percebeu que não era só uma fase ou um capricho... mas um amor verdadeiro.
Uma lágrima solitária deslizou pelo rosto da cigana.
— Você já conheceu um amor que mudou sua alma? Ela conheceu... E decidiu enfrentar o mundo... por mais perigoso que fosse.
Helena abriu a boca, mas não encontrou palavras. Zafira fechou os olhos, ofegante.
— Você nunca quis seguir as regras impostas. Mas a sociedade não perdoa quem os desafia... Você a prometeu o mundo, mas essa promessa foi quebrada pelo ódio alheio.
As lágrimas da cigana caíram sem controle. Por um momento, Zafira parecia perdida dentro da visão, completamente alheia à presença de Helena.
— Estou vendo uma cena violenta... Muito sangue... Escuridão... Flores deixadas à porta... Cartas nunca entregues... Lágrimas escondidas... O destino lhe tirou tudo em um instante.
A cigana piscou, voltando à realidade como alguém acordando de um sonho profundo.
— Você viu? — sua voz soou rouca.
— Não vi nada, mas ouvi tudo o que disse.
Zafira arregalou os olhos. Ela não se lembrava de ter falado nada. Apenas de ter assistido.
Então, a última visão se formou dentro da bola de cristal.
Helena arregalou os olhos, conseguindo enxergar dessa vez.
Uma memória perdida, um momento tão simples e tão especial de sua vida passada, que seu coração pareceu desmoronar ali mesmo, diante do brilho púrpura da visão.
— Eu estou vendo! — Helena sussurrou, o coração acelerado.
A imagem na bola de cristal desvaneceu, e o ambiente pareceu clarear levemente, como se o peso daquela visão começasse a se dissipar.
Zafira a observou com a mesma expressão enigmática de sempre, mas havia um brilho diferente em seus olhos.
— Minha estrela, espero que desta vez tenha sido útil. — Sua voz era suave, mas carregada de um significado oculto. — Eu não consigo lhe dizer mais nada. Agora, cabe a você pensar… e sentir.
Helena piscou algumas vezes, tentando organizar os próprios pensamentos.
— Certo... — murmurou, ainda atordoada. Então, como se algo lhe ocorresse de repente, ergueu os olhos para a cigana. — E as consequências? O preço que o espírito cobraria de mim?
Zafira inclinou a cabeça levemente, os dedos tamborilando sobre a mesa.
— Ainda não sei o que pode ser... Mas se ficar insuportável, me procure. Farei o possível para ajudá-la.
Helena hesitou por um instante, depois concordou com um aceno. Depositou o pagamento sobre a mesa e, sem dizer mais nada, virou-se e saiu da loja, levando consigo um misto de respostas e novas incertezas.
OOC.
O pov foi comprado pela player da Helena por 300 pontos.
Como vocês viram, haverá uma consequência para a Helena. Caso o seu personagem decida comprar a visão da bola de cristal, ele também terá uma.
A consequência da Helena será: Sombras. Em sua visão periférica, Helena começará a notar sombras que parecem se mover sozinhas. Nunca há nada quando ela olha diretamente, mas a sensação de estar sendo observada nunca desaparece completamente.
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Pasqualina sempre aceitou o que os pais diziam sem questionar. Sua crença parecia inflexível, até os eventos em Khadel começaram a afetá-la diretamente. A visão que a levou até a cachoeira, as vozes que ouviu, a fenda que se abriu no meio da queda d'água… Tudo parecia irreal e místico, mas a força que a chamava era difícil de ignorar. Cresceu ouvindo sermões sobre fé, mas agora tudo aquilo parecia pequeno diante do que ela precisava descobrir. A Bíblia não falava sobre reencarnações nem sobre pessoas capazes de rogar maldições, mas, se isso existia entre ela e seus amigos, então havia algo maior em jogo. Algo que seu pai e nem mesmo ela, com sua fé inabalável, poderia negar para sempre.
Ela sabia que não poderia perguntar diretamente. Se fosse muito óbvia, o pai perceberia e talvez nem respondesse. Então, entre conversas sobre trivialidades e afazeres da igreja, ela lançou a isca.
— Pai, o senhor já conversou com o pessoal mais velho da cidade sobre como era tudo antes? Sei lá, histórias antigas… — sua voz era casual, como se não esperasse nada demais.
O pastor franziu o cenho, pensativo.
— Bem, muitas deles têm histórias interessantes, sim. Dona Lucia Griffo, por exemplo, sabe bastante sobre aquela época. Seu avô trabalhou no comércio, e a família dela está aqui há muito tempo.
Pasqualina assentiu, como se fosse apenas um comentário qualquer. O pai não percebeu o brilho em seu olhar, nem como seu coração acelerou com aquela informação.
No dia seguinte, a filha do pastor bateu à porta da casa de Lucia Griffo. A senhora era conhecida por ser uma mulher doce, de sorriso fácil e sempre disposta a uma conversa. Pasqualina sabia que não levantaria suspeitas. Lina era assim: falava com todos, fosse jovem ou velho, sempre espalhando sua gentileza.
— Oi, senhora Lucia. — Pasqualina cumprimentou quando passou do outro lado da cerca.
A senhora regava as plantas quando ergueu o olhar e sorriu. A idosa tinha feições delicadas e cabelos mesclados entre o grisalho e o loiro claro, ainda preservando um pouco do tom natural e um pouco desgrenhados. Lucia usava um vestido florido que lhe dava um ar gracioso, óculos arredondados, os pés descalços no jardim, aquela aura hippie que nunca foi perdida. Seus olhos pequenos, mas cheios de vivacidade, analisaram Pasqualina com curiosidade.
— Ora, Lina! Que surpresa! Entre, querida. Estava mesmo querendo um pouco de companhia para o chá.
Pasqualina sorriu e aceitou o convite. Dentro da casa, o aroma de ervas e biscoitos recém-saídos do forno preenchia o ar. As duas se sentaram à mesa e logo começaram a conversar. Lucia perguntou como Pasqualina estava, se já ia se casar e contou como sentia falta do falecido marido. Os filhos ainda estavam em Khadel, mas tinham suas próprias vidas. Pasqualina ouviu com atenção, mas aproveitou para entrar no assunto que realmente lhe interessava.
— Meu pai disse que a senhora conhece muitas histórias antigas de Khadel. A cidade devia ser tão diferente, né? — Pasqualina jogou a pergunta no ar, esperando que a mulher mordesse a isca. Lucia soltou uma risada baixa.
— Oh, sim, muito diferente. As ruas eram mais estreitas, havia menos comércio. Eu ouvia muito sobre isso dos meus pais… principalmente do meu pai.
Ela começou a contar sobre sua família. Falava do pai adotado, Enzo, e de como ele crescera em uma casa simples, mas amorosa. Falava de sua avó adotiva, Carmela, que sempre teve um coração generoso. Pasqualina ouvia com paciência, o sorriso gentil forçado nos lábios, mas por dentro, sentia a frustração crescendo. Não era aquilo que queria saber.
Ela estava quase desistindo e pensando em uma desculpa para se retirar quando um nome a fez despertar.
— Desculpe... — ela interrompeu. — O que a senhora disse?
— Sobre Romena Montaldi?
— Sim.
— Era minha avó.
O coração de Pasqualina pulou uma batida. Romena Montaldi. O nome ecoava na sua cabeça. Ela se endireitou na cadeira, tentando esconder a ansiedade.
— Sua... sua avó? — repetiu, forçando a voz a soar natural. Lucia assentiu com um sorriso triste e nostálgico.
— Minha avó biológica, sim. Romena sempre teve relações complicadas com os homens. Quando se apaixonou por Julieta, finalmente entendeu o porquê. Ela sentia atração por homens, é verdade, mas nunca conseguiu amá-los. Não como amou Julieta.
Pasqualina piscou, absorvendo a informação.
— Como a senhora sabe disso? Ainda não era nascida, certo? — questionou, intrigada.
— Oh não! Romena morreu em 1925, eu nasci em 1943. Minha avó adotiva, Carmela, era amiga de Romena. Ela trabalhava na mansão dos Montaldi. Foi ela quem me contou tudo.
Lucia continuou a narrativa, sua voz envolta em um tom melancólico.
— Meu bisavô, o pai de Romena, jamais aceitaria que ela engravidasse sem estar casada. Ainda mais quando soube quem era o pai… — ela parou, como se tivesse dito demais, e desviou o olhar.
Pasqualina segurou a xícara com mais força.
— Quem era? — pressionou, mas Lucia ignorou a pergunta.
— Assim que o bebê nasceu, foi arrancado dos braços dela. Romena mal viu o rosto da criança. Minha avó Carmela implorou para que o deixassem com ela, prometendo nunca contar a verdade. Romena sempre acreditou que o filho tinha sido mandado para fora de Khadel. Mal sabia ela que ele estava aqui o tempo todo, sendo criado por uma mulher que era sua amiga, mas que não podia contar a verdade.
— E Romena…? — Pasqualina hesitou.
— Morreu dois anos depois. Sem nunca saber a verdade. Minha avó Carmela planejava contar, mas teve medo de que o senhor Montaldi descobrisse e fizesse algo com Enzo, meu pai.
Pasqualina absorvia cada detalhe, como se estivesse montando um quebra-cabeça invisível. Mas havia uma peça faltando.
— E o pai? — ela repetiu a pergunta, com os olhos brilhando de curiosidade.
Lucia riu suavemente.
— Minha avó Carmela contava que Romena era namoradeira. Estava sempre procurando sentir algo que nunca vinha. Chegou até a namorar Rafael Barrera por uns meses, logo depois que ele se divorciou.
Pasqualina arregalou os olhos.
— Rafael Barrera? — repetiu, chocada. — Ele pode ser o pai do bebê?
— Oh, não. Não, querida. — Lucia balançou a cabeça com um sorriso. — Romena pensou em tirar a criança, fugir da cidade, mas Rafael não permitiu e a apoiou todo o tempo. Ele a ajudou com a gravidez, encobriu tudo do meu bisavô, levou-a a consultas médicas. Mas Rafael e Romena nunca tiveram uma conversa real para se acertarem. Parece que algo ficou pendente para os dois nesse ponto.
Pasqualina sentiu o estômago revirar.
— Então… quem era o pai?
Pasqualina insistiu, aflita. O silêncio pairou por um instante. Então, Lucia inclinou-se ligeiramente para frente, os olhos carregados de um segredo que atravessava gerações.
— Jack Doyle.
A revelação caiu como um trovão. Pasqualina sentiu um frio na espinha, a boca secando de imediato. Jack Doyle. O nome ecoava em sua mente, e ela sabia que aquele nome era tão importante quanto os outros dois mencionados.
— Jack Doyle? Ele não era...
— Apaixonado por Rose? Oh, sim, desde que a viu. Mas os dois se aproximaram apenas em 1925, pouco antes da tragédia. É o que contam, pelo menos. E com Romena, bem, foi apenas uma noite de diversão.
— E ele soube que teve um filho?
— Minha avó Carmela já não trabalhava mais para os Montaldi, mas se encontrava às escondidas com Romena de vez em quando. Numa dessas, ficou sabendo que os dois conversaram. Jack ficou furioso. Queria criar a criança, mas Romena não sabia onde o bebê estava. Minha avó Carmela disse que nesse dia quase contou a verdade. Mas, meses depois, Romena e Jack morreram tragicamente naquele mês de março de 1925, e ela nunca teve a oportunidade de conhecer meu pai, Enzo. Assim como meus avós, Romena e Jack, não tiveram a oportunidade de se acertar. Morreram brigados um com o outro.
Pasqualina ficou em silêncio, o olhar distante de quem tentava absorver tudo e conectar alguma ligação com os dias de hoje. Nada parecia claro. Lucia a analisou, olhos semicerrados em curiosidade.
— Por que tantas perguntas sobre Romena, minha querida?
— Hm? Não... Era só... curiosidade.
— Acha que pode ser ela?
— Como assim?
— Ora, você é uma das reencarnadas, não é? Acha que você pode ser a minha avó? Achei que os cristãos não acreditassem em reencarnação.
— Não acreditamos.
— Pensando bem, seria divertido se Romena, tão corajosa, cheia de si e misteriosa reencarnasse em alguém tão doce quanto a senhorita. — Lucia riu ao imaginar. Um riso de diversão, mas preocupada com a reação de Pasqualina.
— Eu preciso ir, senhora Lucia.
— Tudo bem, Lina. Se eu souber de mais histórias, te procuro. Espero que você e seus amigos consigam quebrar essa maldição.
O som da batida na porta ecoou pelo pequeno espaço, cortando o silêncio da noite. Zafira levantou os olhos do tabuleiro de madeira onde desenhava símbolos antigos com um pedaço de carvão e franziu o cenho. Quase ninguém a procurava sem aviso àquela hora, e aqueles que o faziam geralmente estavam desesperados. Ela se levantou, os pés descalços deslizando pelo chão de madeira envelhecida, e abriu a porta. Helena estava ali, hesitante, os olhos brilhando com uma mistura de dúvida e urgência.
— Preciso da sua ajuda. — disse ela, respirando fundo, como se tentasse reunir coragem para continuar.
— Entre, minha estrela. — ela fez menção para a outra passar porta adentro, com aquele sorriso enigmático que quase irritava.
— No ritual da última lua cheia… apenas uma vela acendeu. — ela começou. Zafira inclinou a cabeça, analisando-a.
— Você acha que a chama era para você?
— Eu… não sei. Mas se for verdade… Se eu realmente fui Rose em outra vida, preciso ter certeza. Nós todos precisamos, não é?
Zafira abriu um pequeno sorriso.
— Há muitas formas de encontrar respostas. Podemos fazer uma leitura de cartas, consultar a bola de cristal ou até uma regressão.
Helena pareceu ponderar por um instante.
— Qual delas é mais… confiável?
Zafira deu de ombros.
— Depende do que você está disposta a pagar.
A cigana foi até uma mesa coberta por um pano de veludo roxo e puxou uma pequena bolsa de couro, de onde retirou um baralho de cartas gastas pelo tempo.
— Pelas cartas, o preço é vinte euros. A bola de cristal, cinquenta.
— E a regressão?
Zafira a encarou por um instante antes de responder.
— Essa custa mais. Não só dinheiro, mas algo de você. Sonhos, tempo, ou até uma pequena fração da sua energia vital. O passado cobra seu preço quando é forçado a se revelar. Especialmente quando envolve essa galera.
Helena hesitou por breves segundos, mas então ergueu a cabeça, decidida.
— Eu pago.
— Qual método?
— A regressão.
Zafira arqueou uma sobrancelha.
— Interessante.
Ela acendeu algumas velas e pegou a caixa com os objetos do passado, colocando-a sobre a mesa. Tirou alguns deles, até encontrar o pente de madrepérola.
— Isso pertenceu a Rose. Pode ser um condutor para sua memória. Se você for mesmo ela, ou se tiveram alguma relação. Mas pode ser que não funcione também.
— Como assim?
— A maldição dificulta todos os meus rituais, regressões e leituras de tarot quando se trata dos envolvidos. Ainda quer tentar?
Como resposta, Helena sentou-se diante dela, e Zafira acendeu algumas velas. Começou a recitar palavras em um idioma esquecido, os dedos deslizando suavemente pelo pente, pedindo que ela o segurasse. O ar dentro da sala pareceu mudar, tornando-se mais denso. A chama das velas tremulou, e um arrepio percorreu a espinha de Helena.
Mas nada aconteceu.
Zafira franziu o cenho e tentou de novo, mergulhando mais fundo em suas palavras, mas o silêncio persistiu.
Então, ao mover as mãos em sinais de comunicação com o espiritual, sua mão esbarrou em um outro objeto. O cavalo de madeira de Edward.
No instante em que seus dedos tocaram a superfície envelhecida, Zafira puxou o ar com força e arregalou os olhos.
Tudo ao seu redor desapareceu de sua visão.
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02 DE JANEIRO DE 1925
FLORESTA DE SERAVENTO - KHADEL
Edward não sabia ao certo o que esperava da cidade. Sentia um nó no estômago ao sair da casa isolada, com suas paredes envelhecidas e o peso dos anos de solidão após a morte do avô. O ar da floresta ainda estava impregnado em sua pele quando ele atravessou a linha tênue que separava a casa do mundo lá fora. Seus pés, que até aquele momento pareciam emaranhados nas raízes que se enterravam na terra, agora encontravam liberdade, mas ele não sabia se queria realmente essa liberdade.
Ele andou devagar, como um bebê dando seus primeiros passos, as roupas antigas amarrotadas e largas no corpo esguio, observando a floresta ao seu redor, os sons distantes de pássaros e o farfalhar das folhas se misturando à tensão que sentia no peito. Estava só. A cidade de Khadel ficava à distância, mas ele podia ver suas construções, suas formas difusas na neblina da manhã. Os primeiros raios de sol iluminavam um novo mundo, mas Edward não sabia o que fazer com isso.
Quando chegou à cidade, o cenário era completamente diferente do que ele imaginara. As ruas estavam cheias, as casas, de aparência simples, tinham jardins floridos e as pessoas circulavam, mas ninguém olhava para ele. Até finalmente notarem sua presença. Ele não sabia ao certo o que se esperava dele, mas havia algo desconfortável no olhar dos outros. Cada passo parecia mais pesado que o anterior, como se estivesse pisando em um lugar que não deveria.
A música foi o primeiro convite que ele recebeu para se aproximar de algo. Era suave, vinda de um pequeno bar na esquina. Edward se aproximou, atraído pelo som. Era uma melodia simples, mas cheia de vida, tocada por um homem com um bandolim velho, seu corpo descontraído e sorriso encantador, como se o mundo estivesse a seus pés. Ele estava no meio da rua, cercado por algumas meninas que riam e olhavam para ele com olhos de adoração. Jack Doyle era o tipo de homem que parecia ter o poder de fazer o tempo parar para quem o olhasse. O boêmio perfeito, com um charme natural, os cabelos loiros casualmente bagunçados, a calça surrada presa por suspensórios, a blusa branca com alguns botões abertos e as mangas dobradas até a metade. E aquele brilho nos olhos que fazia qualquer um se sentir à vontade.
Edward não percebeu o movimento à sua frente até que uma mão brusca empurrou seu ombro, fazendo-o tropeçar. Ele olhou para o homem que o empurrara, um sujeito de cabelos curtos e sujos, que o olhou com desprezo. — Ei, esquisito! Olha por onde anda. — disse o homem, antes de se afastar com um olhar de nojo. Edward arregalou os olhos, sem entender. Ele tentou sair de perto rapidamente, mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, um carro apareceu de repente na rua, vindo em alta velocidade. Ele não teve tempo de se mover, o susto fez seus pés ficarem imóveis. Foi então que Jack apareceu, interrompendo o caos. Ele saltou para o lado, puxando Edward pelo braço e o tirando da frente do veículo. A mão de Doyle, firme e calorosa, era tudo o que ele sentia naquele momento. Eles caíram juntos na calçada, ainda ofegantes.
— Opa, calma aí, companheiro! Esse quase te pegou, viu? — Jack disse, com um sorriso maroto no rosto, ainda segurando o braço de Edward. Esse aí com certeza não sabia de nada da vida, ele pensou, mas guardou para si. Edward olhou para o homem que o ajudara. Seus olhos verdes estavam arregalados e confusos, o susto ainda não tinha passado, mas o gesto de Jack, simples e sem pressa, era como uma âncora.
— Eu... eu nunca vi... — Edward tentou explicar, sua voz baixa, hesitante.
— Nunca viu um carro? — Jack debochou, mas Edward concordou com a cabeça, causando confusão no rapaz, que franziu o cenho. — É sério? — Edward continuava em silêncio, apenas balançando a cabeça. — Bom, se bate em você, machuca. E muito. — Jack explicou, direto como sempre, mas com aquele bom humor característico.
Edward continuou de olhos arregalados, enquanto o loiro o analisava como se pensasse em qual pergunta fazer. Pareceu, só agora, notar que ainda estavam caídos no chão, então levantou-se e esticou a mão para ajudá-lo a fazer o mesmo.
— De onde você é?
— Floresta de Seravento.
— Floresta? Quem mora numa floresta? — Jack parecia indignado. Edward apenas ergue os ombros, sem ter uma resposta. Para ele, sempre foi perfeitamente normal ficar lá com seu avô, sem contato com o mundo lá fora. — E você veio andando até aqui? Morava com quem? A sua vida toda ficou lá? Como você comia, dormia, tomava banho? — A língua foi mais rápida do que a mente, e Edward pareceu confuso com tantas perguntas. Doyle pareceu reparar, e riu. — Quer saber, deve ser uma longa história. Por que não me conta enquanto tomamos uma aqui? — Apontou para o bar atrás deles, onde tocava seu bandolim ali, minutos antes de salvá-lo.
— É assustador aqui fora. — Edward admitiu, conseguindo falar somente agora.
— Não se assuste, você só tem que aprender a andar por aí. Vou te ajudar a sobreviver em Khadel. — O músico garantiu, apoiando a mão no ombro do rapaz e o guiando para o bar. — Eu sou o Jack.
— Eu sou Edward.
— Espero que goste de cerveja, Eddie.
— Nunca bebi.
— Iihhh... Já vi que vou ter que te ensinar tudo mesmo...
O rapaz riu em divertimento, enquanto puxava o outro para dentro do bar. Edward, ainda atordoado, apenas aceitou ser guiado pelo novo amigo. Uma pequena chama de curiosidade se acendendo dentro dele, junto da confiança que já sentia na presença do Doyle. Ele ainda não sabia o que o futuro lhe reservava, mas algo no sorriso de Jack, na forma como ele parecia dominar a situação, fazia com que Edward sentisse que talvez, só talvez, ele pudesse aprender a viver nesse novo mundo.
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Quando Zafira voltou a si, foi como se tivesse sido puxada de volta por uma corrente invisível. O ar voltou aos seus pulmões em um suspiro brusco, os olhos antes arregalados finalmente piscaram para umedecer as orbes, e ela segurou a mesa com a sensação de que iria cair. Sua visão ficou turva por um instante antes de se ajustar novamente à realidade ao seu redor. Helena a observava, alarmada.
— O que foi? Você viu algo?
Zafira piscou algumas vezes, tentando ordenar os pensamentos. Seu corpo tremia levemente, como se tivesse sido sugado para um buraco negro e retornado num só golpe.
— Eu vi… Edward. Ele estava chegando à cidade pela primeira vez. E vi Jack. — Ela fez uma pausa, os lábios secos, a voz falhada. Levantou para pegar um copo d'água e o bebeu antes de continuar. — Foi como se eu estivesse lá. Não só vendo… sentindo. O frio da manhã, a música de Jack no bandolim, o medo de Edward.
Helena segurou a respiração.
— Isso significa que…?
Zafira olhou para o cavalo de madeira de Edward na mesa, depois para Helena.
— O passado quer ser visto. E ele vai se revelar para nós. Aos poucos. Precisamos ser pacientes, mas também atentos. Conte aos outros, se achar pertinente. Agora preciso descansar, se me der licença.