small disaster {{ p.s: was a girl }} 2#
Não demorou pra desconhecida abrir a boca. Mesmo eu sabendo que sendo ela a única presente naquele cenário apocalíptico a tornaria a principal culpada, talvez no fundo, eu desejasse o contrário, porque realmente era difícil assimilar a situação e compreendê-la. Normalmente as pessoas que me julgam, e eu não lhes dou qualquer tipo de repreensão pois não ligo. Ainda assim, sei quando devo agir ou não mediante a um tipo de pessoa, e isso não é bem um julgamento. Uma espécie de armadura, diria. E neste momento eu estou hipotetizando como devo me sair em relação a essa garota visivelmente perdida. Senhor, ela é mesmo a filhinha do papai? Olhe só para ela, como ela fala…
E que filhinha … ok, pare.
— Não quis? Pode até não ter sido a sua intenção brincar — eu me aproximo da Ferrari, analisando-a com um gosto amargo na boca. Que desperdício. — Mas isso foi um ato estúpido, entende? Impossível em seu estado mais são fazer isso! Tipo assim — aponto para o meu carro — ele estava parado. Parado. Você não o viu?
Não dou tempo para respostas, cortando minhas perguntas em outros comentários derivados da raiva.
— O carro não é do papai? Humpf. — Um riso abafado e cínico é emitido por mim, que olho a garota de cima a baixo. Não era do pai dela? Mas ela parece ser essa garota. A que tem mil e uma Ferrari na garagem e seguros para cada rachadura em casa — isto é, se houver rachaduras em sua mansão. Semicerro os olhos:
— Roubou o carro? — É uma pergunta retórica, pois a resposta é simples e também muito vaga. No entanto, enceno toda uma expressão de repreensão. Logo, ela se fenece, porque não era este um caso de roubo. Que excitante isso seria. Dou novamente uma risadinha sarcástica, conquanto a garota estivesse mesmo em prantos, ao ponto de soltar lamúrias ao céu aberto, para que eu as ouvisse, ou não, não sei dizer. — Ele não é o único que possa querer te matar, acredite — murmuro também, não me preocupando com o tom de voz. Ela se volta ao carro, acariciando-o, ora o veículo, ora sua própria nuca, num gesto de nervosismo. Fora isso, não poderia mostrar tamanha preocupação por conta da voz tranquila e devagar, pronunciando cada palavra como um salmo. Ricos.
— Espera mesmo que eu te desculpe? Ansiei mais de você — respondo, já me cansando daquele diálogo sem fins lucrativos à mim. Logo ironizo: — Aham, realmente, não esperava. Uma Ferrari com a velocidade de trocentos cavalos numa rua em pleno clima de chuva, de fato você não esperava bater em alguém ou algo. E poderia ser menos sincera, por favor? — Peço, cruzando os braços e olhando para vários cantos, evitando olha-la. — É nada comovente o fato de você ser tão erratica e achar que me dizendo isso vai aliviar as coisas por modéstia. E, sem querer ofender, é evidente que é a sua primeira vez dirigindo. — Dito isso, abaixo a cabeça, respirando ofegante, uma, duas, três vezes. Era inacreditável. Penso sobre ela dizer que o irmão fez do ato de dirigir algo fácil para ela. Se você ensina alguém, obviamente se torna fácil na prática. Esse cara deve ser tão fadado a falhas como ela.
A loira então se aproxima de mim, o que me obriga a levantar a cabeça e fitá-la. Lança dóceis palavras e diz tudo com muita positividade. Como era positiva! Isso é tão distante da minha realidade…
— Será que podemos? — Ironizo sobre manter segredo dos pais, querendo mais ainda gargalhar com a última parte de seu pedido, tendo minhas dúvidas esclarecidas sobre ela ser realmente alguém que não sabe nada de carros, como tampouco dirigir um. Com que tipo de desastre eu me envolvi?
Eis que não termino o que pretendia porque somada a chuva forte e o fato de ser de madrugada, não havia visto-a face à face, e o resultado é um tipo de fixação de curtos segundos. Além do mais, a rua era muito mal iluminada, e aquele clima de Silberheinz não ajudava em nada, nem mesmo enxergà-la! Pondero que isso possa ser uma boa causa de acidente, mas neste julgamento eu sou seu adversário e apelarei se necessário.
— Escuta, little girl, a última coisa que me passa a cabeça é estar a par com você. — E quase como um estímulo à hesitação, pouso o olhar em seu rosto úmido, onde fios de cabelo grudavam-lhe. A intenção de, por ímpeto, tirá-los dali era de instinto. Mas me seguro para que bobagem alguma saía de minha parte. Me recomponho. — Por que não devo contar aos seus pais, ficaria de castigo? — Pergunto entre farpas. — Tanto faz — finalizo, não por realmente fazer descaso, mas porque não poderia nem se quisesse — e eu quero vê-la sofrer as consequências, porque foi muita, mas muita filha da putagem mesmo o que ela fez — contatar seus responsáveis. Chamar os pais dela iria requerer a presença dos meus também. Sendo ambos de menor, ainda que ela me refira como alguém maior, careceria de nossos guardiões legais para resolver o incidente. Charles nem mesmo sabe que estou aqui, e que ganhei um carro. Ah, cacete, meu carro. O meu ex carro! SIM, quero matar alguém!
Percebo que além de não saber dirigir, nem de saber o tipo de carro ao qual dirige — e de usar um vestido um tanto justo —, ela também tem o dom de falar. E falar como uma boa menina, cheia de esperanças, com uma nova proposta e uma nova pergunta a todo instante. Agora ela quer saber meu nome. L e g a l.
— Eu não sei se vai ser bom falar meu nome pra você, não — confesso, coçando meu queixo naturalmente.
De repente seu celular mostra sua presença na situação, tocando. Ela pede um minuto e eu o concedo de qualquer forma, porque não estava para diálogos. Enquanto ela se distancia a curtos passos e atende ao telefonema, eu me volto aos carros. A Ferrari tinha a frontal em estados de choque, uma vez que fosse uma Ferrari atual e, bem, é uma Ferrari, fica feio para o carro até não estar abastecido. Um desperdício, outra vez penso comigo mesmo. Apesar disso, não era algo muito profundo, tendo um bom dinheiro, poderia tirar aqueles amassos numa boa. Não estava realmente ruim. Não tanto quanto o meu Cougar. Ele foi o alvo e estava completamente afetado. Eu teria de encomendar cada uma daquelas peças, incluindo o parabrisa e a porta do passageiro. É um carro raro, como Simon e eu havíamos discutido. Não se vê um desses por aí. E não são para qualquer um. Pelo visto, nem para mim. Quero gritar.
Em meio a descomunal confusão de sentimentos, capto algumas coisas da conversa da loira e seja lá com quem fosse ao celular. Com minhas habilidades de dedução, vou esquematizando as peças. Connor seria o irmão? O carro era do irmão? Então ela é rica. Mas ricos não são tão estúpidos em pegar um carro escondido se podem ter um. Então aquela história de cada bebê rico ter ao nascer uma Lamborghini no testamento é mentira?
Fico confuso.
— Recompensar… — repito vago, conforme minha atenção aos poucos recorre a atualidade, e eu caia na real. Ela já finalizou a ligação e agora está se desculpando e quer me recompensar. É mesmo, é? — Você não quer me recompensar — retruco, calmo, numa falsa tranquilidade repleta de más intenções. Não que isso caísse bem no momento. No fundo, eu estava cego de decepção. Na vida, sou certamente o ser humano mais amaldiçoado do mundo. — Você quer mesmo me recompensar? — pergunto, indo até o Cougar. Dou meia volta e abro a porta não afetada, pegando meu celular no banco. Se a visão por fora era aterrorizante, por dentro nem se fala.
Lukas, problema na East 9. Um grande problema, então pega a sua caminhonete e vem.
Escrevo a mensagem. Pauso. Escrevo outra vez.
Se te serve de consolo acordar a esse horário, saiba que tem uma linda garotinha que você pode vender no eBay aqui.
Então envio.
— E sobre a sua Ferrari, talvez você não saiba, mas é um carro muito caro e um Senhor como eu não pode fazer muita coisa. Mas… Você pode pegar outra e substituir. — Falo, com um humor atípico das circunstâncias. Naquela altura, eu estava mais interessado no trágico rumo daquela menina do que na minha perca, que não era pouca. Mas, como dizem, a desgraça alheia é atrativa.
@brokenballerinx













