Durante a sua vida, Javier havia sido a pessoa que ignorava seus problemas até eles desaparecerem. Nunca precisou lidar com aquele tipo de situação simplesmente porque quando qualquer coisa ficava séria demais, ele fugia. Qualquer problema ou discussão ele resolvia selando os lábios nos da garota e finalizando a briga em sexo, mas por mais confiante que fosse e soubesse que havia algo difícil de entender entre ele e Angeline, sabia que aquela tática não funcionaria ali. E ele não queria levar outro tapa. Abriu e fechou a boca algumas vezes, sem conseguir realmente dizer algo. Tanto porque a Beaumont não parava de vomitar palavras, quanto porque ele mesmo não saberia o que dizer. ❛❛ Que você… O que? ❜❜ Tentou incentivar que ela falasse, mas em vão. Parte de si sabia a resposta, mas ele queria escutar. Entretanto, o que ouviu foi apenas uma confirmação de que ele deveria se afastar e fazer o que ele mesmo havia dito na última briga: seguisse sua vida e não falasse mais com ela. Ainda assim, lá estava, parado de frente a ela com tanto a dizer e sem saber por onde começar, os dedos formigando querendo tocá-la novamente. ❛❛ Calma aí, Angel, só um minuto. Por favor, me espera aqui, ‘tá? ❜❜ Torceu para que ela acatasse o pedido, mesmo sabendo que não merecia aquela consideração. Sua mente caótica pensou em uma forma de tentar explicar parte de sua confusão, correndo até a cozinha e ignorando o grupo que seguia com a brincadeira e a conversa. Foi até a geladeira e cortou de qualquer jeito um pedaço da sobremesa e voltou para onde estavam antes, suspirando aliviado quando a encontrou ali. ❛❛ Você me falou que era o seu favorito, lembra? Lori e eu fizemos há alguns dias. Quer dizer, ela fez e eu ajudei um pouco. ❜❜ Admitiu, deixando uma risada meio sem humor escapar. A intenção ainda valia, afinal, não é? Desviou o olhar dela, como se encarar a sobremesa lhe permitisse conseguir falar o que pretendia. ❛❛ A gente ‘tava na cozinha, ela disse que queria fazer uma sobremesa e eu perguntei se ela sabia fazer esse cheesecake de frutas vermelhas. Ela falou que sim, nós fizemos e eu fui te procurar para te dar um pedaço e… ❜❜ Travou por um momento, percebendo que nunca havia falado tanto em sua vida. Eram muitas palavras saindo de uma só vez de seus lábios, aquilo era tão incomum que ele precisou parar por estranhamento. Engoliu em seco, pensando se deveria prosseguir, mas já estava ali e não era hora de recuar. ❛❛ E aí eu encontrei você e o Arthur e acabei ouvindo parte da conversa. ❜❜ Ergueu o olhar para fitá-la, o maxilar trincado em nervosismo. ❛❛ Eu não ‘tava te perseguindo ou te vigiando, muito menos queria escutar. Mas quando eu me aproximei e te ouvi falando meu nome, eu achei que ia escutar alguma coisa legal e foi exatamente o contrário. ❜❜ Lembrava-se de estar com o pratinho na mão, quando o sorriso no rosto por ouvi-la falar seu nome murchou em um segundo ao perceber que o conteúdo de sua fala o atingia em níveis profundos, que ela jamais poderia imaginar. ❛❛ Não tive oportunidade de te dar naquele dia, então… Quer experimentar? ❜❜ Ergueu o prato em sua direção.
Em um contexto diverso, Angeline teria completado o pensamento - ou ao menos tentando, visto que não o compreendia em sua totalidade. Admitiria como a gentileza em seu toque contrastara com a voracidade experimentada previamente. E talvez chegasse a confidenciar quão insana era a ideia de que uma parte de si o tivesse reconhecido, apesar das distinções impressas em suas carícias. Porém, não naquele momento. Não quando a mágoa era o sentimento predominante entre eles. Por isso, ela limitou-se a um ligeiro balançar da cabeça, esperando que o movimento fosse suficiente para afastar não somente o assunto, mas também as inquietações instauradas em seu peito. O suspiro cansado precedeu o que seria outro discurso quanto à necessidade do espaço que haviam acordado - isso, é claro, se Javier não tivesse se adiantado ao deixá-la sozinha na área externa. O semblante feminino franziu-se com o súbito distanciamento, chegando à conclusão de que, de fato, jamais seria capaz de compreendê-lo. E, bem, tampouco a si mesma. Afinal, que justificativa teria para permanecer a sua espera? Poderia dizer tratar-se de uma questão de educação, contudo, nem ela própria acreditaria em um argumento tão falho. Seus olhos deslizaram ao horizonte atrás de si, fixando-se sobre os astros que há muito adquiriram o posto de seus confidentes. Quão louca estava por continuar a se submeter àquilo? E pior, o que isso dizia de sua relação com Javier? Antes que chegasse a uma resposta conclusiva, a menor teve a atenção atraída às passadas que se aproximavam. A curiosidade a permeou ao dar-se conta de que o rapaz trazia algo consigo, identificando a sobremesa somente quando ele parou a sua frente. Cheesecake de frutas vermelhas. “Como... Hum... Você lembrou disso?” A surpresa era perceptível em seu tom, observando-o com intriga. A morena piscou uma, duas, três vezes, sua mente preenchida por imagens do participante ao lado de Lorelei, auxiliando-a a preparar o doce que ela lhe contara ser seu favorito. E novamente via-se perplexa com como a situação com o latino parecia oscilar entre extremos. Ela trincou o maxilar. “Você não sabe o que ouviu, Javi...” A opção pelo apelido evidenciava uma ligeira melhoria no clima entre eles, mesmo que Angeline não houvesse externado o motivo para tal. Saber que se tratara de uma coincidência e não algo premeditado certamente minimizava seu desconforto inicial, todavia, não parecia o bastante para justificar o tratamento que recebera em seguida. “Você escutou algo inteiramente fora de contexto e que não condiz os meus pensamentos sobre quem você é. Algo que saberia, se tivesse conversado comigo antes. Ou se tivesse permanecido ali por mais alguns minutos, o que eu presumo que não tenha feito.” Ela arqueou a sobrancelha. As íris avelãs recaíram sobre o prato em sua mão, ante o questionamento. E a Beaumont considerou dizer que aquilo não seria suficiente, no entanto, não se viu capaz de entrar no tópico. Não ante o pedido hesitante e o carinho que ele havia depositado naquela sobremesa. Ao final, ela assentiu, esforçando-se para direcionar um pequeno sorriso. “Foi muito gentil da sua parte, obrigada.”