April soltou delicadamente a respiração pelas narinas em um riso breve e mudo, percebendo a solicitude de Jasmyne aos poucos e cada vez mais aparente. Ela devia estar querendo muito entrar e, de fato, não lhe tirava a razão. Ser uma Zeta poderia lhe abrir diversas portas dentro da universidade, e April não pensava apenas nas vantagens sociais. Para as mais centradas nos estudos, o nível de atenção recebido era maior, o que significava glória para a maioria delas– e, consecutivamente, para suas futuras carreiras, independente do que escolhessem. O histórico de mulheres bem sucedidas saídas da sororidade tinha um número alto de registros, e também era devido a este fato de que manchar a reputação da casa era inadmissível. “As pessoas jogam com as cartas que têm, respeitamos quem tem consciência disso. Estou curiosa pra saber com quais você joga, Jasmyne Campbell.”
“Eu falo muito sério. Não foi fácil, na realidade. Nem tudo vem de graça pra gente, como muitos pensam.” Apesar da expressão tranquila de veracidade, April nunca acreditara nas próprias palavras. Tinha pleno conhecimento do quão mimadas as meninas poderiam ser, e de tudo o que podiam ter apenas porque eram quem eram. Além disso, eram persistentes e manipuladoras o suficiente pra darem um jeito de conseguir o que queriam. Ela tinha ótimos exemplos, até porque ela mesma era um, e não negava. Duvidava que Jasmyne também não fosse. “Se entrar, talvez você tenha um pedacinho dele aqui toda vez que abrir a geladeira pra comer alguma coisa.” Instigou, como usualmente não era tão acostumada a fazer. Não de forma positiva como sentia estar fazendo. Duvidava que o que estava sentindo fosse empatia, mas era como se quase estivesse pagando pra ver. Estava até fazendo um tour pela casa com uma estranha que não sabia nem mesmo se tinha chances de ser uma Zeta, mesmo não ganhando nada com isso. Tentou explicar isso com seu próprio stress anterior– bem, qualquer coisa era melhor do que organizar coisas as quais não tinha vontade alguma de fazer. A animação dela para com sua nova proposta fizera a morena mover a cabeça brevemente, como se pedisse que a acompanhasse até o andar de cima. Olhando para as iniciais na porta, esperava que @missxcallaway· demorasse um pouco mais pra chegar, não queria ter que ouvir reclamações sobre levar pessoas desconhecidas pro quarto logo no primeiro dia de instalação. “A decoração que está vendo agora é padrão para todos os quartos, mas todas nós damos um jeito de dar um toque especial e pessoal após a instalação. Eu vim um pouco antes, quando a Callisto chegar, já quero estar com tudo pronto. As duas arrumarem as coisas ao mesmo tempo não dá certo.” Limitou-se no que disse e não entrou em detalhes. Jasmyne não precisava saber de toda vez que uma guerra já se iniciara no quarto por causa de coisas espalhadas. Encarou o canto para o qual a mais nova dedicava sua atenção, e sorriu pequeno. “Ela é bonita, não é? Mais cedo ou mais tarde vai conhecê-la. E se não, saberá quem é.” A ênfase na parte final da declaração era automática, como um aviso. Se tinha algo que não acontecia naquele universo era a Callaway passar despercebida, por bem ou por mal. A James assistia a novata se divertir da batente da porta, cruzando os braços. “Você está realmente animada, não é? Isso tudo é confiança?” Caminhando lentamente quarto a dentro, a encarava com tranquilidade. “Tem certeza que é o que realmente quer?”
Para a maioria, o verão era esperado e inclusive idealizado. Haviam aqueles que de fato sentiam-se ansiosos para matar a saudade dos familiares ou das cidades natais; aqueles que simplesmente precisavam de um descanso nas matérias acumuladas e também os que buscavam fugir de uma vida desinteressante nos dormitórios sem graça do campus. Callisto, no entanto, experimentava o oposto. Diziam que o reino das garotas malvadas acabava no high school, mas isso apenas porque ainda não haviam conhecido a sororidade Zeta Phi Beta, que funcionava como uma espécie de extensão daquele reinado. E por que, então, a garota estaria ansiosa para abrir mão do lugar onde podia fazer o que quisesse, como quisesse, ter outras jovens a seus pés e o controle da grande maioria de coisas que lhe rodeava? Mas jamais permitiria que qualquer outra integrante da casa sequer cogitasse que a vida perfeita em casa que Callie pintava nas histórias era uma enorme mentira, o que a forçava a retornar à mansão fria e vazia todo verão e tempos de festa. O mês se arrastava em uma eterna tortura, enquanto ocupava-se com o mesmo de sempre: festas, garotos, compras, bronzeamento artificial, slushies diet. E em todo aquele mês, ainda tirava um tempo para tentar de alguma maneira chamar atenção do pai para suas conquistas. Mas Osman não se importava se a jovem Callaway havia recebido três medalhas na luta, se havia batido um recorde pessoal na vitória de debates e nem mesmo se havia ganhado a presidência de comitê de eventos. E se ele não se importava com nada daquilo, também não se importaria com o fato de que ela se sentia sufocada e perdida diante do objetivo traçado na política (na realidade, provavelmente a julgaria, e, após rir um pouco, constataria que sempre estivera certo). E ainda menos com a pontada de insegurança que lhe batia a porta toda vez que alguma mulher olhava para seu namorado, já que no fundo sabia que era apenas questão de tempo até ele perceber que era ele quem era bom demais, ou que sentia inveja de parte das ‘irmãs Zetas’ que realmente tinham um vínculo verdadeiro uma com a outra, e não apenas a suportavam pelo dinheiro e influencia. Nah, Osman Callaway jamais se importaria, e a filha do prefeito sentia-se mais irritada consigo mesma a cada retorno para casa, pois parecia não se cansar de alimentar a pequena chama de esperança apenas para que fosse pisoteada outra vez. A sensação de retornar à sororidade era próxima a de ser solta da prisão após dez torturantes anos, mas mesmo que estar de volta em sua posição de controle e poder a deixasse animada, ela também estava particularmente mais irritável que o normal. Sempre retornava assim, inevitavelmente replicando os comportamentos maldosos aos quais era submetida no período longe. Com a pequena mala em mãos e o óculos caro no rosto, pisou no chão perfeitamente encerado e respirou o perfume característico do lugar, como se aquela fosse a mais pura forma de oxigênio que tocava seus pulmões nos últimos tempos. “Oi, Rosie.” Cumprimentou uma das veteranas, que estava próxima a porta, com alguns beijos insinceros de bochecha. “Se um garoto ruivo aparecer por aqui, pode deixar entrar, ele está com as minhas malas.” Avisou, retirando o óculos e então se dirigindo ao quarto, ansiosa para organizar enfim suas coisas quando o rapaz que ela nunca se recordava o nome aparecesse. Não podia culpá-lo pela demora, claro, as duas malas gigantes e a bolsa de sapatos atrasariam o passo de qualquer um. Após subir as escadas e traçar o caminho conhecido, pôde reconhecer já há alguns metros de distância a figura de April que andava pelo dormitório espaçoso. O sorriso no rosto denunciava, mesmo que ela não estivesse pronta para admitir, que parte de si realmente ficava feliz em rever o mais próximo de uma amiga de verdade que tinha. Claro que a expressão durou pouco e logo se transformou em algo como estranhamento, conforme notava uma desconhecida atrevidamente confortável em sua cama. Depois de colocar os óculos escuros na cabeça, parou na entrada. “Bom saber que está de volta, AJ. Mas se quer trazer o ensino médio pra conhecer a casa, por favor, mantenha a criança longe das minhas coisas.” Avisou, andando até sua cama e deixando a bolsa ali, enquanto encarava a garota desconhecida e esperava o mínimo de bom senso para que se erguesse do colchão.
Bastou a caloura adentrar a residência das Zeta Phi Beta para que uma rápida mudança nos rumos da conversa se colocasse em curso – talvez tal comparação pudesse soar demasiado dramática e fantasiosa para quem quer que fosse, afinal de contas não havia nada de sobrenatural sobre a casa e Jasmyne era cética demais para acreditar em qualquer lenda universitária, mas era como algo tivesse subitamente mudado no segundo em que as duas meninas atravessaram o batente branco que separava o mundo exterior e o ambiente perfumado de jasmim. Como em filmes de scifi, onde os laboratórios de segurança máxima e alta sofisticação tecnológica eram designados para conter armas químicas poderosíssimas e altamente voláteis, as paredes cuidadosamente pintadas de branco eggshell pareciam ser tão poderosas quanto, ainda muito mais sutis e discretas já que não havia sinal algum de reatores de corrente elétrica, ao contrário, o ingrediente de alta periculosidade parecia pairar junto ao ar, sendo impossível enxergá-lo, embora pudesse sentir sua presença em cada cômodo. Se antes o objetivo de tornar-se uma Zeta parecia um feito facilmente atingível, apesar de custoso, um breve passeio até os aposentos íntimos da veterana foi capaz de revelar nuances que Jasmyne não fora capaz de perceber enquanto aguardava do lado de fora, na companhia das roseiras brancas do jardim.
Ouvir April falar era como estar em um passeio no serpentário do zoológico – em um momento a espécie parecia docilmente controlada em seu aquário de vidro, estudando àqueles que se atreviam em visitá-la, mas em um fragmento de segundos depois, a mesma parecia romper de seu repouso sereno para assustá-los com algum golpe imprevisível. A garota de roupas cor-de-rosa parecia tão imprevisível quanto uma serpente em seu lar. A Campbell percebeu, então, que longe de ser como as meninas do colégio católico o qual havia frequentado, a moradora da sororidade era ainda uma espécie desconhecida, embora pudesse facilmente ser confundida com mais uma garotinha má e com dinheiro no bolso. Não só as palavras da mais velha eram escorregadias, frequentemente alternando entre uma gentileza invejável para um tom inquisitório que parecia testar até o último fio de cabelo de Jazzy, mas o sorriso presidenciável e o olhar rápido pareciam alterar com a mesma rapidez e agilidade. Quando ela disse seu nome, porém, Jasmyne não pode conter o sorriso entusiasmado que se desenhou nos lábios, como se tivesse acabado de receber um prêmio, mas ao mesmo tempo enchendo-se de preocupação, pensando em todas as interpretações que poderiam acompanhar a frase dita pela outra e nas conclusões que a mesma parecia tirar de si, como fotografias inesperadas. Sorriu, entortando a cabeça para o lado, buscando manter algum mistério – nem mesmo ela sabia quais cartas possuía nas próprias mangas.
– É claro que existem tantas outras coisas mais importantes que o menu culinário da casa, duh. Mas eu confesso que não me importaria nenhum pouco em fazer refeições estreladas. – o comentário foi seguido de uma curta risada, dado o vislumbre da possibilidade. A animação efervescente da garota fora tamanha que mal pode se dar conta da dualidade quase escancarada que a frase da outra trazia consigo, “se entrar”. Fosse em razão do entusiasmo exacerbado que sentia dentro de si ao sentir-se tão próxima de um de seus maiores objetivos dos últimos anos ou apenas um desejo secreto e silencioso que habitava da garota há muito mais tempo: o de ser aceita. A Campbell sempre fora solitária demais, nem sempre por escolha, já que a personalidade geniosa e o temperamento moroso pouco eram capazes de atrair a companhia das meninas de sua idade, e ainda assim quando o faziam, a própria dava um jeito de afastá-los, julgando não precisar de mais ninguém. Assim, a possibilidade de enfim poder participar de uma verdadeira sororidade – mesmo com todas as particularidades um tanto questionáveis da ZPB – mexiam com a garota muito mais do que ela estava disposta a admitir.
Com a ponta dos dedos, a garota imprimia sua digital nas fotos e demais lembranças pregadas à parede, buscando gravá-las à memória fotográfica o máximo que pudesse. – Callisto. – os lábios reproduziram o nome dito por James, mas em volume muito mais baixo, apenas memorizando o nome da menina das fotos. – Vocês tem mesmo muito bom gosto, não se parece em nada com aquelas transformações cafonas que os programas de baixo orçamento da televisão fazem nos dormitórios dos alunos. – constatou, apreciando a bela decoração que transformava o quarto em um cenário de conto-de-fadas, com as cortinas de linho quase invisíveis tremulando com o vento. – Muito bonita. – o elogio escapou de seus lábios mais rápido do que previa, concordando com o tom curioso da veterana. – Não vejo a hora de conhecer todas as irmãs. – talvez o uso do termo soasse muito ingênuo para a outra, mas Jazzy não se importava, afinal de contas ainda tinha que se mostrar interessada em tornar-se uma delas. – Se Callisto e as demais forem como você, então acho que vamos nos dar muito bem. – a morena piscou para a outra, cruzando a perna e agarrando-se à uma das almofadas peludinhas que ficavam sob a cama.
As próximas perguntas dirigidas à adolescente pareciam sugar todo o ar que existia no cômodo e sem ao menos se dar conta, as duas mãos agarraram a almofada com tanta força que as unhas perfuraram o tecido. – Estou, por que não estaria? – o tom quase ameaçador exigiu toda a coragem da menina, que suspendeu o queixo buscando manter-se firme em sua resposta, temendo mostrar suas próprias inseguranças. – Eu tenho as notas, o currículo, a aparência e o dinheiro. Não é isso que vocês olham? – o pensamento da mais nova geralmente se estruturava daquela maneira, sempre orientando-se para conquistas, resultados e potencial. – Além disso eu estou aqui, não? Se a competição é tão boa assim, então onde está o restante? – as pontas dos dedos já podiam sentir o recheio da almofada, tamanha a força com que segurava o mesmo. Todos os músculos do corpo de Jasmyne mantinham-se tensos como se estivesse realmente em um serpentário, não no quarto pintado em tons pastéis. – É o que... – a frase, entretanto, fora interrompida pela súbita interrupção junto à porta. Em um movimento brusco motivado pela surpresa, Jasmyne voltou sua atenção para a figura feminina que agora a encarava com um olhar tão penetrante quanto o da James, largando a almofada que caiu ao chão, sob os pés da desconhecida. Imediatamente levantou-se e tomou fôlego – a porta aberta fora um alento, o que permitiu a caloura de preencher os pulmões com o ar fresco e acalmar os nervos. – Sou Jasmyne, caloura. – anunciou, estendendo a mão, embora a cama da outra impusesse uma distância maior do que havia antecipado. – Callisto? – repetiu o nome por uma segunda vez, mas agora com alguma finalidade.