OS NOVOS CORREIOS
O Brasil nasceu com uma carta. A conexão entre uma carta escrita há mais de 500 anos e os Correios que conhecemos hoje não é lá tão arbitrária e até já foi utilizada em uma campanha publicitária da empresa. A nossa "certidão de nascimento", escrita por Pero Vaz de Caminha e endereçada a d. Manuel, rei de Portugal, relatava uma espécie de deslumbramento diante deste Novo Mundo. Um descritivo minucioso que, quando comparado às imagens utilizadas para celebrar o novo momento dos Correios, faz com que tal conexão ganhe um contorno irônico capaz de provocar uma reflexão sobre a nova imagem que se projeta sobre o nosso país.
Única empresa presente em todos os municípios brasileiros, os Correios detêm o monopólio sobre o mercado de correspondências (cartas, cartões postais e telegramas) no país. Mas, com o envio de cartas estagnado, foi preciso mesmo diversificar: hoje é possível, por exemplo, efetuar recargas para celular ou pagamentos de contas em qualquer uma das 11 mil agências dos Correios. Atualmente, 60% do faturamento da empresa advém do ramo de entrega de encomendas e cartas expressas, tendo o Sedex como carro-chefe – este aberto à competição privada de empresas nacionais e estrangeiras.
O indicativo de um novo posicionamento da empresa surgiu em 2011, quando o estatuto dos Correios foi alterado. A última atualização havia ocorrido em 1969. A intenção era acompanhar as novas tecnologias e o campo de atuação aberto nos últimos anos com o comércio eletrônico. Com as alterações na lei, a empresa pode, por exemplo, abrir escritórios no exterior ou adquirir o controle ou participação acionária em sociedades empresárias já estabelecidas. O rol de suas atividades também foi expandido e agora inclui serviços postais financeiros, eletrônicos e de logística integrada.
Com tantas mudanças no horizonte, a empresa entendeu que precisava sinalizar esse novo ciclo por intermédio de uma nova marca. O projeto, realizado pela CDA (Branding & Design for People), empresa com sede em Porto Alegre e mais de vinte anos no mercado, levou mais de um ano de desenvolvimento. A licitação contou com a participação de escritórios brasileiros importantes, como Gad, Tátil, Verdi, Cauduro. O custo do projeto foi de 390 mil reais.
A primeira coisa que me ocorreu ao saber da notícia da nova marca foi, na verdade, uma pergunta: por que, mais uma vez, a atitude é descartar o passado (ou uma parte tão grande dele que fica impossível traçar suas origens) e começar tudo outra vez? Seguida de: que nova imagem é esta que se pretende projetar?
A crítica que se faz então ao projeto começa com mais uma pergunta: a quem essa mudança serve? É preciso que fique claro: para uma “nova” empresa dos Correios, uma empresa 100% brasileira que tem interesse em expandir seu capital para fora do país, sobretudo através de investimentos e transações financeiras. O que leva a outra pergunta (talvez mais difícil de responder): mais do que julgar as decisões projetuais de quem executou o projeto, qual o significado desse briefing? Que conceito de modernidade é esse? A nova empresa preserva alguma característica dos Correios tal como os conhecemos?
A narrativa de uma nova empresa Na publicidade, o tempo presente é insuficiente por definição – como afirmou John Berger em seus Modos de ver. Só ela é capaz de prometer: 1) uma transformação pessoal por meio do funcionamento do produto específico que está vendendo ou 2) uma transformação nos relacionamentos através de uma atmosfera geral criada por um conjunto de produtos. No entanto, vale lembrar que campanha publicitária atraente não salva produtos nem garante a qualidade dos serviços dos novos Correios.
A publicidade, sintetiza Berger, fala no futuro no indicativo. E nesse futuro, como seremos?
O que apreendemos destas imagens? Elas procuram apresentar um país moderno, funcional e conectado. Um país enorme e integrado por uma empresa cuja marca representa “alegria, talento, proximidade e confiança”. Uma nova marca que “já nasce sendo de todos os brasileiros” busca reconhecimento do seu público abraçando nosso maior cartão postal.
É importante notar a ausência de qualquer referência a algum cafundó brasileiro. Nenhum carteiro. Nenhuma correspondência. Nenhum telegrama. Nem mesmo a entrega do cartão do Bolsa Família. O que vemos é aquela mesma imagem que projetamos incontáveis vezes para o exterior (e para nós mesmos): a criança negra com potencial para vencer (no fundo, um estádio de futebol), os nossos braços abertos (para a Baía de Guanabara) e o arquétipo de Adão e Eva que formarão esta nova nação (em locação paradisíaca).
O vídeo publicitário dá mais pistas sobre este Brasil dos Correios. Somos um país que exporta criatividade e alegria – o pau-brasil, a cana de açúcar e o café são coisas do passado. Entregamos caixas em Tóquio, em Paris. Somos um país continental que usa transporte rodoviário (não aviões, nem trens) para a entrega de seus produtos em Belém, Curitiba ou Salvador (que são apenas indicações em placas). A terra batida, a bola de meia e a criança descalça foram automaticamente erradicadas do nosso país. A nostalgia fica por conta da pracinha de paralelepípedos.
Até a classe profissional dos designers gráficos ganhou existência nesta narrativa: é dada a hora das coordenadas cartesianas, uma dose de racionalidade. Aquele momento em que as mãos sujas de tinta das crianças convertem-se em números na escala pantone. O grid traz uma responsabilidade: forjar esta nova cara, renderizá-la.
Mas no caso específico da marca dos Correios, as questões vão um pouco além do nosso âmbito profissional. Claro que a adoção de axiomas do tipo “logotipo em caixa alta não é amigável” é um prato cheio para acrescentarmos uma ampla escala de cinza na discussão formal da nova marca. Mas não se trata só de embasamento conceitual e técnico, muito menos da oportunidade que cada um de nós, como classe perdemos com este redesenho. A pergunta é: como nos comportamos frente a esse fenômeno tão complexo? Afinal, trata-se de um sistema que inclui adaptação visual de uma frota de 16 mil veículos, a fachada de 11 mil agências, sem contar os uniformes de uma empresa que é – detalhe – a maior empregadora do país. A responsabilidade com o dinheiro público é assunto de relevância tremenda para o design e estamos falando de 42 milhões de reais em investimento e uma demanda enorme para uma série de licitações.
Por fim, nunca é demais lembrar que o resultado de um projeto é a resposta a um problema. E quem fez a primeira pergunta (e deu a última palavra) foram os Correios. Os requisitos projetuais demandavam mudanças tão drásticas? Com base em que as decisões de projeto e aprovação foram tomadas? Perguntas cuja resposta não sabemos. Por outro lado, será que o cliente em questão sabia que nem sempre um projeto resulta em um novo logotipo? Resta a dúvida.










