eu tenho medo.
hoje, pela primeira vez, confessei pra mim mesma em voz alta o meu medo. e não é dos outros, é de mim.
eu tenho medo de mim.
eu tenho medo do que posso me tornar.
eu tenho medo até do que, em parte, já me tornei.
e é um medo como um fogueira em que o fogo começa pequeninho e vai crescendo, subindo, consumindo tudo em volta - destruindo talvez seja a palavra certa.
“mas você é tão boa”, me dizem.
mas eu não sei, retruco - só em pensamento.
até hoje eu encaro as fotografias de quando era criança sem entender bem quem é que está ali. logo me reconheço. me olho no espelho e vejo o traço que nunca mudou: os olhos.
o vazio dos olhos.
lá está ele. incansável. interminável. insone.
eu tenho medo desse buraco negro, medo de abrir a “caixa de pandora” e descobrir que só pássaros negros e mortos vivem ali.
“mas você é calma”, me dizem.
mas eu não sei, retruco de novo - só em pensamento, de novo.
eu tenho medo desse fantasma que fica à espreita só aguardando eu fraquejar pra colocar porta abaixo e me vencer de novo.
eu nunca fui boa em vencer.
eu tenho medo de descobrirem que eu não sou nada do que pensaram que eu fosse.
eu tenho medo desse gelo que cresce de dentro pra fora e não de fora pra dentro.
eu tenho medo de que os psicólogos cansem, de que os psiquiatras esgotem as receitas de remédios, de que as pessoas sangrem nos meus estilhaços sem controle.
eu tenho medo de o mundo desistir de mim antes de eu desistir dele.
“mas você passa tanto amor”, me dizem.