Quando eu morrer, diga à criança que virei estrela.
Diga pra inocência que fui pro céu brincar com Deus, e que ela não saiba jamais que, até o último suspiro que me restou (naquela noite que virÔ), tive amigos imaginÔrios, muito mais imaginados do que amigos.
Enquanto ela chorar doce e profundamente, diga à criança que esse mundo não me cabia, e deixe-a guardar os brinquedos no baú para economizar espaço. Economia é a doença do século, e não a depressão.
Quando ela perguntar por mim, diga Ć crianƧa que fui viajar. Deixe-a que percorra com os olhos lacrimejantes todas as terras, permita que ela construa o paraĆso na AmĆ©rica Latina, no nordeste da Ćfrica Negra, no tanque do petróleo, no aquĆ”rio de carpas do JapĆ£o. Deixe que ela olhe para o espaƧo azul, sendo eu a nuvens mais gorda e com cheiro de chuva, mas nĆ£o permita nunca que ela interrompa a viagem. NĆ£o deixe, em hipótese alguma, que papai noel nĆ£o me traga de volta no próximo Natal. Enfie aquela carta no correio, endereƧada ao Polo Norte, e os sonhos me trarĆ£o de volta. Mas nĆ£o se esqueƧa de comer todos os biscoitos e beber todo o leite antes que ela acorde.
Quando eu morrer, diga aos velhos que fui feliz. Engome aquelas testas enrugadas e fedidas de quem ācarniceiaā com os olhos e esqueceu de escovar os cĆlios prestes a enfartarem de tanta porcaria. Diga aos velhos que fui em paz, para que enterrem o caixĆ£o em silĆŖncio, para que consolem os ombros em profunda gratidĆ£o, para que nĆ£o escorra da boca o chorume, para que as unhas compridas do monstro, ao saĆrem da lĆngua apodrecida, nĆ£o perfurem os vĆ©us de viĆŗva negra onde todo mundo esconde o tĆ©dio.
Diga aos velhos que fui porque simplesmente tive que ir, e poupe as auto-ajudas e os conselhos melodramÔticos. Faça-os senhores de si, donos do conhecimento mortuÔrio do mundo inteiro, faça-os escreverem discursos e inaugurarem o pretinho bÔsico, para que eu não fuja do padrão.
Economize tambĆ©m o trabalho do coveiro. NĆ£o Ć© fĆ”cil segurar o riso em situaƧƵes solenes. Pelo menos eu nunca consegui me manter hipócrita num enterro desconhecido. Triste vergonha. QuestĆ£o de falta de falta de falta de falta de falta de falta de educação. Morri tĆ£o jovem, merecia tanto respeito, tanta admiraçãoā¦
Ai de mim. Quando eu morrer, diga ao meu corpo raso que ele jĆ” foi dessa pra melhor. Deixe que eu durma, que eu tire folga e que eu me demita, que o meu cĆ¢ncer seja uma mancha no ultrassom e que meu suicĆdio literĆ”rio (e tenho que dizer que Ć© literĆ”rio, caso contrĆ”rio, eu seria GetĆŗlio Vargas) tenha sido completamente em vĆ£o. Diga ao meu corpo que gastei minha bala Ć toa, mas em dois ou trĆŖs meses, quem sabe eu estivesse vivo ainda. NĆ£o custa nada colocar uma gota de leite na boca de um bebĆŖ nigeriano. Diga ao meu corpo gĆ©lido, que nĆ£o hĆ” cadĆ”ver mais vivo, e diga aos presentes tristes, que nĆ£o houve vida mais morta, para que eu perca satisfeito o gosto de viver. Escreva na minha lĆ”pide que o jogo acabou. E eu venci. Vamos passar de fase e zerar a vida, porque ainda nĆ£o sei abandonar o que comecei. E a destruição Ć© um vĆcio que eu ainda nĆ£o consegui finalizar.