ENSINO NO EXTERIOR: BÁRBARA ABBÊS, PRATT INSTITUTE
Apesar da oferta crescente de cursos de mestrado e doutorado em design no Brasil, os cursos no exterior continuam atraindo estudantes e profissionais para fora do país. Na tentativa de entender porque isso ocorre, perguntamos a alguns profissionais a respeito das suas motivações e expectativas.
Graduada pela PUC-Rio em 2008, Bárbara Abbês (29) atualmente vive em Nova York onde cursa o mestrado em Communications Design no Pratt Institute e faz estágio na Penguin.
Quais motivos lhe levaram a decidir por este curso? Eu costumo dizer que as decisões mais importantes da minha vida até hoje foram tomadas por outras pessoas.
Desde que me formei, em 2008, trabalhei em vários estúdios de design no Rio. Em 2011, eu percebi o quanto estava insatisfeita com a minha vida profissional. Em abril daquele ano eu tinha saído do Radiográfico, onde trabalhei por três anos e, apesar de ter aprendido muito lá, sentia que precisava buscar outros rumos.
Os dois empregos que tive depois que saí do estúdio contribuíram ainda mais para a minha insatisfação: perceber que era melhor remunerada com os freelas e o cansaço de ser a voz de outros designers me fizeram considerar uma nova direção. Meu namorado na época sempre falava dos planos dele de morar em Nova York e isso ficou na minha cabeça. O plano era juntar dinheiro – ele viria trabalhar como editor de vídeo e eu viria como estudante, em função do visto que iríamos pedir.
Comecei, então, a minha pesquisa das escolas: School of Visual Arts, Parsons e Pratt. Eu estava encantada com a ideia de fazer o Designer as Author (agora Designer as Enterpeneur) da SVA. Se tem algo que eles sabem fazer bem, é vender seus cursos! O curso oferecia até aulas de como falar em público! Na Parsons, eu não tinha realmente encontrado um mestrado que tivesse me empolgado, mas achava que valeria a pena me inscrever. No entanto, acho que acabei me sabotando inconscientemente: confundi as datas e minha inscrição foi feita dois dias depois do prazo.
Quando fui aplicar para a Pratt, vi que eram oferecidos dois tipos de mestrado: o MS (Master of Science) e o MFA (Master of Fine Arts) em Communications Design. O site da Pratt é uma das coisas mais horrorosas que já tive que utilizar na vida e só tive uma noção clara da diferença entre os dois tipos de mestrado após uma conversa com o coordenador do curso. O MS é mais orientado para a produção de um portfolio, para adquirir habilidades técnicas e solucionar problemas de maneira visual. Enquanto que o MFA é mais conceitual, com ênfase em processo e trabalho no estúdio, com muita análise crítica e uma abordagem do design como disciplina capaz de gerar seus próprios questionamentos. Acredito que esse foi o ponto fundamental que me fez reconsiderar a minha preferência inicial pela SVA. Eu já sabia fazer projetos bem-acabados e que atendessem a uma demanda, mas qual eram as minhas questões em relação a minha profissão? Julguei que isso era um aspecto mais interessante a ser explorado ao longo de dois anos de mestrado.
Lembro quando me perguntavam porque eu não fazia um mestrado no Rio, a primeira coisa que respondia é que achava interessante viver essa experiência em um contexto cultural diferente. Mas acho que mais importante, e falo isso sem desmerecer os mestrados disponíveis no Rio, é que se ficasse, não só teria contato com as mesmas pessoas e professores que tive durante a faculdade, como passaria pelo mesmo tipo de avaliação. Eu não consigo nem explicar o quão frustrante era, para mim, a maneira como os projetos eram avaliados ou como eu sentia falta que os professores me perguntassem mais “por quês”.
Depois de três entrevistas, fui aprovada em ambas as instituições. Pela Pratt, eu ganhei uma bolsa de estudos que cobria metade dos meus custos… foi o empurrão final para tomar uma decisão.
O curso está atendendo às suas expectativas? Apesar de ter conversado com o coordenador e entendido a proposta, ainda assim eu esperava algo similar ao que tinha passado na graduação: a aula acontece com o professor lá na frente apresentando as coisas e você sentado ouvindo. Quando cheguei aqui, entendi que as coisas seriam diferentes: aqui você é responsável pelo seu próprio trabalho e evolução, é você quem precisa marcar para encontrar o professor e apresentar o seu projeto, esse tipo de coisa.
Nós temos as mesmas aulas nos dois anos de curso e os alunos do primeiro e segundo ano tem aulas juntos, só que, enquanto o pessoal que acabou chegar tem liberdade de abordar os enunciados como quiser, os do segundo ano tem que desenvolver projetos atrelados a sua pesquisa de tese. Esse sistema é bem interessante porque você já começa a entender como as coisas funcionam e como apresentar e defender suas ideias. Além disso, é uma forma dos mais experientes passarem seu conhecimento para os novatos, um pouco como mestre e aprendiz.
O que acho interessante é que a definição (ou não-definição) de design gráfico utilizada pelo mestrado da Pratt nos possibilita alcançar uma série de resultados diferentes. É uma visão de design como mediador de outras disciplinas. Além disso, cabe ao aluno decidir as ferramentas que pretende utilizar, responsabilizando-se, também, por aprender por conta própria como usá-las. A forma que seus projetos tomarão são escolhas suas, não há uma obrigação com formatos. Essa liberdade pode ser uma benção ou uma maldição. Percebi aqui que funciono melhor quanto tenho limitações, então procuro criar restrições e regras na hora de executar meus projetos.
Uma frustração que encontrei foi trabalhar com pessoas que vieram direto da graduação ou que já haviam se formado há algum tempo mas nunca tinham trabalhado. Muitas vezes a imaturidade acaba soando como arrogância e isso acabava dificultando qualquer tipo de colaboração nos projetos. Já as pessoas que não vieram de uma formação de design me surpreenderam, não só porque elas eram mais esforçadas como muitas vezes elas tinham uma abordagem mais interessante dos projetos. Liz Seibert, por exemplo, estava no grupo que acabou de se formar. Ela estudou filosofia Budista na graduação e tinha uma visão e trabalho muito peculiar.
Sinto que tive oportunidades fantásticas aqui. Além de palestras e workshops com Urs Lehni e Lex Trüb da Rollo Press, Sonnenzimmer, the Post Family, Peter Nencini, Janet Zweig, Drawswords e Lev Manovitch, pude entrevistar Daniel Eatock (foto abaixo) para minha tese e fazer um projeto em colaboração com os alunos de mestrado da AKV/St. Joost, na Holanda. Através da Pratt, vou publicar um livro que estou escrevendo com outros três alunos do MFA e também co-curar a Exlibris, um espaço híbrido de biblioteca com galeria.
Eu costumo brincar que o MFA parece um reality show: São só cerca de 12 alunos por ano (11 no meu ano), com pessoas vindas de vários lugares, cada um tem seus objetivos e motivos para estar aqui, idades e experiência diferentes. Todos nós ganhamos um mini estúdio e, de uma hora para outra, estamos juntos 17h por dia. Depois do primeiro ano, você pode sair do curso caso os professores considerem que você não alcançou um rendimento satisfatório e não pareça motivado a mudar a situação. No final do meu primeiro ano, três alunos tinham saído e um aluno do MS se transferiu para o MFA. Tudo isso sem termos um Tim Gunn para acalmar nossos nervos!
Quais os seus planos após a conclusão deste curso? A experiência de mestrado até agora me ajudou a ter mais claro meus interesses, minha “voz” como designer. O primeiro semestre é especialmente difícil, mas, olhando o que passou, percebo que sinto mais confiança no meu trabalho. Além disso, acredito que esta é uma das raras oportunidades em que você está utilizando todo o seu tempo para desenvolver projetos pessoais.
Desde que voltei a trabalhar, em junho deste ano, me dei conta de como sinto falta de trabalho. A questão do visto não foi um problema pois é possível fazer estágio com visto de estudante. A Penguin está sendo uma experiência muito bacana, tenho aprendido muito. Hoje, eu acredito que preciso encontrar um equilíbrio: quero manter a pesquisa e as discussões sobre o processo, mas também gosto de trabalhar, seja como designer ou dando aula. Ainda tenho mais um ano pela frente, uma tese para escrever e uma exposição para montar. Por enquanto não penso em voltar para o Rio. Depois de concluir o mestrado, posso ficar mais um ano para ganhar experiência de trabalho. Talvez essa decisão seja daquelas que só se toma a medida que as coisas vão avançando… a conferir.














