O sino da porta tilintou com a entrada de Babette. O inĂcio do dia dava Ă loja um ar ainda mais Ăntimo, sem clientes, com as luzes tĂŞnues das velas projetando sombras nas cortinas pesadas. Zafira, sentada atrás do balcĂŁo, ergueu os olhos e sorriu de leve.
— Veio cedo hoje, garota problema. Ou tarde, dependendo do ponto de vista. — provocou a cigana.
Babette, sempre de expressĂŁo controlada, quase indiferente, deu um meio sorriso. Seu olhar vagava inquieto pelas prateleiras abarrotadas de frascos e talismĂŁs. A aura de misticismo da loja nĂŁo a assustava, mas estar ali, por escolha prĂłpria, era um sinal de desespero.
— Zafira... eu... — hesitou, como se as palavras fossem difĂceis de admitir. — Eu tĂ´ tendo uns sonhos. Pesadelos, na verdade. Queria saber se vocĂŞ tem alguma poção ou ritual que ajude a... parar com isso.
Zafira ergueu uma sobrancelha com leve divertimento.
— Ora, sonhos, minha cara, nem sempre devem ser silenciados. Muitas vezes são o modo que o seu inconsciente encontra para falar o que você insiste em calar. Ou alguém tentando lhe alertar de algo. Pode até ser lembranças de outra vida. — Inclinou-se levemente. — Já pensou em interpretá-los?
— Interpretar? — Babette franziu o cenho, desconfiada. — Isso vai me custar quanto?
— Nenhum preço espiritual, se é o que está preocupada. — Zafira não sabia o quanto os reencarnados compartilhavam entre si, mas imaginou que a tatuadora soubesse de algo. — Só o valor habitual do serviço. — Zafira respondeu com naturalidade, cruzando as mãos sobre a mesa. — Mas exige coragem. Para ouvir, e aceitar.
Houve uma pausa breve. O ceticismo ainda brilhava nos olhos de Babette, mas a exaustĂŁo era mais forte.
— Tá. Vamos lá.
Zafira levantou-se com um leve aceno, trancou a porta principal e fechou as pesadas cortinas. A loja agora estava completamente isolada do mundo lá fora. Levou Babette até a mesa de rituais no fundo.
Sobre a mesa, acendeu quatro velas dispostas nos quatro pontos cardeais, formando um quadrado. Colocou um pequeno incensário no centro, de onde saĂa uma fumaça espiralada. De um dos armários, retirou uma sacola de veludo vermelho e despejou sobre a mesa várias pedras ovais, com antigos sĂmbolos gravados — runas.
— Usaremos as runas. Elas traduzem os sĂmbolos escondidos no seu sonho. Ă€s vezes, o que a mente nĂŁo entende, a alma revela.
Babette observava em silêncio, as mãos nos bolsos, evitando demonstrar qualquer crença ou descrença.
— Agora, conte o seu sonho. E seja sincera. Cada detalhe importa. Tudo o que aconteceu, o que te causou sensações, boas ou ruins, preciso que explique.
Respirando fundo, Babette começou:
— Foi uma mistura de sonhos que tenho frequentemente. Várias cenas, alternando de ordem, por várias noites seguidas.
Zafira ouvia, mas os olhos concentrados nas runas.
— Eu estava observando o riacho de uma cidade, em cima de uma ponte de pedras. É uma lembrança da vila na Alemanha onde morei. Algo que eu fazia frequentemente voltando da escola. No mesmo sonho, a cena mudava, e eu estava na estação de metrĂ´ em Berlim, sempre perdendo o trem, por motivos diferentes. Depois, eu estava em uma viagem de carro que nunca tem fim, e eu sinto muito medo, mas nĂŁo sei o motivo. Fico querendo sair do carro, mas ele nĂŁo para, eu estou sozinha, e nĂŁo consigo reagir. E aĂ, quando eu consigo sair, eu volto a ser criança. Estou no parque em Monschau, cidade dos meus pais adotivos, e um casal sem rosto me busca no parque. Eu já tive esse sonho antes, e eu era adulta em algumas vezes. Eu nĂŁo sei quem Ă© esse casal.
Enquanto Babette narrava, a cigana deslizava lentamente a mĂŁo sobre as runas espalhadas. Murmurava palavras em um idioma antigo, sussurrado quase como um canto baixo, invocando sĂmbolos de sabedoria ancestral. Ă€ medida que as palavras da loira fluĂam, algumas runas pareciam aquecer sob sua mĂŁo, ganhando um leve brilho apenas sob o olhar da morena.
Quando Babette terminou, Zafira abriu os olhos. Seu olhar era agora mais profundo, atento. Separou as runas que destacaram e as organizou na mesa. Uma ao lado da outra. Suspirou, antes de começar a explicar os significados.
— Comecemos pelo parque em Monschau... — disse, movendo uma runa com um sĂmbolo triangular. — Essa runa representa proteção. Ela brilhou enquanto vocĂŞ falava essa parte do sonho. Esse casal sem rosto talvez nĂŁo seja um enigma tĂŁo difĂcil quanto parece. Pode ser uma idealização, Babette. Um desejo inconsciente de resgate. NĂŁo sei como Ă© a sua relação com seus pais biolĂłgicos... mas pode ser que, dentro de vocĂŞ, ainda exista o anseio de que eles apareçam. Como se, de alguma forma, eles pudessem te resgatar: da cidade, da maldição, ou de si mesma. Mas a verdade, Babette... — seus olhos sustentaram os dela com firmeza. — ...Ă© que sĂł vocĂŞ pode fazer isso por si mesma. Talvez encontrar sua alma gĂŞmea ajude. O amor tem o poder de clarear a mente e o coração. Mas, no fim, o resgate Ă© sempre nosso.
Babette desviou o olhar, inquieta. Zafira viu a leve tensĂŁo em seus dedos. Sabia que ela mentia sobre nĂŁo saber quem era o casal no sonho, mas preferiu nĂŁo dizer nada.
— Agora... a viagem interminável de carro. Essa foi a runa que brilhou quando vocĂŞ contava esse momento. — Moveu outra runa, com o sĂmbolo do ciclo eterno. — VocĂŞ se sente presa num looping. Talvez seja a maldição, os rituais que nunca entregam respostas concretas. Ou talvez seja algo anterior. Algo nĂŁo resolvido com sua prĂłpria histĂłria, sua jornada, suas escolhas. Essa sensação de estar num carro que nĂŁo para, sem controle... — continuou Zafira, com voz calma. — ...pode refletir seu medo da falta de controle. VocĂŞ sente que sua vida Ă© guiada por forças externas: quem vocĂŞ encontra, por quem sente algo, quem o destino empurra atĂ© vocĂŞ. Como se nĂŁo tivesse escolha. Como se o caminho estivesse escrito, sem opção de sair dele. Mas, acredite, meu bem, apesar da sensação, vocĂŞ tem escolha sim. Terá de arcar com as consequĂŞncias, mas a escolha Ă© sua.
A prĂłxima runa foi virada. Representava o fluxo e as oportunidades.
— A estação de metrô em Berlim. Você está sempre perdendo o trem, por motivos diferentes. Isso pode significar que, em várias fases, seja na vida passada, na sua vida antes de Khadel, ou até aqui, você deixou passar oportunidades. Pessoas, situações, relações que talvez pudessem mudar seu destino. A vida muitas vezes dá empurrões. Nem sempre claros. Às vezes, discretos. Às vezes, brutais. Preste atenção, Babette. Tem algo ou alguém que você, inconscientemente, sente que está deixando passar. Mas dentro de você, uma voz grita para dar atenção à isso, e não deixar perder o trem.
Por fim, a runa com o sĂmbolo da água. Zafira a segurou por mais tempo, analisando-a com o cenho franzido. Permaneceu em silĂŞncio, pensativa, como se algo muito mais profundo se revelasse.
Sem dizer nada, levantou-se e foi até uma pequena estante. Retornou com um antigo relógio de bolso, prateado, com detalhes minuciosos na tampa. Segurou-o com firmeza entre as mãos e murmurou mais algumas palavras num idioma ancestral. Quando abriu os olhos, a intensidade em seu rosto parecia ter aumentado, como se tivesse visto uma resposta definitiva.
— Esse riacho não é apenas uma lembrança inocente. — Sua voz agora soava quase sussurrada, mas densa. — Há uma memória muito antiga ligada à água daqui. Não da Alemanha. Aqui. Em Khadel. Mas em 1925. Um fim trágico. Uma morte junto à cachoeira que hoje conhecemos como Cascata Jack. Era para ser uma lembrança de dor. De perda. Mas você não teme essa lembrança. Porque, no fundo, você partiu daquela vida pensando: "Se eu tivesse que passar por tudo isso outra vez, só para tê-la nos meus braços por um instante, eu faria." — Zafira esboçou um sorriso triste, como se a lembrança fosse sua. Enquanto segurava o relógio, era essa a sensação.
O silêncio na loja ficou ainda mais pesado. As velas tremulavam. Alguma presença ali não gostava de ver Zafira entregando respostas tão diretamente.
Zafira entĂŁo estendeu o relĂłgio para Babette.
— Segure. Acho que isso te pertenceu uma vez.
Relutante, Babette aceitou o objeto. No instante em que seus dedos tocaram o metal frio, seu corpo enrijeceu. A visĂŁo diante dos olhos mudou num piscar.
Ela se viu na beira da cascata. O som ensurdecedor da água caindo. A mão de alguém se soltando da sua. O golpe repentino, a queda, o vazio, o frio absoluto. O último pensamento antes do fim: amar Rose valera a pena.
Na loja, Babette arfou, as mĂŁos tremendo, o peito subindo e descendo rápido demais. Os olhos marejados tentavam manter a compostura. Foi apenas um vislumbre. Cinco segundos de terror total ao lembrar de maneira tĂŁo intensa e vĂvida os Ăşltimos segundos de sua vida passada.
Zafira apenas observava. Em silêncio. Deu-lhe tempo, até que ela se recuperasse. Pagou o que devia e saiu, ainda atônita, carregando o relógio consigo.











