Há um ditado comum que diz que o passado, é passado. Não devemos nos apegar a ele. O que foi, já foi.
Heloísa acreditava nisso, se julgava capaz de seguir em frente, mesmo em situações difíceis. Foi assim quando sua gata de infância morreu, quando se mudou de casa e quando seus pais morreram. Ela chorava, e chorava muito; mas seguia em frente. O mundo não parava para a sua tristeza. Mas quando seu esposo, o famoso médico Carlos Gabriel morreu – de forma trágica, sentiu seu coração despedaçar; não sabia que o amava tanto.
Já Ofélia, filha de pais ricos, sempre amou o passado. Colecionava móveis, objetos de decoração, até roupas e joias antigas. Para ela o passado era ouro e deveríamos voltar a ser como naquela época. Coisas simples com uma vida mais pacata e uma sociedade mais... respeitosa. Na sua pequena cabeça, o mundo estava perdido. Mas parece que as chamas que abraçaram sua casa, destruindo tudo não havia se perdido. Ofélia viu o passado ser queimado, ainda vivo. Se contorcia e pedia socorro, mas não havia nada que pudesse feito.
Renato, respeitava o passado, mas não achava necessário viver sob sua constante sombra. Poderíamos lembrar de algumas coisas? Sim. Mas, nem todo bom ensinamento vem do passado. Vivia sua vida normalmente. Tinha suas coisas para fazer, palestras para dar e muito dinheiro para receber. Um homem tão inteligente e rico assim não parecia ser feito para ser idiota. Mas, os números não haviam mentido. Aquele investimento fracassou. Viu, como quem assiste uma tragédia, seu precioso dinheiro se perder entre gráficos e pessoas de todo o planeta.
O trio se encontrou em um galpão abandonado. Um lugar conhecido. Com uma promessa pairando sob suas cabeças. Um dia perderiam tudo. Como ele havia perdido. Tentaram esquecer o passado, mas, inconveniente como é, não permitiu.
Havia uma história por ali. Uma que os três concordaram em enterrar e jogar muita coisa por cima.
As telhas se contorciam diante da ventania, parecia que iria chover; a tarde toda o céu estava coberto pelo cinza. Mas, até então, era tudo ameaça.
Aqueles três não imaginavam que estaria tudo do mesmo jeito. Ainda que houvesse mais buracos, o galpão ainda estava de pé. Ainda guardava o segredo deles.
O sol estava se pondo, um resquício de cores quentes tentava brigar com o monopólio cinza, mas perdia a batalha de maneira cruel. O cinza não daria espaço para aquelas cores vibrantes e insolentes.
Caminharam juntos em silêncio. Pareciam um pequeno grupo de desajustados. O cheiro de chuva e de mofo dominava tudo ali. O vento açoitava as vestes e cabelos voavam. As folhas raspavam no chão, chicoteando as canelas e ficando presas em objetos jogados.
— Vocês se lembram onde é? — a voz de Ofélia era de quem sempre fumava, completamente rouca.
— Acho que me lembro. Era perto de uma máquina. Mais ou menos... — seu dedo vagou o ar, procurando onde apontar, enquanto sua mente revivia aquele dia. Lembrando-se de tudo, de cada instante e de cada grito. — Ali.
O indicador apontou uma velha máquina, que os três desconheciam o propósito. Caminharam até lá. O local não parecia ter sido tocado. Nunca.
Mas os três haviam maculado aquele local. Com fúria e perversidade.
— Ele ainda está aí? — perguntou Renato, amedrontado.
— Onde mais estaria? — Ofélia era a mais sarcástica e ignorante. — Nos assombrando?
— Idiotas — sussurrou Heloísa.
Ali não havia cheiro de decomposição.
Ofélia puxou um maço de cigarro e acendeu. A fumaça incomodando os preciosos pulmões de Heloísa.
— Acha que a família dele ficou bem? — os olhos de Renato olhavam tudo em volta. Desde a grande janela de vidro quadriculado, com alguns painéis quebrados, ao teto. Mas nunca naquela direção.
— Um pouco tarde para isso, Renato — Ofélia se prontificou a acalmar, de forma bruta, o velho amigo. O cigarro queimava, mas ela não o colocava na boca. Ela deu um sorriso de escárnio. — Engraçado se preocupar com a família, quando você fez o que fez com uma pessoa.
— Ele mereceu! — respondeu de prontidão.
Ofélia ergueu as sobrancelhas descrente e indiferente. A ideia toda havia sido de Renato, as duas só haviam acompanhado, porque a promessa de que seria divertido foi tentadora.
— Agora você é a porra de uma juíza? Caralho de mulher! — Renato avançou para cima de Ofélia, que se afastou um pouco assustada.
— Vai se foder, meu filho. Você que enfiou a gente nessa. — Dessa vez ela tragou o cigarro e bateu as cinzas.
— Viemos por vontade própria, Ofélia — Heloísa só queria acabar com aquela discussão. — E parem de brigar. Não vai resolver nada.
— E visitar a cova desse maldito vai resolver? — Renato estava alterado.
Três pessoas haviam perdido algo valioso recentemente. Uma quarta havia perdido, mas há muito tempo.
— A gente veio porque você é um chorão — Ofélia como sempre, escolhia as palavras certas para machucar. — Um morrinhento. Minha casa foi queimada até virar cinzas, tô cheia de coisa pra fazer e resolver, mas tive que vir porque o bonito tava com medo demais.
— Cala a porra da boca, Ofélia. Mas ela tá certa. Você nos chamou. Mas vamos embora. Não tem nada aqui. Até porque se estivesse, a gente já tava preso ou morto.
O cheiro de coisa pobre se sobressaiu ao cheiro do cigarro de Ofélia. Tudo se tornou mais frio. O coração dos três gelou, mas se mantiveram em silêncio. A respiração falhou, mas não atribuíram isso ao medo.
— Sabia que tinha sido uma ideia ruim — sussurrou Renato.
— Você sempre teve ideias ruins — Ofélia disse, ácida. — Vou embora, essa porra já tá me estressando e fedendo.
Ela não emitiu barulho algum. Mas suas pernas tremeram e o coração alcançou uma temperatura abaixo de zero. Deu um passo para trás, batendo nas costas de Heloísa. A mulher se virou. O berro foi de puro horror. Renato se virou pelo susto, porque se tivesse tempo para pensar, teria corrido em linha reta e não olhado para trás.
Um jovem de quinze anos os encarava, fixo.
Seu corpo parecia e não parecia físico. Os olhos eram brancos e chorosos. Marcas de cortes e hematomas se espalhavam pelo seu corpo.
Renato caiu de joelhos no chão.
Ofélia tropeçou em Heloísa, mas essa se matinha firme como uma pedra.
O coração de Renato pulava de forma frenética em seu peito, até não mais o fazer. Um buraco sangrento e escuro, de onde o órgão estava pendurado pelas veias para fora, estava escancarado em seu peito.
O cigarro de Ofélia queimava, quase chegando aos seus dedos. O grito preso na garganta. Cabeça para o lado, pescoço para o outro. Seus ossos fizeram um crack enorme que ecoou por todo o galpão quando se quebraram. O horror ainda estampando no rosto.
Heloísa foi a última. Sentiu um frio no estômago. Era o ar passando pelo buraco que havia ali. As tripas caindo como uma cortina de vísceras.
Quatro pessoas deram o último suspiro dentro daquele galpão.