Eu nunca me importei muito com essa questão de meninos que devem gostar de meninas e vice-versa. Lembro que aos oito anos assistia Sakura Card Captors e em um episódio o Yukito confessava para Sakura que o amor da vida dele era o irmão dela. Eu achava normal, achava bonitinho. Nunca me liguei pra isso.
Gostava de garotos, o que era “normal”, então não sofria preconceito por isso (sofria bullying, mas isso fica pra outra história). Porém, não demorei muito pra notar que apesar disso eu era um tanto diferente das outras meninas. Elas gostavam e desgostavam de garotos na velocidade da luz para mim (e ficavam com eles), enquanto eu gostava do mesmo menino por um ano e meio. Era platônico, eu era feia e tímida, então nunca me aproximava. Imaginava como era poder abraçar o garoto, beijá-lo, mas não tinha coragem de chegar nele. Depois de um tempo o sentimento passava, e eu simplesmente ficava um ano ou mais sem gostar de ninguém.
Eu sonhava em encontrar alguém que seria meu melhor amigo. Aos poucos eu ia acabar me apaixonando por ele, e vice-versa. Seríamos felizes juntos. Seríamos melhores amigos e namorados. Eu queria sexo também, mas só com esse futuro amigo-namorado que me amaria também. Eu queria me apaixonar por alguém, elas queriam pegar alguém.
Elas me achavam estranha. Achavam estranho eu me apegar tanto, gostar tanto, querer tanto ou não querer nada, não ter vontade de pegar, beijar, ficar e tal. Por que eu só não aproveitava? Por que não saía e ficava com no mínimo uns dois caras?
Aos treze eu fui numa festa com umas amigas. Foi minha primeira festa e eu achava tudo muito estranho. Minha melhor amiga desde pequena estava bêbada dançando com um cara no meio da sala transformada em pista de dança. De repente ela começou a beijá-lo, era o primeiro beijo dela. Eu fiquei horrorizada, porque na minha cabeça não fazia sentido beijar um estranho, muito menos considerando que era o primeiro beijo dela. Comentei isso com outra amiga e ela me disse “deixa ela em paz, deixa ela aproveitar”. Nunca vou esquecer essas palavras. Nunca vou esquecer como me senti uma alienígena naquela festa.
Cresci, e as coisas pioraram. Não namorava, não saía com ninguém, meus familiares me olhavam estranho, como se algo estivesse errado comigo. Eu não tinha vontade de ficar com ninguém. Não tinha aquele impulso, não me sentia atraída por ninguém. Pra melhorar, começou a rolar aquela pressão pra transar. Eu não queria. Não me sentia pronta e não gostava de ninguém. Nunca tinha nem beijado. Queria gostar da pessoa que ficasse comigo e ninguém me interessava. A pressão ficou pior conforme elas foram perdendo a virgindade, e aos 16 eu era “tia” já. Ouvia conversas sobre sexo e todas me diziam que a minha vez tinha que chegar logo, “pelo menos antes do final do médio, né?”.
Pouco a pouco a pressão começou a acabar comigo. Eu já não me sentia bem comigo por causa dos anos de bullying, e ser a única BV do planeta (na minha mente) estava me deixando mais traumatizada. Estava cansada de me sentir a mais horrível, a mais detestável das garotas. Cansada da carência. Fiquei bêbada pela primeira vez em uma festa, algo que jurei que não ia fazer, porque odeio beber, mas eu estava cansada e queria me sentir incluída em algo. Trocava as pernas, mal conseguia me mexer de tão letárgica. Uma menina se aproximou e sentou no meu colo, me beijou e ficou me apalpando. Tentei beijar de volta, apesar de não saber muito bem o que eu estava fazendo. Tentava gostar de beijar a estranha na festa, todo mundo curtia, eu deveria curtir, não? Não. Foi estranho, foi desagradável e eu só queria sair dali.
Pensei que talvez esse fosse o meu problema. Talvez eu nunca tivesse me interessado muito em ficar com pessoas em festas porque eu era lésbica mesmo, como todos suspeitavam (ueh, o que eu poderia ser, senão lésbica? Nunca levava namorados pra casa nem ficava com ninguém). ‘Tá que beijar a menina não tinha sido legal, mas era porque eu não tinha experiência e estava bêbada. Eu estava focada nos garotos e eles não me excitavam, essa era o problema. Ou pelo menos era isso que eu achava.
Conheci uma menina bi que dizia gostar de mim. Aceitei sair com ela, mesmo não gostando dela desse jeito. Não conseguia beijá-la direito no cinema, me sentia estranha. Não sentia aquele fogo, desejo e sei lá mais o quê que todos sentiam e descreviam pra mim. Quando nos despedimos deu pra notar que não ia dar certo. Eu não tinha gostado de ficar com ela.
Ok, então não era lésbica. Heterossexual. De volta a estaca zero, porque se ninguém me interessava antes, e agora? Mesmo assim, insisti. Saí com um cara que parecia interessado em mim. Percebi ao vê-lo que não queria nem segurar sua mão, quanto mais beijá-lo na boca e possivelmente transar com ele. Inventei uma desculpa pra ir embora do encontro, ele me beijou uma vez só, não senti nada.
Falei pra mim que era porque eu não estava interessada, porque ele era meio babaca, não muito bonito, inventei mil desculpas. Engoli o choro e o desespero. 13, 16, 18, 19 anos e eu continuava confusa, com experiência sexual inexistente. O que faria ao namorar? Quem ia querer uma velha virgem? O tempo havia se tornado meu maior inimigo, quer dizer, meu segundo maior inimigo. Eu ainda ocupava o primeiro lugar.
Fui pra um bar com umas amigas, fiquei bêbada (mas não tanto quanto da primeira vez) de novo. Fiquei lá um bom tempo e ninguém se aproximava. Estava me sentindo uma merda, a adolescente feia e indesejável de novo. Aí um cara bem bonito olhou pra mim e puxou conversa. Fiquei com ele. Ele era alto, um pouco forte, olhos claros, pele morena, e até minha amiga arregalou os olhos ao vê-lo. Não sou muito boa pra medir beleza, porque não me sentia atraída por ninguém, então aceitei a reação dela como uma coisa boa. Ele foi meu melhor beijo, em questão de técnica. Deveria ter dado certo, né? Eu deveria ter sentido o tal fogo, calor e sei lá o quê.
Não senti nada. Abria os olhos no meio do beijo me perguntando quando ele ia parar.
Voltei pra casa e chorei de novo. Eu não conseguia entender qual era o meu problema. Não gostava de garotas nem garotos. Não sentia prazer em ficar com ninguém. A bebida que devia ajudar só me atrapalhava.
Não sabia com quem falar, falei com a minha mãe. Ela disse que podia ser um problema hormonal, um trauma ou algo assim. Fui numa gineco e ela levantou uma sobrancelha em descrença quando eu disse que era virgem. Senti raiva da mulher, mas aceitei fazer os exames que ela pediu. Só de birra, voltei um ano depois. Eu não entendi o que ela ia fazer até ela já ter feito. Um ano havia passado, eu já tinha 20, obviamente não era mais virgem, né?
Papanicolau na velha virgem. Nunca me senti tão invadida e desrespeitada.
Meus exames estavam normais. Tirando a consulta daquele dia, nunca tinha sofrido abuso, conversas sobre sexo em casa sempre foram tranquilas, não tinha porque eu ser daquele jeito desde sempre. Eu deveria sentir atração por alguém.
Cheguei em casa e solucei como criança. A consulta foi uma merda, não tinha nada em mim que explicasse o porquê de eu ser tão bizarra e eu continuava não sentindo atração por ambos sexos. O que eu queria então? Ficar com árvores? Balões? Sentia raiva de mim.
Fui pro computador, algo que faço até hoje em momentos de crise, e comecei a buscar coisas aleatórias no Google. “I don’t like kissing anyone” em inglês, pra ter mais resultados. Por fim, achei o AVEN (Asexuality Visibility and Education Network).
Foi como achar água no deserto. Há anos eu vivia em desespero, sem saber quem eu era, ouvindo “lésbica” de um lado “bizarra” do outro, e tantos outros rótulos. De repente eu tinha me encontrado.
“O que é Demissexual? São pessoas que não têm atração sexual, a menos que formem uma forte ligação emocional com alguém.”
Lembrei das vezes que gostei de garotos e que me imaginava ficando com eles, queria ficar (mas nunca tinha conseguido). Lembrei de todas as outras vezes que fiquei com pessoas que não significavam nada pra mim, e como cada experiência foi ruim, como eu não sentia nada. Lembrei de vezes que meus amigos da faculdade ficavam despindo pessoas no metrô com o olhar e como eu não conseguia fazer o mesmo. Olhava para as pessoas como se elas fossem quadros, feitas para serem admiradas, mas não levadas para cama — exceto quando gostava muito delas. Aí elas deixavam de ser quadros.
Encontrei certa paz depois disso, mas não totalmente. Hoje em dia me irrito com rótulos. Percebo como tudo isso é pura idiotice. Ainda não me apaixonei por ninguém, então talvez eu seja só assexual. Talvez não. Talvez eu seja heteroflexível, talvez não. Detesto ter que me colocar numa caixa de padrões feitos por pessoas que não são eu. Pessoas que nunca estiveram na minha pele, que não sabem da minha vida e não têm como me entender.
Queria poder amar ou não amar, transar ou não transar, com homem ou mulher ou ninguém, e ser feliz assim. Não ser julgada por isso. Não ter minha privacidade invadida, não ter olhares arregalados de estranhos me encarando com surpresa. Queria não ouvir comentários ridículos de familiares, amigos. Não ter que aguentar perguntas escrotas tipo “você é virgem?”, “por que nunca namorou?”, “ah, tá só aproveitando, né?” aos 20 e poucos anos de idade, e ainda ter que responder, nem que seja um “vai se foder”, como se eu devesse satisfação da minha vida para alguém. Queria que as pessoas não me achassem fracassada por ser mulher solteira, como se uma mulher não pudesse ser feliz sozinha.