Já foi dia de muitas coisas, até meus 16-17 anos era dia de ir pro km 105 da BR116, sítio do meu avô paterno - Koei Uechi, o único avô que conheci. O que acontecia por lá? comida, comida o dia inteiro para todos os gostos, a cozinha era o centro da casa. Família grande, com isso, pessoas fazendo de tudo, caçando rã, curtindo uma piscina, procurando ovo de cobra, fazendo comida com matinho, cozinhando de verdade, só na cachacinha, truco, videokê, enfim, pessoas se entretendo. Não tínhamos ceia, tinhamos um super jantar , que acontecia na hora da fome e depois do banho; sem papai noel, sem presentes, alguns anos tivemos amigo secreto com crianças chorando pois o presente veio no jornal; pra mim o natal era estar com minha família japonesa; a piada de natal para mim era: a Gabi foi achada na BR pois é muito branca - meu tio quase me convenceu que era verdade pois sou a menos mestiça dos netos, sou mais branca e meu cabelo é marrom e não preto igual aos meus primos e tals (isso no olhar desses adultos de quando eu era criança, pois de longe sou uma pessoa branca).
Quando completei 18 anos comecei a namorar e por 3 anos meu natal foi na família dele - eram católicos. A comida era boa, não tinha comida durante o dia só a noite. O que fez que eu explicasse que eu não era católica, eu não ia rezar nem de participar da oração e não conseguiria aguentar até a meia noite pra comer. Resultado: era a única que jantava as 21h com o argumento que era, sou, pagã. Não tinha papai noel nem amigo secreto, eu não presenteava, mas ganhava presente da "sogra"
Daí vieram os vinte e poucos. A família japonesa ficou grande demais, as pessoas não tinham agenda pra ir pro sítio, e por um tempo se reuniam em grupos menores. Passei 10 anos meio que fazendo qualquer coisa no Natal. Aprendi que dia 24 de dezembro tem que ser programado: não tem delivery, padaria e afins fecham cedo, sem restaurante. As pessoas também estão ocupadas, na maioria, com afazeres familiares-domésticos. Eu já passei natal dormindo, vendo tv, na família alheia e em uma curva!
Sem presentes, sem comida preferida, to aqui deitada as 6:26h do dia 24 de dezembro pensando no que vou fazer hoje, pois meu compromisso é só as 19h. Já vi que não rola cinema, se a chuva parar vou dar uma volta, se não, será uma tarde de dorama :)
Hoje em dia, solteira, sem residência fixa e com baixo orçamento, passo o Natal na casa de um casal de primos em São Paulo, a maioria da família japonesa consegue se reunir por lá e eu vou! A anfitriã sempre deixa potinhos com meu nome na mesa indicando que são as opções vegetarianas, temos papai noel pois os bisnetos começaram a ter filhos. Vou dizer que gosto bastante dessa reunião, me sinto super em casa e, também, porque me mimam, continuo sendo a neta mais nova! E esse é meu natal amarelo!